Mostrando postagens com marcador Amizade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amizade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Cadernos, álbuns, memórias e amores

Preciso de espaço para novas coisas velhas.

Guardo muita coisa.

Outras, carrego.

A mochila, eterna companheira, estará mais vazia neste ano. Depois do longo período levando um caderno universitário, decidi usar algo menor. Um bloco, talvez.

O volume de 2017 vai para o armário com os demais. E são papéis demais.

Pela falta de espaço, decidi me livrar dos dois mais antigos.

Um deles tem Gustavo Kuerten na capa e alguns adesivos. Internamente, pichações e recados:

“Fogo, você é minha vida kra!!! T. amu muito + do que você imagina, gostosão! Ass: Ka. B.jus”
(Ka: você era muito irônica).

“Guy te amo!! Dany”
(Dany: você me excluiu do Facebook).

“Guy: Te amo! Beijocas da Moni”.
“Cutty: Te amo. Beijocas da Moni”.
“Cuty T. amo muito! Beijocas da Moni”.

(Moni: Acho que você me amava mesmo, né? Desculpa por não ter correspondido. Eu era um babaca. Ainda sou. A diferença é que antes eu era um babaca inexperiente. Agora sou um babaca cheio de experiência em ser babaca).

Aparentemente, enquanto Moni me amava, eu amava outras coisas.

Assim como o tempo faz com as pessoas, as anotações escolares foram arrancadas. No caderno há apenas escritos pessoais. Letras de rap jamais gravadas. Objetivos não concretizados. Se eu tivesse continuado...não continuei. Na vida nada continua.

No final, há manuscritos de poemas da minha primeira publicação, um concurso literário voltado aos alunos da universidade. Talvez o propósito de ser mc tenha sido substituído pelo de ser escritor. Nenhum dos dois deu certo.

O outro companheiro esteve comigo por mais tempo e é o que mais precisa ir pro lixo. Até hoje não me serviu para aprender inglês. Ele também não cumpre seus desígnios.

Nele, mais pichações, especialmente de um amigo que assina como “Lee”. Ao contrário de mim, Lee gostava bastante do meu caderno.

Há ainda endereços de fotologs e mais recados:

“Oi! Fogo. Td bom? Bjão Karol”

“Fogo: A Ká t ama muito. C cuida não deixa nenhuma mulher te fazer vc de trouxa tá. Kari”

“Fogo -> bju Belle.
Ah! Quero uma festa...
Te adoro!”

“Fogo te adoro bjus...Priscila”


O último recado talvez represente o amor verdadeiro:

“Fogo vc é um bostinha + eu ti aminhu!! Bjus da Vê. 18/04/05”

Fiquei feliz por ter sido amado apesar dos defeitos. Ainda assim, essas palavras serão descartadas.

Continuarão as roupas e os álbuns.

Um deles é o da minha mãe. Nele, logo no começo, estão fotos do casamento que ela fez sozinha. Meu pai foi omitido. Recortado.

Depois, variados instantes se encontram fora de ordem. Diferentes momentos e penteados se misturam.

Há registros em família, no trabalho, na faculdade. Ela aparece sempre bonita.

Em uma das fotografias, ela sorri com a perna quebrada. Eu lembro do acidente. Minha vó saiu e a deixou trancada no quarto para que não fosse comprar mais bebida. A solução foi pular pela janela do sobrado. Não era um momento feliz. Fotografias são mentirosas.

Na última página, em um recorte de jornal, meu pai reaparece:

Missa do 1º mês de falecimento.
Márcia, Guylherme e Jaqueline, convidam amigos para a missa de Canuto José Custódio Neto a realizar-se na Igreja Matriz de Santa Felicidade na Av. Manoel Ribas, 6252, dia 28 de dezembro, quarta-feira, às 19h.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Eterna companhia

Quando criança não sabia o quanto era importante para mim. Minha mãe não me ensinou, mas a vida sim. Tive que apanhar muito e aprender sozinho que não posso viver sozinho.

Nosso relacionamento foi como um rolo que você vai enrolando, enrolando, enrolando e termina em casamento.

Conhecemos juntos as cores. O amarelo, o verde e até o vermelho. Mas nossa relação é, na maioria das vezes, transparente.

Não amo, mas dependo. É uma doença. Não consigo me livrar. Faz parte de mim. Me desespero só de pensar no fim.

Na dúvida, estou sempre prevenido.

Tenho companhia no ônibus, no carro, na firma e, acima de tudo, no quarto. Com a cama fria ou quente, sempre está lá à minha espera.

Alguns estranham, pensam que utilizo para fins escusos.

Estará sempre comigo (?)!

Divórcio? Não consigo.

Parece exagero, mas acredite, não há como viver em Curitiba, tendo renite, e não carregar papel higiênico.

sábado, 21 de junho de 2014

Diário de Bordo- Com vivência

Conviver diariamente com 9 pessoas por um período de 34 dias é difícil. Por mais que sejamos amigos de longa data (desde “pequenininho”, diria o Michel), ainda assim olhar para as mesmas caras dos mesmos caras é algo caro.

Sempre nos demos bem, por isso mesmo nossa amizade é tão duradoura, mas sempre tivemos a opção de não nos ver e todos têm sua própria família.

