Mostrando postagens com marcador Família. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Família. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Fixar o flexível

Ando com o hábito de usar o elástico de cabelo na mão.

Não faz sentido.

Na mão ele elastica algo que não precisa ser elasticado.

O local de trabalho no qual deveria exercer sua função é a cabeça. No entanto, o aloquei em um setor onde a sua atividade é prenunciar. Prestes a amarrar as cordas, que em certas ocasiões já estão presas entre si, acabo sem atar e nada faço com o que tenho nas mãos.

Pensando bem, faz todo sentido.

Não fazer nada, quando se tem tudo, é um dos meus vícios.

Com a faca na mão, fico em face do queijo sem esfaqueá-lo. Inerte. Como um suicida sobre a cadeira, que tem a corda torcendo aos seus ouvidos, mas que apenas escuta.

Não sei o que me bloqueia. Talvez o medo de mudar o estado das coisas e o meu estado.

Levo tudo até as penúltimas consequências.

Cursei Letras no período correto. Chegado o tececê, travei.

Comecei o curso por querer ser escritor. Passei anos sem ser percebido. Me acharam. Me mudaram de patamar e não pulei. Me tornei alguém publicado, mas fui parando de escrever até voltar a ser ninguém.

Quando adolescente, queria ser Mc. Me apresentei num show uma vez. Do meu grupo um dos integrantes seguiu a missão. Eu, desde jovem, já não sabia o que queria.

No jornalismo fui uma promessa que não chegou ao santo. Ganhei alguns prêmios universitários como fotógrafo. Formado, abandonei carreira e câmera.

Teria sido uma coisa bonita.

Meu pai abandonou o seminário. Um padre lhe pagou um curso de fotografia. Ele virou bancário.

Se eu fosse fotógrafo, poderia continuar o que ele começou. Poderia terminar alguma coisa. Terminamos abandonando a mesma possibilidade.

Dá pra entender.

Quem não tenta, não ganha nem o fracasso.

Agora, esse negócio do prendedor externa minha particularidade que já não é mais tão particular.

Semana passada um rapaz me viu com o elástico. Disse que também usa dessa maneira. Mostrou até uma foto.

Fiquei feliz em conhecê-lo.

Criamos um grupo de apoio. O Usadores de Elástico de Cabelo na Mão Anônimos. Marcamos a primeira reunião para terça-feira, 18h.

Cinco minutos antes, desisti.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Cadernos, álbuns, memórias e amores

Preciso de espaço para novas coisas velhas.

Guardo muita coisa.

Outras, carrego.

A mochila, eterna companheira, estará mais vazia neste ano. Depois do longo período levando um caderno universitário, decidi usar algo menor. Um bloco, talvez.

O volume de 2017 vai para o armário com os demais. E são papéis demais.

Pela falta de espaço, decidi me livrar dos dois mais antigos.

Um deles tem Gustavo Kuerten na capa e alguns adesivos. Internamente, pichações e recados:

“Fogo, você é minha vida kra!!! T. amu muito + do que você imagina, gostosão! Ass: Ka. B.jus”
(Ka: você era muito irônica).

“Guy te amo!! Dany”
(Dany: você me excluiu do Facebook).

“Guy: Te amo! Beijocas da Moni”.
“Cutty: Te amo. Beijocas da Moni”.
“Cuty T. amo muito! Beijocas da Moni”.

(Moni: Acho que você me amava mesmo, né? Desculpa por não ter correspondido. Eu era um babaca. Ainda sou. A diferença é que antes eu era um babaca inexperiente. Agora sou um babaca cheio de experiência em ser babaca).

Aparentemente, enquanto Moni me amava, eu amava outras coisas.

Assim como o tempo faz com as pessoas, as anotações escolares foram arrancadas. No caderno há apenas escritos pessoais. Letras de rap jamais gravadas. Objetivos não concretizados. Se eu tivesse continuado...não continuei. Na vida nada continua.

No final, há manuscritos de poemas da minha primeira publicação, um concurso literário voltado aos alunos da universidade. Talvez o propósito de ser mc tenha sido substituído pelo de ser escritor. Nenhum dos dois deu certo.

O outro companheiro esteve comigo por mais tempo e é o que mais precisa ir pro lixo. Até hoje não me serviu para aprender inglês. Ele também não cumpre seus desígnios.

