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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Fixar o flexível

Ando com o hábito de usar o elástico de cabelo na mão.

Não faz sentido.

Na mão ele elastica algo que não precisa ser elasticado.

O local de trabalho no qual deveria exercer sua função é a cabeça. No entanto, o aloquei em um setor onde a sua atividade é prenunciar. Prestes a amarrar as cordas, que em certas ocasiões já estão presas entre si, acabo sem atar e nada faço com o que tenho nas mãos.

Pensando bem, faz todo sentido.

Não fazer nada, quando se tem tudo, é um dos meus vícios.

Com a faca na mão, fico em face do queijo sem esfaqueá-lo. Inerte. Como um suicida sobre a cadeira, que tem a corda torcendo aos seus ouvidos, mas que apenas escuta.

Não sei o que me bloqueia. Talvez o medo de mudar o estado das coisas e o meu estado.

Levo tudo até as penúltimas consequências.

Cursei Letras no período correto. Chegado o tececê, travei.

Comecei o curso por querer ser escritor. Passei anos sem ser percebido. Me acharam. Me mudaram de patamar e não pulei. Me tornei alguém publicado, mas fui parando de escrever até voltar a ser ninguém.

Quando adolescente, queria ser Mc. Me apresentei num show uma vez. Do meu grupo um dos integrantes seguiu a missão. Eu, desde jovem, já não sabia o que queria.

No jornalismo fui uma promessa que não chegou ao santo. Ganhei alguns prêmios universitários como fotógrafo. Formado, abandonei carreira e câmera.

Teria sido uma coisa bonita.

Meu pai abandonou o seminário. Um padre lhe pagou um curso de fotografia. Ele virou bancário.

Se eu fosse fotógrafo, poderia continuar o que ele começou. Poderia terminar alguma coisa. Terminamos abandonando a mesma possibilidade.

Dá pra entender.

Quem não tenta, não ganha nem o fracasso.

Agora, esse negócio do prendedor externa minha particularidade que já não é mais tão particular.

Semana passada um rapaz me viu com o elástico. Disse que também usa dessa maneira. Mostrou até uma foto.

Fiquei feliz em conhecê-lo.

Criamos um grupo de apoio. O Usadores de Elástico de Cabelo na Mão Anônimos. Marcamos a primeira reunião para terça-feira, 18h.

Cinco minutos antes, desisti.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Ana Maria Braga

Todo dia traz consigo uma batalha da qual não consigo fugir.

Às 8h o despertador começa a trabalhar e segue manhã adentro tentando cumprir seu objetivo. Dedicado, mais do que eu, nem recebe hora extra.

Minha vó se junta a ele. Leva seus 91 anos para baixo e para cima da escada. Traz café.

Eu, com 31, não tenho um terço da sua disposição física e mental.

- Foi dormir tarde, Guylherme?

- Fui, vó!

Não é por isso.

É porque meu único desejo legítimo é ficar na cama para sempre.

Abro os olhos. Ligo a tevê. As notícias passam. Chico Pinheiro se despede. Quando a Ana Maria Braga cumprimenta o Louro José eu já deveria estar no trabalho. Não estou.

Ultimamente tenho estado sempre em lugar nenhum.

A Ana Maria Braga deve acordar bem cedo.
Li num livro que a Ana Maria Braga entrou em depressão porque não conseguia vencer o Chaves no Ibope.

Agora ela parece bem. Tem um sorriso bonito.

Uma amiga falava que eu também tinha.

Não tenho mais.

Alguns dentes entortaram por causa do siso. Outros lasquei caindo de bêbado. Teve também aquela vez que tentei separar uma briga e acabei com um dente separado do corpo.

O café e o cigarro fizeram com que eles escurecessem.

O cigarro, aliás, servia de estímulo para que eu levantasse.

“Se você levantar, pode fumar um cigarro antes de tomar banho!”.

Agora parei.

Da última vez engordei 10 quilos e depois voltei.

Fiquei gordo e continuei com o pulmão fodido.

A Ana Maria Braga teve câncer e voltou a fumar.

E ela nem tosse quando dá risada.

Eu, que sou asmático, preciso parar.

E também preciso de algum outro estímulo para levantar.

Só viver já não basta mais.

Além disso, não quero tomar banho. Nem escovar os dentes. Nem trabalhar.

É irônico. O rapaz que era otimista, idealista, que um dia quis mudar o mundo, não consegue nem levantar da cama.

Não mudei de lado, mas talvez tenha me entregado.

Eles venceram.

Como se eu já não soubesse que isso iria acontecer.

Foda-se.

Hoje sou alheio a tudo.

E quero ficar na cama.

Piadoca da internet: “Sempre que eu tenho um problema, eu me pergunto: ‘O que Jesus faria?’. Aí eu me finjo de morto e desapareço por 3 dias”.

Acho engraçada.

Me leva a pensar o que os meus heróis fariam?

Mas...

Quem são meus heróis, mesmo?

Talvez o Batman seja mesmo meu paladino. Talvez eu me abrace na ficção para não precisar encarar a realidade.

No filme ele fica um tempão apartado em uma área da mansão Wayne.

O Batman não precisa trabalhar.

Filho da puta.

A minha identificação com o Wolverine talvez seja maior. Ele trabalha.

É um lenhador.

