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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Uns Poema aí

Beleza única

Tinha a beleza delicada de uma guerreira
Era séria e arteira
Era tão linda
Mas tão linda
Mas tão linda
Que ninguém acredita
Nem homem
Nem Deus
Nem o Capeta
Sua graça nem cabe na minha letra
Pena
que tinha chulé na teta.



Clichê da Poha

Amor e dor
Rima
E é um clichê da poha!

Na poesia
os opostos se atraem
E isso também é um clichê da poha!

Linguagem automatizada
tão usada
Que não posso dizer mais nada.

Poha!



Violência parte I

Quando violado
vi o lado
do meu violador

Ter sido roubado
era o resultado
do roubo diário dos seus direitos

Mas não vi direito
E matei o filho da puta



Espírito Curitibano

Em Curitiba toda alma é di vina
minha navegação
para na estação tubo.
Tudo no centro é solidão
mas não largo mão
de encontrar algo aqui.
Vou em busca de dois corações
por favor, com catupiry.



Bem me viu quem me vê

Quem me vê assim,
de passagem,
me vê feio,
meio torto,
indo e vindo.

Prometo:
quando morto,
serei lindo.



Violência parte II

A Violência é grátis, é Free, é gratuita
Promoção! Ninguém acredita
Pegue a sua na próxima esquina
Ninguém se esquiva
É a sina da nossa rotina

É possível cheirar (cocaína)
Degustar (sangue)
Ver (Chacina)
Ouvir (gritos)
Sentir na pele a emoção

Ela é Tua, é minha
é nossa senhora
É Aqui, é Agora
A Cidade em Alerta
Aberta
Salve o Brasil, Urgente
O tempo urge na urbe
Ruge o cordeiro
para receio do pastor

A violência é democrática
Ninguém tem paz
Criada pela desigualdade
Tornou todos iguais

É física, é psicológica
É metódica
É cerveja, é vodka
É crack, é no futebol
É na luz da lua e do sol
É na escuridão
É em casa
É na rua
É na escola
É na escolta
É da criança
É do adulto
É de todos
É em tudo
A nossa volta
Deus está com medo
não volta cedo

Onisciente
Onipotente
Onipresente

Presente
Passado
Pressente o futuro?

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A perdida

A sociedade sempre a julgou como perdida. E naquele dia ela saiu determinada. Nada iria a parar, nada. Iria penetrar e não mais voltar.

O pai foi quem ordenou que ela saísse da sua casa quente e fria para morar em alguém. Bastou o dedo para que ele ordenasse e ela partisse.


Já tinha disposição. Nasceu para isso. Sua vida foi feita para sair e entrar.


Estava vestida para matar. Seu vestido metalizado a faria chocar.

A safada nem esperou até a noite. Saiu sob o sol, na vista de todos.

Saiu rápida, cortando o vento e soltando fumaça pelas ventas.

Fez barulho, muito. Estrondosa.

Apesar do esforço, muita gente nem a viu. Não reparou. O lugar onde ela foi muitas vezes não é visto.

Embora perdida, saiu decidida.

Em sua perdição encontrou alguém. Achou o corpo que tanto procurava. Encontrou uma vida. A bala perdida levou à morte uma criança de 7 anos.


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Televisão

Acabo de fazer a melhor aquisição da minha vida.

Comprei uma televisão.

Para vocês eu sei que pode parecer que foi muito dinheiro, mas não foi. A utilidade dela faz valer cada um dos seus 89.999 reais. Ao longo dos próximos 10 meses vou desembolsar R$ 8.999,90.

A minha nova televisão, que vem para substituir aquela que tinha Vídeo Cassete integrado, tem 85 polegadas. Posso assistir em uma tela de cinema as notícias de que manifestantes pedem a intervenção militar no Brasil. É uma maravilha ouvir por meio de um sistema de áudio de 120W e alto-falantes Sub-Woofer que pessoas se manifestam pelo direito de ser torturadas e mortas caso queiram se manifestar novamente.

Com a resolução Ultra HD 4k posso ver com completa nitidez que de uma certa maneira esse tipo de intervenção já existe. O pedreiro Amarildo não pode.

Se canso de assistir tv posso me conectar à internet. Com seu Wi-Fi integrado posso acessar as redes sociais e ver postagens pedindo a separação do país e críticas aos programas sociais do governo. O pessoal que faz isso não tem uma tv igual a minha. Se tivesse, talvez criticasse com a mesma força o poder judiciário, que aprovou uma gorjeta de 4,4 mil mensais para cada magistrado em nome de um auxílio-moradia.

Falta muita informação quando não se tem uma tv como a minha. Mas, felizmente, com esse aumento os juízes poderão ter mais dinheiro, ir a Miami comprar ternos e talvez ter um aparelho como o meu. Por que, cá entre nós, essa é uma coisa que todo mundo tem que ter. Comida não.

