segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Limpando ratos
Se deposita nele uma crosta. Agora, regurgita tudo que o fiz engolir.
Todos os dias às 9 da manhã invés de tomar café ele é obrigado a deglutir todos os meus resquícios. As coçadas noturnas no cu. A punheta matinal após perceber que a presença da namorada era apenas um sonho. A escova de dentes. As chaves. O celular. O cigarro. O cabelo. O jornal. O livro. E a multiplicação de tudo assegurada no ônibus.
Me devolve tudo. Sou eu que acho nojenta a sua superfície sebosa.
Quero lavá-lo. Lavar as mãos. Começar tudo de novo. Pedir desculpas. Errei. Tu erraste. Outros erraram. Temos um trato senhor rato. Apertamos as mãos e está tudo resolvido. O melhor acordo é aquele que o outro é obrigado a aceitar.
Mas não consigo levantar. Essa tarefa me prende. Essa música me apreende. Só mais uma revisão. Só mais uma lida. Será que há crase aqui? Ah, há. É à. Não a. Nem á. Ao consultar me perco na esquina do serviço. Abrir o navegador é sempre uma chance de naufrágio. A maré me leva às mensagens passadas do e-mail. Exploro as novas velharias de facebook. Anuncio filho da puta. Preciso passar isso. Cinco segundos de publicidade é muito tempo na minha idade.
Sou obrigado a levantar. Abaixo as calças. Mijo. Lavo as mãos. A água leva a alma da sujeira.
Volto ao mouse imundo. Bate 18 horas. Vou embora beber.
Amanhã passo um álcool.
O álcool, às vezes, resolve muitos problemas.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Vá dia
Responsável por depositar o peso das suas nuvens sobre meu universo, minha mulher rouba minha brisa me dando um “bom dia” recheado de insultos. Não fiz nada (homens nunca fazem nada), mas ela acredita que a culpa pelo chuveiro ter estragado é minha. Jorra na minha cara que não sou homem nem para consertar um chuveiro.
Tento explicar que não sei fazer isso, sou um intelectual que não se dedica aos problemas práticos da vida. A vida, então, se vinga de mim na prática.
O motorista do ônibus, que atrasa muitas outras pessoas, atrasa também a mim, mas sou egoísta o bastante para crer que é tudo comigo.
Na empresa tenho a breve sensação de que tudo irá melhorar com o término das minhas tarefas. Mas elas regurgitam. Meu chefe, que tem a função diária de tornar meu mundo pior, hoje exerceu seu papel com maestria. Não só criticou toda a execução dos meus deveres como também me humilhou. Me ironizou em frente aos colegas. Ajuizado, baixo a cabeça. Preciso do emprego, preciso do dinheiro.
O mundo, mais uma vez, me tornou mundano, rancoroso, odioso e odiante.
No meio da reexecução do serviço recebo ligações. Cobranças bancárias. Logo lembro que preciso pagar a escola do meu filho, a conta de água, a conta de luz e várias outras coisas incontáveis.
Passo o tempo pensando quanto tempo falta para se encerrar o meu tempo. Depois disso estou livre para me sentir esgotado e não fazer mais nada.
Encontro uma saída para descarregar todos os septilhões de quilos que o mundo depositou sobre minhas costas. Entrego-me ao alcoolismo, escondendo meus problemas dentro de outro maior.
Sem companhia, tomo o primeiro gole e falo com o mundo.
- Hoje você tava pesado hein!?
- Eu tenho sempre o mesmo peso. Você que tá fora da forma.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Ceda à Sede
Infelizmente, apresenta a mesma sagacidade que me conquista para se esquivar de minhas investidas. Mas hoje vai. Hoje tem que ceder. Hoje é o dia da noite inesquecível.
O pior é que insiste em falar no compromisso. Já estão juntos há anos. Já está mais do que na hora de cair na rotina e o amor decair. Está no momento de ter vontade e curiosidade por outros corpos. O meu, por exemplo.
Todo assunto faz com que comente sobre o namoro. Mas por certo ponto de vista isso é bom, pela semelhança ou pela oposição, há uma comparação. Pode pensar em mim como uma alternativa ou reafirmação.
Para que tudo dê certo tenho um plano infalível e uma arma perfeita: bebida. Muita bebida para esquecer quem está em casa e lembrar só do que vê pela frente. Somente eu.