Nele, mais pichações, especialmente de um amigo que assina como “Lee”. Ao contrário de mim, Lee gostava bastante do meu caderno.

Há ainda endereços de fotologs e mais recados:

“Oi! Fogo. Td bom? Bjão Karol”

“Fogo: A Ká t ama muito. C cuida não deixa nenhuma mulher te fazer vc de trouxa tá. Kari”

“Fogo -> bju Belle.
Ah! Quero uma festa...
Te adoro!”

“Fogo te adoro bjus...Priscila”


O último recado talvez represente o amor verdadeiro:

“Fogo vc é um bostinha + eu ti aminhu!! Bjus da Vê. 18/04/05”

Fiquei feliz por ter sido amado apesar dos defeitos. Ainda assim, essas palavras serão descartadas.

Continuarão as roupas e os álbuns.

Um deles é o da minha mãe. Nele, logo no começo, estão fotos do casamento que ela fez sozinha. Meu pai foi omitido. Recortado.

Depois, variados instantes se encontram fora de ordem. Diferentes momentos e penteados se misturam.

Há registros em família, no trabalho, na faculdade. Ela aparece sempre bonita.

Em uma das fotografias, ela sorri com a perna quebrada. Eu lembro do acidente. Minha vó saiu e a deixou trancada no quarto para que não fosse comprar mais bebida. A solução foi pular pela janela do sobrado. Não era um momento feliz. Fotografias são mentirosas.

Na última página, em um recorte de jornal, meu pai reaparece:

Missa do 1º mês de falecimento.
Márcia, Guylherme e Jaqueline, convidam amigos para a missa de Canuto José Custódio Neto a realizar-se na Igreja Matriz de Santa Felicidade na Av. Manoel Ribas, 6252, dia 28 de dezembro, quarta-feira, às 19h.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sensatez

- Se você ficar comendo assim você vai ficar gorda, seu corpo vai ficar horrível e você não vai nem conseguir andar direito. Você precisa ser magra, bonita. Nenhum homem vai querer casar com você desse jeito.

A filha, que parece ter oito ou nove anos, olha assustada. Aparentemente o seu espanto não é pelos efeitos que a comida pode causar, mas sim pela maneira rude com que a mãe fala. E, realmente, aqueles gritos assustavam qualquer um.

-A senhora não deveria falar assim com a sua filha, sabia!?

- A filha é minha eu falo do jeito que eu quero.

- Eu sei disso, minha senhora. Mas acredito que deveríamos nos preocupar com as crianças pensando na coletividade, no futuro do país inteiro e não apenas na sua filha.

- Por isso que eu tô tentando dizer pra ela parar de comer, se não o futuro dela vai ser horrível.

- Espero que a senhora esteja realmente preocupada com a saúde da sua filha. Mas se a senhora gritar desse jeito as consequências vão ser ainda piores. Ela é uma criança. Você precisa ensinar ela a se alimentar bem e não somente brigar com ela.

- Tá. Tá bom.

[Dando um beijo no rosto.]

- Desculpa filha.

- Ainda assim...Acho que a senhora não deveria repreender a sua filha por comer demais. Ela tem o futuro inteiro pela frente. A senhora está tentando colocar a culpa na cabeça dela antes mesmo de ela estar ligada aos padrões estéticos que a sociedade nos impõe.
Deixe ela comer. Deixe ela se divertir. Deixa ela ser feliz comendo hambúrguer. Não tire a sua inocência e o gosto da infância.

A vida dela já vai ser uma merda mesmo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Desculpa pai

Desculpa pai.

Eu não consegui.

Não consegui ser nada do que você sonhou.

Não consegui ser jogador de futebol. Não consegui gostar de esporte. A camisa do seu time eu não pude vestir. Do seu preconceito não consegui me travestir.

Desculpa, mas a culpa não foi minha.

Não consegui descabaçar a vizinha. Eu sei. Eu sei que ela me dava bola. Mas eu não queria bola. Queria boneca.

Desculpa pai, mas me é caro gostar de carro. Só sei entrar e andar. Se parar, não vejo graça me sujar de graxa.

Desculpas pelo jeito que falo. Por sentar de pernas fechadas. Por não mostrar meu falo.

