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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Cadernos, álbuns, memórias e amores

Preciso de espaço para novas coisas velhas.

Guardo muita coisa.

Outras, carrego.

A mochila, eterna companheira, estará mais vazia neste ano. Depois do longo período levando um caderno universitário, decidi usar algo menor. Um bloco, talvez.

O volume de 2017 vai para o armário com os demais. E são papéis demais.

Pela falta de espaço, decidi me livrar dos dois mais antigos.

Um deles tem Gustavo Kuerten na capa e alguns adesivos. Internamente, pichações e recados:

“Fogo, você é minha vida kra!!! T. amu muito + do que você imagina, gostosão! Ass: Ka. B.jus”
(Ka: você era muito irônica).

“Guy te amo!! Dany”
(Dany: você me excluiu do Facebook).

“Guy: Te amo! Beijocas da Moni”.
“Cutty: Te amo. Beijocas da Moni”.
“Cuty T. amo muito! Beijocas da Moni”.

(Moni: Acho que você me amava mesmo, né? Desculpa por não ter correspondido. Eu era um babaca. Ainda sou. A diferença é que antes eu era um babaca inexperiente. Agora sou um babaca cheio de experiência em ser babaca).

Aparentemente, enquanto Moni me amava, eu amava outras coisas.

Assim como o tempo faz com as pessoas, as anotações escolares foram arrancadas. No caderno há apenas escritos pessoais. Letras de rap jamais gravadas. Objetivos não concretizados. Se eu tivesse continuado...não continuei. Na vida nada continua.

No final, há manuscritos de poemas da minha primeira publicação, um concurso literário voltado aos alunos da universidade. Talvez o propósito de ser mc tenha sido substituído pelo de ser escritor. Nenhum dos dois deu certo.

O outro companheiro esteve comigo por mais tempo e é o que mais precisa ir pro lixo. Até hoje não me serviu para aprender inglês. Ele também não cumpre seus desígnios.

Nele, mais pichações, especialmente de um amigo que assina como “Lee”. Ao contrário de mim, Lee gostava bastante do meu caderno.

Há ainda endereços de fotologs e mais recados:

“Oi! Fogo. Td bom? Bjão Karol”

“Fogo: A Ká t ama muito. C cuida não deixa nenhuma mulher te fazer vc de trouxa tá. Kari”

“Fogo -> bju Belle.
Ah! Quero uma festa...
Te adoro!”

“Fogo te adoro bjus...Priscila”


O último recado talvez represente o amor verdadeiro:

“Fogo vc é um bostinha + eu ti aminhu!! Bjus da Vê. 18/04/05”

Fiquei feliz por ter sido amado apesar dos defeitos. Ainda assim, essas palavras serão descartadas.

Continuarão as roupas e os álbuns.

Um deles é o da minha mãe. Nele, logo no começo, estão fotos do casamento que ela fez sozinha. Meu pai foi omitido. Recortado.

Depois, variados instantes se encontram fora de ordem. Diferentes momentos e penteados se misturam.

Há registros em família, no trabalho, na faculdade. Ela aparece sempre bonita.

Em uma das fotografias, ela sorri com a perna quebrada. Eu lembro do acidente. Minha vó saiu e a deixou trancada no quarto para que não fosse comprar mais bebida. A solução foi pular pela janela do sobrado. Não era um momento feliz. Fotografias são mentirosas.

Na última página, em um recorte de jornal, meu pai reaparece:

Missa do 1º mês de falecimento.
Márcia, Guylherme e Jaqueline, convidam amigos para a missa de Canuto José Custódio Neto a realizar-se na Igreja Matriz de Santa Felicidade na Av. Manoel Ribas, 6252, dia 28 de dezembro, quarta-feira, às 19h.

terça-feira, 12 de abril de 2016

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terça-feira, 19 de agosto de 2014

O homem espalhado

E num instante o tudo se fez nada.

Sua vida espirrou na minha frente.

Um ônibus com duas articulações, vermelho, 25 metros e muita gente dentro, fez com que todos seus pensamentos saíssem instantaneamente da cabeça.