Não é possível que muito álcool não deixe tudo suce. Suscetível.
Depois de muita cana jogo uma indireta e se não funcionar vou direto. Digo que quero transar. Que sempre quis. Que quero agora. Que pago tudo. Que chupo tudo.
Vou assim mesmo, com o pé nas costas. E se ainda assim recusar, agarro de forma inescapável. Depois já era. É um pulo para a cama.
É impossível a formalidade resistir à embriaguez do beijo.
Mas está demorando. Como bebe. Como custa chegar ao momento do ataque. Eu, que bebo bastante, já começo a falar enrolado. Olho de maneira insinuante, mas parece que a embriaguez impede que perceba. Parece distração, mas quero ver pensar em outra coisa na cama. Quero ver pensar naquela maldição de cônjuge.
Enquanto isso, bebe vai. Pede mais uma. Vamos conversando. Vamos fumando. Não ligo para o seu bafo de cigarro. Isso não é nada frente à sua perfeição. Perfeição que eu vou despir, vou pegar, vou esfregar, vou lamber e depois colocar esse seu caralho para pulsar dentro da minha aconchegante buceta.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
O ex-poeta
Agora virou trabalhador. Anda de carro, bate cartão, não conversa, não olha pela janela, não divaga, não ri e não chora.
Ele agora só vai. Segue um caminho reto, sem desvios, sem emoções, sem desafios. Não sabe aonde quer chegar. Segue um rumo que o guia na certeza do nada.
Em sua jornada de zumbi o ex-poeta às vezes avista a alma penada da sua esperança, que some assim como seus sonhos.
Antes usada para celebrar, a bebida perdeu seu sentido. Não há nem lamentação e a ressaca já não faz sua parte. Não tem mais mágoas para afogar. Ex-poetas não tem mágoas.
O ex-poeta não tem motivos para viver, para morrer ou para escr
quinta-feira, 14 de março de 2013
Flashes
Jamais imaginei que entraria naquilo, mesmo quando passava por ali de dia.
Os meus dois amigos eram frequentadores do local, cumprimentavam o garçom e o porteiro pelo nome e conheciam outros presentes.
Ficar encostado no balcão me pareceu o ponto mais seguro. Tomava uma cerveja enquanto olhava para os meus amigos, que dançavam sorridentes com duas meninas. Feias. Lazarentas de feias.
Dançavam e me olhavam. Exibir aquelas moças de poucos dentes parecia divertido.
Flash nº 13
O dia já clareava quando entramos em um daqueles motéis do centro. O cara da recepção a confundiu com uma puta, mesmo nunca tendo a visto ali (?). Não nos incomodamos com o pulgueiro. Pagamos R$ 25.
Flash nº 10
Tinha o cabelo volumoso e era corpulenta. Deveria estar com uns 50 anos. Eu, 20. Tinha um vestido preto um pouco acima do joelho, que revelava suas formas. O seu olhar permanecia misterioso e penetrante.
Flash nº 14
Olhava para aquela imensa bunda e até me abaixei para tentar ver sua calcinha enquanto subia as escadas. Mesmo sabendo que dentro de alguns instantes poderia ver tudo o que queria. Pura molecagem.
Flash nº 1
Acordei com o gosto salgado daquela tenra buceta.
Olhei para aquele corpo ao meu lado e lembrei que um dia aquele fora um belo corpo. O observava muito durante a infância. Olhava com detalhes durante o dia para me masturbar de noite. Jamais transaria com uma mulher daquela, se não fosse ela a mãe de um amigo de infância. Pude sentir o gosto que não tive quando criança.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Vício
Um cachorro o acompanhava às vezes, mas quando a fome apertava o companheiro fazia suas expedições. Sua fidelidade não resistia à fome.
Como em um musical cantava pela rua sem motivo aparente. Vivia sorrindo e chorando. E falava, como falava. Principalmente sozinho. Por mais que alguns tentassem, ninguém conseguia ouvi-lo por muito tempo.
Vivia em extrema emoção, mas como a maioria das pessoas, quando estava sóbrio era frio, seco e tinha dificuldade em expor seus sentimentos. O consumo frequente do álcool fazia com que sua frieza fosse diluída.