Sinto inveja dele.

Corta toras sem precisar pensar, sem pesquisar, sem escrever.

Noutro filme desses de herói ele se isola em uma caverna até que o mundo vai lá e desisola ele.

Mundo filho da puta.

Eu não consigo me isolar. O mundo está sempre me incomodando e eu me sinto um incômodo pra ele.

Na tevê apareceu a estória de uma moça que aprendeu a fazer uma peça de artesanato no Mais Você. Hoje ela foi participar de um encontro internacional de artistas graças à Ana Maria Braga.

Deu vontade de chorar.

Quase tudo dá vontade de chorar.

Fica um negócio ruim na garganta que não sai nunca. Um aperto.

Quando eu fumava, esse negócio até saia, às vezes. Eu engolia o negócio junto com a fumaça e depois jogava pra fora.

Deve ser por isso que a Ana Maria Braga fuma.

Talvez a Ana Maria Braga seja minha verdadeira heroína. Ela superou a depressão, o câncer e conversa com um papagaio.

Além disso, a Ana Maria Braga conseguiu me fazer levantar.

Hoje.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Segunda-feira

Você precisa ir.

Precisa vestir a sua roupa feita por escravos bolivianos.

Precisa sair de casa para sua mulher trepar com o vizinho.

Precisa queimar combustíveis fósseis e aumentar o aquecimento global.

Precisa assobiar para as mulheres.

Precisa olhar para o porteiro com desprezo.

Seu chefe precisa de alguém para xingar.

Você precisa suportar porque precisa vender seu corpo para comer.


Você precisa consumir carne para que os animais continuem sendo sacrificados.

Você precisa fumar para que a indústria lucre com o seu vício.

Você precisa do celular.

Precisa das redes sociais.

Precisa se mal informar com o título das notícias.

Precisa tomar remédios.

Precisa manter as aparências.

Precisa beber para aguentar viver.

Ande.

Levante-se.

O mundo precisa de você.

terça-feira, 12 de abril de 2016

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TARÓLOGA
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Recados
AGÊNCIA ELE E ELA
NAMORO e casamento. Há 17 anos c/ seriedade, compromisso e dedicação. www.agenciaeleelea.com.br (41) 3345-8787

Títulos de clubes
TITULO
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TÍTULO DO IATE
CLUBE Guaratuba, duvidas e maiores informações ligar para o escritório do Iate Clube em Curitiba: (41) 413081-8171

TÍTULO GRACIOSA
Vende-se Título Patrimonial Graciosa Country Club. R$40.000,00. Falar com Zeco. Aceito Proposta (41) 9106-0402

VENDO
Título Patrimonial do Clube Santa Monica. Aproveite o verão e o excepcional conjunto de piscinas. Tratar Helio (41) 3243-4307

Detetives
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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Desculpa pai

Desculpa pai.

Eu não consegui.

Não consegui ser nada do que você sonhou.

Não consegui ser jogador de futebol. Não consegui gostar de esporte. A camisa do seu time eu não pude vestir. Do seu preconceito não consegui me travestir.

Desculpa, mas a culpa não foi minha.

Não consegui descabaçar a vizinha. Eu sei. Eu sei que ela me dava bola. Mas eu não queria bola. Queria boneca.

Desculpa pai, mas me é caro gostar de carro. Só sei entrar e andar. Se parar, não vejo graça me sujar de graxa.

Desculpas pelo jeito que falo. Por sentar de pernas fechadas. Por não mostrar meu falo.

Desculpa por ser emotivo. Por não conseguir esconder meus sentimentos, por chorar sem motivo, mesmo sem estar bêbado. Desculpa por não beber, não gostar de cerveja. Por não tentar provar a minha masculinidade me dirigindo ao chão de um bar. Por não matar ninguém dirigindo.

Desculpa por não gostar de carne pingando sangue. Por não gostar de carne. Por não gostar de sangue. Por não assistir filmes do Van Damme. Por não ter sido de gangue. Por não brigar na rua. Por não gozar em revista de mulher nua.

Desculpa por não saber trocar uma resistência de chuveiro. Por não ter sido engenheiro. Por não ter sido delegado. Por não ter filhos, não continuar seu legado.

Desculpa por assistir novela. Por gostar mais da mamãe. Por ajudar ela a lavar louça. A escolher a roupa. Por não ajudar você a torná-la uma escrava.

Desculpa por ter modos à mesa. Por demonstrar minha tristeza. Por gostar de artes e cultura.

A vida é dura. Você também precisa ser.

Você vai aguentar.

Você é macho.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Limpando ratos

Meu mouse me enoja.

Se deposita nele uma crosta. Agora, regurgita tudo que o fiz engolir.

Todos os dias às 9 da manhã invés de tomar café ele é obrigado a deglutir todos os meus resquícios. As coçadas noturnas no cu. A punheta matinal após perceber que a presença da namorada era apenas um sonho. A escova de dentes. As chaves. O celular. O cigarro. O cabelo. O jornal. O livro. E a multiplicação de tudo assegurada no ônibus.

Me devolve tudo. Sou eu que acho nojenta a sua superfície sebosa.