Para relaxar um pouco desses assuntos chatos eu assisto o meu esporte favorito. O eletrônico é perfeito para mim (pra quem não seria né!?). Ele conta com o Modo Futebol, que torna suas configurações perfeitas para assistir jogos em que torcedores xingam jogadores de macaco.

Na minha tv milhares de imagens se sobrepõe. É receita em cima de notícia, notícia em cima de dinheiro, dinheiro em cima de celebridades, celebridades em cima de humor, humor em cima de preconceito. É tanta imagem que às vezes não consigo conectar as coisas, como política e falta de água. Mas o que realmente importa é que minha tv tem 4 conexões HDMI e 3 USB.

O jornal local fica uma maravilha na minha tela, que converte a imagem em UHD independentemente do sinal. Ali, ou aqui, vejo os haitianos sofrendo preconceito e xenofobia na nossa bela capital, construída por imigrantes assim como a minha tevê, desenvolvida por uma empresa coreana.

O retrocesso da humanidade fica lindo na minha TV. Compre uma você também!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A ocasião...

Não a vi direito quando foi.

Só vi passando em minha frente quando soltava a fumaça.

Tenho um certo ritual mecanizado para fumar. Seguro o cigarro com a ponta dos dedos indicador e médio da mão direita. Levo-o à boca no canto esquerdo. Há quem diga que tenho uma marca nos lábios em que o cigarro se encaixa. Quando puxo a fumaça o solto dos dedos e quando termino a aspiração o filtro volta ao seu local inicial. Depois do trago a fumaça sai pelo canto direito.

Foi nesse momento que passou e me viu.

Deu mais uns passos e voltou. Me perguntou se poderia falar uma coisa e, como nem sempre gosto de ouvir coisas, respondi que “talvez”.

Falava apressada e demonstrava certo desespero.


- Eu não vou mentir pra você (logo, pressupõe-se que para outra pessoa ela mentiria) eu faço programa e moro aqui perto. Ontem não consegui fazer nenhum programa (talvez a culpa seja do frio de Curitiba) e não tenho dinheiro nem para almoçar (já era magra por ser magra e sem almoçar ficaria ainda mais magra).

Não era bonita, como a Malu Mader, mas também não era nenhuma Ingrid Guimarães. Estava mais próxima da Silvia Pfeifer.

- Eu não sou daqui. Sou de Paranavaí e sem dinheiro para comer não consigo fazer nada (e sem fazer nada ficaria com menos dinheiro e faria mais nada e comeria menos e....dízima periódica). Tô tentando arrumar dinheiro para pegar uma marmita pra comer. Cê pode me ajudar?

Poderia me aproveitar da situação e propor uma troca da carne pela carne. Eis a minha oportunidade de ganhar algo com a injustiça social. É isso que os vencedores fazem.

Segurando o cigarro com a boca peguei na carteira todas minhas moedas (a economia da rua se baseia em moedas). Em sua mão minhas moedas se juntaram a outras amigas moedas e uma nota de dois reais.

Depois de agradecer ela se foi de novo.

Pensei que com dois reais ela já poderia comer. Dois reais compram uma coxinha, especialmente aqui na região do terminal do Guadalupe onde a gastronomia está longe de ser gourmet. Mas talvez sua fome precisasse de mais que uma coxinha.

O seu desespero, sua fala rápida e sua magreza poderiam mostrar a necessidade por pedra e não pelo que relatou.

Me comoveu a moça.

Sua narrativa e interpretação levaram meu dinheiro. Não sei pra onde.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Vício

Sempre solto, vagando sem compromisso. Livre. “Um alcoólatra largado” diziam.

Um cachorro o acompanhava às vezes, mas quando a fome apertava o companheiro fazia suas expedições. Sua fidelidade não resistia à fome.

Como em um musical cantava pela rua sem motivo aparente. Vivia sorrindo e chorando. E falava, como falava. Principalmente sozinho. Por mais que alguns tentassem, ninguém conseguia ouvi-lo por muito tempo.

Vivia em extrema emoção, mas como a maioria das pessoas, quando estava sóbrio era frio, seco e tinha dificuldade em expor seus sentimentos. O consumo frequente do álcool fazia com que sua frieza fosse diluída.

A única coisa que tinha consigo era uma mochila na qual levava sua cachaça (gasolina, às vezes) e mais sabe-se lá o quê. Não carregava mais os seus sentimentos, os pulverizava.

Os escravos de bens materiais e carcereiros de sentimentos o julgavam e o chamavam de louco, doente, alcoólatra.

Tinha um vício sim, mas não era do álcool. Era um viciado em sentimentos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ligações

...desligou. Como se desligando fosse adiantar. Desligou por que percebeu que poderia ser verdade. Com a ilusão de que desligando a verdade se tornasse mentira. Desligou como quem bebe para esquecer-se dos problemas, que retornam acompanhados de ressaca.

Apoiou os cotovelos sobre a mesa e se pôs a raciocinar. Seria mesmo possível? Anos de confiança e amizade se foram em 30 segundos. Era possível!

Ligou os pontos de uma maneira tão simples quanto um jogo de crianças feito por um adulto. Mas até então não tinha visto os pontos.