A única coisa que tinha consigo era uma mochila na qual levava sua cachaça (gasolina, às vezes) e mais sabe-se lá o quê. Não carregava mais os seus sentimentos, os pulverizava.
Os escravos de bens materiais e carcereiros de sentimentos o julgavam e o chamavam de louco, doente, alcoólatra.
Tinha um vício sim, mas não era do álcool. Era um viciado em sentimentos.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Os Três Pedidos ou Outro Estágio
Alguns diziam ter dó, que toda maldade era vinda da vida amarga. Era solteira, sozinha e solitária. Não gostava de crianças ou cachorros (e nem de gente). Ainda assim trabalhava justamente com pessoas, supostamente fazendo bem a elas, nem que para isso moesse os funcionários como em uma máquina de carne.
Enquanto o baixo clero deveria estar cedo e a todo vapor no trabalho, chegava diariamente de ressaca. Devia beber muito, tinha muita mágoa para afogar.
Sempre deixava claro que ela quem mandava. Andava pela empresa como um vigia. Ao vê-la todos engoliam palavras, sorrisos e as boas vibrações. Uma nuvem negra parecia a acompanhar.
Apesar disso tinha um discurso de unificação e amizade fora da instituição. Era a principal agitadora de festas, comemorações e afins. Socializando, parecia até simpática. Em seu aniversário fez questão que todos fossem. E lá estavam. Mais por obrigação que por consideração.
Enquanto alguns vinham e iam, Ale, o estagiário mais novo ficava. Sentia-se bem por se enturmar tão rápido.
Sobrou apenas a chefe e ele. Pela fama ele carregava certo medo, mas àquela hora, bêbados, a conversa fluía bem. Ainda assim ele buscava manter a formalidade. Ela não.
- Posso te pedir uma coisa?
- Claro chefe.
- Melhor. Duas e dependendo da resposta mais uma. Pode ser?
- Sim.
- Não me chama de chefe. Me chama de Ma.
- Sim. Claro. Desculpa Ma. E o que mais?
- Me dá um beijo.
Ao terminar de falar ela agarrou o franguinho. Com vontade. Meio tímido foi abraçando-a de leve. Apesar de ter gostado, ficou totalmente sem jeito. Ela agradeceu. Com um sorriso ele respondeu: “Qué isso. Eu que agradeço”.
O beijo quebrou a conversa que levavam. Sem rumo, a cabeça dele dava voltas na busca por um assunto, que parecia ser obrigatório. Quanto mais tempo passava mais sentia a necessidade de falar algo.
Não se tratava de um gênio, mas havia mais um pedido. Perguntou qual era. Sorrindo, ela levou os lábios próximos ao seu ouvido e disse que depois faria.
Beijos, cerveja e conversa se passaram e o bar ia fechando. Como quem não quer nada, garçons colocavam as cadeiras sobre as mesas. A empolgação trazida pela situação e pelo álcool fez com que ela o convidasse a ir até sua casa. Próxima, com cervejas e carona (sabe comé vida de estagiário né!?) a casa da chefe pareceu sedutora, tanto quanto a própria.
Sentaram-se no sofá e as cervejas lubrificavam a longa conversa ideológica. Não querendo parar o diálogo, pois isso poderia significar uma nova falta de assunto, segurou a urina mas não resistiu.
Ao lavar a mão olhou-se no espelho e sussurrou: “Aaaaaah muleke. Cê é foda hein!? Acabou de entrar no trampo e já tá pegando a chefe”.
Na volta não a encontrou na sala. Ela surgiu do corredor trajando apenas uma calcinha branca. Apesar da podridão interna tinha um belo corpo, que se revelava enquanto vinha em sua direção. Olhava-a sem reação. Sentou-se de frente em seu colo e quebrou com beijos a hipnose por ela mesma causada.
Pegou sua mão e o levou para o quarto. Tirou sua roupa. Ela controlava a situação como fosse a primeira vez de um virgem com alguém experiente (e talvez fosse). Com a voz baixa veio o terceiro pedido: “Me bate”.
O favor veio inicialmente com tapas tímidos até ela gritar: “Mais forte!”. Pegou sua mão e fez com que puxasse seu cabelo.
Puxou, bateu, xingou e agora ele quem ditava as ordens, assim como era o desejo dela: inverter os papéis, ser tratada com submissão, como cachorro(a).
