sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O jovem e o senhor

Foi ao centro acompanhar o amigo ao dentista.

Disse que era “rapidinho”, mas a demora o levou de volta à rua. Não agüentava ficar na sala de espera. Se já saiu de casa por não ter o que fazer por que ficaria ali?

Foi até uma praça próxima ao consultório. Em menos de cinco minutos sentado no banco aproximou-se um senhor.

- Posso sentar aqui ao seu lado?

Pensou em dizer “Pode né porra, essa merda desse banco não é meu”, mas respondeu apenas um “aham”.

- Vi você andando ali na rua. Parou para dar uma descansada?

- Pois é.

- Como é seu nome?

- Fábio.

- Prazer Fábio, me chamo Altair.

“E eu com isso porra? O que que esse velho quer?”. Não gostava muito de conversar, menos ainda com estranhos.

- Vem sempre aqui o centro? O que está fazendo agora? Está com alguém? O que você faz?

O senhor o enchia de perguntas, que eram respondidas com a maior brevidade que seu vocabulário permitia.

O senhor dissera ser um funcionário público federal aposentado e que estava sempre naquela região. “Gosto de conversar com gente assim como você”.

“Papo estranho”, pensou. Em intervalos de tempo cada vez menores olhava o relógio e nada do amigo.

Entre assuntos pessoais, futebol, clima surge um “vamos ali naquele bar tomar um chopp? Eu pago”.

Demorou a responder. Aquela conversa o deixou extremamente irritado “e o cara ainda quer tomar um chopp? Por que ia pagar assim, sem mais nem menos?”.

Mas, pensou por outro lado, já que teria que esperar o amigo, tomar um chopp seria uma boa. Não é todo dia que se ganha algo.

- Vamo ali, vamo ali.

Haviam mesas disponíveis, mas ele rapidamente sentou-se no balcão para evitar muita intimidade.

Sentou-se de frente para a televisão onde grudou o olhar mesmo sem nada ouvir. O homem continuava tentando manter o diálogo. Às vezes não respondia propositalmente fingindo não ouvir, mas a estratégia não funcionou. Com isso o sexagenário o tocava para chamar sua atenção. Se já não gostava de conversar ser tocado então...

Resolveu olhá-lo apenas para responder. Os chopps, perguntas e afirmações vinham um atrás do outro e ele já conversava um pouco mais.

Mandou uma mensagem ao amigo e a resposta não o agradou. “Mano, foi mal. Saí do dentista e vc naum tava la. Achei que tivesse vazado, daí vim embora também”. Já que estava ali bebendo gratuitamente resolveu ficar mesmo assim.

Ele estava virado para o balcão e o homem para ele. Paulatinamente direcionava um pouco mais de atenção. Olhava mais, as respostas vinham com um complemento após a afirmação ou negação e às vezes arriscava até um “e você?”.

15 chopps depois de chegarem ao bar já estava meio bêbado, mas o suficiente para perceber isso.
“Falou aí tiozão. Deu minha hora já”. Virou as costas e foi embora.


E o senhor ficou chupando o dedo. Apenas o dedo.
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