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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Uns Poema aí

Beleza única

Tinha a beleza delicada de uma guerreira
Era séria e arteira
Era tão linda
Mas tão linda
Mas tão linda
Que ninguém acredita
Nem homem
Nem Deus
Nem o Capeta
Sua graça nem cabe na minha letra
Pena
que tinha chulé na teta.



Clichê da Poha

Amor e dor
Rima
E é um clichê da poha!

Na poesia
os opostos se atraem
E isso também é um clichê da poha!

Linguagem automatizada
tão usada
Que não posso dizer mais nada.

Poha!



Violência parte I

Quando violado
vi o lado
do meu violador

Ter sido roubado
era o resultado
do roubo diário dos seus direitos

Mas não vi direito
E matei o filho da puta



Espírito Curitibano

Em Curitiba toda alma é di vina
minha navegação
para na estação tubo.
Tudo no centro é solidão
mas não largo mão
de encontrar algo aqui.
Vou em busca de dois corações
por favor, com catupiry.



Bem me viu quem me vê

Quem me vê assim,
de passagem,
me vê feio,
meio torto,
indo e vindo.

Prometo:
quando morto,
serei lindo.



Violência parte II

A Violência é grátis, é Free, é gratuita
Promoção! Ninguém acredita
Pegue a sua na próxima esquina
Ninguém se esquiva
É a sina da nossa rotina

É possível cheirar (cocaína)
Degustar (sangue)
Ver (Chacina)
Ouvir (gritos)
Sentir na pele a emoção

Ela é Tua, é minha
é nossa senhora
É Aqui, é Agora
A Cidade em Alerta
Aberta
Salve o Brasil, Urgente
O tempo urge na urbe
Ruge o cordeiro
para receio do pastor

A violência é democrática
Ninguém tem paz
Criada pela desigualdade
Tornou todos iguais

É física, é psicológica
É metódica
É cerveja, é vodka
É crack, é no futebol
É na luz da lua e do sol
É na escuridão
É em casa
É na rua
É na escola
É na escolta
É da criança
É do adulto
É de todos
É em tudo
A nossa volta
Deus está com medo
não volta cedo

Onisciente
Onipotente
Onipresente

Presente
Passado
Pressente o futuro?

sexta-feira, 20 de março de 2015

Tubarão

Foi uma das poucas vezes que pisou na rua sem medo. Estar no protesto era romper uma barreira. Eram raras as ocasiões que aparecia em público. Mas desta vez estava entre os seus iguais, ao lado de todo aquele coletivo que lutava por direitos individuais.

Era um legítimo manifestante. Tinha faixas, cartazes, entoou gritos e até pegou no megafone. O fervor com que cantava era o de um líder sindical, mas o único sindicato que defendia era o do próprio umbigo.

Jamais trabalhou, mas definia-se como empresário. Aos poucos aprendia a mandar na empresa do pai.

Dudu estava acompanhado do segurança, que desta vez não trajava terno e não o chamava de Seu Eduardo.

Apesar de estar exercendo o seu trabalho, Afonso queria estar no protesto. Mesmo com toda a distância, Afonso e Dudu tinham o mesmo pensamento. O empregado pensava com a cabeça do patrão.

Mesma cabeça, línguas diferentes. A fala de Afonso virava piada quando Dudu estava com os amigos. Assim como sua raça, seu cabelo, seus hábitos, seu jeito de ser, sua vida.

Aceitar o outro era difícil.

Dudu tinha raiva, ódio, incômodo, negação, medo. Só gostava de uma coisa que era de Afonso.

Esteve a vida inteira afastado de pessoas assim, mas não podia evitar que quem lhe protegesse fosse alguém como ele.

Neste dia patrão e empregado estavam juntos, com a mesma camiseta da seleção brasileira e cantando o mesmo canto.

Quando retornaram, retornaram as diferenças. Depois de cantarem os gritos de ordem, a ordem voltou a ser gritada por Eduardo e cumprida por Afonso.

Dudu estava cansado, como se sentia após as partidas de tênis. Mas, antes de deitar na Jacuzzi foi até o quarto da empregada.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Televisão

Acabo de fazer a melhor aquisição da minha vida.

Comprei uma televisão.

Para vocês eu sei que pode parecer que foi muito dinheiro, mas não foi. A utilidade dela faz valer cada um dos seus 89.999 reais. Ao longo dos próximos 10 meses vou desembolsar R$ 8.999,90.