Desculpa por ser emotivo. Por não conseguir esconder meus sentimentos, por chorar sem motivo, mesmo sem estar bêbado. Desculpa por não beber, não gostar de cerveja. Por não tentar provar a minha masculinidade me dirigindo ao chão de um bar. Por não matar ninguém dirigindo.

Desculpa por não gostar de carne pingando sangue. Por não gostar de carne. Por não gostar de sangue. Por não assistir filmes do Van Damme. Por não ter sido de gangue. Por não brigar na rua. Por não gozar em revista de mulher nua.

Desculpa por não saber trocar uma resistência de chuveiro. Por não ter sido engenheiro. Por não ter sido delegado. Por não ter filhos, não continuar seu legado.

Desculpa por assistir novela. Por gostar mais da mamãe. Por ajudar ela a lavar louça. A escolher a roupa. Por não ajudar você a torná-la uma escrava.

Desculpa por ter modos à mesa. Por demonstrar minha tristeza. Por gostar de artes e cultura.

A vida é dura. Você também precisa ser.

Você vai aguentar.

Você é macho.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Política familiar

Alceu chegou mais tarde naquela noite. Com sua ausência, Isabela e a pequena Júlia sentaram-se à mesa de jantar sem o patriarca. Chico, o cachorro, também fez sua refeição (toda família feliz tem um cachorro). O atraso era previsto. Ele avisara que chegaria mais tarde (todo infeliz trabalha mais que o necessário).

Sua chegada não foi tão festiva quanto o habitual. Ninguém foi recepcioná-lo. Isabela o cumprimentou sem se desviar da TV. Chico continuou deitado e apenas deu um olhar levantando a sobrancelha.

- O que aconteceu?

- Nada!

Naquele momento Alceu confirmou o que desconfiava. Alguma coisa aconteceu.

Foi até o quarto e viu na cama alguém se movimentando embaixo da coberta. Ao levantá-la viu o desesperado e reprimido choro de Júlia.

Sentou-se calmamente e deu um beijo na testa da menina, que sem perder tempo agarrou-lhe o pescoço.

Passado o pranto, ele transferiu a ela a pergunta feita à mulher, o que fez com que o choro recomeçasse.

Voltou para a sala.

- O que aconteceu, Isabela?

O cachorro saiu de perto e foi para o seu canto.

- O que aconteceu, Alceu? O que aconteceu? O que aconteceu é que a tua filha não quis jantar por que o pai dela não chegava.

- E ela tá chorando desse jeito por causa disso?

- Não. Ela tá chorando por que eu bati nela.

- Bateu nela, Isabela?

- Bati e bati mesmo.

- Por que fazer isso Isabela? Só por que ela não quis comer?

- Claro que não Alceu. Ela tava me desafiando. Me questionando.

- E você não sabe conversar? Ela é uma criança, Isabela.

- Purisso mesmo. Purisso que ela tem que me respeitar e fazer o que eu mando.

- E você não podia simplesmente explicar que eu vinha mais tarde?

- Eu tentei Alceu. Mas essa guria me questionava cada vez mais. Aí eu...

- ...Aí você bateu nela.

- É Alceu. Bati. E daí?

- E daí que não é assim que se educa uma criança e eu esperava que você soubesse disso. Como uma pessoa calma, educada, inteligente como você foi bater em uma criança?

- Alceu, você não tá vendo? Você não percebeu o que essa menina fez?

- Não.

- Alceu, a atitude dela tem influência político-partidária!

- Ah então tá certo. Tá justificado.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Bolinho da vó

Edinho adorava ir à casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava encontrar os primos na casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava brincar na casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava o bolinho da vó, que só a sua vó fazia.


Apesar de adorar ir à casa da vó não podia fazê-lo frequentemente. 12 horas e aproximadamente 914 Km o distanciavam. Somente uma vez por ano, nas férias, é que podia divertir-se com a família. No restante do ano era obrigado a enfrentar a dura e estressante rotina da escola.


Ao chegar da longa viagem era recepcionado com o bolinho. O bolinho da vó. Tinha o gosto que somente a avó, com toda sua idade produzia, o gosto da sua infância.


As avós são, geralmente, as melhores cozinheiras do mundo. Mesmo a comida da avó dos outros, que também fazem parte do clã das melhores chefs, jamais é tão boa quanto a da própria avó.


A especialidade de dona Armênia era o bolinho. Sua mãe e as tias também tinham a receita, mas não faziam igual. O bolinho tinha como tempero o afeto da avó por ele.