De certa forma todos nos conhecemos. Sabemos um do outro as manias, os costumes, os sonhos, os jeitos, os vícios e virtudes.

Somos todos diferentes, por que cada pessoa é um universo, mas também somos todos iguais e gostamos das mesmas coisas: gostamos uns dos outros.

Pela correria de cada um a frequência com que nos vemos, por vezes, não é muito frequente. O trabalho, os estudos e todas as outras obrigações acabam fazendo com que pessoas que se amam às vezes estejam afastadas e pessoas que, talvez não se gostem estejam em contato direto todos os dias.

Em nossa viagem não cumprimos os papéis sociais que cumprimos geralmente. Não precisamos ir trabalhar, não voltamos para casa ao final do dia. Nesse período somos somente amigos, irmãos, pais e filhos uns dos outros.

Aqui, com a obrigação da convivência temos tempo para viver as coisas pequenas. Um sorriso, um obrigado, uma conversa, uma(s) bebida(s), um cigarro...Aprendemos um com o outro como jogar poker, cortar tomate e, principalmente, como é ser amigo.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Diário de Bordo - A Copa do Mundo é nossa

A seleção brasileira pode perder a copa. O Brasil pode perder, e já perdeu, com a corrupção. Mas nós já ganhamos com a Copa do mundo.

Eu ganhei. Mimi ganhou. Gordo ganhou. Rafaelzinho ganhou. Gui ganhou. Guile ganhou. Negs ganhou. Michel ganhou. Teta ganhou. Ganhamos.

Ganhamos com a aproximação ainda maior da nossa amizade. Ganhamos novos amigos (até argentinos). Ganhamos diversão. Ganhamos mais estórias. Ganhamos a vivência que levaremos para o resto de nossas vidas.

A bordo de um Motorhome estamos percorrendo o país para acompanhar a copa do mundo, seus jogos, sua alegria, sua empolgação, seus turistas e toda a emoção que envolve o maior evento esportivo do mundo.

Nossa primeira parada foi no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa. Na fan fest de COPAcabana cantamos o hino entoado por milhares de vozes em todo o país que mostraram que mesmo quando a música “acaba” o sentimento continua. Cantamos com a mesma emoção dos nossos 11 representantes na zona leste de São Paulo.

Acompanhamos a decepção pelo gol de Marcelovick, mas mantivemos a esperança que nos trouxe até aqui. Continuamos acreditando e acompanhando o jogo, menos o Mimi, que encontrou outra atividade mais divertida: ver a cara de bobo dos nossos amigos argentinos.

Eu, por uma causa ainda desconhecida, não estava bebendo nesse dia. Estranhamente estava doente, com uma dor de cabeça, sono, um certo enjôo e uma sede incontrolável.

Os demais, mantendo o nível alcoólico dentro do estimado, viram Neymar fazer seus dois gols e a coroação de Oscar. O merecido gol de quem jogou como jogou, de quem soube unir raça e habilidade, de quem teve a mesma sabedoria de Romário e Ronaldo para, em instantes, fazer todos os cálculos possíveis para colocar aquela esfera de 68 cm de circunferência dentro do retângulo de 7,32m por 2,4m no único local onde ela caberia sem a intervenção do goleiro Pletikosa.

Depois da festa, mais um pouco de festa. Hoje, encontramos a sorte de uma sexta-feira 13 e um problema na embreagem da nossa casa-motor coincidiu com um feriado em Nova Iguaçu. A mesma sorte e dificuldade que há em se fazer um gol de bico durante a Copa. O bico de Romário, de Ronaldo e de Oscar, que coincidentemente ou não, ocorreu nos anos em que fomos campeões.

O ônibus está parado em um posto onde assistimos juntos México x Camarões. O plano era ir à Fan Fest ver Espanha e Holanda. Não sabemos se iremos conseguir, não sabemos como a viagem vai continuar, não sabemos se iremos conseguir chegar a Belo Horizonte amanhã, onde temos um jogo para assistir, mas independente disso continuaremos juntos, tanto no perrengue do ônibus quanto na alegria de acompanhar a copa. Esses 34 dias juntos farão com que a Pitanguá Family se torne cada vez mais uma família.

----

Pequenos aforismos de viagem:

- Se o Romário hoje é deputado o Saulo seria presidente.

- Depois da Copa o Tite vai ser técnico da Seleção.
- Ti, Ti, Ti, Te, Te, Te. Viva Tite.

terça-feira, 5 de março de 2013

É namoro ou amizade?

Eram adolescentes que achavam ser adultos e tinham um coração de criança. Amavam-se do amor mais puro.

Em pleno fervor da adolescência, sedentos pela carne, ainda assim preferiam o amor.

Sem segundas intenções beijavam e abraçavam-se com freqüência. Conversavam pessoalmente, por e-mail, chat, SMS e todas as plataformas disponíveis. O assunto era inesgotável.

Na escola sentavam lado a lado. Por conversarem demais os professores eram obrigados a pedir que ficassem quietos. Para garantir que a aula ocorresse bem, alguns professores colocavam um em cada extremo da sala antes mesmo da aula começar.

Quanto mais juntos ficavam, mais juntos queriam estar. Até a distância os aproximava.

Embora ela quisesse namorar, ele tinha a consciência de que iria estragar aquele amor. A amava tanto que não queria machucá-la. Desde jovem já sabia que os homens sempre machucam as mulheres.