Mesmo com as dimensões gigantescas do veículo ele insistiu em cabeceá-lo. Pensou ser uma bola? Estava feliz pela vitória do seu time. Vestia a camisa do clube que o representava. Talvez fosse sua única razão para alegria. Na próxima partida não haverá um minuto de silêncio. Ele era só um torcedor.

Estava apressado. Daqui a pouco o celular que está naquele bolso vai tocar para cobrar o atraso. Se alguém tiver a coragem de encostar no corpo irão dizer ao chefe que ele não poderá ir. Depois das condolências o patrão terá que se preocupar em encontrar um novo funcionário, vivo.

Queria poder ter evitado. Estava parado, esperando o sinal e aguardando o ônibus passar. Ele não viu, mesmo com o barulho do ônibus e sua chamativa cor. Só via o trabalho a sua frente. Depois de uma manhã de segunda-feira ele não viu mais nada.

Veio por trás de mim, correndo. Não pude avisar, não pude puxar, só pude tentar fechar os olhos para não ver, mas vi.

Vi sua cabeça se tornar uma massa disforme. Uma parte dela agora está parada no para-brisa, outra parte voou.

Filho da puta. Deixou minha blusa suja de cérebro.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Insuportável

Dormiam juntos, tomavam banho juntos, iam ao shopping juntos, assistiam TV juntos, comiam juntos à mesa...

Oscar fazia companhia para Jurema. Jurema fazia tudo para Oscar. Até festa de aniversário. Dizia que só faltava ele falar.

Na verdade Jurema tinha sorte de o cachorro não falar. Os falantes tinham o costume de abandoná-la.

O marido era um surdo-mudo que conseguiu suportá-la por seis dias não consecutivos.

Carlinhos, o filho mais novo, conseguiu fugir de casa aos três anos. Os outros cinco demoraram a conseguir escapar, pois sempre que estavam saindo ela iniciava uma conversa interminável.

Às vezes os filhos mandavam cartas, mas sem o endereço do remetente, pois temiam que ela fosse fazer uma visitinha.

Distraída por falar ao celular, foi atropelada. Só se livrou do coma por não conseguir ficar tanto tempo sem falar.

O único companheiro de Jurema era Oscar. Jamais se separavam. O Linguiça era carregado para todos os lugares e em alguns deles Jurema já tinha arrumado confusão pela sua presença. Para poder ir a esses locais ela o carregava dentro de uma mala com estrutura adaptada para Oscar, que já tinha viajado de ônibus de Porto Alegre a Curitiba dentro da mala.

O único lugar em que o cachorro não ia era ao médico, que tinha um olfato apurado e percebia Oscar mesmo dentro do canil portátil.

O doutor era conhecido por ser o médico com a letra mais bonita do Brasil. Até ganhou o troféu “Caligrafia Médica”. Depois que conheceu Jurema, aprendeu a escrever de forma rápida e incompreensível só para dispensá-la mais rápido.

Certo dia Jurema foi ao médico e deixou Oscar sozinho em casa.

Quando voltou ele estava pendurado no chuveiro com um cadarço amarrado ao pescoço.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Sala de espera

Alguma coisa vai acontecer. Não sei muito bem o quê, mas vai.

Até lá espero. Mesmo no desespero, continuo esperando.

Espero algo que mude minha vida. Um e-mail, uma ligação ou até mesmo uma carta. Talvez uma mensagem em uma garrafa. No aguardo, bebo todas as garrafas.

Continuo pobre enquanto espero o resultado da mega-sena (mesmo sem ter jogado). Espero a noite chegar para não fazer nada. Espero o sono enquanto me viro de um lado para o outro. Espero um aumento enquanto aumenta o meu trabalho. Espero a fila do banheiro enquanto prendo a respiração para não mijar nas calças. Espero a comida enquanto fico cada vez mais faminto. Espero o grande amor enquanto vivo pequenos amores noturnos. Espero uma grande oportunidade enquanto não faço nada para que ela aconteça.

Enquanto nada acontece continuo esperando. E a vida, essa grande espera pela morte, passa.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Espelho quebrado

Era ali onde vivia. Onde tudo acontecia. Onde sorria, mas não chorava. Ali criava sua ilusão e nela se espelhava.