Quero lavá-lo. Lavar as mãos. Começar tudo de novo. Pedir desculpas. Errei. Tu erraste. Outros erraram. Temos um trato senhor rato. Apertamos as mãos e está tudo resolvido. O melhor acordo é aquele que o outro é obrigado a aceitar.

Mas não consigo levantar. Essa tarefa me prende. Essa música me apreende. Só mais uma revisão. Só mais uma lida. Será que há crase aqui? Ah, há. É à. Não a. Nem á. Ao consultar me perco na esquina do serviço. Abrir o navegador é sempre uma chance de naufrágio. A maré me leva às mensagens passadas do e-mail. Exploro as novas velharias de facebook. Anuncio filho da puta. Preciso passar isso. Cinco segundos de publicidade é muito tempo na minha idade.

Sou obrigado a levantar. Abaixo as calças. Mijo. Lavo as mãos. A água leva a alma da sujeira.

Volto ao mouse imundo. Bate 18 horas. Vou embora beber.

Amanhã passo um álcool.

O álcool, às vezes, resolve muitos problemas.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Por quê?

- Por que eu? Por que logo comigo? Com a pessoa que mais te ama? Nunca fiz mal pra você. Nunca fiz mal pra ninguém. Pelo contrário, sempre procuro fazer o bem pra todo mundo. Sempre prezei pela amizade dos meus amigos, pelo amor de quem eu amo e pelo bem de qualquer ser humano. Sou prestativa com todos. Sempre estendo a mão. Sempre tô disponível para quem precisar de mim, toda hora. Nunca neguei nada pra ninguém. Sempre fui generosa. Emprestei dinheiro para quem precisou. Emprestei meu carro para quem precisou. Emprestei meu ombro para quem precisou. Dei meu tempo para quem precisou. Nunca me aproximei de ninguém querendo favores. Nunca falei mal de ninguém. Nunca fui mau com ninguém. E é isso que eu recebo em troca. Por quê? Me responde! Por quê?

- Por isso mesmo.




quarta-feira, 3 de junho de 2015

Vá dia

Hoje o mundo acordou pronto para incomodar.

Responsável por depositar o peso das suas nuvens sobre meu universo, minha mulher rouba minha brisa me dando um “bom dia” recheado de insultos. Não fiz nada (homens nunca fazem nada), mas ela acredita que a culpa pelo chuveiro ter estragado é minha. Jorra na minha cara que não sou homem nem para consertar um chuveiro.

Tento explicar que não sei fazer isso, sou um intelectual que não se dedica aos problemas práticos da vida. A vida, então, se vinga de mim na prática.

O motorista do ônibus, que atrasa muitas outras pessoas, atrasa também a mim, mas sou egoísta o bastante para crer que é tudo comigo.

Na empresa tenho a breve sensação de que tudo irá melhorar com o término das minhas tarefas. Mas elas regurgitam. Meu chefe, que tem a função diária de tornar meu mundo pior, hoje exerceu seu papel com maestria. Não só criticou toda a execução dos meus deveres como também me humilhou. Me ironizou em frente aos colegas. Ajuizado, baixo a cabeça. Preciso do emprego, preciso do dinheiro.

O mundo, mais uma vez, me tornou mundano, rancoroso, odioso e odiante.

No meio da reexecução do serviço recebo ligações. Cobranças bancárias. Logo lembro que preciso pagar a escola do meu filho, a conta de água, a conta de luz e várias outras coisas incontáveis.

Passo o tempo pensando quanto tempo falta para se encerrar o meu tempo. Depois disso estou livre para me sentir esgotado e não fazer mais nada.

Encontro uma saída para descarregar todos os septilhões de quilos que o mundo depositou sobre minhas costas. Entrego-me ao alcoolismo, escondendo meus problemas dentro de outro maior.

Sem companhia, tomo o primeiro gole e falo com o mundo.

- Hoje você tava pesado hein!?

- Eu tenho sempre o mesmo peso. Você que tá fora da forma.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Autobiografia da timidez

Guylherme Custódio e eu nascemos juntos. No dia 16 de janeiro de 87 na janela do apartamento 26 da maternidade Nossa Senhora de Fátima às 3h45 da madrugada não se ouviu uma criança chorar. Eu não deixei ele chamar atenção de ninguém.

Depois ele foi crescendo, crescendo,crescendo,crescendo,crescendo,crescendo e crescendo.

Em uma dessas vezes em que ele crescia (em algum sentido ele nunca para de fazer isso) o malandro aprendeu a me esconder.

Ele sabe que existo e quando conta ninguém acredita. Mas ele não me renega.

Como sabe que vivo nele e que sou um perigo eminente, adotou uma postura toda espalhafatosa para me ocultar. Acabo não aparecendo atrás daquele tamanho, daquele cabelo e daquele desengonço.

Mesmo sendo um curitibano típico, ele me disfarça.

É educado com outros, sorri, cumprimenta porteiro, caixa de mercado, cobrador, faxineira e todo mundo que merece ser cumprimentado.

Só com vizinho eu ganho a disputa. Ele pega o ônibus todo dia com as mesmas pessoas e não dá nem um oi. Diz ele que faz isso por que gosta de usar o seu direito curitibano de não falar com ninguém, mas no fundo eu sei que é mais uma vitória minha.

A tática dele para me vencer é não se levar a sério. Mas um dia eu ganhei de goleada.