Coube a outro homem machucá-la.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Gato perdido

Perdi meu gato na última semana de dezembro. Estou desesperado!

Ele atende pelo nome de “Gato”. Na tarde em que ele se perdeu mandei que fosse comprar cigarro para nós (um Malboro Light para mim e um Vermelho para ele). Gato é totalmente preto e no dia em que sumiu trajava apenas botas.

Apesar de saber se cuidar muito bem estou muito preocupado com o Gato, afinal, de suas sete vidas ele contabilizava apenas uma no dia de seu sumiço. Além do mais, ele levou meu cartão de crédito.

É comum encontrá-lo pelos bares da região do hemisfério Sul acompanhado de meia-dúzia de gatos pingados que costumam falar alto quando estão miando de bêbados.

Gostaria muito de colocar uma foto dele aqui, mas ele sempre foi tímido e nunca deixou que o fotografassem.

No carnaval dizem tê-lo visto pagando uma cerveja para um gringo no Rio de Janeiro.

Se alguém o ver, por favor, me bipa.

COMPARTILHEM!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Perfeição limitada

Nunca brigavam, parecia ser o casal perfeito. E era.

Jamais foram vistos discutindo ou brigando. Expressões de alegria e demonstrações de carinho eram percebidos de longe.

A lógica era simples, quando não queriam se ver não se viam. Se um dos dois queria ficar sozinho ou com os amigos era só avisar e estava tudo resolvido. Sem crise.

Não existia obrigação alguma. Às vezes ficavam até um mês sem se ver e nem por isso a paixão diminuía, pelo contrário.

Estavam um ano juntos nesse ritmo. Frequentavam a casa e conheciam a família um do outro. Se falavam todos os dias e jamais houve uma traição. Apesar da aparência não namoravam. Nunca houve um pedido, simplesmente foi rolando.

Ele, com sua obsessão pelo formalismo, a pediu em namoro. A aceitação era inevitável.

Inevitável também foi o sentimento de posse que emergiu em ambos. A alegria se foi.

Tudo que é bom um dia acaba.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Doce, por Fernando Mendes

Hoje descobri um novo doce. Por meio de Guylherme Custódio, um amigo em comum entre nós, se não é ainda vai ser, me emprestou um livro (Literatura, pão e poesia. Sérgio Vaz) de um escritor paulistano não por natureza. Guylherme também é escritor, curitibano por natureza. Aliás, me apego muito com seus textos.

Jornalista, escritor e um bom “amante” da vida, se é que me entende. De vez em quando a gente até ama a vida juntos, leitor assíduo de tudo que as letras tornam palavras, também não tinha como ser diferente, né?

Nunca fui muito de ler. De vez em quando leio a Tribuna do Paraná, leio algumas noticias de meu time do coração e às vezes o horóscopo, pra ver se meu signo bate com o dela. Ah já ia me esquecendo das triboladas.

Com o livro que me emprestou e acabei de ler a pouco, achei a poesia que estava procurando, ou não estava, mas achei. Ou ela me achou, sei lá. Uma poesia que fala minha língua, que é o meu mundo, é o que escuto e vejo nas ruas. Rua por onde passo a maioria dos meus dias, trabalhando e muitas vezes não. Na verdade a maioria das vezes não, né Guylherme Custódio? Daqui pra frente chamarei o Guylherme por seu apelido (Fogo). Prefiro assim, é mais bonitinho.

Esse livro tem uma linguagem fácil de ser absorvida por quem nunca lê ou vive em lugares onde a cultura não tem tão fácil acesso. Isso foi o que percebi. Um livro de 184 páginas com histórias de lutas, dores, justiças e injustiças. De pobres, frágeis, de pais e de mães, de escritores, de rapeers e de leitores. Pessoas simples e simples pessoas.

A partir de textos do Fogo comecei a tomar gosto pela literatura, isso faz pouco tempo. Lia aqueles textos e pensava: “como não gosto disso, se é tão bom”.

Preguiça, falta de interesse. Não, é da vagabundagem mesmo. Mas vagabundagem também é uma labuta, pensa que é fácil ficar o dia todo procurando não fazer nada?

Como estava dizendo, os contos do Fogo me enchiam de curiosidade, principalmente quando não entendia nada o que ele queria dizer. Uma vez ele me disse que são os leitores que dizem pelo autor, mas isso já é muito para minha cabeça. Cabeça essa que tá cheia, cheia de vontade de aprender. Aprender a escrever, a lhe aprender, a decifrar a cabeça da mulher que é o amor da minha vida. Calma, ai já é pedir demais, outro dia conto mais sobre isso. Esta história não daria só um texto, daria um livro, um livro bem grosso, daquele tipo a Barça, saca?

Um dia o Fogo me contou sobre uma palestra em que um poeta recitava poemas voltados para a periferia, isso mesmo para a periferia! E para todos os periféricos de poesia.

Uma pessoa que fazia o bem com palavras, palavras bonitas, palavras fortes. Palavras carregadas de esperança. Um mineiro que fez a vida na periferia de São Paulo e que a trouxe junto com ele em páginas brancas com tons de vermelho, vermelho do sangue que escorre na zona sul paulistana, vermelho dos olhos cheios de água de quem o lê.