Dedicava-se a criar e acreditar em sombras na caverna de Mark Zuckerberg. Era uma especialista em diversos assuntos (afinal, quem não é?). Ao longo do dia desfilava todas as qualidades em sua timeline: comentarista esportiva, defensora dos animais, polemista, noveleira, religiosa, filósofa, fofoqueira, fotógrafa, modelo, humorista, filantrópica, culta, moralista e acima de tudo um exemplo.

Entre murais, compartilhamentos, likes e comentários descobriu uma cutucada inesperada. Estava sendo traída.

A menina virtual não encontrou outra solução. Aquela vida pela qual tanto se dedicava deveria acabar: cometeu o facebookcídio.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Bolinho da vó

Edinho adorava ir à casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava encontrar os primos na casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava brincar na casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava o bolinho da vó, que só a sua vó fazia.


Apesar de adorar ir à casa da vó não podia fazê-lo frequentemente. 12 horas e aproximadamente 914 Km o distanciavam. Somente uma vez por ano, nas férias, é que podia divertir-se com a família. No restante do ano era obrigado a enfrentar a dura e estressante rotina da escola.


Ao chegar da longa viagem era recepcionado com o bolinho. O bolinho da vó. Tinha o gosto que somente a avó, com toda sua idade produzia, o gosto da sua infância.


As avós são, geralmente, as melhores cozinheiras do mundo. Mesmo a comida da avó dos outros, que também fazem parte do clã das melhores chefs, jamais é tão boa quanto a da própria avó.


A especialidade de dona Armênia era o bolinho. Sua mãe e as tias também tinham a receita, mas não faziam igual. O bolinho tinha como tempero o afeto da avó por ele.


Mesmo sendo da família e conhecendo a todos ele sempre chegava acanhado. Talvez o fato de vê-los apenas uma vez por ano despertasse sua timidez. Certa vez chegou animado, empolgado. Depois de cumprimentar todos perguntou: “Tem bolinho?”. A tia agachou-se e com um olhar sério disse:


“Eder, a vó não pode mais fazer bolinho”.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O fanfarrão

Sem dúvida era um grande gozador. Nunca vestiu um terno na vida. Nem uma camisa social. Sequer uma pólo.

Até pra trabalhar era mais comum vê-lo de camiseta, bermuda e chinelo. Isso que era o patrão. Os funcionários ficavam putos com aquilo. “O cara ganha muito mais que eu, trabalha muito menos e anda vestido daquele jeito. Trabalhar pra um cara assim é foda”.

Se por um lado despertava a ira por outro era adorado pelos mesmos funcionários. Não tinha como não gostar dele. Sempre simpático e atencioso. Só quando era obrigado pelas circunstâncias a trabalhar cedo em plena ressaca é que não era lá aquele poço de simpatia, mas nunca deixou de tratar a todos educadamente.

Pedia uma coca-cola, um café e um engov para a secretária. Trancava-se na sua sala e de lá saia depois de meia-hora como se estivesse novo de novo. Ninguém sabia o que fazia lá dentro para voltar assim, entrava um trapo e saia novo. Talvez comesse a secretária lá dentro pra sair assim tão feliz. Também, traçar aquela gostosa deixaria até o José Serra com um sorriso de orelha a orelha.

Depois do ritual saia fazendo piada com tudo e todos. Alguns perguntavam como ele agüentava beber todos os dias e às vezes trabalhar no dia seguinte. Ele sorria e respondia: “Se não guenta beber não bebe. Eu bebo por que sei que tenho cu pra trabalhar”. “Além do mais...”, continuava, “Não posso deixar o trabalho atrapalhar meu alcoolismo”. E ria. Ria sempre. Toda hora. Às vezes fazia um ar de sério quando ia entrevistar alguém para alguma vaga, mas era só mais uma piada. Deixava o entrevistado enrolado e logo largava a gargalhada.

Vivia rindo e ria vivendo. Um dia parou de rir, ninguém sabe por quê. Mas ainda assim deixou uma última sacanagem.