A minha nova televisão, que vem para substituir aquela que tinha Vídeo Cassete integrado, tem 85 polegadas. Posso assistir em uma tela de cinema as notícias de que manifestantes pedem a intervenção militar no Brasil. É uma maravilha ouvir por meio de um sistema de áudio de 120W e alto-falantes Sub-Woofer que pessoas se manifestam pelo direito de ser torturadas e mortas caso queiram se manifestar novamente.

Com a resolução Ultra HD 4k posso ver com completa nitidez que de uma certa maneira esse tipo de intervenção já existe. O pedreiro Amarildo não pode.

Se canso de assistir tv posso me conectar à internet. Com seu Wi-Fi integrado posso acessar as redes sociais e ver postagens pedindo a separação do país e críticas aos programas sociais do governo. O pessoal que faz isso não tem uma tv igual a minha. Se tivesse, talvez criticasse com a mesma força o poder judiciário, que aprovou uma gorjeta de 4,4 mil mensais para cada magistrado em nome de um auxílio-moradia.

Falta muita informação quando não se tem uma tv como a minha. Mas, felizmente, com esse aumento os juízes poderão ter mais dinheiro, ir a Miami comprar ternos e talvez ter um aparelho como o meu. Por que, cá entre nós, essa é uma coisa que todo mundo tem que ter. Comida não.

Para relaxar um pouco desses assuntos chatos eu assisto o meu esporte favorito. O eletrônico é perfeito para mim (pra quem não seria né!?). Ele conta com o Modo Futebol, que torna suas configurações perfeitas para assistir jogos em que torcedores xingam jogadores de macaco.

Na minha tv milhares de imagens se sobrepõe. É receita em cima de notícia, notícia em cima de dinheiro, dinheiro em cima de celebridades, celebridades em cima de humor, humor em cima de preconceito. É tanta imagem que às vezes não consigo conectar as coisas, como política e falta de água. Mas o que realmente importa é que minha tv tem 4 conexões HDMI e 3 USB.

O jornal local fica uma maravilha na minha tela, que converte a imagem em UHD independentemente do sinal. Ali, ou aqui, vejo os haitianos sofrendo preconceito e xenofobia na nossa bela capital, construída por imigrantes assim como a minha tevê, desenvolvida por uma empresa coreana.

O retrocesso da humanidade fica lindo na minha TV. Compre uma você também!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A ocasião...

Não a vi direito quando foi.

Só vi passando em minha frente quando soltava a fumaça.

Tenho um certo ritual mecanizado para fumar. Seguro o cigarro com a ponta dos dedos indicador e médio da mão direita. Levo-o à boca no canto esquerdo. Há quem diga que tenho uma marca nos lábios em que o cigarro se encaixa. Quando puxo a fumaça o solto dos dedos e quando termino a aspiração o filtro volta ao seu local inicial. Depois do trago a fumaça sai pelo canto direito.

Foi nesse momento que passou e me viu.

Deu mais uns passos e voltou. Me perguntou se poderia falar uma coisa e, como nem sempre gosto de ouvir coisas, respondi que “talvez”.

Falava apressada e demonstrava certo desespero.


- Eu não vou mentir pra você (logo, pressupõe-se que para outra pessoa ela mentiria) eu faço programa e moro aqui perto. Ontem não consegui fazer nenhum programa (talvez a culpa seja do frio de Curitiba) e não tenho dinheiro nem para almoçar (já era magra por ser magra e sem almoçar ficaria ainda mais magra).

Não era bonita, como a Malu Mader, mas também não era nenhuma Ingrid Guimarães. Estava mais próxima da Silvia Pfeifer.

- Eu não sou daqui. Sou de Paranavaí e sem dinheiro para comer não consigo fazer nada (e sem fazer nada ficaria com menos dinheiro e faria mais nada e comeria menos e....dízima periódica). Tô tentando arrumar dinheiro para pegar uma marmita pra comer. Cê pode me ajudar?

Poderia me aproveitar da situação e propor uma troca da carne pela carne. Eis a minha oportunidade de ganhar algo com a injustiça social. É isso que os vencedores fazem.