Um poeta que transformou um bar em biblioteca, para que as pessoas da comunidade fiquem cada vez mais embriagadas, que jovens entrem ali e se percam, que senhoras do lar levem seus maridos carregados para casa. Carregados de cultura, que os jovens se percam entre labirintos de letras e que saiam dali embriagados de esperança.

Assim o Fogo quando chega à distri e me conta sobre aquilo me deixa curioso para conhecer tal obra. Depois de alguns dias me emprestou o livro que comprou daquele escritor. Durante um tempo li aquele livro dia sim, três ou quatro não. Mas terminei hoje. Resolvi então escrever aqui para expressar meu contentamento pelo novo doce que experimentei e que quero me alimentar dele até morrer, de diabetes. Obrigado, Guylherme Fogo Custódio.
---------------

Fernando Mendes (o Feio) é São Brazense, Coxa-Branca, tem 26 anos e gosta das triboladas.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Tenha 15 com corpinho de 25. Pergunte-me como.

Sou um menino. Não passo de um simples menino de 25 anos que ainda age como tivesse 15.

Vivo sem motivações ou ambições.

Em escala maior, continuo fumando e bebendo. Não preciso comprar o cigarro mais barato e nem me esconder no meio do mato para fumar. Já sanei minha curiosidade pelo vinho, mas continuo bebendo (a mesma marca inclusive).

A diferença é que preciso pagar do meu bolso esse cigarro e esse vinho. Na verdade costumo marcar na conta, mas às vezes a véia me olha com cara de mau, aí sou obrigado a pagar.

Para ter esse dinheiro bato cartão em um dos muitos shoppings que habitam a capital ecológica. Quando perguntam o que faço, digo que trabalho “no setor administrativo-financeiro do ramo artístico”, o que se resume à apenas uma palavra: bilheteiro.

Com o que ganho pago mais ou menos o que consumo. Mas acho que se ganhasse mais não ia mudar muita coisa. Ia gastar mais ainda.

Acho que não preciso de muito para ser feliz. As pequenas coisas que me deixavam feliz aos 15 continuam as mesmas: ver o meu time ganhar, por exemplo.

O meu visual continua o mesmo. O cabelo que deixei crescer para tirar onda continua grande e já virou identidade. Dia desses vi uma foto antiga em que estava com uma camisa que ainda uso. E serve. Acho que ela cresceu junto comigo.

Como um menino, vivo por aí na rua com outros meninos. Ficamos sem fazer nada, só conversando e tomando coca. Às vezes nos reunimos também para jogar videogame. A tecnologia avançou, mas o ritual e a amizade continuam do mesmo jeito.

Como um menino, escrevo meus pensamentos e mais algumas histórias em um caderno. Depois coloco isso em um caderno virtual e espero que outras pessoas leiam.

Sonho que um dia eu possa colocar os meus pensamentos e histórias num outro tipo de caderno, com o meu nome na capa. Aí quem sabe eu não precise mais bater o cartão.

Que sonho de menino!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Aos amigos

“Quanto tempo”, “Que saudades”, “Por onde anda?”. Tenho ouvido bastante isso. Ouço de quem não deveria ouvir, de quem era próximo e deveria continuar sendo.

Com um sorriso meio sem graça respondo: “Tô trabalhando”. Curioso né? Se afastar para “ganhar” a vida. Proporcionalmente quanto mais trabalho mais me afasto. Aniversários, casamentos e até o tempo sem fazer nada. O tempo passa e não estou vendo. Enquanto deveria viver, vendo meu tempo.

Será que a vida adulta é isso? Viver à venda.

Queria manter todos sempre juntos. Os amigos de hoje e os de ontem, aqueles que você lembra e nem sabe por que se afastou.

Será que é uma justificativa? Será que não há a possibilidade de se ver, ligar, mandar um e-mail, uma carta? Carta não ia dar mesmo, por que o correio está em greve, mas será que é tão difícil cumprir o “vamos marcar uma qualquer hora”? No final somos todos culpados.

Tenho saudades, mas o amor é maior que a saudades.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Sonho impossível (?)

Tive um sonho. Um sonho bom. Estávamos saindo de casa para ir a uma festa. Namorávamos e tínhamos uma rotina normal. Tão simples. Parecia verdade.

Um sonho tão possível, tão palpável, exceto pelo fato de não poder-mos namorar. Afinal, não posso largar meu namorado por aquela loucura que nós duas cometemos.

Mas ainda assim, queria que continuasse. Queria que estivéssemos no meu sonho, que se realizasse. Como não dá, queria ao menos que o sonho continuasse. E também não deu. Acordei sorrindo.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O juiz supremo

Era bela. Tinha um olhar inocente, rosto jovial, uma boca pequenina e um corpo que parecia desenhado por cirurgiões plásticos, mas era cria apenas da natureza humana (e lapidada na academia). Sem dúvida alguma era muito bela. Mas seu caráter era o de uma bela de uma filha da puta.

Sua principal “virtude” era a falsidade. Conseguia negar com seu doce olhar e a expressão de um desenho animado dos mais meigos aquilo que todos sabiam ser uma trapaça. Fazia-o com a naturalidade de quem peida ao estar sozinho. E convencia. Fazia-se de inocente e por vezes fingia estar ofendida, virando o jogo.