“Quero ser enterrado de bermuda e camiseta. Jamais de terno e gravata. Com uma roupa assim vão achar que tô morto”, dizia a carta. Entretanto, antes de disparar contra a própria cabeça trajava roupa social. “Tô vestido assim só pra dar mais trabalho”. Ponto final.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Corações partidos

Com um sorriso esticou a mão e perguntou:

- Quer um doce?

Ela com sua doce timidez apenas balançou a cabeça positivamente.

- Vem cá buscar.

Ela andava devagarzinho, com a velocidade que o tamanho de suas pernas, crescidas ao prazo de apenas quatro anos, permitiam.

A pegou e levou para dentro de casa. Na garagem entregou os doces. Ela tentou sair, mas ele a segurou e colocou no colo, “mas tem que comer aqui”.

Tinha pouca idade, mas na escuridão daquela garagem, naquele momento, passaram-se anos. Não apenas para ela, mas para muitas crianças. Ali perdeu uma parte da infância. Ele, em alguns instantes, perderia a vida.

Uma vizinha viu quando a menina entrou na casa. Não conseguiu avisar a mãe a tempo de evitar, mas avisou. Pegou uma grande faca, que amolara muitas vezes pensando nesta possibilidade. “Se aquele filho da puta chegar perto da minha filha...”.

Chegou à casa do homem. A filha chorava e antes que ele pudesse falar algo cravou a faca no meio do peito. Certeira no órgão que bombeava sangue para o corpo. Morreu antes de poder sentir a frieza da lâmina.

O dia das mães se aproximava e não pode celebrar como planejou, mas não se arrepende. “Se precisasse mataria de novo para que esse pedófilo não faça isso com mais nenhuma criança”.

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Texto tardiamente referente ao dia 18 de Maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.


Inspirado na matéria "Mãe de vítima mata a facadas estuprador da filha", do site Bem Paraná no dia 06/05.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A última cartada


Do desemprego já se iam quatro anos. Da entrada nas drogas dois. Do abandono da família um. Da namorada seis meses. E apenas uma hora da decisão.

Abandonado estava por todos. Pais, garota e amigos. Resolveu abandonar-se também. Abandonar a todos. Abandonar a vida.

Estava terminando a carta de despedida. Sabia que demoraria para alguém encontrar o corpo. Só a tiazinha de quem alugava o minúsculo apê sentiria sua falta. Sua não, da grana. Já estava com três meses de atraso e mais um vencimento se aproximava. Seria encontrado em putrefação. Por meio da carta justificava por que decidiu fazer com que uma bala estourasse seus miolos.

No início da despedida tomou um tom de revolta com todos que lhe viraram as costas. Com o desenvolver foi reconhecendo que todos tinham razão e colocava a culpa unicamente em si. No desfecho faria um pedido de desculpas.

Faria aquilo para buscar mais um refúgio. O último deles. Em sua visão era o que restava já que não tinha mais nenhum tostão e nenhum bem para vender e se esconder em uma lata. Lata esta que fez com que todos o virassem as costas. Primeiro foi a família, já cansada de lhe internar e ele voltar sem mudar nada. Depois os amigos e por último a namorada. Ela que sempre esteve ao seu lado, desde o início do desemprego, quando só pensava em curtir com o dinheiro dos pais, até alguns meses em que ele simplesmente sumiu e levo 
tudo consigo: tênis, roupas, tv...Mas não sabia que com os bens materiais acabou fumando também o coração da garota. Tudo transformado em pedra.

Com o último vintém comprou a 38. Assim como a bala faria, passou rapidamente pela sua cabeça a ideia de roubar, mas não faria isso. Mesmo tendo feito mal àqueles que mais amava, achava que fazia mal apenas para si.

Pronto. Ponto final na carta. Fumou o último Classic enquanto ouvia música no velho micro sistem que o traficante não havia aceito. Fechou os olhos. Engatilhou. Respirou e ao ouviu um trecho da música que tocava:

“É isso ai você não pode parar/ Esperar o tempo ruim vir te abraçar/ Acreditar que sonhar sempre é preciso/ É o que mantém os irmãos vivos”.