Segurando o cigarro com a boca peguei na carteira todas minhas moedas (a economia da rua se baseia em moedas). Em sua mão minhas moedas se juntaram a outras amigas moedas e uma nota de dois reais.

Depois de agradecer ela se foi de novo.

Pensei que com dois reais ela já poderia comer. Dois reais compram uma coxinha, especialmente aqui na região do terminal do Guadalupe onde a gastronomia está longe de ser gourmet. Mas talvez sua fome precisasse de mais que uma coxinha.

O seu desespero, sua fala rápida e sua magreza poderiam mostrar a necessidade por pedra e não pelo que relatou.

Me comoveu a moça.

Sua narrativa e interpretação levaram meu dinheiro. Não sei pra onde.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Santa Ceia

Era um simples e inocente jantar com a minha senhora ou ao menos era pra ser. Não era um jantar romântico, era só pra comer mesmo (a comida). Eu acabava de sair faminto da labuta em um domingo de carnaval. Decidimos um lugar qualquer no caminho apenas para não acabar em pizza.

Comíamos, bebíamos e conversávamos de forma distraída. Eu degustava aquele pequeno pastel com bastante gordura, que mais tarde irá interromper minha vida, quando fui interrompido pela minha menina. “Eles estão orando?”.

Sim. Estavam orando. Uma família de cerca de 10 pessoas. Achei aquilo bonito. Sou ateu, mas fiquei realmente admirado. É realmente louvável agradecer pela comida que se tem, levando-se em consideração que muitos não a têm.

Lembrei do amigo e professor Victor Folquening, falecido recentemente. Certa vez, lecionando, disse: “Deus existe sim. Claro que Deus existe. Mas Deus é um cara que não trabalha no atacado, só no varejo! Por que, por exemplo, se tem uma tragédia imensa em que milhares de pessoas morrem e um só se salva, essa pessoa dá uma entrevista dizendo que Deus o salvou. Mas por que Deus não salvou todas aquelas outras pessoas?”. Essa é uma das muitas frases que mostram um pouco como era o Victor.

Fiquei pensando na religião, em especial a católica que conheço um pouco melhor. Acho que foi criada com uma ideia boa. Uma grande ideia. Mas, como quase tudo no mundo, o homem (esse grande filho da puta) estragou tudo.

De certa forma aquela família estava mantendo a boa ideia da religião (seja lá qual for a deles), levando ao público aquela escolha particular eles me deixaram refletindo. Refletindo sobre a religião e a comida.

Dia desses estava vendo uma entrevista com o Poeta Sérgio Vaz no programa Provocações. Antônio Abujamra perguntou ao poeta se as pessoas da periferia eram a favor da liberação do consumo de drogas, ao que poeta responde: “Primeiro eu queria que liberasse o arroz com feijão...depois as drogas mais pesadas: o bife, a salada. Eu queria ver a molecada muito louca de arroz com feijão”.

Ia saindo do restaurante quando a família começou a cantar parabéns. Não prestei a atenção, afinal, pensei que não havia nada demais. Quando ia saindo os ouvi cantando: “É benção, é benção, É benção, é benção, é benção. Eu oro, eu oro, Eu oro, eu oro, eu oro...”.

Cagaram com a poha toda!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Linha a linha