O seu Canuto, pai dele, era meu aliado. Se encarregava de contar a minha história e deixá-lo mais envergonhado. Como seu Canuto se foi há 10 anos, então me encarrego de contar agora:

Quando ele era pequeno eu era maior que ele. Um dia o Guylherme foi comemorar o aniversário dele lá no Mato Grosso do Sul, com os parentes paternos.

A festa foi bonita. Fiz uma coisa que faço até hoje, ao menos uma vez por ano: deixar ele sem jeito quando cantam parabéns pra você.

Mas isso não foi nada em vista do que fiz aquele dia. Ele mesmo confessou.

Voltando para Curitiba, seu Canuto perguntou o que ele tinha achado do aniversário. Tímido por falar com o próprio pai, ele reconheceu a minha glória:

- E aí? Gostou da festa?

- Eu não comi nenhum pedaço de bolo.

- Ué, e por que não?

- Você não me ofereceu...

Seu Canuto deu risada. Eu, sem nenhuma timidez, rio até hoje.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Televisão

Acabo de fazer a melhor aquisição da minha vida.

Comprei uma televisão.

Para vocês eu sei que pode parecer que foi muito dinheiro, mas não foi. A utilidade dela faz valer cada um dos seus 89.999 reais. Ao longo dos próximos 10 meses vou desembolsar R$ 8.999,90.

A minha nova televisão, que vem para substituir aquela que tinha Vídeo Cassete integrado, tem 85 polegadas. Posso assistir em uma tela de cinema as notícias de que manifestantes pedem a intervenção militar no Brasil. É uma maravilha ouvir por meio de um sistema de áudio de 120W e alto-falantes Sub-Woofer que pessoas se manifestam pelo direito de ser torturadas e mortas caso queiram se manifestar novamente.

Com a resolução Ultra HD 4k posso ver com completa nitidez que de uma certa maneira esse tipo de intervenção já existe. O pedreiro Amarildo não pode.

Se canso de assistir tv posso me conectar à internet. Com seu Wi-Fi integrado posso acessar as redes sociais e ver postagens pedindo a separação do país e críticas aos programas sociais do governo. O pessoal que faz isso não tem uma tv igual a minha. Se tivesse, talvez criticasse com a mesma força o poder judiciário, que aprovou uma gorjeta de 4,4 mil mensais para cada magistrado em nome de um auxílio-moradia.

Falta muita informação quando não se tem uma tv como a minha. Mas, felizmente, com esse aumento os juízes poderão ter mais dinheiro, ir a Miami comprar ternos e talvez ter um aparelho como o meu. Por que, cá entre nós, essa é uma coisa que todo mundo tem que ter. Comida não.

Para relaxar um pouco desses assuntos chatos eu assisto o meu esporte favorito. O eletrônico é perfeito para mim (pra quem não seria né!?). Ele conta com o Modo Futebol, que torna suas configurações perfeitas para assistir jogos em que torcedores xingam jogadores de macaco.

Na minha tv milhares de imagens se sobrepõe. É receita em cima de notícia, notícia em cima de dinheiro, dinheiro em cima de celebridades, celebridades em cima de humor, humor em cima de preconceito. É tanta imagem que às vezes não consigo conectar as coisas, como política e falta de água. Mas o que realmente importa é que minha tv tem 4 conexões HDMI e 3 USB.

O jornal local fica uma maravilha na minha tela, que converte a imagem em UHD independentemente do sinal. Ali, ou aqui, vejo os haitianos sofrendo preconceito e xenofobia na nossa bela capital, construída por imigrantes assim como a minha tevê, desenvolvida por uma empresa coreana.

O retrocesso da humanidade fica lindo na minha TV. Compre uma você também!

terça-feira, 8 de julho de 2014

Diário de Bordo- “Oportinidades”

Há dias em que adiamos os dias.
Há dias em que os dias se vão.
Há dias que se tornam vãos.

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A caravana da Família Pitanguá já passou, até agora, por Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e agora estamos em Alagoas. Ficamos ao menos um dia nas capitais e também visitamos outros municípios, todos distantes da nossa fria Curitiba.

Eu, particularmente, jamais havia visitado os locais pelos quais passamos em menos de um mês. Conhecer essas localidades, seus habitantes, suas praias e seus atrativos é uma das principais partes do nosso legado particular da Copa do Mundo.

Quando essa estória começou, tudo parecia brincadeira ou mais uma ideia maluca do Michel (o Michel é bom em ter ideias mirabolantes que ninguém jamais teria e que, frequentemente, dão certo). Para tornar possível essa jornada se passaram quatro anos, ou seja, foram 1.460 dias planejando esses 30 dias que irão durar para sempre.

Passado este período voltarão as namoradas, o trabalho, os outros amigos, as famílias, as contas, os estudos, os horários, mas nós não voltaremos os mesmos.

O Teta e o Mimi, os integrantes que, até agora, têm filhos, poderão apontar o mapa e dizer para os seus bacuri que, com oito amigos, foram para todos estes pontos longínquos desse continente em forma de país.

A oportunidade de viver tudo isso é única. Conhecer diversos locais tendo como pano de fundo a Copa do Mundo em nosso país é como um anúncio de loja que diz que “é só amanhã”. A diferença é que, às vezes, é você mesmo que deve criar suas ofertas.