Respirou fundo mais uma vez e em algum lugar lá no fundo a música bateu. O seu sonho, voltar para a família e para a vida normal, o manteve vivo. Rasgou a carta. Desistiu de desistir.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os gêmeos

Douglas e Paulo tinham 25 anos, eram filhos da mesma mãe, do mesmo pai e moravam em Curitiba. As semelhanças entre eles eram praticamente estas. Além disso, quem não os conhecesse desde a infância jamais diria que eram gêmeos.
Viviam em universos distintos. Paulo não trabalhava, não estudava. Douglas não bebia, não fumava. Paulo só bebia, só fumava (entenda-se fumar tudo fumável, com exceção ao crack) e vivia rodeado de amigos. Douglas só trabalha, só estudava e nunca dava risada. Ao longo dos 25 anos a vida de ambos foi assim.
A rotina de Douglas era do trabalho para a aula e da aula para casa. A rotina de Paulo era de bar em bar. Quando questionado sobre suas pretensões para o futuro Paulo respondia que iria pedir mais uma cerveja. Douglas pensava apenas no futuro, construindo-o a cada dia. Emprego, dinheiro, família, carreira, etc...
Os pais questionavam por que Paulo não era como o irmão, e ele respondia com um largo sorriso “Não posso trabalhar agora. Tô ocupado curtindo a vida”. Essa era sua filosofia, curtir a vida a cada dia, a cada minuto, a cada instante.
Paulo hoje tem 75 anos e continua seguindo sua filosofia, pode ser encontrado pelos bares da vida, dos mais fuleiros aos mais sofisticados, desfrutando de uma certa herança.
Douglas faleceu uma semana antes de completar 26 anos em um acidente de carro. Partiu sem conhecer o gosto amargo da cerveja e o doce da vida.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A celebração

Os convidados iam chegando. Às vezes aos poucos, sozinhos, outras em bando. Logo iam em sua direção lhe dar um apertado abraço. Alguns ele não via há tempos, outros bebiam junto até ontem e assim como ele carregavam a ressaca consigo. Os amigos chegavam e iam se aglomerando. A maioria nem conseguia entrar no salão, só chegavam, davam uma olhada e ficavam na área externa. Os fumantes aumentavam o morro de bitucas intensamente.
Ele não parava. Pulava toda hora de grupo em grupo. Sua presença era importantíssima para todos. E não gastara sequer um tostão para reunir tanta gente. Em suas festas comumente não iam tantas pessoas. Sem planos, sem convite nem nada conseguiu promover aquela grande reunião.
Com tantos amigos por perto no fundo ele ficava feliz, mesmo carregando a imensa dor por estar no velório da própria mãe.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Poucássimo

- Você tem pouco tempo de vida.
- Quanto tempo?
- Pouco.
- Pouco quanto?
- Pouco.
- Um mês? Uma semana? Um dia?
- Não posso saber ao certo, mas sei que é pouco.
- Mas é pouco, pouquinho, pouquíssimo ou poucão?
- Poucássimo.
- Poucássimo?
- Poucássimo!
- Poucássimo quanto?
- Poucássimo.
- Poucássimo ou pouquíssimo?
- Poucássimo.
- Poucássimo ou pouquissíssimo?
- Poucássimo!
- Mais de um mês ou menos?
- De dois meses não passa.
- No máximo ou no mínimo?
- No máximo dois meses.
- E no mínimo?
- Uma semana.
- Mais isso é muito tempo.
- Quanto? Uma semana ou dois meses?
- A diferença.
- Que diferença?
- Entre o máximo e o mínimo.
- Você se considera otimista ou pessimista?
- Qual a diferença? Vou morrer mesmo.
- Faz muita diferença.
- Qual a diferença?
- Entre o máximo e o mínimo?
- Não. Entre se otimista ou pessimista.
- Se for otimista irá pensar em dois meses, se for pessimista uma semana.
- E qual a diferença?
- Um mês e três semanas.
- Não. Qual a diferença no final?
- O tempo.
- Que tempo?
- Que demorou para acontecer.
- Tudo bem. Obrigado pela notícia.
- Por nada.
Foi para casa pensando o que faria. Precisava fazer alguma coisa, aproveitar. Algo que não tinha feito até então. Tinha pouco tempo. O trajeto foi feito de maneira automática, como fizera a vida inteira. Ao chegar em casa resolveu fazer o que nunca havia feito na vida. Foi até o quarto e do fundo do armário retirou o 38. Engatilhou e deu um tiro na própria cabeça.
A espera seria muito angustiante.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A aliança