Mesmo sendo da família e conhecendo a todos ele sempre chegava acanhado. Talvez o fato de vê-los apenas uma vez por ano despertasse sua timidez. Certa vez chegou animado, empolgado. Depois de cumprimentar todos perguntou: “Tem bolinho?”. A tia agachou-se e com um olhar sério disse:


“Eder, a vó não pode mais fazer bolinho”.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Santa Ceia

Era um simples e inocente jantar com a minha senhora ou ao menos era pra ser. Não era um jantar romântico, era só pra comer mesmo (a comida). Eu acabava de sair faminto da labuta em um domingo de carnaval. Decidimos um lugar qualquer no caminho apenas para não acabar em pizza.

Comíamos, bebíamos e conversávamos de forma distraída. Eu degustava aquele pequeno pastel com bastante gordura, que mais tarde irá interromper minha vida, quando fui interrompido pela minha menina. “Eles estão orando?”.

Sim. Estavam orando. Uma família de cerca de 10 pessoas. Achei aquilo bonito. Sou ateu, mas fiquei realmente admirado. É realmente louvável agradecer pela comida que se tem, levando-se em consideração que muitos não a têm.

Lembrei do amigo e professor Victor Folquening, falecido recentemente. Certa vez, lecionando, disse: “Deus existe sim. Claro que Deus existe. Mas Deus é um cara que não trabalha no atacado, só no varejo! Por que, por exemplo, se tem uma tragédia imensa em que milhares de pessoas morrem e um só se salva, essa pessoa dá uma entrevista dizendo que Deus o salvou. Mas por que Deus não salvou todas aquelas outras pessoas?”. Essa é uma das muitas frases que mostram um pouco como era o Victor.

Fiquei pensando na religião, em especial a católica que conheço um pouco melhor. Acho que foi criada com uma ideia boa. Uma grande ideia. Mas, como quase tudo no mundo, o homem (esse grande filho da puta) estragou tudo.

De certa forma aquela família estava mantendo a boa ideia da religião (seja lá qual for a deles), levando ao público aquela escolha particular eles me deixaram refletindo. Refletindo sobre a religião e a comida.

Dia desses estava vendo uma entrevista com o Poeta Sérgio Vaz no programa Provocações. Antônio Abujamra perguntou ao poeta se as pessoas da periferia eram a favor da liberação do consumo de drogas, ao que poeta responde: “Primeiro eu queria que liberasse o arroz com feijão...depois as drogas mais pesadas: o bife, a salada. Eu queria ver a molecada muito louca de arroz com feijão”.

Ia saindo do restaurante quando a família começou a cantar parabéns. Não prestei a atenção, afinal, pensei que não havia nada demais. Quando ia saindo os ouvi cantando: “É benção, é benção, É benção, é benção, é benção. Eu oro, eu oro, Eu oro, eu oro, eu oro...”.

Cagaram com a poha toda!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O juiz supremo

Era bela. Tinha um olhar inocente, rosto jovial, uma boca pequenina e um corpo que parecia desenhado por cirurgiões plásticos, mas era cria apenas da natureza humana (e lapidada na academia). Sem dúvida alguma era muito bela. Mas seu caráter era o de uma bela de uma filha da puta.

Sua principal “virtude” era a falsidade. Conseguia negar com seu doce olhar e a expressão de um desenho animado dos mais meigos aquilo que todos sabiam ser uma trapaça. Fazia-o com a naturalidade de quem peida ao estar sozinho. E convencia. Fazia-se de inocente e por vezes fingia estar ofendida, virando o jogo.

Seu corpo era instrumento de manipulação. Seduzia a quem pudesse ser seduzido fisicamente para que fizesse algo em seu benefício.

A simpatia era outra de suas formas de conquista. Sorria para todos. Fingia dar atenção e carinho. Ao conquistar algo dava apenas as costas.

A boca era sua principal arma. Por trás acontecia sua trama. Jogava um contra outro enquanto no meio de campo se sobressaia. Pela frente dava apenas elogios, fazendo seu ilusionismo. Na distância a doce língua transformava-se em metralhadora.

Não bebia e não usava drogas. Só os fazia quando estava acompanhada unicamente do namorado, igualmente falso. Saia bastante, quase todos os dias. Concentrada na armação deixava que os outros bebessem e aí, maleáveis, convencia-os.