No dia seguinte mal conseguia sentar. Estava realizada, mas jamais iria sorrir ou demonstrar isso no trabalho. Um mês depois Ale foi demitido. Nunca mais se viram. Um novo estagiário vem aí.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
O fanfarrão
Sem dúvida era um grande gozador. Nunca vestiu um terno na vida. Nem uma camisa social. Sequer uma pólo.
Até pra trabalhar era mais comum vê-lo de camiseta, bermuda e chinelo. Isso que era o patrão. Os funcionários ficavam putos com aquilo. “O cara ganha muito mais que eu, trabalha muito menos e anda vestido daquele jeito. Trabalhar pra um cara assim é foda”.
Se por um lado despertava a ira por outro era adorado pelos mesmos funcionários. Não tinha como não gostar dele. Sempre simpático e atencioso. Só quando era obrigado pelas circunstâncias a trabalhar cedo em plena ressaca é que não era lá aquele poço de simpatia, mas nunca deixou de tratar a todos educadamente.
Pedia uma coca-cola, um café e um engov para a secretária. Trancava-se na sua sala e de lá saia depois de meia-hora como se estivesse novo de novo. Ninguém sabia o que fazia lá dentro para voltar assim, entrava um trapo e saia novo. Talvez comesse a secretária lá dentro pra sair assim tão feliz. Também, traçar aquela gostosa deixaria até o José Serra com um sorriso de orelha a orelha.
Depois do ritual saia fazendo piada com tudo e todos. Alguns perguntavam como ele agüentava beber todos os dias e às vezes trabalhar no dia seguinte. Ele sorria e respondia: “Se não guenta beber não bebe. Eu bebo por que sei que tenho cu pra trabalhar”. “Além do mais...”, continuava, “Não posso deixar o trabalho atrapalhar meu alcoolismo”. E ria. Ria sempre. Toda hora. Às vezes fazia um ar de sério quando ia entrevistar alguém para alguma vaga, mas era só mais uma piada. Deixava o entrevistado enrolado e logo largava a gargalhada.
Vivia rindo e ria vivendo. Um dia parou de rir, ninguém sabe por quê. Mas ainda assim deixou uma última sacanagem.
“Quero ser enterrado de bermuda e camiseta. Jamais de terno e gravata. Com uma roupa assim vão achar que tô morto”, dizia a carta. Entretanto, antes de disparar contra a própria cabeça trajava roupa social. “Tô vestido assim só pra dar mais trabalho”. Ponto final.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
O jovem e o senhor
Disse que era “rapidinho”, mas a demora o levou de volta à rua. Não agüentava ficar na sala de espera. Se já saiu de casa por não ter o que fazer por que ficaria ali?
Foi até uma praça próxima ao consultório. Em menos de cinco minutos sentado no banco aproximou-se um senhor.
- Posso sentar aqui ao seu lado?
Pensou em dizer “Pode né porra, essa merda desse banco não é meu”, mas respondeu apenas um “aham”.
- Vi você andando ali na rua. Parou para dar uma descansada?
- Pois é.
- Como é seu nome?
- Fábio.
- Prazer Fábio, me chamo Altair.
“E eu com isso porra? O que que esse velho quer?”. Não gostava muito de conversar, menos ainda com estranhos.
- Vem sempre aqui o centro? O que está fazendo agora? Está com alguém? O que você faz?
O senhor o enchia de perguntas, que eram respondidas com a maior brevidade que seu vocabulário permitia.
O senhor dissera ser um funcionário público federal aposentado e que estava sempre naquela região. “Gosto de conversar com gente assim como você”.
“Papo estranho”, pensou. Em intervalos de tempo cada vez menores olhava o relógio e nada do amigo.
Entre assuntos pessoais, futebol, clima surge um “vamos ali naquele bar tomar um chopp? Eu pago”.
Demorou a responder. Aquela conversa o deixou extremamente irritado “e o cara ainda quer tomar um chopp? Por que ia pagar assim, sem mais nem menos?”.
Mas, pensou por outro lado, já que teria que esperar o amigo, tomar um chopp seria uma boa. Não é todo dia que se ganha algo.
- Vamo ali, vamo ali.
Haviam mesas disponíveis, mas ele rapidamente sentou-se no balcão para evitar muita intimidade.