Ele estava nervoso. Ela não. O nervosismo era definido pela intenção carregada por ele e desconhecida por ela.
Estranhou, mas não desconfiou. Não era do feitio dele chamá-la para jantar invés de convidá-la para beber. Não se vestiu costumeiramente como um maloquêro. Em sua cabeça já estava tudo bolado (sem referência nenhuma às drogas). Daquela noite não passava.
Chegaram ao restaurante, daqueles que os amigos mais velhos sempre comentavam mas eles nunca tinham ido. Ele demorou em juntar a grana do jantar, esse foi um dos motivos da demora. Um dos pequenos motivos dentre vários (e maiores).
Tinha até reservado mesa, motivo para que ela se admirasse ainda mais. Puxou a cadeira para ela sentar-se. Velas na mesa. Pedem o jantar.
Durante a conversa ficaram meio sem assunto. Ele só pensava em uma coisa, que não poderia falar naquele momento.
Ao término do jantar em si ele propõe um Champagne. Ela discorda. Queria uma bera bem gelada. Depois da cevada ele faz sinal para o garçom. Ele traz duas taças e uma delas contém uma aliança no fundo.
Ela não vê e nada fala. Ele também não, ao chegar no final ela perceberia. Ela bebe devagar. A agonia aumenta. Ele soa frio já na metade da taça. Parecia que uma eternidade já passara ali. E restava ainda a outra metade da taça e uma outra eternidade.
Repentinamente ela vira a taça num só gole, se engasga com a aliança e morre.

Objetivo alcançado: matar a noiva aparentemente por acidente (e antes de casar).

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Tal qual 2009, neste ano peço desculpas aos poucos mas fiéis leitores. Eu tentei, juro que tentei, mas não dá. Como o Brasil meu blog só funciona depois do carnaval mesmo.
Falando em Carnaval... sempre imaginei que o CRÉU era o limite. Mas vem um novo carnaval e me surpreendo novamente com a bola da vez. O rebolation!

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Infelizmente terei que voltar a moderar comentários. Venho recebendo uns spams meio vírus (ou seria o contrário?).

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Tchau

Aquele foi o baseado mais triste que Paula, Gabriele, Anderson, Marcos e Zeca tinham fumado. Esforçavam-se para que as lágrimas não caíssem na erva. A cada puxada que batia na mente lembravam mais ainda de Renato. Pela primeira vez fumavam sem querer fazê-lo. Mas fumavam, sobretudo para atender ao último pedido de um grande amigo.
“Quando eu morrer eu não quero que meus amigos fiquem tristes. Quero ver meus amigos fumando maconha em volta do meu caixão”, assim Renato falava sorridente quando se referia à morte. E sorridente era sempre o simpático Renato.
Sempre de bom humor e atencioso com os amigos, Renato adorava ir a churrascos. Certo dia foi em um churrasco na casa do Anderson, onde estava toda a galera do bairro. Curtiu junto com os amigos por uns 40 minutos e resolveu ir embora, pois tinha que encontrar a namorada e já estava atrasado.
Na hora de ir embora levantou-se e disse em tom alto: “falou aí galera”. No caminho pensou mais nos amigos e resolveu voltar. Chegou no churrasco e falou: “Ah, vou dar tchau pra cada um de vocês. Vai nessa que eu morro, daí eu nunca mais vou ver nenhum de vocês.”
Renato saiu de lá, bateu o carro e morreu.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O dia sem tormenta

Naquele dia tudo foi diferente. O vento parecia não uivar. Ninguém se reuniu em torno de um objetivo sério. A madrugada não foi varada. Como a muito não acontecia, a cerveja ditou o ritmo invés do café forte. A alegria que pensavam que nunca iria aparecer chegou. Aquele que sempre esteve por lá finalmente pode passar uma noite quente com a esposa. Naquela noite as estrelas puderam ser vistas. Os que passaram a noite acordados não tinham suas gargantas amarradas. Os pensamentos fluíram naturalmente. Não houve nenhum abalo sísmico em nenhum coração. Ninguém voltou a beber ou a fumar. Naquele dia a noite não foi interminável. Naquele dia, todo mundo continuou ateu. Assim foi o dia em que ninguém morreu.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Corpo na Neblina