Passava dias e noites tentando alcançar o topo, utilizando seres humanos e suas frágeis humanidades como escada.

Mas ao final da noite, mesmo exausta por tanta tramóia, não conseguia dormir. Era a hora da ação do juiz supremo: o travesseiro.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Linha a linha


O ônibus pára, mas a leitura continua.
Distraído. Estava mais dentro do livro que do ônibus. A história o levava para um mundo distante, o ônibus o transportava apenas até sua casa.
A porta se abre e o alerta de “parada solicitada” se apaga.
O livro parecia novo. Grosso. Bonito. Parágrafos bem espaçados. Não segurava o livro, apenas o apoiava nas mãos. Isso foi providencial.
Com a abertura da porta o vento entra e, com a mesma velocidade, um homem sai. Antes de sair interrompe a viagem do leitor. Apanha o livro e sai correndo.
O agora ex-leitor fica embasbacado até voltar para o mundo real e perceber que seu livro foi levado. Até se levantar e olhar pela janela o ladrão já estava na esquina.
Não sabe como reagir e na dúvida não o faz. Dá apenas um riso nervoso aos que o olham.
Nem a mão de quem o tirou do mundo das letras pôde ver, menos ainda o rosto de quem estava, na realidade, apenas fazendo um empréstimo.
Não queria montar uma biblioteca. Depois de apreciar o livro o abandonava em algum ônibus, geralmente na mesma linha em que tinha feito o furto, na esperança que o subtraído o reouvesse.
O habito começou há cinco meses. No primeiro ficou extremamente nervoso. Correu sete quadras até chegar em casa. Empalidecido cuspia os pulmões e alguns cigarros.
- O que foi?- perguntou a mulher. – Um roubo- Quem te roubou? Aonde? Você está bem? – O nervosismo maior passou para a mulher. Recuperou o fôlego e a explicou que havia sido ele o “furtador”.
A mulher ficou com raiva e meio sem entender. Depois passou a apoiá-lo com o aparecimento frequente de livros em casa.
Quando chegava com um deles era como se chegasse com carne. Alegria total. Se depois percebessem que era auto-ajuda, espiritismo, empreendedorismo ou técnico já o devolvia à linha no dia posterior.
Não tinha distinção. Roubava todos. Afinal, queria ser como eles. Queria ser um leitor como toda aquela gente.
E ninguém iria culpá-lo. Ninguém iria chamar a polícia e nem mesmo o reconheceriam.
Ele vestia-se como a maioria. Calça jeans e camiseta. Dentro da mala a marmita vazia, uma toalha de banho e itens de higiene. Sabia que aquilo não era um bom exemplo para o filho, mas o explicou que não poderia comprar e nem mesmo fazer cadastro em uma biblioteca.
O filho, como a mulher, estranhou no início, mas compreendeu e a cada noite em que o pai chegava o recebia com atenção quando ele com um olhar dócil após o jantar o pedia:
- Filho, lê pra mim.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Corações partidos

Com um sorriso esticou a mão e perguntou:

- Quer um doce?

Ela com sua doce timidez apenas balançou a cabeça positivamente.

- Vem cá buscar.

Ela andava devagarzinho, com a velocidade que o tamanho de suas pernas, crescidas ao prazo de apenas quatro anos, permitiam.

A pegou e levou para dentro de casa. Na garagem entregou os doces. Ela tentou sair, mas ele a segurou e colocou no colo, “mas tem que comer aqui”.

Tinha pouca idade, mas na escuridão daquela garagem, naquele momento, passaram-se anos. Não apenas para ela, mas para muitas crianças. Ali perdeu uma parte da infância. Ele, em alguns instantes, perderia a vida.

Uma vizinha viu quando a menina entrou na casa. Não conseguiu avisar a mãe a tempo de evitar, mas avisou. Pegou uma grande faca, que amolara muitas vezes pensando nesta possibilidade. “Se aquele filho da puta chegar perto da minha filha...”.

Chegou à casa do homem. A filha chorava e antes que ele pudesse falar algo cravou a faca no meio do peito. Certeira no órgão que bombeava sangue para o corpo. Morreu antes de poder sentir a frieza da lâmina.

O dia das mães se aproximava e não pode celebrar como planejou, mas não se arrepende. “Se precisasse mataria de novo para que esse pedófilo não faça isso com mais nenhuma criança”.