Um atacante com a bola de frente para o gol não pode chutar para fora. Às vezes as chances retornam, mas a oportunidade de viver é única. VIVA!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Diário de Bordo- O diamante da chapada

Nossa viagem fez uma escala saindo de Brasília e partindo para Salvador. Já estava planejado parar na Chapada Diamantina para aproveitar a oportunidade, já que passaríamos muito perto dali e tínhamos tempo disponível. O que era para ser uma simples escala se tornou uma das importantes partes da viagem.

Nessa jornada já passamos por locais totalmente diferentes. Conhecemos Brasília, a cidade projetada por Niemeyer, e apenas alguns dias depois estávamos deitados em cima de uma pedra para poder ver o final de uma cachoeira de aproximadamente 400 metros de queda.

Ali em Palmeiras, um dos municípios que cerca a chapada, o que se prometia era a natureza, em contraponto aos estádios cheios de concreto que já conhecemos.

Em nosso primeiro dia ali fomos conhecer o Rio Pratinha e a Gruta Azul, belezas naturais que pertencem a uma propriedade particular e que, portanto, cobra entrada e tudo mais que puder ser cobrado lá dentro. Na gruta azul a luz do sol passa por uma fresta entre 14h e 15h e ao encontrar a água a deixa...azul. Você pode desfrutar de toda essa beleza pelo tempo de duração de uma foto, uma vez que a fila de turistas lhe aguarda para fazer o mesmo. Apreciar a paisagem? Pra quê? Tire uma foto sorrindo e poste no Facebook o quanto antes.

No Rio Pratinha havia a possibilidade de mergulho de superfície, que não fizemos, mas aproveitamos para tomar um banho e se divertir, afinal, tomar banho de rio é sempre bom, mesmo que se pague entrada para isso.

A grande descoberta deste primeiro dia foi a farofa de dendê. O almoço demorado e em pequenas quantidades teria sido muito frustrante não fosse a farofa. Poderíamos ter pedido só ela, inclusive. Feita com azeite de dendê, a farofa, diferentemente das convencionais, não é seca, o que faz com que ela possa ser comida isoladamente ou até com alimentos que geralmente não acompanham farofa, como salada ou até mesmo cerveja, como o Negs fez.

Na manhã seguinte fomos conhecer uma cachoeira que fica dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Conhecê-la custa caro. Você deve pagar 6 Km de caminhada com um desnível de 350 metros que é feito em aproximadamente 2h na ida. Mas não se iluda pensando que a volta será menos exaustiva e que para baixo todo santo ajuda. O que as costas e coxas sofrem na ida o joelho sofre na volta. Mas não desista. Vale a pena. Todo o esforço é pago com a paisagem oferecida pela cachoeira da fumaça, que tem esse nome por que o vento vindo debaixo sopra a água para cima e, por vezes, não chega a encostar o rio lá embaixo.

Uma dica importante: Não se perca. Caso contrário sua caminhada e exaustão serão ainda maiores e você deixará seu guia baiano desesperado e emitindo apenas uma palavra: “raaapaaaaaaaaaaz”.

Mas a cidade de Palmeiras tem ainda outro atrativo da natureza. A natureza humana. Na praça em frente à Câmara Municipal um vigia da prefeitura chamado Dadá fica por ali fazendo a ronda todos os dias das 20 às 24h. Puxe um papo qualquer e verá o quanto a humildade é encantadora.

Dadá é nascido e criado em Palmeiras. Trabalhou na época da exploração de diamantes, chegou até a ter um garimpo, quando a atividade já estava em decadência, mas a maior parte do período passou trabalhando em bares, restaurantes e panificadoras.

Segundo Dadá a cachoeira da fumaça vale a pena ser vista, embora ele não encontre muita graça. “Você sobe tudo aquilo e quando chega lá em cima vê só aquele buracão enorme, que você nem pode chegar muito perto”. A presença de seres extraterrestres no local também não é muito frequente, segundo ele. “Não vêm muito aqui não. Só de vez em quando”.

Desde as coisas mais simples às mais complexas da vida podem chegar ao papo e ele, com sua paciência, sua fala mansa e seu dialeto macio vai tratar dos assuntos de uma forma que torna até a descrição da rotina de um restaurante o tema mais interessante do mundo.

Conversar com Dadá te dá um dos maiores diamantes que a chapada pode lhe oferecer. O ser humano ainda é bonito.

sábado, 21 de junho de 2014

Diário de Bordo- Com vivência

Conviver diariamente com 9 pessoas por um período de 34 dias é difícil. Por mais que sejamos amigos de longa data (desde “pequenininho”, diria o Michel), ainda assim olhar para as mesmas caras dos mesmos caras é algo caro.

Sempre nos demos bem, por isso mesmo nossa amizade é tão duradoura, mas sempre tivemos a opção de não nos ver e todos têm sua própria família.

De certa forma todos nos conhecemos. Sabemos um do outro as manias, os costumes, os sonhos, os jeitos, os vícios e virtudes.

Somos todos diferentes, por que cada pessoa é um universo, mas também somos todos iguais e gostamos das mesmas coisas: gostamos uns dos outros.

