quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ladra de amigos

Era dia de celebração. Celebração da nossa amizade. Churrasco no parque com todo mundo junto pro aniversário do Caíque.
Tinha de tudo. Cerveja pra quem é de cerveja, vinho pra quem é de vinho, vodka pra quem é de vodka e até refrigerante pra quem é de refrigerante (ou seja, o filhinho do Marlon). Faltava apenas uma coisa, ou melhor, faltava apenas alguém, o Rick.
Ué, mas até o Régis ta aqui, como o Rick não tá? Eram daqueles que viviam juntos. Pergunto pra ele e recebo resposta negativa. Ninguém sabia onde estava.
Enfim...vamos curtir com quem tá aqui. A vida segue né, apesar de que se estiver faltando alguém o churras não é o mesmo.
De repente vejo um cara parecido com o Rick vindo ao longe, mas não era ele, por que estava com uma menina. Ele era um cara que jamais iria namorar. Era um pregador fiel da solteirice e sexo apenas por prazer, sem poha nenhuma de sentimentos. O tal cara se aproxima e confirmo, ele é ele. E quem será aquela menina? Ah, deve ser o peguinha desse final de semana.
Chega empolgado, com um largo sorriso. Dá um abraço apertado no primeiro que encontra. Depois de cumprimentá-lo apresenta a garota: olha, essa é minha namorada.
Por alguns milésimos todos param o que estão fazendo e aquela frase remexe nas entranhas de cada um. Passado o choque todos voltam ao que estavam fazendo, tentando agir naturalmente.
Mas aquilo não era nada natural. O Rick sabe, eu sei, todo mundo sabe e o Rick sabe que todo mundo sabe. Quando vem até mim cumprimento-o como amigos que não se vem há tempos. Comprimento a garota também, tentando ser simpático. Ela não demonstra o mesmo.
No decorrer do churrasco todos tentam puxar conversa com a tal da menina. Mas não adianta. Só com o Rick ela troca mais de seis palavras. Isso gera um espanto ainda maior em todos. O Rick ter uma namorada por mais de uma semana era uma raridade, ou melhor, o Rick comer a mesma menina por mais de uma semana era algo impensável até então.
Namorando! Foi isso que ele disse. Namorando! O Ricardo namorando. E o pior de tudo é que era uma guria daquele jeito. Toda metida, sem conversar com ninguém. Nem ele conversava com alguém além dela. Às 5h (da tarde) ele me estende mão. Estranho, mas retribuo. Ele diz “falô”. Aí é que penso, “caraí, neguin mudou mesmo”. Ele que costumava ser o primeiro a chegar e o último a sair. Não arredava o pé até que acabasse a última gota d’álcool ou alguém chamasse a polícia.
Tá. Tudo bem. Compreensível. Um dia a gente muda né, mas ninguém tava preparado pra uma mudança tão repentina. Ainda mais com uma menina daquelas.
Passadas algumas semanas ele levou-a ao bar. Agora ela falou um pouco mais, mas do jeito dela. Intrometida. Arrogante. Falava com ares de dona da verdade. Tentava impor sua opinião. Quando estávamos quase pedindo a conta ela diz “calmaê, tem mais uma rodada que eu vou pagar”. O Rick tentou convencê-la do contrário, argumentando que todo mundo ali estava rachando e o dinheiro contado da rapaziada não dava pra mais nada. Incisiva e pausadamente ela diz “Ricardo, eu vou pagar”.
Não sei por que, mas todos começaram a gostar dela. Assim decorreu um ano. Ela pagando cerveja, tirando o Rick do nosso convívio, chamando para as festas na sua casa com piscina, na sua casa na praia, na casa de chácara, na casa do car...linhos ela ia também, na casa de todos estava presente.
Conseguiu ser aceita. Acabamos nos conformando com o fato de o Rick ter virado uma pessoa totalmente diferente. Dado algum tempo terminaram. A cada vez que terminavam nós comemorávamos, mas eles sempre voltavam. Mas dessa vez era de verdade. Tínhamos uma certeza: o Rick continuaria sendo nosso amigo como sempre foi. Mas ela não. Ela não tinha nada a ver com a rapaziada. Outras ideias, outro padrão, tudo outro. Fútil, arrogante... Seria até difícil encontrá-la.
Para minha surpresa após o rompimento logo eu a encontrei. Não sei ao certo o que ela estava fazendo ali. Não era do feitio das pessoas como ela freqüentar locais como aquele. Eu estava com uma galera diferente da que ela conhecia e ela com algumas amigas, que por muito tempo acreditei não existirem. Era difícil alguém ser amigo dela.
Começamos a conversar mesmo eu tentando fingir que não a vi. A pauta do diálogo era impossível não ser o Rick. Creio que era a única coisa que tínhamos em comum. Dedicamos-nos muito tempo a filosofar sobre ele(s). Enquanto isso ela pagava cerveja. O papo até que tava legal, com ela pagando cerveja ali eu podia conversar a noite inteira. Paramos de falar sobre o Rick. Ficamos uns instantes sem assunto quando ela disse “Ah, vamos deixar o Ricardo pra lá. Vem prá cá o que o que é que tem? O que importa agora é que eu tô solteira. E você Beto, tá namorando?”. Percebi algo diferente naquele papo. Disse que também estava solteiro. Ela sem mais nem menos, acho que devido ao álcool, falou “sabe Beto, sempre tive uma pira em você. Não ta a fim de ir lá pra casa?”.
Refleti e resolvi recusar o convite e tratei de me arrancar dali o quanto antes. Meu pinto não é muito exigente, entra em qualquer buraco e não tem critérios muito bem definidos. Mas acima de tudo meu pinto tem seus princípios.
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