Sentou-se de frente para a televisão onde grudou o olhar mesmo sem nada ouvir. O homem continuava tentando manter o diálogo. Às vezes não respondia propositalmente fingindo não ouvir, mas a estratégia não funcionou. Com isso o sexagenário o tocava para chamar sua atenção. Se já não gostava de conversar ser tocado então...
Resolveu olhá-lo apenas para responder. Os chopps, perguntas e afirmações vinham um atrás do outro e ele já conversava um pouco mais.
Mandou uma mensagem ao amigo e a resposta não o agradou. “Mano, foi mal. Saí do dentista e vc naum tava la. Achei que tivesse vazado, daí vim embora também”. Já que estava ali bebendo gratuitamente resolveu ficar mesmo assim.
Ele estava virado para o balcão e o homem para ele. Paulatinamente direcionava um pouco mais de atenção. Olhava mais, as respostas vinham com um complemento após a afirmação ou negação e às vezes arriscava até um “e você?”.
15 chopps depois de chegarem ao bar já estava meio bêbado, mas o suficiente para perceber isso.
“Falou aí tiozão. Deu minha hora já”. Virou as costas e foi embora.
E o senhor ficou chupando o dedo. Apenas o dedo.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Os gêmeos
Viviam em universos distintos. Paulo não trabalhava, não estudava. Douglas não bebia, não fumava. Paulo só bebia, só fumava (entenda-se fumar tudo fumável, com exceção ao crack) e vivia rodeado de amigos. Douglas só trabalha, só estudava e nunca dava risada. Ao longo dos 25 anos a vida de ambos foi assim.
A rotina de Douglas era do trabalho para a aula e da aula para casa. A rotina de Paulo era de bar em bar. Quando questionado sobre suas pretensões para o futuro Paulo respondia que iria pedir mais uma cerveja. Douglas pensava apenas no futuro, construindo-o a cada dia. Emprego, dinheiro, família, carreira, etc...
Os pais questionavam por que Paulo não era como o irmão, e ele respondia com um largo sorriso “Não posso trabalhar agora. Tô ocupado curtindo a vida”. Essa era sua filosofia, curtir a vida a cada dia, a cada minuto, a cada instante.
Paulo hoje tem 75 anos e continua seguindo sua filosofia, pode ser encontrado pelos bares da vida, dos mais fuleiros aos mais sofisticados, desfrutando de uma certa herança.
Douglas faleceu uma semana antes de completar 26 anos em um acidente de carro. Partiu sem conhecer o gosto amargo da cerveja e o doce da vida.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
O efeito do beijo
Quando a bebida veio ele fez uma mistura desproporcional. Forte. Assim ele queria que fosse a noite. Só ele e a forte bebida. Queria beber para esquecer. Esquecer do trabalho, da chateação da família, da namorada, da preocupação das contas ou de como seria ter que esperar o madrugueiro para ir pra casa.
Termina a primeira dose e o celular toca. Um amigo. Um grande amigo. Não atende. Se atendesse o parceiro iria falar todo animado: “E aí Celso beleza cara? Vamos fazer alguma hoje?”. Mas só de imaginar a empolgação já sentia um pouco de raiva.
Pede mais uma. Um rapaz ao lado tenta puxar conversa. Por incrível que pareça nem sobre futebol ele queria falar. Para encurtar o diálogo/monólogo ele fala de maneira monossilábica. Quando o coxa-branca ao lado dá uma brecha ele vira o rosto e começa a acompanhar Jim Morrison. Tocava Riders on the Storm. Ele canta alto, mais alto que Jim. O torcedor futuro segunda divisão tenta falar, mas a cantoria encerra a conversa de vez.
O álcool vai fazendo efeito. A velocidade com que toma é diretamente proporcional do quão rápido fica bêbado. A raiva e o desejo de esquecimento vão dando lugar a uma eminente carência. Sente vontade de conversar com alguém. Mas não com o amigo que queria ir para a balada ou com um comentarista de futebol que não sabe nem sequer torcer.
Quando pede a quarta dose surge um alguém conhecido. “Mais inconveniente. Uma inconveniente desta vez”. Sem mais nem menos surge naquele bar esfumaçado uma amiga da sua namorada. Teria que falar com quem e sobre o que menos queria.
- E aí Celsinho. Tudo bom?
- Tudo e aí?