Pela correria de cada um a frequência com que nos vemos, por vezes, não é muito frequente. O trabalho, os estudos e todas as outras obrigações acabam fazendo com que pessoas que se amam às vezes estejam afastadas e pessoas que, talvez não se gostem estejam em contato direto todos os dias.

Em nossa viagem não cumprimos os papéis sociais que cumprimos geralmente. Não precisamos ir trabalhar, não voltamos para casa ao final do dia. Nesse período somos somente amigos, irmãos, pais e filhos uns dos outros.

Aqui, com a obrigação da convivência temos tempo para viver as coisas pequenas. Um sorriso, um obrigado, uma conversa, uma(s) bebida(s), um cigarro...Aprendemos um com o outro como jogar poker, cortar tomate e, principalmente, como é ser amigo.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Diário de Bordo- Homens e Mulheres

Somos 10 homens. E todo mundo que conhece pelo menos um homem sabe como somos. Homens são simples. Homens são sentimentais, apesar de não demonstrarem isso, afinal todos devem manter sua aparência de homem. E mesmo entre amigos as aparências devem ser sustentadas.

Aqui em nossa jornada todos têm alguém. Todos têm compromissos com namoradas ou esposas. Até mesmo aqueles considerados solteiros têm alguém com quem se preocupar e alguém que se preocupe com ele.

Embora estejamos todos sempre juntos se divertindo e, por meio de piadas, mantendo a presença de Carlos Alberto de Nóbrega conosco, em algum momento um dos homens se desgarra do grupo e fica sozinho em um canto. É nesse momento em que ele pode demonstrar como realmente é.

Sempre com o telefone na mão o homem utiliza os diversos recursos de comunicação para matar um pouco da saudade de sua pequena e dizer como está por dentro. É o momento do homem macho mostrar que tem seus sentimentos e que não é como realmente aparenta.

Falando baixo ele se permite gritar o que há dentro do seu peito sussurrando frases como “estou com saudade” e “eu te amo”.

Além da falta emocional que fazem as devidas senhoras há ainda o desejo físico, a vontade de matar a saudade carnal. Para aliviar toda essa tensão há também um local específico para isso...

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  IIIIIIIIIIIIIIII
   !!!!!!!!
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      iiiiiii
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quinta-feira, 29 de maio de 2014

A ocasião...

Não a vi direito quando foi.

Só vi passando em minha frente quando soltava a fumaça.

Tenho um certo ritual mecanizado para fumar. Seguro o cigarro com a ponta dos dedos indicador e médio da mão direita. Levo-o à boca no canto esquerdo. Há quem diga que tenho uma marca nos lábios em que o cigarro se encaixa. Quando puxo a fumaça o solto dos dedos e quando termino a aspiração o filtro volta ao seu local inicial. Depois do trago a fumaça sai pelo canto direito.

Foi nesse momento que passou e me viu.

Deu mais uns passos e voltou. Me perguntou se poderia falar uma coisa e, como nem sempre gosto de ouvir coisas, respondi que “talvez”.

Falava apressada e demonstrava certo desespero.


- Eu não vou mentir pra você (logo, pressupõe-se que para outra pessoa ela mentiria) eu faço programa e moro aqui perto. Ontem não consegui fazer nenhum programa (talvez a culpa seja do frio de Curitiba) e não tenho dinheiro nem para almoçar (já era magra por ser magra e sem almoçar ficaria ainda mais magra).

Não era bonita, como a Malu Mader, mas também não era nenhuma Ingrid Guimarães. Estava mais próxima da Silvia Pfeifer.

- Eu não sou daqui. Sou de Paranavaí e sem dinheiro para comer não consigo fazer nada (e sem fazer nada ficaria com menos dinheiro e faria mais nada e comeria menos e....dízima periódica). Tô tentando arrumar dinheiro para pegar uma marmita pra comer. Cê pode me ajudar?

Poderia me aproveitar da situação e propor uma troca da carne pela carne. Eis a minha oportunidade de ganhar algo com a injustiça social. É isso que os vencedores fazem.

Segurando o cigarro com a boca peguei na carteira todas minhas moedas (a economia da rua se baseia em moedas). Em sua mão minhas moedas se juntaram a outras amigas moedas e uma nota de dois reais.

Depois de agradecer ela se foi de novo.

Pensei que com dois reais ela já poderia comer. Dois reais compram uma coxinha, especialmente aqui na região do terminal do Guadalupe onde a gastronomia está longe de ser gourmet. Mas talvez sua fome precisasse de mais que uma coxinha.

O seu desespero, sua fala rápida e sua magreza poderiam mostrar a necessidade por pedra e não pelo que relatou.

Me comoveu a moça.

Sua narrativa e interpretação levaram meu dinheiro. Não sei pra onde.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O ex-poeta

O poeta já não mais poetisa.

Sua esperança morreu e não foi a última, sobrou seu corpo, como testemunha.

Agora virou trabalhador. Anda de carro, bate cartão, não conversa, não olha pela janela, não divaga, não ri e não chora.

Seu olhar poético embaçou. Seu coração empedreceu. Robotizou-se. Desensibilizou-se.

Ele agora só vai. Segue um caminho reto, sem desvios, sem emoções, sem desafios. Não sabe aonde quer chegar. Segue um rumo que o guia na certeza do nada.

Em sua jornada de zumbi o ex-poeta às vezes avista a alma penada da sua esperança, que some assim como seus sonhos.