-----
Texto tardiamente referente ao dia 18 de Maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.


Inspirado na matéria "Mãe de vítima mata a facadas estuprador da filha", do site Bem Paraná no dia 06/05.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O menino Menino

O menino nasceu, mas ninguém sabia como chamar. O tempo era tanto pra trabalhar que nem tiveram como no nome pensar.

Sobrenome já tinha, Silva. Para a mãe era mais um para a filharada. Para o pai era sinônimo de festa animada, para comemorar seu primeiro.

Cachaça pra todo mundo por sua conta, pra comemorar a chegada do menino. A marvada entra e o hômi logo desmonta. Cai no choro.

A mãe não parece muito animada. Pra dar pra parteira não tinham nada. A conta no bar ia só na pendura. A sua vinda acabara um pouco com a amargura.

O menino encerrou a agonia, pois todo mundo sabe que criança que vinga não é todo dia.

A noite já calou, mas não sabem ainda como o menino se chamou. Na dúvida, assim mesmo ficou: Menino da Silva.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A última cartada


Do desemprego já se iam quatro anos. Da entrada nas drogas dois. Do abandono da família um. Da namorada seis meses. E apenas uma hora da decisão.

Abandonado estava por todos. Pais, garota e amigos. Resolveu abandonar-se também. Abandonar a todos. Abandonar a vida.

Estava terminando a carta de despedida. Sabia que demoraria para alguém encontrar o corpo. Só a tiazinha de quem alugava o minúsculo apê sentiria sua falta. Sua não, da grana. Já estava com três meses de atraso e mais um vencimento se aproximava. Seria encontrado em putrefação. Por meio da carta justificava por que decidiu fazer com que uma bala estourasse seus miolos.

No início da despedida tomou um tom de revolta com todos que lhe viraram as costas. Com o desenvolver foi reconhecendo que todos tinham razão e colocava a culpa unicamente em si. No desfecho faria um pedido de desculpas.

Faria aquilo para buscar mais um refúgio. O último deles. Em sua visão era o que restava já que não tinha mais nenhum tostão e nenhum bem para vender e se esconder em uma lata. Lata esta que fez com que todos o virassem as costas. Primeiro foi a família, já cansada de lhe internar e ele voltar sem mudar nada. Depois os amigos e por último a namorada. Ela que sempre esteve ao seu lado, desde o início do desemprego, quando só pensava em curtir com o dinheiro dos pais, até alguns meses em que ele simplesmente sumiu e levo 
tudo consigo: tênis, roupas, tv...Mas não sabia que com os bens materiais acabou fumando também o coração da garota. Tudo transformado em pedra.

Com o último vintém comprou a 38. Assim como a bala faria, passou rapidamente pela sua cabeça a ideia de roubar, mas não faria isso. Mesmo tendo feito mal àqueles que mais amava, achava que fazia mal apenas para si.

Pronto. Ponto final na carta. Fumou o último Classic enquanto ouvia música no velho micro sistem que o traficante não havia aceito. Fechou os olhos. Engatilhou. Respirou e ao ouviu um trecho da música que tocava:

“É isso ai você não pode parar/ Esperar o tempo ruim vir te abraçar/ Acreditar que sonhar sempre é preciso/ É o que mantém os irmãos vivos”.

Respirou fundo mais uma vez e em algum lugar lá no fundo a música bateu. O seu sonho, voltar para a família e para a vida normal, o manteve vivo. Rasgou a carta. Desistiu de desistir.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mais um