Seu corpo era instrumento de manipulação. Seduzia a quem pudesse ser seduzido fisicamente para que fizesse algo em seu benefício.

A simpatia era outra de suas formas de conquista. Sorria para todos. Fingia dar atenção e carinho. Ao conquistar algo dava apenas as costas.

A boca era sua principal arma. Por trás acontecia sua trama. Jogava um contra outro enquanto no meio de campo se sobressaia. Pela frente dava apenas elogios, fazendo seu ilusionismo. Na distância a doce língua transformava-se em metralhadora.

Não bebia e não usava drogas. Só os fazia quando estava acompanhada unicamente do namorado, igualmente falso. Saia bastante, quase todos os dias. Concentrada na armação deixava que os outros bebessem e aí, maleáveis, convencia-os.

Passava dias e noites tentando alcançar o topo, utilizando seres humanos e suas frágeis humanidades como escada.

Mas ao final da noite, mesmo exausta por tanta tramóia, não conseguia dormir. Era a hora da ação do juiz supremo: o travesseiro.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O encontro

Ele passava distraído (como sempre) quando uma mão o tocou. Instintivamente olhou para o lado. Paralisou o corpo. Disparou o coração. A memória afetiva lembrou ao corpo de tudo que (não) passaram juntos.

Era ela. Ela que durante anos foi a mulher da sua vida. No imaginário, mas foi. Depois da faculdade nunca mais se viram e lá se iam cinco anos.

Ela também alimentara uma paixão por ele. Conversavam, saiam juntos, faziam trabalhos juntos e até o trabalho de conclusão de curso dividiram. Mas nada de concreto aconteceu. A timidez dela era ainda maior que a dele e creio que foi isso que impediu o romance. Mas agora estavam ali, mais maduros, frente a frente.

Ficou congelado por cerca de três segundos e após sorriso de ambos conseguiu dizer um empolgado oi. Abraçaram-se. “E aí o que está fazendo? Está indo aonde?”. A conversa seguiu o padrão do encontro com qualquer outro ex-colega. Mas não eram meros conhecidos.

A conversa fluiu e foram até um bar nas proximidades de onde se encontraram. Recordaram o passado e atualizaram o presente, exceto aquilo que ambos gostariam de saber: a situação conjugal.

Queriam aproveitar o momento, poderia ser único e decisivo. Após algumas cervejas ele criou coragem e conseguiu perguntar. Mas a resposta fez sua empolgação se esvair. Ela estava namorando. Aquilo demorou a ser processado. Apesar de ele também ter namorada, havia um sentimento possessivo de que ela não poderia ser de mais ninguém além dele, mesmo nunca tendo sido.

Ela também o questionou. Após a pergunta derradeira o clima não foi mais o mesmo. Ele tinha vontade de saber mais sobre o tal namorado, mas ficaria com tamanho ciúmes que preferiu não perguntar. A curiosidade dela foi mais forte. Quanto tempo, como, quando, quem. Perguntou.

Conversaram mais um pouco e apesar de ambos desejarem ficar mais tempo, muito mais, ele encontrou uma brecha para justificar que fossem embora. Pagaram a conta e despediram-se com um forte abraço. Trocaram telefones, apesar de saberem que jamais ligariam estando namorando, e foi cada um para seu lado.

Ao virarem-se o primeiro pensamento dele foi “merda”. Quatro passos adiante e ela o chama e diz:
- Bruno, eu te amo.
A breve raiva que sentia de si, por ter deixado seu amor escapar, foi amenizado. Assustado e arrepiado, disse:
- Eu também te amo Carlota.

Voltaram. Abraçaram-se novamente e foram embora. Cada qual para seu namoro.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ladra de amigos