Antes usada para celebrar, a bebida perdeu seu sentido. Não há nem lamentação e a ressaca já não faz sua parte. Não tem mais mágoas para afogar. Ex-poetas não tem mágoas.

O ex-poeta não tem motivos para viver, para morrer ou para escr

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Olho Mágico

Pela grande janela que dava para a rua Dona Leocádia viu as três novas moradoras chegando animadas. O tempo não tinha levado sua atenta visão e audição.

Saiam do táxi cheias de malas. Vinham para ficar.

Dona Leocádia conhecera todos os moradores que passaram pelo prédio. Com a chegada tinha três bons motivos para continuar viva. Eram três vidas para futricar e espalhar.

Estava lá desde que os curitibanos começaram a se empilhar uns em cima dos outros. Mudou-se depois de ter casado com seu Roberto, um militar marido, e ali passaram a lua de mel. Foi uma das primeiras a experimentar a sensação de morar no alto e ver de cima o desenvolvimento da capital e a degradação do ser humano. 

Com o tempo passou a não se contentar mais em ter esse olhar superior. Preferia olhar para todos os lados possíveis. Quanto mais o tempo passava mais olhava para dentro do prédio e da vida de seus habitantes.

As pessoas de fora já não tinham mais graça nem graciosidade. O centro passou a ser apenas uma passagem. Quando escurece é a parte da cidade que sobra para aqueles que não têm para onde ir e vira um ponto de vendas para os comerciantes da calada. 

Em uma noite de observação quase teve um ataque cardíaco ao ver um rapaz sendo assaltado. Chamou a polícia, que chegou meia-hora depois, quando os bens do garoto já tinham virado fumaça.

Na última vez que viu a polícia por ali eram eles que roubavam um menino. E batiam. Aprovou a atitude dos guardas, até mesmo por que naquele lugar, naquela hora, pessoas boas não ficavam.

Alguns dias depois ouviu no rádio que o corpo de um menino fora encontrado em um matagal na região metropolitana. A reportagem disse que o adolescente fora pego pelos policiais ali na sua rua, na frente do seu prédio. O locutor disse que o jovem estava fumando maconha. Aprovou ainda mais a atitude dos homens da lei. Maconheiro tem que morrer mesmo.

Agora olhava pela janela só por que sabia que as meninas chegariam. Teve a honra de recepcioná-las. O proprietário do apartamento deixou a chave com ela. Ele não ia muito lá. Depois de cinco anos como morador decidiu alugar o imóvel. Não aguentou viver no centro. Muito barulho, muito grito, muito tiro.

Assim como a população da classe alta e a prefeitura, ele abandonou o centro. O vizinho foi se avizinhar lá pros arredores da cidade. Foi morar em um condomínio seguro e luxuoso, que embora tivesse uma favela ao lado, não o atrapalhava. Um alto muro garantia que sua visão se direcionasse apenas para o condomínio.

A alegria das meninas era visível lá de cima, mas fecharam a cara quando Dona Leocádia as cumprimentou. Mesmo na sua presença conversavam somente entre si.

Chegando ao apartamento não a convidaram para entrar e fecharam a porta. Ela ainda ouviu quando trancaram-se.

Aquilo era um ultraje. Como alguém chega ao seu prédio, nos seus domínios, sem que se apresentasse a ela? Sem lhe pedir nenhuma ajuda. Nenhuma informação.

Por trás da porta Dona Leocádia ouvia risadas frequentemente. Quando percebia que iriam sair logo saia também, para promover um ocasional encontro, mas nunca conseguiu uma conversa.

Um rápido “Oi, tudo bem?” era o máximo. E saiam apressadas. Nem a ajudavam a descer as escadas. Ainda bem, pois não iria sair mesmo. Quando percebia que já tinham saído do prédio voltava para o seu apartamento.

Sem as meninas em casa não tinha muita ocupação. Lá dentro sentia o vazio.

Com o passar de um mês ainda não descobrira nada sobre as meninas e decidiu que somente escutar já não bastava. Precisava ver. Mandou colocar um olho mágico.

Aquele desconhecimento a agoniava profundamente. Não sabia nem mesmo o nome delas. O prédio não tinha nem porteiro para poder se informar. Decidiu então buscar com os outros moradores.

Dispensou um dia de observação para fazer visitas. Andou pelo prédio inteiro conversando de maneira amena, despretensiosa. Subiu e desceu escadas, bateu em todas as portas e a única coisa que descobriu era que as garotas diziam ser universitárias.

Elas não saíam muito, mas pareciam ter muitos amigos. Recebiam muita gente, mas nem iam até a porta recepcionar. As visitas eram geralmente masculinas e ficavam lá por uma hora, de acordo com o cronômetro de Dona Leocádia.

Não saber nada era uma tortura e aquelas risadas eram atos de requinte. Não entendia como ficavam o dia inteiro em casa, embora ela fizesse o mesmo.

Saíam somente nos finais de semana. Um carro preto as esperava na noite de sexta-feira e as devolvia para Dona Leocádia na segunda-feira pela manhã. 

Com o passar dos meses ela foi ficando doente. Suas costas doíam cada vez mais por ficar tanto tempo em pé tentando ver e ouvir algo. Em algumas ocasiões esquecia-se de tomar os remédios e se segurava ao máximo para comer e ir ao banheiro. Às vezes fazia ali mesmo para não deixar de espiar.

