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quinta-feira, 17 de março de 2016

Sobre o futebol

O futebol é um jogo muito complicado. Há dezenas de variáveis, implicações e pode mudar a qualquer momento. “É uma caixinha de surpresas”.

Mas, vou tentar mostrar o pouco que sei do jogo.

Torcedor é a função ocupada pelos apaixonados. Eles carregam bandeira, vestem a camisa, vão ao estádio, gastam dinheiro, instruem os seus filhos a serem como eles, gritam, berram, xingam os rivais e, não raro, matam aqueles elegidos como adversários.

Os adversários são “o outro”. Embora sejam exatamente iguais e estejam na mesma situação, o torcedor não enxerga o outro como seu semelhante. Ele não consegue ver que o outro é alguém que simplesmente fez uma escolha diferente da dele. 

Mas, apesar de agirem como selvagens, os torcedores às vezes também são pessoas normais. Eles têm família, trabalham, levam uma vida social e alguns são até capazes de conversar e manter uma amizade.

O irracionalismo é demonstrado só quando estão no estádio, em meio à massa, sem cara, camuflados. Esse comportamento também pode escapar nas redes sociais. Atrás de um computador, protegido por uma falsa identidade, o torcedor destila o seu ódio e emite opiniões sem o mínimo de informação. Na mesma posição, os seus pares o aplaudem com likes, o que faz o seu ego inflar. Assim, ele continua a falar.

Mas, o futebol é um jogo.

Por isso, em meio a toda selvageria dos torcedores, é preciso haver um lado racional. Quem exerce essa função é o técnico. Essa figura ímpar deve comandar todo o time. Se necessário ele deve, até mesmo, usar o seu racionalismo para controlar a paixão alheia. No entanto, quando um time inteiro não funciona, é o técnico que perde o cargo, mesmo que ele seja o menos culpado pela situação.

No futebol faz sentido: é mais fácil tirar o técnico do que tirar o time todo.

Mas, mesmo que o técnico tenha feito uma proposta concreta para reformular todo o sistema e não tenha sido ouvido é ele que continuará sendo apontado como culpado. As outras forças dentro do clube são capazes de impedi-lo. O técnico não manda em tudo.

Aí vem outro. Esse é colocado como salvador da pátria, quando, na verdade, ele é só um ser humano, com suas qualidades e defeitos, pessoais e profissionais. Há um resultado de curto prazo. Afinal, os jogadores querem demonstrar vontade ao novo chefe e o fazem de maneira espantosa, fazendo com que o valor do seu passe aumente. Mas, com o passar do tempo, o técnico novo vai ficando velho e se percebe que ele não era um herói. É quando os jogadores começam a fazer corpo mole para querer tirá-lo e os torcedores vão no embalo, gritando palavras de ordem e querendo até mesmo que volte um técnico de muito tempo atrás, que tinha métodos bastante arcaicos e nem mesmo permitia torcedores no estádio.

Sem ter o que fazer, o técnico tenta dizer coisas importantes: “mas gente, a culpa não é minha. Vocês que me colocaram nessa posição de Deus e eu não sou Deus. Não tenho como solucionar tudo, quem controla são os jogadores, eles vão a campo, eles atuam em todas as posições, eles são os donos da bola, não eu”. Mas ninguém o ouve mais. A sua fala é abafada pelos gritos. A paixão se sobrepõe à razão.

Vem aí o novo paladino e estão achando que tudo vai mudar.

Se for começo de temporada é possível reformular o time, mas tudo depende da diretoria. Ela sim tem o poder. É a responsável por demitir, contratar e renovar o elenco (ou não).

Mas, é também na diretoria em que se dão a maioria dos casos de corrupção, mas lá todo mundo acha normal.

E segue o jogo.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Palácio Iguaçu

Praça Nossa Senhora de Salette, s/n - Centro Cívico
80530-909 - Curitiba - PR



Oi Betinho, tudo bom?

Não sei se lembra de mim.
Por um momento gostaria muito que lembrasse.

Eu lembro de você perfeitamente Betinho. Você era tão bonitinho. Vinha para a aula arrumado, com gel no cabelo. Ah, e como era educado. Você tinha muita educação, Beto!

No recreio adorava brincar de carrinho e na sala era o aluno mais aplicado. Fazia as tarefas em dia, prestava atenção nas aulas e sentava bem na minha frente. Nunca foi bagunceiro, muito menos desordeiro.

Eu sempre soube que você seria político, Betinho. Me orgulhava de dizer: “o governador foi meu aluno”.