Era dia de celebração. Celebração da nossa amizade. Churrasco no parque com todo mundo junto pro aniversário do Caíque.
Tinha de tudo. Cerveja pra quem é de cerveja, vinho pra quem é de vinho, vodka pra quem é de vodka e até refrigerante pra quem é de refrigerante (ou seja, o filhinho do Marlon). Faltava apenas uma coisa, ou melhor, faltava apenas alguém, o Rick.
Ué, mas até o Régis ta aqui, como o Rick não tá? Eram daqueles que viviam juntos. Pergunto pra ele e recebo resposta negativa. Ninguém sabia onde estava.
Enfim...vamos curtir com quem tá aqui. A vida segue né, apesar de que se estiver faltando alguém o churras não é o mesmo.
De repente vejo um cara parecido com o Rick vindo ao longe, mas não era ele, por que estava com uma menina. Ele era um cara que jamais iria namorar. Era um pregador fiel da solteirice e sexo apenas por prazer, sem poha nenhuma de sentimentos. O tal cara se aproxima e confirmo, ele é ele. E quem será aquela menina? Ah, deve ser o peguinha desse final de semana.
Chega empolgado, com um largo sorriso. Dá um abraço apertado no primeiro que encontra. Depois de cumprimentá-lo apresenta a garota: olha, essa é minha namorada.
Por alguns milésimos todos param o que estão fazendo e aquela frase remexe nas entranhas de cada um. Passado o choque todos voltam ao que estavam fazendo, tentando agir naturalmente.
Mas aquilo não era nada natural. O Rick sabe, eu sei, todo mundo sabe e o Rick sabe que todo mundo sabe. Quando vem até mim cumprimento-o como amigos que não se vem há tempos. Comprimento a garota também, tentando ser simpático. Ela não demonstra o mesmo.
No decorrer do churrasco todos tentam puxar conversa com a tal da menina. Mas não adianta. Só com o Rick ela troca mais de seis palavras. Isso gera um espanto ainda maior em todos. O Rick ter uma namorada por mais de uma semana era uma raridade, ou melhor, o Rick comer a mesma menina por mais de uma semana era algo impensável até então.
Namorando! Foi isso que ele disse. Namorando! O Ricardo namorando. E o pior de tudo é que era uma guria daquele jeito. Toda metida, sem conversar com ninguém. Nem ele conversava com alguém além dela. Às 5h (da tarde) ele me estende mão. Estranho, mas retribuo. Ele diz “falô”. Aí é que penso, “caraí, neguin mudou mesmo”. Ele que costumava ser o primeiro a chegar e o último a sair. Não arredava o pé até que acabasse a última gota d’álcool ou alguém chamasse a polícia.
Tá. Tudo bem. Compreensível. Um dia a gente muda né, mas ninguém tava preparado pra uma mudança tão repentina. Ainda mais com uma menina daquelas.
Passadas algumas semanas ele levou-a ao bar. Agora ela falou um pouco mais, mas do jeito dela. Intrometida. Arrogante. Falava com ares de dona da verdade. Tentava impor sua opinião. Quando estávamos quase pedindo a conta ela diz “calmaê, tem mais uma rodada que eu vou pagar”. O Rick tentou convencê-la do contrário, argumentando que todo mundo ali estava rachando e o dinheiro contado da rapaziada não dava pra mais nada. Incisiva e pausadamente ela diz “Ricardo, eu vou pagar”.
Não sei por que, mas todos começaram a gostar dela. Assim decorreu um ano. Ela pagando cerveja, tirando o Rick do nosso convívio, chamando para as festas na sua casa com piscina, na sua casa na praia, na casa de chácara, na casa do car...linhos ela ia também, na casa de todos estava presente.
Conseguiu ser aceita. Acabamos nos conformando com o fato de o Rick ter virado uma pessoa totalmente diferente. Dado algum tempo terminaram. A cada vez que terminavam nós comemorávamos, mas eles sempre voltavam. Mas dessa vez era de verdade. Tínhamos uma certeza: o Rick continuaria sendo nosso amigo como sempre foi. Mas ela não. Ela não tinha nada a ver com a rapaziada. Outras ideias, outro padrão, tudo outro. Fútil, arrogante... Seria até difícil encontrá-la.
Para minha surpresa após o rompimento logo eu a encontrei. Não sei ao certo o que ela estava fazendo ali. Não era do feitio das pessoas como ela freqüentar locais como aquele. Eu estava com uma galera diferente da que ela conhecia e ela com algumas amigas, que por muito tempo acreditei não existirem. Era difícil alguém ser amigo dela.
Começamos a conversar mesmo eu tentando fingir que não a vi. A pauta do diálogo era impossível não ser o Rick. Creio que era a única coisa que tínhamos em comum. Dedicamos-nos muito tempo a filosofar sobre ele(s). Enquanto isso ela pagava cerveja. O papo até que tava legal, com ela pagando cerveja ali eu podia conversar a noite inteira. Paramos de falar sobre o Rick. Ficamos uns instantes sem assunto quando ela disse “Ah, vamos deixar o Ricardo pra lá. Vem prá cá o que o que é que tem? O que importa agora é que eu tô solteira. E você Beto, tá namorando?”. Percebi algo diferente naquele papo. Disse que também estava solteiro. Ela sem mais nem menos, acho que devido ao álcool, falou “sabe Beto, sempre tive uma pira em você. Não ta a fim de ir lá pra casa?”.
Refleti e resolvi recusar o convite e tratei de me arrancar dali o quanto antes. Meu pinto não é muito exigente, entra em qualquer buraco e não tem critérios muito bem definidos. Mas acima de tudo meu pinto tem seus princípios.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

4 unidades

Sacou o cartão telefônico para ligar para a namorada. 4 unidades. Discou. A moça atende e ele ouve música alta ao fundo.
- Oi amor.
- Hã?
- Oi amor tudo bem?
- TUDO BEM E VOCÊ?
- Aonde você tá?
- Hã? Não to te ouvindo direito.
- Aonde...você...está?
- Então amor, tô aqui no bar da facu com a Lu e o pessoal da sala.
- Então tá bom.
- Amanhã a gente se fala tá? Beijotchau.
Ela nem deixa ele se despedir e desliga. “Ah Filha da ****. 'tô aqui no bar da facu com a Lu e o pessoal da sala'. O trouxa aqui achando que a gente ia sair hoje e ela lá, 'com a Lu e o pessoal da sala’. Tá fu****”.
Ele olha para o fone e verifica se ainda está em condições de uso depois da violência com que colocou no gancho. Está.
Enraivecido ele fica com a cabeça baixa dentro do orelhão maquinando a vingança. Na escuridão do orelhão ele encontra o túnel no fim da luz. “Kero sexo 9611-XXXX”.
As pernas tremem. 2 unidades. Ele liga.
- Alô.
- Quem fala.
- Angélica.
- Oi Angélica. Vi seu telefone em um orelhão dizendo que você queria sexo. É verdade?
- Vai tomá ** ** seu ***** ** ****. Vai arrumar o que fazer seu ********.
“Merda”. Tira o cartão rápido, mas não evita que o telefone faça aquele barulho que avisa que o cartão foi esquecido. O barulho o enraivece ainda mais. Senta no meio-fio e pensa. Pensa. Pensa. Pensa.
“Tô aqui no bar da facu com a Lu e o pessoal da sala”, a frase ecoa na cabeça.
Levanta. Olha o orelhão e pega um cartão que ali estava:

Greycy
Loira Sensual
Alta e magra
Completinha
Local próprio e central
0800-XXXX

Ele se pergunta “o que seria uma garota completinha? Será que indica que ela tem cabeça, corpo e membros?”.
Resolve conferir. Antes de conferir o quão completa a garota era ele dá uma espiada na carteira. 10 reais.
“É...10 reais e uma unidade”.
- Alô.
- Daê mano, beleza?
- Beleza e você?
- Beleza.
- Tá em casa?
- Tô.
- Vamo tomá uma bera?
- Partiu.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O ritual

Era sagrado, apesar de a religião passar longe dali. O ritual começava todas as sextas às 19h. Depois do trabalho eles estavam a postos no mesmo lugar, nas mesmas posições que há 30 anos. A mesma mesa, as mesmas cadeiras (com exceção da de Carlinhos, que teve que ser trocada devido aos quilinhos que ele ganhou com o tempo. No encontro 437 a cadeira quebrou), mesma posição, mesmos assuntos, as mesmas caras. Alguns cabelos caíram, outros embranqueceram. Alguns engordaram (a maioria), outros emagreceram. Muita coisa mudou, mas a amizade continuava a mesma e tornava-se cada vez mais intensa a cada reunião.
Ninguém podia sentar no lugar deles. O seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”) não deixava que ninguém se assentasse lá no primeiro dia do final de semana. Só faltava interditar o local para que ninguém se aproximasse. E no primeiro suspiro do final de semana lá estavam eles: os oito amigos que freqüentavam o mesmo bar na faculdade e se encontravam toda semana desde então.
Exceto o Brandão, que sempre chegava atrasado, todos estavam lá no mesmo bat-horário, no mesmo bat-local. Chuva, gripe, trabalho, estudo, filhos, família, frio, carro estragado, nada era desculpa para não estarem lá. O Compromisso era inadiável. Certa vez o Falcão deixou de ir ao velório da própria mãe para ir à reunião.
O bar era um local sagrado. O seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”) já tinha pensado em fechar devido à dificuldade financeira, mas os amigos emprestaram dinheiro a ele apenas para não fechar. Houve um período em que só abria na sexta, e não foram raras às vezes em que estavam apenas os nove no recinto (os amigos e o seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”)).
Carlinhos senta-se na ponta esquerda, na direita o polenta (sem relação alguma com suas posições ideológicas). Para sair sem incomodar ninguém nas milhares de vezes que ia ao banheiro o Gordo senta no primeiro lugar da esquerda para a direita no lado da mesa que fica de costas para o bar. Ao seu lado ficam Elvis (que tem esse apelido por ser fã do cantor) e Brandão. De costas para a parede ficam Tito, Alfredo e Falcão, que ficava de costa para a parede para poder ver todas as meninas do ambiente, que eram várias quando começaram a freqüentar o local.
Em uma das noites Polenta conheceu a sua primeira esposa com que teve três filhos. Agora eram todos casados e não iam mais lá para olhar as meninas. Estavam todos comprometidos e nem as meninas nem a visão eram as mesmas.
Logo ao sentarem faziam um balanço semanal. Contavam o que aconteceu em casa e no trabalho. Comentavam o futebol, faziam piadas, recomendavam livros e filmes. Discutiam política. E sempre terminavam a jornada da mesma maneira, já motivados pela birita surgia o tom de nostalgia e relembravam os velhos tempos.
Era sempre igual. A mesma coisa. Por 30 anos o mesmo ritual. A mesma cerimônia. A mesma conversa. O mesmo destino. Todas sabiam, mas mesmo assim não tinha nenhuma das oito mulheres que não torcia o nariz quando eles falavam “vou para o bar com os meus amigos”.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Bifurcação