O ônibus pára, mas a leitura continua.
Distraído. Estava mais dentro do livro que do ônibus. A história o levava para um mundo distante, o ônibus o transportava apenas até sua casa.
A porta se abre e o alerta de “parada solicitada” se apaga.
O livro parecia novo. Grosso. Bonito. Parágrafos bem espaçados. Não segurava o livro, apenas o apoiava nas mãos. Isso foi providencial.
Com a abertura da porta o vento entra e, com a mesma velocidade, um homem sai. Antes de sair interrompe a viagem do leitor. Apanha o livro e sai correndo.
O agora ex-leitor fica embasbacado até voltar para o mundo real e perceber que seu livro foi levado. Até se levantar e olhar pela janela o ladrão já estava na esquina.
Não sabe como reagir e na dúvida não o faz. Dá apenas um riso nervoso aos que o olham.
Nem a mão de quem o tirou do mundo das letras pôde ver, menos ainda o rosto de quem estava, na realidade, apenas fazendo um empréstimo.
Não queria montar uma biblioteca. Depois de apreciar o livro o abandonava em algum ônibus, geralmente na mesma linha em que tinha feito o furto, na esperança que o subtraído o reouvesse.
O habito começou há cinco meses. No primeiro ficou extremamente nervoso. Correu sete quadras até chegar em casa. Empalidecido cuspia os pulmões e alguns cigarros.
- O que foi?- perguntou a mulher. – Um roubo- Quem te roubou? Aonde? Você está bem? – O nervosismo maior passou para a mulher. Recuperou o fôlego e a explicou que havia sido ele o “furtador”.
A mulher ficou com raiva e meio sem entender. Depois passou a apoiá-lo com o aparecimento frequente de livros em casa.
Quando chegava com um deles era como se chegasse com carne. Alegria total. Se depois percebessem que era auto-ajuda, espiritismo, empreendedorismo ou técnico já o devolvia à linha no dia posterior.
Não tinha distinção. Roubava todos. Afinal, queria ser como eles. Queria ser um leitor como toda aquela gente.
E ninguém iria culpá-lo. Ninguém iria chamar a polícia e nem mesmo o reconheceriam.
Ele vestia-se como a maioria. Calça jeans e camiseta. Dentro da mala a marmita vazia, uma toalha de banho e itens de higiene. Sabia que aquilo não era um bom exemplo para o filho, mas o explicou que não poderia comprar e nem mesmo fazer cadastro em uma biblioteca.
O filho, como a mulher, estranhou no início, mas compreendeu e a cada noite em que o pai chegava o recebia com atenção quando ele com um olhar dócil após o jantar o pedia:
- Filho, lê pra mim.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

2 R$

Com a mão esticada falava algo e recebia apenas balanços de cabeça como resposta. Vinha em minha direção.
Quando chegou logo começou a falar como se não percebesse que eu estava no mundo do meu fone ou até percebeu, mas falou mesmo assim, já esperando não ganhar aquilo que esperava.
Tirei calmamente o fone, lhe pedi desculpas e que repetisse. Veio o discurso. Na transição dos mundos fiquei meio atordoado e acabei por não ouvi-lo. Me desculpei novamente e pedi que repetisse. Desta vez falou com mais calma, me explicando e não simplesmente repetindo o que já disse milhares de vezes.
A história era a mesma, leite para os irmãos. Eu devia ter uns dois reais além da grana pro bonde. Mas seria real a história?
Poderia realmente haver muitos irmãos abrigados sem teto em algum local protegendo-se do frio que insistia em encontrá-los na brincadeira sem graça de esconde-esconde. Famintos, aguardando o irmão chegar com um sorriso e um leite.
Entretanto, poderia apanhar meu dinheiro e queimá-lo dentro de uma lata em um tempo inversamente proporcional ao que demorei a conquistá-lo. E o resultado seria uma viagem meteórica, rápida e intensa, que estaria lhe implorando para que em dez minutos ele embarcasse nela novamente.
Olhei nos olhos e, como não poderia deixar de ser, me imploravam. Mas pelo quê? Tirar do meu bolso leite ou pedra?
Peguei o dinheiro e dei-o tentando transferir não apenas a finança, mas também, por meio do olhar a minha crença de que seria para o alimento. Se fosse para outros fins meu olhar não adiantaria de nada.
E adiantou?

segunda-feira, 28 de março de 2011

O menino Menino

O menino nasceu, mas ninguém sabia como chamar. O tempo era tanto pra trabalhar que nem tiveram como no nome pensar.

Sobrenome já tinha, Silva. Para a mãe era mais um para a filharada. Para o pai era sinônimo de festa animada, para comemorar seu primeiro.

Cachaça pra todo mundo por sua conta, pra comemorar a chegada do menino. A marvada entra e o hômi logo desmonta. Cai no choro.

A mãe não parece muito animada. Pra dar pra parteira não tinham nada. A conta no bar ia só na pendura. A sua vinda acabara um pouco com a amargura.

O menino encerrou a agonia, pois todo mundo sabe que criança que vinga não é todo dia.