Mas sabe Beto, fiquei muito decepcionada. Parece que não aprendeu nada comigo, só com quem não deveria. O que você fez foi maior do que os atos de Álvaro Dias, Beto. Você superou o seu mestre.

Se pudesse deixaria você de castigo na escola. Mas não posso. Não posso fazer nada enquanto você parece achar que pode fazer tudo.

E sabe o que é o pior, Betinho? Você nem mesmo assumiu o que fez. Logo você, que tomava a frente da turma, que se empoderava, que gostava de estar em evidência, agora se esconde.

Você disse que não viu truculência da polícia, que eles estavam defendendo a sua integridade e apenas continham os arruaceiros. Ora Betinho, ninguém mobiliza helicópteros, cães, tanta gente e tanta arma só para conter alguns arruaceiros.

Mas não foi só você que eu vi na tv. Eu vi professores como eu sendo agredidos. Eu vi balas de borracha. Vi bombas de “efeito moral”. Vi spray de pimenta.

Você me deixou lacrimejante, Beto. Me senti machucada como aqueles 213 que você feriu. Era como se cada uma daquelas balas atingisse o meu corpo e cada dente de cachorro rasgasse a minha pele. Aquele spray sufocante jamais vai me deixar respirar aliviada.

Sabe Beto, eu queria que você lembrasse de mim. Talvez você conseguisse sentir compaixão, sendo alguém que você conhece, não só um número desses que você vê toda hora.

Mas se, por acaso, você lembrar de mim não conte para ninguém.

Jamais diga que eu fui sua professora.

Eu tenho vergonha de você Carlos Alberto Richa.




sexta-feira, 20 de março de 2015

Tubarão

Foi uma das poucas vezes que pisou na rua sem medo. Estar no protesto era romper uma barreira. Eram raras as ocasiões que aparecia em público. Mas desta vez estava entre os seus iguais, ao lado de todo aquele coletivo que lutava por direitos individuais.

Era um legítimo manifestante. Tinha faixas, cartazes, entoou gritos e até pegou no megafone. O fervor com que cantava era o de um líder sindical, mas o único sindicato que defendia era o do próprio umbigo.

Jamais trabalhou, mas definia-se como empresário. Aos poucos aprendia a mandar na empresa do pai.

Dudu estava acompanhado do segurança, que desta vez não trajava terno e não o chamava de Seu Eduardo.

Apesar de estar exercendo o seu trabalho, Afonso queria estar no protesto. Mesmo com toda a distância, Afonso e Dudu tinham o mesmo pensamento. O empregado pensava com a cabeça do patrão.

Mesma cabeça, línguas diferentes. A fala de Afonso virava piada quando Dudu estava com os amigos. Assim como sua raça, seu cabelo, seus hábitos, seu jeito de ser, sua vida.

Aceitar o outro era difícil.

Dudu tinha raiva, ódio, incômodo, negação, medo. Só gostava de uma coisa que era de Afonso.

Esteve a vida inteira afastado de pessoas assim, mas não podia evitar que quem lhe protegesse fosse alguém como ele.

Neste dia patrão e empregado estavam juntos, com a mesma camiseta da seleção brasileira e cantando o mesmo canto.

Quando retornaram, retornaram as diferenças. Depois de cantarem os gritos de ordem, a ordem voltou a ser gritada por Eduardo e cumprida por Afonso.

Dudu estava cansado, como se sentia após as partidas de tênis. Mas, antes de deitar na Jacuzzi foi até o quarto da empregada.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Televisão

Acabo de fazer a melhor aquisição da minha vida.

Comprei uma televisão.

Para vocês eu sei que pode parecer que foi muito dinheiro, mas não foi. A utilidade dela faz valer cada um dos seus 89.999 reais. Ao longo dos próximos 10 meses vou desembolsar R$ 8.999,90.

A minha nova televisão, que vem para substituir aquela que tinha Vídeo Cassete integrado, tem 85 polegadas. Posso assistir em uma tela de cinema as notícias de que manifestantes pedem a intervenção militar no Brasil. É uma maravilha ouvir por meio de um sistema de áudio de 120W e alto-falantes Sub-Woofer que pessoas se manifestam pelo direito de ser torturadas e mortas caso queiram se manifestar novamente.

Com a resolução Ultra HD 4k posso ver com completa nitidez que de uma certa maneira esse tipo de intervenção já existe. O pedreiro Amarildo não pode.