- Tudo certinho também. E a Amanda?
Ele demora a responder. Hesita.
- Bem...
- Já entendi.
Celso e Janaína nunca tinham conversado muito. Na sua visão era apenas a amiga de sua namorada. Ex-namorada.
Nunca imaginou que ela era tão legal. Sempre a achou bonita, mas muito fútil. Mas no decorrer da conversa (e do whisky) percebeu que poderia ser sua amiga também. E talvez até mais que isso. A esta altura a conversa já ia para outro rumo. Parecia(m) querer algo.
Foi ao banheiro. Olhou-se no espelho e conversou com ele. Celso e seu reflexo chegaram à conclusão que não poderiam ficar com Janaína. Era amiga da sua namorada, que ele ainda gostava.
Ele volta e a conversa continua. Enquanto ela falava sobre sabe-se lá o que ele pensava que talvez fosse melhor ter comprado logo uma garrafa inteira de whisky. Retorna ao diálogo, que seguia legal.
Sentiu-se à vontade para falar sobre o relacionamento. Revelou a causa do término e como se sentia, mas não disse que queria voltar com ela e nem que ainda gostava da ex. Falou em tom de revolta. Janaína então revelou que também havia brigado com a amiga algumas horas antes de chegar ao bar.
Sua cabeça pensa logo em ficar com a recente amiga. Lembra da conversa com o espelho, mas pensa “não estou mais com ela e elas brigaram. Então... suce”.
Pensando no futuro próximo ele pergunta:
- E aí? E aquele cara que você tava ficando?
Ela responde que não está mais com o rapaz em questão. Os dois sorriem. Por cerca de 15 segundos um sorri para o outro olhando-se hora para os olhos hora para os lábios. Um sorriso malandro e um olhar de desejo.
Aproximam-se e o beijo acontece.
Sente um gosto de vingança. Inevitável não pensar na ex. Inevitável não pensar na momentânea. Fica excitado como a muito não ficava com um beijo. Ela beija firme. Com desejo. A língua vai fundo. Ele começa a ficar tonto. Tenta encerrar o beijo por ali, mas ela o abraça com mais força. A tontura aumenta. Ela enfia a língua na garganta.
E ele vomita nela inteira.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
O ritual
Ninguém podia sentar no lugar deles. O seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”) não deixava que ninguém se assentasse lá no primeiro dia do final de semana. Só faltava interditar o local para que ninguém se aproximasse. E no primeiro suspiro do final de semana lá estavam eles: os oito amigos que freqüentavam o mesmo bar na faculdade e se encontravam toda semana desde então.
Exceto o Brandão, que sempre chegava atrasado, todos estavam lá no mesmo bat-horário, no mesmo bat-local. Chuva, gripe, trabalho, estudo, filhos, família, frio, carro estragado, nada era desculpa para não estarem lá. O Compromisso era inadiável. Certa vez o Falcão deixou de ir ao velório da própria mãe para ir à reunião.
O bar era um local sagrado. O seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”) já tinha pensado em fechar devido à dificuldade financeira, mas os amigos emprestaram dinheiro a ele apenas para não fechar. Houve um período em que só abria na sexta, e não foram raras às vezes em que estavam apenas os nove no recinto (os amigos e o seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”)).
Carlinhos senta-se na ponta esquerda, na direita o polenta (sem relação alguma com suas posições ideológicas). Para sair sem incomodar ninguém nas milhares de vezes que ia ao banheiro o Gordo senta no primeiro lugar da esquerda para a direita no lado da mesa que fica de costas para o bar. Ao seu lado ficam Elvis (que tem esse apelido por ser fã do cantor) e Brandão. De costas para a parede ficam Tito, Alfredo e Falcão, que ficava de costa para a parede para poder ver todas as meninas do ambiente, que eram várias quando começaram a freqüentar o local.
Em uma das noites Polenta conheceu a sua primeira esposa com que teve três filhos. Agora eram todos casados e não iam mais lá para olhar as meninas. Estavam todos comprometidos e nem as meninas nem a visão eram as mesmas.
Logo ao sentarem faziam um balanço semanal. Contavam o que aconteceu em casa e no trabalho. Comentavam o futebol, faziam piadas, recomendavam livros e filmes. Discutiam política. E sempre terminavam a jornada da mesma maneira, já motivados pela birita surgia o tom de nostalgia e relembravam os velhos tempos.