Argumento sem contra argumento. Assim era o “diálogo” do casal brevemente antes do boa noite. Depois disso ela virava para o lado carregando consigo um pouco de raiva e muita decepção. No outro dia tudo voltava ao normal. Voltavam a ser o casal harmonioso que sempre foram.
Harmonia e alegria inclusive já haviam sido argumentos utilizados por ela para ter um filho. Mas nada adiantava, poderiam ser horas, minutos ou segundos que ela dedicava diariamente para tentar convencê-lo ou fazer com que ele ao menos compreendesse a razão de que deveriam ter uma criança. Ele respondia apenas “não, Marina”.
A principal razão dela para tal idéia é a de que deveriam dar uma continuação àquele relacionamento e principalmente um fruto resultante daquele amor.
Ela já pensara até que ele não a amava, mas a hipótese foi descartada. Seria impossível que Thomas não a amasse depois de tudo que viveram juntos. Conheceram-se ainda na faculdade, antes de ele desistir do curso. Após tempos de encontros de suposta amizade começaram a namorar. O namoro já se deu desde o primeiro beijo, ambos sabiam e sentiam que não seria apenas um. Mas 10 anos após o primeiro beijo e casados há cinco ele não queria realizar o sonho dela.
Era incansável sua determinação em tentar convencê-lo. Mais de um ano de tentativa e apenas não em cima de não. Ela já havia pensado até em ter um filho sem o consentimento do marido. Parar de tomar a pílula e pronto. Mas não. Não faria nada que o marido não quisesse, ainda mais sendo algo de tamanha importância.
Embora ela não desistisse ele se encheu de dizer todos os dias a mesma coisa e resolveu apresentar sua verdadeira razão:
- Marina, meu amor. Não posso colocar uma criança em mundo como esse. Mais uma criança. Mais uma criança que talvez tenha seus direitos violados. Mais uma criança neste mundo injusto. Mais uma criança que irá ver outras crianças e adultos passando fome. Mais uma criança sujeita a discriminar ou ser discriminada. Mais uma criança que talvez não tenha oportunidades de vida. Mais uma espectadora para ver pessoas sem teto ou sem terra. Mais um neste mundo bom habitado por gente ruim. Mais uma nesse mundo degradado. É impensável um fruto do nosso amor, tão puro em um mundo tão cheio de ódio.
Marina chorou, Thomas também. Dormiram abraçados como há tempos não ocorria. No outro dia tudo bem de novo. Sem problemas. Ao chegar em casa após o trabalho Thomas teve uma grande surpresa. Um agitado cachorro distraia sua mulher. Ele questionou o que era aquilo e ela calmamente respondeu:
- Você tinha razão amor. Não há sentido colocar mais um humano nesse mundo cão.

terça-feira, 25 de março de 2008

Pai

Pai preciso que você volte. Você prometeu que iria voltar. Você não sabe o que estão fazendo com a terra. Você não sabe o que estão fazendo com a carne. Pai, você é a única salvação. Já não agüento mais viver em meio a este caos. Os seres humanos só querem comer uns aos outros. Pai, neste lugar não há ordem. Este lugar é um desrespeito ao seu nome e a sua imagem. Só quando você voltar a ordem será restabelecida. Sabe pai, na hora em que a profecia se cumprir todos irão olhar pra você e deixar de fazer tudo o que estão fazendo.
Volta logo pai.
Esses loucos estão quebrando a casa inteira nesse churrasco que o Éder deu só por que você foi viajar.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Angústia