Em uma noite de quarta-feira um homem foi visitá-las. Entrou sozinho e saiu dali 15 minutos.

Na manhã seguinte, quando a polícia e a reportagem perguntaram, Dona Leocádia disse que estava dormindo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Um estranho ninho

Sua simples presença era um evento. Quando passavam por ele cutucavam-se e o apontavam com os olhos e o nariz. As crianças puxavam a barra do vestido ou da calça de seus responsáveis para saber o que aquele rapaz fazia ali.

O olhavam como se fosse de outro mundo, mas estava em outro mundo apenas temporariamente. Ele não se importava com o que acontecia ao seu redor.

Estava tão concentrado que não olhava para os outros e nem para si. Não percebia sua própria aparência. Cabelo desgrenhado, bermuda, chinelo e uma camisa ex-branca. Era uma afronta estar trajado daquela forma em um local com pessoas vestidas casualmente embonecadas.

Não bastava estar daquele jeito. Ele ainda tinha um livro. Deveria estar na praça em frente ao shopping, no espaço público que abriga aqueles que não tem espaço privado. Não podia estar ali, no meio do templo do consumo sem nada consumir. E lendo.

“Tem um rapaz lendo na praça de alimentação”. Em instantes o boato correu o shopping inteiro. Até pessoas de fora entravam para ver aquilo. Em pleno dia de jogo e ele ali, com um livro.

E era um livro de verdade, sem tela. De papel como aqueles de antigamente.

Após uma hora a novidade já esfriava. Alguns já se conformavam. “É um louco”.

Ele então se espreguiça e coloca uma mão em cada bolso. De um retira um cigarro e do outro um isqueiro. Acende e antes de dar o primeiro trago surge um segurança.

Com tantos olhos e celulares em volta o segurança, com esforço, é obrigado a usar a educação. Pede que apague aquilo e em voz alta o questiona:

- Você não viu o aviso bem na sua frente?

A resposta faz com que todos suspirem aliviados.

- Desculpa senhor. Não sei ler.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Tenha 15 com corpinho de 25. Pergunte-me como.

Sou um menino. Não passo de um simples menino de 25 anos que ainda age como tivesse 15.

Vivo sem motivações ou ambições.

Em escala maior, continuo fumando e bebendo. Não preciso comprar o cigarro mais barato e nem me esconder no meio do mato para fumar. Já sanei minha curiosidade pelo vinho, mas continuo bebendo (a mesma marca inclusive).

A diferença é que preciso pagar do meu bolso esse cigarro e esse vinho. Na verdade costumo marcar na conta, mas às vezes a véia me olha com cara de mau, aí sou obrigado a pagar.

Para ter esse dinheiro bato cartão em um dos muitos shoppings que habitam a capital ecológica. Quando perguntam o que faço, digo que trabalho “no setor administrativo-financeiro do ramo artístico”, o que se resume à apenas uma palavra: bilheteiro.

Com o que ganho pago mais ou menos o que consumo. Mas acho que se ganhasse mais não ia mudar muita coisa. Ia gastar mais ainda.

Acho que não preciso de muito para ser feliz. As pequenas coisas que me deixavam feliz aos 15 continuam as mesmas: ver o meu time ganhar, por exemplo.

O meu visual continua o mesmo. O cabelo que deixei crescer para tirar onda continua grande e já virou identidade. Dia desses vi uma foto antiga em que estava com uma camisa que ainda uso. E serve. Acho que ela cresceu junto comigo.

Como um menino, vivo por aí na rua com outros meninos. Ficamos sem fazer nada, só conversando e tomando coca. Às vezes nos reunimos também para jogar videogame. A tecnologia avançou, mas o ritual e a amizade continuam do mesmo jeito.

Como um menino, escrevo meus pensamentos e mais algumas histórias em um caderno. Depois coloco isso em um caderno virtual e espero que outras pessoas leiam.

Sonho que um dia eu possa colocar os meus pensamentos e histórias num outro tipo de caderno, com o meu nome na capa. Aí quem sabe eu não precise mais bater o cartão.

Que sonho de menino!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Aos amigos

“Quanto tempo”, “Que saudades”, “Por onde anda?”. Tenho ouvido bastante isso. Ouço de quem não deveria ouvir, de quem era próximo e deveria continuar sendo.

Com um sorriso meio sem graça respondo: “Tô trabalhando”. Curioso né? Se afastar para “ganhar” a vida. Proporcionalmente quanto mais trabalho mais me afasto. Aniversários, casamentos e até o tempo sem fazer nada. O tempo passa e não estou vendo. Enquanto deveria viver, vendo meu tempo.

Será que a vida adulta é isso? Viver à venda.

Queria manter todos sempre juntos. Os amigos de hoje e os de ontem, aqueles que você lembra e nem sabe por que se afastou.

Será que é uma justificativa? Será que não há a possibilidade de se ver, ligar, mandar um e-mail, uma carta? Carta não ia dar mesmo, por que o correio está em greve, mas será que é tão difícil cumprir o “vamos marcar uma qualquer hora”? No final somos todos culpados.

Tenho saudades, mas o amor é maior que a saudades.