A mulher estava sempre arrumada e também cansada. Não dava mais detalhes e nem desandava a falar como foi seu dia. Não o procurava mais e quando procurada fazia-se foragida.

Marques visitava cada vez mais a sua casa. Ficava cada vez menos no escritório. Tinha um tratamento dentário que nunca terminava. Quando ia à sua casa conversava mais com a mulher do que com o próprio Pita.


Depois que desligou o telefone desconectou-se do mundo. Ligou o automático. Calmamente saiu do trabalho. Os pontos já estavam ligados, mas precisava ir até o final para conferir a resposta.

Não teve pressa. Pegou o carro e foi. Lento, o trânsito não o preocupava. Seguia hipnotizado. Possuía uma arma, mas jamais pensou utilizá-la. Era uma herança. Iria entregá-la na campanha do desarmamento, mas acabou ficando. Poderia ser útil qualquer dia nos dias atuais. Colocou-a do lado da porta com naturalidade, como se depositasse ali um molho de chaves.


Não colocou o som no carro. Acendeu um cigarro e nem fumou. Só percebeu quando estava no final. Mesmo com o raciocínio já concluído, ficava religando os pontos. Religando, religando, religando.

BÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ...

Uma longa e alta buzina o desperta. Olha para o autor do despertar e percebe que o estava fechando.

“Mas é um corno mesmo!” grita o fechado.

Ele atira e o tira do mundo. Desliga-o.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mais um

Argumento sem contra argumento. Assim era o “diálogo” do casal brevemente antes do boa noite. Depois disso ela virava para o lado carregando consigo um pouco de raiva e muita decepção. No outro dia tudo voltava ao normal. Voltavam a ser o casal harmonioso que sempre foram.
Harmonia e alegria inclusive já haviam sido argumentos utilizados por ela para ter um filho. Mas nada adiantava, poderiam ser horas, minutos ou segundos que ela dedicava diariamente para tentar convencê-lo ou fazer com que ele ao menos compreendesse a razão de que deveriam ter uma criança. Ele respondia apenas “não, Marina”.
A principal razão dela para tal idéia é a de que deveriam dar uma continuação àquele relacionamento e principalmente um fruto resultante daquele amor.
Ela já pensara até que ele não a amava, mas a hipótese foi descartada. Seria impossível que Thomas não a amasse depois de tudo que viveram juntos. Conheceram-se ainda na faculdade, antes de ele desistir do curso. Após tempos de encontros de suposta amizade começaram a namorar. O namoro já se deu desde o primeiro beijo, ambos sabiam e sentiam que não seria apenas um. Mas 10 anos após o primeiro beijo e casados há cinco ele não queria realizar o sonho dela.
Era incansável sua determinação em tentar convencê-lo. Mais de um ano de tentativa e apenas não em cima de não. Ela já havia pensado até em ter um filho sem o consentimento do marido. Parar de tomar a pílula e pronto. Mas não. Não faria nada que o marido não quisesse, ainda mais sendo algo de tamanha importância.
Embora ela não desistisse ele se encheu de dizer todos os dias a mesma coisa e resolveu apresentar sua verdadeira razão:
- Marina, meu amor. Não posso colocar uma criança em mundo como esse. Mais uma criança. Mais uma criança que talvez tenha seus direitos violados. Mais uma criança neste mundo injusto. Mais uma criança que irá ver outras crianças e adultos passando fome. Mais uma criança sujeita a discriminar ou ser discriminada. Mais uma criança que talvez não tenha oportunidades de vida. Mais uma espectadora para ver pessoas sem teto ou sem terra. Mais um neste mundo bom habitado por gente ruim. Mais uma nesse mundo degradado. É impensável um fruto do nosso amor, tão puro em um mundo tão cheio de ódio.
Marina chorou, Thomas também. Dormiram abraçados como há tempos não ocorria. No outro dia tudo bem de novo. Sem problemas. Ao chegar em casa após o trabalho Thomas teve uma grande surpresa. Um agitado cachorro distraia sua mulher. Ele questionou o que era aquilo e ela calmamente respondeu:
- Você tinha razão amor. Não há sentido colocar mais um humano nesse mundo cão.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Paraíso

O mundo não tem mais jeito
Não adianta, não dá.
Secou o peito.
Desista. Venha pra cá.
Aí fora nada vai mudar.
Agradeça por conseguir respirar
Não adianta pedir para te respeitar
A água já não é mais límpida
Os animais já não são mais os mesmos
Se continuarem no sol irão virar torresmos
O nosso ar é muito mais leve
A nossa água é muito mais pura
Aqui a vida não é tão dura
Aqui há uma brisa refrescante
Venha para o novo Shopping “Paraíso de Dante”.

domingo, 30 de março de 2008

Curitiba dos horrores

Largo da desordem
Jardim do pânico
Centro Histérico
Santa infelicidade
Jardim banal
Campo sofrido
Vila das dores

Curitiba dos horrores