Seu Ademir tava animado pro trabalho. Saiu cedinho aquele dia, como todos os dias. Apesar do frio não teve vontade de ficar mais tempo na cama. Às 5 horas abriu a porta, fez o sinal da cruz e saiu confiante, mesmo sem ver um palmo a sua frente. Ademir não sabia, mas dali 5 minutos iria fazer o sinal da cruz novamente.
O caminho de seu Ademir era sempre o mesmo. Devido à neblina intensa foi andando um pouco devagar, pensativo. O pensamento foi interrompido pelo barulho do ônibus, que deveria pegar. Começou a correr em direção ao ponto, mas logo no início da corrida tropeçou em algo. Caiu e olhou o que era. Uma pessoa deitada. Olhou melhor e viu um rombo no peito daquele em quem havia tropeçado. Assustou-se, fez o sinal da cruz, levantou e continuou correndo, agora com dois objetivos: pegar o ônibus e fugir do corpo.
Depois de seu Ademir, dona Alzira passou pela esquina também. Viu que tinha alguém ali. “Uma neblina dessas e esses mininu dormindo na rua. Essis drogado num tem jeitu mesmo”, pensou Alzira.
O terceiro a passar por lá foi o tristonho Fábio. Olhando pro chão, quando viu já estava em cima do corpo. Ficou cerca de um minuto refletindo a cerca do corpo. Desviou e continuou o seu caminho.
A neblina ia baixando, e cada vez mais pessoas observavam o corpo. Alguns passavam sem parar, os curiosos nem foram trabalhar só pra ficar olhando. Com o tempo foi se formando um aglomerado de curiosos. Quando tinham cerca de cinco pessoas em volta chegou alguém dizendo: “É o Gabriel!”. Todos da roda olharam para Edson, que continuou: “É o Gabriel, o filho da dona Vicentina”.
Gabriel era um menino exemplar, que dava orgulho pra dona Vicentina. Estudante e trabalhador sempre saia cedo e chegava tarde. Dedicado. Não faria mal a ninguém. Por que era ele o corpo?
Quanto mais pessoas mais dúvidas e afirmações surgiam. “Será que ele tava enrolado?”, “Tava na cara que era drogado!”, “Tava devendo?”, “Não podia ser tão bonzinho assim.”.
Dona Maria trouxe o lençol branco, que no meio ficou manchado de vermelho. A mãe estava trabalhando e só ficou sabendo pela noite. Ninguém quis ligar para dar a má notícia.
Quase meio-dia o IML chegou. O sol já tinha secado o sangue. A neblina tinha ido embora. Quando o rabecão levou o corpo ficou um pedaço de papel na grama:
“Desculpe. Matamos o cara errado”.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A hora

Muitos foram pro buraco por sua causa.
Não fosse ele todos iriam apodrecer frente à família.
O braço forte de tanto carregar caixão.
Calo na mão como todo trabalhador.
Já era acostumado à dor.
Calado como todos que passavam pelo ambiente de trabalho.
A solidão natural por trabalhar com sólidos.
Terra, pá, concreto e sentimentos eram os seus principais instrumentos.
O resto era tudo decomposto,os instrumentos estavam sempre expostos.
Quando dizia a profissão qualquer pessoa ficava pasma.
Várias vezes confundido com fantasma.
Trabalho à noite era sempre parado.
Correr atrás de ladrão já estava cansado.
Tinha que botar pra fora jovens que faziam ritual e até parar sexo de casal.
Familiares e amigos também já viu partir.
Protagonista no momento em que ninguém desejava.
Quando chegou a sua vez, nada de lápide, homenagem ou flores.
Pra sentir as dores, só mulher, filho e o amigo pedreiro.
Assim foi a morte de Antônio Coveiro.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fria e agradável