Gabriel tinha acabado de chegar ao ponto de ônibus. Ia do estágio para a faculdade. O ponto não estava tão cheio. Como ficou até mais tarde no estágio já tinha passado o horário de pico. Ele estava lá, com a cabeça vazia, divagando sobre tudo o que via e esperando o ônibus para que pudesse se ocupar com algo: ler um dos quatro livros que estavam na mala. Entre os quatro, três estavam lá por que ele deveria ler por conta da faculdade e o outro por prazer. E adivinhem qual Gabriel iria ler? O filho único do prazer. Iria. Não fosse Leonardo chegar.
Fazia muito tempo que não se viam. Eram colegas de escola. Geralmente quando Gabriel encontra alguém com quem sabe que não vai ter muito o que conversar ele finge que não vê, mas nesse caso era impossível. Leonardo estava logo ali atrás no ponto do coletivo. Começaram com aquela velha conversa de quem não se vê há tempos: “E aí? Como vai? O que anda fazendo?”. E justamente por essa conversa que Gabriel começou a refletir sobre o “destino”.
Logo no início do diálogo Gabriel já percebeu a forma leve com que Leonardo falava. Ele parecia estar dopado. Mas não estava. Reconheceria se estivesse. Aquilo, ele acreditou ser fruto do passado. O resultado do tempo em que não se conversaram.
A forma com que falava não foi a única referência de Gabriel para saber que Leonardo havia desviado do caminho. Enquanto ele estava prestes a terminar a faculdade de Publicidade e Propaganda e fazia um estágio promissor em uma grande agência, Leonardo havia parado a escola e atualmente estava fazendo um supletivo, mesmo que sua condição financeira fosse muito maior na época em que andavam juntos. Ainda no meio da conversa Leonardo revelou que estava tomando antidepressivos.
O pensamento de Gabriel se dividia entre continuar a conversar com o velho amigo e refletir sobre as causas, razões e conseqüências do caminho tão díspare. “Mas por quê?” pensava ele. Gabriel e Leonardo estudaram juntos no mesmo colégio. Faziam juntos as cagadas que piás daquela idade faziam. Dentre essas atividades a que mais se destacava na época era o oficio de pixar muros. Inclusive foi Leonardo quem deu o apelido que até hoje chamam Gabriel. Mas é claro que aquilo não se passava de coisa de moleque. Mas parece que enquanto para Gabriel a molecagem passou, para Leonardo evoluiu.
Com ar nostálgico, mas sem comentar, Gabriel lembrou de quando fumavam nos fundos da casa de Leonardo. Mesmo com a mãe dele em casa os dois iam ao fundo da residência, onde havia também uma piscina, e fumavam aquele cigarro no qual pagavam 1 real na carteira inteira. Gabriel ainda fuma alguns cigarros eventualmente, enquanto Leonardo fumou o último Malboro vermelho ao chegar no ponto. Seus dentes estavam claramente amarelados.
No ponto em que Gabriel vai descer os dois se cumprimentam. Gabriel olha para as mãos do velho companheiro e nota que seus dedos estão com as pontas totalmente amarelas. Só pensa uma coisa: “maconha”. Depois que desce continua pensando: “Por quê?”. E continua pensando até hoje.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Tchau

Aquele foi o baseado mais triste que Paula, Gabriele, Anderson, Marcos e Zeca tinham fumado. Esforçavam-se para que as lágrimas não caíssem na erva. A cada puxada que batia na mente lembravam mais ainda de Renato. Pela primeira vez fumavam sem querer fazê-lo. Mas fumavam, sobretudo para atender ao último pedido de um grande amigo.
“Quando eu morrer eu não quero que meus amigos fiquem tristes. Quero ver meus amigos fumando maconha em volta do meu caixão”, assim Renato falava sorridente quando se referia à morte. E sorridente era sempre o simpático Renato.
Sempre de bom humor e atencioso com os amigos, Renato adorava ir a churrascos. Certo dia foi em um churrasco na casa do Anderson, onde estava toda a galera do bairro. Curtiu junto com os amigos por uns 40 minutos e resolveu ir embora, pois tinha que encontrar a namorada e já estava atrasado.
Na hora de ir embora levantou-se e disse em tom alto: “falou aí galera”. No caminho pensou mais nos amigos e resolveu voltar. Chegou no churrasco e falou: “Ah, vou dar tchau pra cada um de vocês. Vai nessa que eu morro, daí eu nunca mais vou ver nenhum de vocês.”
Renato saiu de lá, bateu o carro e morreu.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Pra que?

Acordei. Primeiro pensamento: Caralho! Segundo pensamento: Pra que beber? Mesmo ateu, penso: “meu Deus, porque faço isso?”. Por que me suicido a cada noite? Eu sei que vou passar mal então porque faço isso comigo? Será que gosto de sofrer? Que merda! Toca o telefone.
- E aí meu, vamu bebe?
Penso.
- Vamu aê intão.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Será o Geraldão?

Andando pela Kennedy paro no sinaleiro com a Alferes Poli. Sou o primeiro a parar ao lado esquerdo, mas logo para outro no lado direito. Olho e grito baixo: “é o Geraldão!”. Ah, aquele foi um dos melhores professores que já tive, tanto na questão profissional quanto pessoal. O cara é muito gente boa. Parceirasso.
Não sei por que, mas não falo nada. Olho pra ele e ele pra mim. Fico na dúvida se é mesmo o Geraldão, bate uma insegurança. Não falo nada esperando que ele me aborde. Dúvida.
Enquanto minha namorada me olha resolvo olhar pra ela também. O cara se curva para me olhar. Penso: “Meu, é o cara!”, mas não falo nada.
Ele está com os lábios curvados para dentro da boca, mordendo-os, o que dificulta na identificação.
Está de bigode. O Geraldo às vezes usava bigode, mas geralmente estava de “cara limpa”.
Continuo olhando, ele também. Ninguém fala nada. De repente:
- Não sou eu né?
- Não.
Gargalhamos. Os dois. Abriu o sinal e fomos embora, sorridentes, mesmo que as pessoas de trás já tivessem buzinado.
Não era o Geraldo, mas valeu a risada. Depois disso, minha namorada comenta: “ele não deve ser curitibano né?”, respondo “provavelmente não”. É, o Geraldo também não era.