Era sempre igual. A mesma coisa. Por 30 anos o mesmo ritual. A mesma cerimônia. A mesma conversa. O mesmo destino. Todas sabiam, mas mesmo assim não tinha nenhuma das oito mulheres que não torcia o nariz quando eles falavam “vou para o bar com os meus amigos”.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Cenoura cuzida. E Andressa também.
No dia posterior Andressa acordou primeiro, com a cara amarrada, uma grande dor de cabeça e a vontade eminente de jogar água fervente em cenoura ainda enquanto dormia. Adicionada a sede, cenoura sentiu a mesma vontade quando despertou meia hora depois. Dadas as tendências homicidas de cenoura ele teria o feito se Andressa estivesse no quarto. Quando se levantou o mundo girou e ele foi correndo ao banheiro vomitar. Na cozinha os dois se encontraram e se lançaram um olhar maligno. Disputaram o mesmo copo d’água que cenoura acabou cedendo. Depois que os dois tomaram a água que possibilitou que pudessem falar Cenoura perguntou ainda raivoso:
- Por que a gente brigou ontem, caralho?
- Não lembro.
- Nem eu.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Pra que?
- E aí meu, vamu bebe?
Penso.
- Vamu aê intão.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Segunda-feira
Fico mais um tempo na cama. Sob a desculpa de que vou lavar o rosto vou ao banheiro e consigo tomar água, o que possibilita que eu tome o café. Demoro a conseguir levantar. Termino o café quando já está frio.
Tomo banho e saio de casa, atrasado de novo. Mas a culpa não é da cerveja, me atraso quase todos os dias. Já que vou me atrasar de qualquer forma é melhor beber. A duas quadras cruzo meu amigo, meu parceiro de atraso. Dou uma carona e mudo de caminho, mas na prática não muda nada. Na nossa conversa fazemos o balanço do final de semana e o planejamento do próximo. No balanço percebo que não sou tão louco quanto pensava minutos atrás. Depois que ele vai embora fico pensando no planejamento, mas antes dos dois dias de descanso e curtição têm no meio cinco dias de trabalho, cansaço e compromissos.
Honestamente ainda me sinto no final de semana. Não estou pronto para uma paulada de cinco horas de trabalho, assim repentinamente. Acho que o trabalho não devia ser assim, devia ser de forma gradual. Começava com uma hora na segunda-feira, duas horas na terça e assim até as cinco horas de sexta.
Depois de alguns pensamentos chego ao trabalho. Subo e dou “hoje não” no companheiro de trabalho. Depois de bater comprimento ele e os outros amigos. Vou pro meu núcleo. Deixo minha mala. Sento no computador.
Agora sim. Agora é segunda-feira. Agora começou a semana.
terça-feira, 25 de março de 2008
Pai
Volta logo pai.
Esses loucos estão quebrando a casa inteira nesse churrasco que o Éder deu só por que você foi viajar.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Bebida não mata
Desde que cheguei aqui no maravilhoso bairro do São Braz moro em frente a um bar. Eu então piá de bosta, ia dia e noite no bar pra comprar doces, salgadinhos, refrigerantes e afins. Hoje em dia já não vou tanto no bar da frente de casa, e conforme o tempo vai passando, menos eu vou no bar (o da frente de casa). Mas desde a primeira vez que fui ao bar via alguns caras lá. Os caras pareciam senhores trabalhadores, com boa aparência, sempre muito vermelhos e bebiam bastante. Eles passavam muito tempo no bar, e obviamente não estavam comprando refrigerante, pois eu não levo horas para comprar refrigerante pro almoço. Aqueles senhores tinham aparência de bêbados, bem comportados, mas bêbados. Na verdade eu não os via somente no bar da frente de casa, mas em muitos botecos da região São Braziana. 14 anos se passaram desde a primeira vez que eu fui ao boteco. E um pensamento me flagrou naquela noite.
“Caralho, desde que eu vim morar aqui os caras são os mesmos. Os caras bebem praticamente todos os dias e ainda estão vivos porra!”. Pois bem, fiquei feliz em saber que os caras não morreram de beber. Mas fiquei triste por outra causa: o seu Afonso morreu. O dono do bar. Conclusão: beber não mata, ver os outros beber é que mata.