A noite já calou, mas não sabem ainda como o menino se chamou. Na dúvida, assim mesmo ficou: Menino da Silva.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O homem cachorro

O sol batendo no rosto não foi suficiente acordar. Foram necessários vários cutucões da dona da mercearia na frente da qual dormia para abrir o olho.
Levantou, pegou a garrafa de caçacha (vazia), seu cobertor e o resto das coisas.
- Bom dia Dona Lurdes. Desculpa não levantar a hora que a senhora abriu.
- Tudo bem Edgar. Sem problemas.
- Tem um pãozinho sobrando aí Dona Lurdes?
- Hoje não tem.
- Tá bom. Brigado.
Queria continuar a dormir, mas como não tinha mais lugar para se deitar teve que vagar. Já dormiu em frente a quase todas as casas da região.
No bolso 2 R$. Insuficiente para uma refeição, mas na medida para uma garrafa de plástico de pinga. Era cedo para isso.
Era hora de comer, depois de muito vagar ficou em frente ao restaurante. Observava toda aquela gente comer. Ele e um cachorro ao seu lado. Depois do último cliente deixar o local ele se aproxima. Fica esperando na entrada. Quando o dono vem fechar o portão ele pergunta:
- Ô patrão, sobrou um pratinho de comidaê?
- Sobrar até que sobrou, mas não posso te dar se não suja pra mim.
- Beleza.
Saiu de lá e ficou conversando com o cachorro ao seu lado. Imaginou que seria muito melhor passar mal com a comida a passar fome. Na próxima vez faria um trato com o dono do restaurante, caso passasse mal não contaria a ninguém. Mas enquanto isso a fome continuava.
Se comece algo que não fosse uma refeição, como um salgado, ficaria com mais fome ainda. A solução seria amenizar com um cigarro.
Mas não adiantava pedir para qualquer um. Geralmente as pessoas fingiam que não o viam. Ele vai até a rua onde os piás do bairro andavam de skate. Pede cigarro a um deles, que reluta mais lhe cede um.
Caminha um pouco e senta para fumar. Enquanto fuma pensa na ex-casa. Bate uma saudade da sua mãe. Morava com ela e os três irmãos. Já era alcoólatra. Quando a mãe faleceu seus irmãos o expulsaram.
O cigarro acaba. Guarda a bituca. Volta a vagar. Fica um tempo em frente à igreja. Dá muitas risadas da gritaria vinda de lá.
Quando chega às 7 horas fica em frente à panificadora. Nesse horário todos saem do trabalho e passam ali para comprar pão. Vai que dá sorte e lhe dão alguma coisa para comer. Não foi dessa vez.
Tá na hora. Vai até a distribuidora e compra cachaça. Bebe devagar. Bate forte na barriga vazia. Senta-se com o cachorro.
Com o calar da noite mais cachorros surgem, se aproximam e ali ficam. Quando acaba a cachaça ele apóia a cabeça no joelho e dorme.
Ele cai ali junto aos cães.
Acordou no outro dia sem ninguém o tocar de onde estava. Quando começou a caminhar ninguém o olhava com ar de descriminação. Parou em frente ao mercado e lambeu as patas. Percebeu então que tinha virado um cachorro.
Foi até a mercearia onde dormiu na noite passada. Dona Lurdes estava abrindo. Viu o cachorro ali. Abaixou-se e ficou um bom tempo fazendo carinho. Ele abanou o rabo. “Espera só um pouco que tenho uma coisa pra você”.
Ela entrou na mercearia e voltou com algo na mão. Edgar enfim ganhou um prato de comida.


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Desculpem-me os poucos, mas fiéis leitores pela demora ao atualizar. Estive passando férias na Argentina. Essa vida de desempregado às vezes pede férias.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Cigarro Curitibano