Se canso de assistir tv posso me conectar à internet. Com seu Wi-Fi integrado posso acessar as redes sociais e ver postagens pedindo a separação do país e críticas aos programas sociais do governo. O pessoal que faz isso não tem uma tv igual a minha. Se tivesse, talvez criticasse com a mesma força o poder judiciário, que aprovou uma gorjeta de 4,4 mil mensais para cada magistrado em nome de um auxílio-moradia.

Falta muita informação quando não se tem uma tv como a minha. Mas, felizmente, com esse aumento os juízes poderão ter mais dinheiro, ir a Miami comprar ternos e talvez ter um aparelho como o meu. Por que, cá entre nós, essa é uma coisa que todo mundo tem que ter. Comida não.

Para relaxar um pouco desses assuntos chatos eu assisto o meu esporte favorito. O eletrônico é perfeito para mim (pra quem não seria né!?). Ele conta com o Modo Futebol, que torna suas configurações perfeitas para assistir jogos em que torcedores xingam jogadores de macaco.

Na minha tv milhares de imagens se sobrepõe. É receita em cima de notícia, notícia em cima de dinheiro, dinheiro em cima de celebridades, celebridades em cima de humor, humor em cima de preconceito. É tanta imagem que às vezes não consigo conectar as coisas, como política e falta de água. Mas o que realmente importa é que minha tv tem 4 conexões HDMI e 3 USB.

O jornal local fica uma maravilha na minha tela, que converte a imagem em UHD independentemente do sinal. Ali, ou aqui, vejo os haitianos sofrendo preconceito e xenofobia na nossa bela capital, construída por imigrantes assim como a minha tevê, desenvolvida por uma empresa coreana.

O retrocesso da humanidade fica lindo na minha TV. Compre uma você também!

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Política familiar

Alceu chegou mais tarde naquela noite. Com sua ausência, Isabela e a pequena Júlia sentaram-se à mesa de jantar sem o patriarca. Chico, o cachorro, também fez sua refeição (toda família feliz tem um cachorro). O atraso era previsto. Ele avisara que chegaria mais tarde (todo infeliz trabalha mais que o necessário).

Sua chegada não foi tão festiva quanto o habitual. Ninguém foi recepcioná-lo. Isabela o cumprimentou sem se desviar da TV. Chico continuou deitado e apenas deu um olhar levantando a sobrancelha.

- O que aconteceu?

- Nada!

Naquele momento Alceu confirmou o que desconfiava. Alguma coisa aconteceu.

Foi até o quarto e viu na cama alguém se movimentando embaixo da coberta. Ao levantá-la viu o desesperado e reprimido choro de Júlia.

Sentou-se calmamente e deu um beijo na testa da menina, que sem perder tempo agarrou-lhe o pescoço.

Passado o pranto, ele transferiu a ela a pergunta feita à mulher, o que fez com que o choro recomeçasse.

Voltou para a sala.

- O que aconteceu, Isabela?

O cachorro saiu de perto e foi para o seu canto.

- O que aconteceu, Alceu? O que aconteceu? O que aconteceu é que a tua filha não quis jantar por que o pai dela não chegava.

- E ela tá chorando desse jeito por causa disso?

- Não. Ela tá chorando por que eu bati nela.

- Bateu nela, Isabela?

- Bati e bati mesmo.

- Por que fazer isso Isabela? Só por que ela não quis comer?

- Claro que não Alceu. Ela tava me desafiando. Me questionando.

- E você não sabe conversar? Ela é uma criança, Isabela.

- Purisso mesmo. Purisso que ela tem que me respeitar e fazer o que eu mando.

- E você não podia simplesmente explicar que eu vinha mais tarde?

- Eu tentei Alceu. Mas essa guria me questionava cada vez mais. Aí eu...

- ...Aí você bateu nela.

- É Alceu. Bati. E daí?

- E daí que não é assim que se educa uma criança e eu esperava que você soubesse disso. Como uma pessoa calma, educada, inteligente como você foi bater em uma criança?

- Alceu, você não tá vendo? Você não percebeu o que essa menina fez?

- Não.

- Alceu, a atitude dela tem influência político-partidária!

- Ah então tá certo. Tá justificado.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O juiz supremo

Era bela. Tinha um olhar inocente, rosto jovial, uma boca pequenina e um corpo que parecia desenhado por cirurgiões plásticos, mas era cria apenas da natureza humana (e lapidada na academia). Sem dúvida alguma era muito bela. Mas seu caráter era o de uma bela de uma filha da puta.