Quando Eulália passou pela Avenida Batel no sábado a noite, o fardo que carregava ficou ainda mais pesado. Já não agüentava mais carregar aquela terrível angústia.
Eulália era um daqueles tipos de mulher dona de casa, a mulher família. A sua vida era inteiramente dedicada ao bem estar de sua família: o seu marido Eusébrio e seus quatro gêmeos, Edna, Edvaldo, Edevair, e Edílson.
Mãe de fibra. Fazia tudo pelas suas crias, até mesmo xingar a mãe do colega de escola que tirava sarro do nome de um dos seus filhos, mesmo que a mãe do coleguinha fosse a sua vizinha com quem mais conversava (leia-se fofocava).
Eulália fazia todas as vontades de um dos seus pequeninos Ezinhos, como chamava os picorruchos.
Aos sábados Eulália ia à igreja acompanhar a aula de violão dos seus filhos. Orgulhava-se de ser a mãe do primeiro quarteto caipira do Brasil.
Aos domingos voltava à igreja na primeira missa do dia. Às 7 horas acordava e colocava o seu melhor vestido. Maquiagem nunca usava, mas se arrumava ao máximo para assistir o sermão do Padre Oderval.
Ao voltar da missa, preparava o famoso frango assado da dona Eulália, que a filha Edna reclamava quando grudada um pedaço de papel alumínio, pois sentia arrepio ao morder.
A alegria de Eulália era ver os filhos bem vestidos, bem penteados, cherosinhos e sorrindo. Eram a sua razão de viver.
Mas apesar da sua felicidade, ela estava triste ultimamente. Já não sorria mais ao assistir zorra total. Não fofocava mais com Robéria, sua vizinha surda.
Eram várias as razão para a sua chateação. O marido Eusébrio chegava alcolizado em casa, já não assistia mais a novela das 8 junto a ela, não fazia mais massagem em seus pés, não a levava mais ao motel “My truck” e não a chamava mais pra comer buchada de bode no bar do Euller.
Os filhos pareciam gostar mais do pai, e só queriam saber de ir ao jogo de futebol do combate barrerinha. Mesmo arrumando os seus bacuris para ir ao jogo, eles voltavam todos descabelados, com os sapatos enlameados e com a camisa toda suja de molho de cachorro quente. Trocaram a chateação de futebol e música pelo antes divertido bingo.
Depois desse período Eulália se abraçou ainda mais a Jesus. Mas parecia que nem deus a dava atenção: ficava sempre de braços abertos, mas nunca a abraçava.
Nem mesmo Joana Conselheira, a tão disposta mocinha do rádio a ajudou. Não respondeu nenhuma das suas 371 cartas. Tentava afogar as suas mágoas com tubaina e paçoca, mas nem isso amenizava a sua dor.
A dor cresceu ao ver jovens felizes na Avenida Batel, todos aqueles rapazes e moças com a boca cheia de dentes, ricos e drogados. Sentiu que aqueles poderiam ser um dos seus filhos, que estava indo buscar na Cia da Vila – Rústico e Acústico. Pensou que os seus filhos estariam se divertindo sem ela, enquanto assistia novela. Não agüentou. Tirou os seus seios de 30 centímetros, já abalados pela lei da gravidade, e os colocou para fora gritando: “AAAAAAAAH EU QUERO IR NO MERCADO!”.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fria e agradável

A noite estava fria e agradável naquela noite de 27 de dezembro de 2006. Eu acabara de chegar a Itajaí onde meus amigos estavam me aguardando. Íamos passar a virada de ano lá, no apartamento do pai de uma das nossas amigas. O apartamento ficava em frente à igreja matriz da cidade, mas a religião não nos impedia de beber dia e noite. Na mesma noite em que cheguei já bebíamos a nossa cervejinha, que consequentemente já tinha sido bebida durante o dia pelos que lá estavam antes da minha chegada. Enquanto bebíamos as mulheres da casa foram dormir e nós resolvemos ir beber e conversar na praça em frente à igreja. Além das garotas, a cerveja também tinha ficado em casa. Indo à praça somente nós quatro e os destilados. Sentíamos na pele o vento que à noite fazia a janela uivar. Mas isso não nos impedia de celebrar a minha recém chegada e o novo ano que estava por vir em alguns dias.
Enquanto conversávamos vimos dois rapazes fortes vindo em nossa direção. A primeira coisa que veio à mente foi: “eles vão nos roubar”. Mas quando começaram a falar a idéia mudou imediatamente. A voz mansa tinha um tom de pedido, como o de uma criança que pede aos pais um presente fora da época de natal. Ele nos pediu dinheiro para “se destruir”. E tinha as suas razões para buscar a tal destruição, mas nós nem imaginávamos quão grande poderia ser a desejada destruição (que o nosso dinheiro não poderia pagar).
-Cara, eu podia mentir pra vocês, mas eu quero uma grana pra eu fumar um crack. Eu tava em um hotel em balneário com a minha mulher e minha filha, e dei uma saída, quando eu voltei ela tinha ido embora com todas as nossas coisas. A vida pra mim não tem mais razão, eu to no fundo do poço. Eu to querendo uma grana pra usar droga e ver se consigo, graça a Deus, entrar em uma overdose, por que eu não tenho coragem de tirar a minha própria vida.
A esta altura ele já chorava e nós nos assustados com a situação. O seu companheiro tentava “consolar”:
- Aí meu, para de chorar. Homem não chora na frente dos outros não! Na real mesmo todo homem chora, mas chora lá no seu cantinho, não fica chorando na frente dos outros não.
Um de nós deu-lhes algum dinheiro e eles saíram. O tom da conversa já não poderia ser mais o mesmo, ficamos mais um tempo conversando sobre drogas e histórias semelhantes, mas não como aquela obviamente. Depois de algum tempo eles voltaram, um pouco mais animados. Terminamos de beber e fomos embora. Dormimos e a noite que era fria e agradável, continuou somente fria.