Comprei um solto (to tentando parar) e fui até a praça pra fumar. Fiquei olhando as pessoas procurando alguém que estivesse fumando. Um senhor mal encarado. Um casal. Um cara sujo, mas bem vestido. Uma menina falando ao telefone. E finalmente um carrinheiro fumante. Peço o isqueiro emprestado. Acendo e seguindo a regra de todos os outros curitibanos dali sento em um banco sozinho.
Fumo devagar, curtindo. Enquanto observo a praça e as pessoas fico pensando na vida, na mina e na peça que acabo de perder por chegar atrasado. A noite não estava fria, tinha uma brisa, mas tava maneira.
O cigarro estava chegando ao fim, na terceirinha, como chamava-mos na cadeia, quando o cara sujo mas bem vestido levanta-se. Antes de seguir seu rumo me olha e volta. Eu já sabia o que ele iria pedir.
- Tem um cigarro aí!?
- Puts cara. Pior que não tenho. Comprei esse aqui só. Foi mal.
Ele abaixa a cabeça como quem dá um breve cumprimento e sai. Achei estranho aquele cara. Ele não era um morador de rua. Estava bem vestido de acordo com os padrões da sociedade, mas estava sujo. E não era sujeira de trabalho, era sujeira da rua. Mas não era um morador de rua (aparentemente). Ele tomava uma garrafa de refrigerante (e aparentemente era mesmo refrigerante). Meu instinto de jornalista (parecido com o do Peter Parker) me diz que preciso averiguar. Resolvo chamá-lo.
- Hey.
Ele olha e levanta rapidamente a cabeça como quem diz “que quê foi?”.
- Chegaí.
Desconfiado ele vem até mim.
- Sentaí, vamo troca uma idéia.
Ainda ressabiado ele senta.
- Cê mora onde?
- Tô dormindo numa marquise ali perto do Passeio Público.
- Mas faz tempo que cê mora ali?
- Duas semanas.
- E antes? Morava onde?
- Lá no Sitio Cercado.
- E por que ta ali agora?
- Perdi o emprego e não tive grana pra pagar o aluguel, que já tava atrasado. Agora tô aí na rua.
- Pode crê.
- ...
- ...
- Crise né!?

- Pior que é.
- ...
- ...
- ...
- Tem um cigarro aê?
- Puts cara. Pior que não tenho. Comprei só um. Foi mal.
E foi-se embora.

domingo, 30 de março de 2008

Curitiba dos horrores

Largo da desordem
Jardim do pânico
Centro Histérico
Santa infelicidade
Jardim banal
Campo sofrido
Vila das dores

Curitiba dos horrores

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fria e agradável

A noite estava fria e agradável naquela noite de 27 de dezembro de 2006. Eu acabara de chegar a Itajaí onde meus amigos estavam me aguardando. Íamos passar a virada de ano lá, no apartamento do pai de uma das nossas amigas. O apartamento ficava em frente à igreja matriz da cidade, mas a religião não nos impedia de beber dia e noite. Na mesma noite em que cheguei já bebíamos a nossa cervejinha, que consequentemente já tinha sido bebida durante o dia pelos que lá estavam antes da minha chegada. Enquanto bebíamos as mulheres da casa foram dormir e nós resolvemos ir beber e conversar na praça em frente à igreja. Além das garotas, a cerveja também tinha ficado em casa. Indo à praça somente nós quatro e os destilados. Sentíamos na pele o vento que à noite fazia a janela uivar. Mas isso não nos impedia de celebrar a minha recém chegada e o novo ano que estava por vir em alguns dias.
Enquanto conversávamos vimos dois rapazes fortes vindo em nossa direção. A primeira coisa que veio à mente foi: “eles vão nos roubar”. Mas quando começaram a falar a idéia mudou imediatamente. A voz mansa tinha um tom de pedido, como o de uma criança que pede aos pais um presente fora da época de natal. Ele nos pediu dinheiro para “se destruir”. E tinha as suas razões para buscar a tal destruição, mas nós nem imaginávamos quão grande poderia ser a desejada destruição (que o nosso dinheiro não poderia pagar).
-Cara, eu podia mentir pra vocês, mas eu quero uma grana pra eu fumar um crack. Eu tava em um hotel em balneário com a minha mulher e minha filha, e dei uma saída, quando eu voltei ela tinha ido embora com todas as nossas coisas. A vida pra mim não tem mais razão, eu to no fundo do poço. Eu to querendo uma grana pra usar droga e ver se consigo, graça a Deus, entrar em uma overdose, por que eu não tenho coragem de tirar a minha própria vida.
A esta altura ele já chorava e nós nos assustados com a situação. O seu companheiro tentava “consolar”:
- Aí meu, para de chorar. Homem não chora na frente dos outros não! Na real mesmo todo homem chora, mas chora lá no seu cantinho, não fica chorando na frente dos outros não.
Um de nós deu-lhes algum dinheiro e eles saíram. O tom da conversa já não poderia ser mais o mesmo, ficamos mais um tempo conversando sobre drogas e histórias semelhantes, mas não como aquela obviamente. Depois de algum tempo eles voltaram, um pouco mais animados. Terminamos de beber e fomos embora. Dormimos e a noite que era fria e agradável, continuou somente fria.