A noite estava fria e agradável naquela noite de 27 de dezembro de 2006. Eu acabara de chegar a Itajaí onde meus amigos estavam me aguardando. Íamos passar a virada de ano lá, no apartamento do pai de uma das nossas amigas. O apartamento ficava em frente à igreja matriz da cidade, mas a religião não nos impedia de beber dia e noite. Na mesma noite em que cheguei já bebíamos a nossa cervejinha, que consequentemente já tinha sido bebida durante o dia pelos que lá estavam antes da minha chegada. Enquanto bebíamos as mulheres da casa foram dormir e nós resolvemos ir beber e conversar na praça em frente à igreja. Além das garotas, a cerveja também tinha ficado em casa. Indo à praça somente nós quatro e os destilados. Sentíamos na pele o vento que à noite fazia a janela uivar. Mas isso não nos impedia de celebrar a minha recém chegada e o novo ano que estava por vir em alguns dias.
Enquanto conversávamos vimos dois rapazes fortes vindo em nossa direção. A primeira coisa que veio à mente foi: “eles vão nos roubar”. Mas quando começaram a falar a idéia mudou imediatamente. A voz mansa tinha um tom de pedido, como o de uma criança que pede aos pais um presente fora da época de natal. Ele nos pediu dinheiro para “se destruir”. E tinha as suas razões para buscar a tal destruição, mas nós nem imaginávamos quão grande poderia ser a desejada destruição (que o nosso dinheiro não poderia pagar).
-Cara, eu podia mentir pra vocês, mas eu quero uma grana pra eu fumar um crack. Eu tava em um hotel em balneário com a minha mulher e minha filha, e dei uma saída, quando eu voltei ela tinha ido embora com todas as nossas coisas. A vida pra mim não tem mais razão, eu to no fundo do poço. Eu to querendo uma grana pra usar droga e ver se consigo, graça a Deus, entrar em uma overdose, por que eu não tenho coragem de tirar a minha própria vida.
A esta altura ele já chorava e nós nos assustados com a situação. O seu companheiro tentava “consolar”:
- Aí meu, para de chorar. Homem não chora na frente dos outros não! Na real mesmo todo homem chora, mas chora lá no seu cantinho, não fica chorando na frente dos outros não.
Um de nós deu-lhes algum dinheiro e eles saíram. O tom da conversa já não poderia ser mais o mesmo, ficamos mais um tempo conversando sobre drogas e histórias semelhantes, mas não como aquela obviamente. Depois de algum tempo eles voltaram, um pouco mais animados. Terminamos de beber e fomos embora. Dormimos e a noite que era fria e agradável, continuou somente fria.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Bebida não mata

Dia desses indo até a casa da minha namorada a pé, passei em frente a um bar e vi um cara que sempre vejo nos barzinhos perto de casa. Eu via o cara sempre, desde quando aportei no São Braz (uns 14 anos), mas naquele dia me veio um pensamento diferente: bebida definitivamente não mata.
Desde que cheguei aqui no maravilhoso bairro do São Braz moro em frente a um bar. Eu então piá de bosta, ia dia e noite no bar pra comprar doces, salgadinhos, refrigerantes e afins. Hoje em dia já não vou tanto no bar da frente de casa, e conforme o tempo vai passando, menos eu vou no bar (o da frente de casa). Mas desde a primeira vez que fui ao bar via alguns caras lá. Os caras pareciam senhores trabalhadores, com boa aparência, sempre muito vermelhos e bebiam bastante. Eles passavam muito tempo no bar, e obviamente não estavam comprando refrigerante, pois eu não levo horas para comprar refrigerante pro almoço. Aqueles senhores tinham aparência de bêbados, bem comportados, mas bêbados. Na verdade eu não os via somente no bar da frente de casa, mas em muitos botecos da região São Braziana. 14 anos se passaram desde a primeira vez que eu fui ao boteco. E um pensamento me flagrou naquela noite.
“Caralho, desde que eu vim morar aqui os caras são os mesmos. Os caras bebem praticamente todos os dias e ainda estão vivos porra!”. Pois bem, fiquei feliz em saber que os caras não morreram de beber. Mas fiquei triste por outra causa: o seu Afonso morreu. O dono do bar. Conclusão: beber não mata, ver os outros beber é que mata.