Sua principal “virtude” era a falsidade. Conseguia negar com seu doce olhar e a expressão de um desenho animado dos mais meigos aquilo que todos sabiam ser uma trapaça. Fazia-o com a naturalidade de quem peida ao estar sozinho. E convencia. Fazia-se de inocente e por vezes fingia estar ofendida, virando o jogo.

Seu corpo era instrumento de manipulação. Seduzia a quem pudesse ser seduzido fisicamente para que fizesse algo em seu benefício.

A simpatia era outra de suas formas de conquista. Sorria para todos. Fingia dar atenção e carinho. Ao conquistar algo dava apenas as costas.

A boca era sua principal arma. Por trás acontecia sua trama. Jogava um contra outro enquanto no meio de campo se sobressaia. Pela frente dava apenas elogios, fazendo seu ilusionismo. Na distância a doce língua transformava-se em metralhadora.

Não bebia e não usava drogas. Só os fazia quando estava acompanhada unicamente do namorado, igualmente falso. Saia bastante, quase todos os dias. Concentrada na armação deixava que os outros bebessem e aí, maleáveis, convencia-os.

Passava dias e noites tentando alcançar o topo, utilizando seres humanos e suas frágeis humanidades como escada.

Mas ao final da noite, mesmo exausta por tanta tramóia, não conseguia dormir. Era a hora da ação do juiz supremo: o travesseiro.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O(s) cachorro(s)

Ele fica sempre ali quietinho. Não late pra nada, não late pra ninguém. Às vezes parece nem estar ali, só olhando para o além. Sempre foi dócil e vive sem reclamar, sem rosnar. Sem protestar, sem nada.
Quando o chefe chega ele pula de alegria. Fica acordado durante o dia e pela noite repousa. Acorda sempre bem cedo. Quando chega um estranho ele tem medo. Até mesmo dos conhecidos.
Esse não morde e também não ladra. Pra brincar lhe jogam uma lata ou garrafa. Quando está faminto, ração. Vez em quando um pão. Ele é tão dócil e ninguém sabe a razão disso. Vai pro serviço e não se informa. Conhece a política, mas não a transforma. Nem mesmo no próximo dia 03 vai buscar a reforma.


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Com a devida autorização de mim mesmo, aproveito para divulgar meu trabalho como jornalista. Neste mês foi publicada uma matéria que escrevi para a revista do Crea-Pr. Para acessar clique Aqui.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A foto

Era época de eleição. Naquela noite um dos candidatos que disputava o cargo de prefeito iria visitar um bairro do subúrbio. O comício estava marcado para as 20h30, mas a comunidade estava agitada desde as primeiras horas da manhã. O candidato, além de favorito, era um galã. Elegante, gentil, inteligente, sorridente e carismático.
No horário marcado a associação de moradores fervia. Algumas pessoas que não simpatizavam com o candidato ficaram do lado de fora tomando tubão (refrigerante + pinga), enquanto lá dentro homens, mulheres e crianças se acotovelavam na fila por um pão com lingüiça. O cardápio era completo por risoto. A cerveja também era por conta da casa, o que deixou os bares da região às moscas. Até mesmo alguns dos donos dos botecos poderiam ser vistos no local.
A marchinha da campanha era repetida à exaustão alternando com pagode, samba, axé e música sertaneja. A bebida atraiu um bom número de homens para a associação, mas a maioria do público era feminino. Todos queriam vê-lo de perto, mal acreditavam que ele iria visitar a comunidade.
Comeram, beberam, dançaram, receberam camisetas e adesivos e nada dele. Eis que uma hora e meia após o início da festividade ele chega ao lado da primeira-dama que também já atraia a simpatia do público. Cercado de seguranças, assessores e fotógrafos ele arranca suspiros de quem lá estava. Mesmo sendo programada parecia uma surpresa a sua presença.
O barulho alto silenciou-se quando ele começou a falar. Vez ou outra alguém gritava “é isso aí prefeito”. O ritmo foi seguido durante os 30 minutos em que ele discursou. Ao final, aplausos calorosos.
Todos foram em sua direção quando desceu do palanque. Cercado por homens de preto ele ficou disparando sorrisos e beijos a quem tentava lhe tocar esticando o braço. Dona Arlete com a criança no colo se aproximou. Ele apanhou a criança e a beijou fazendo pose para a câmera. Continuou com a pequena Amanda nos braços durante boa parte da celebração.
Naquela noite o candidato promoveu a alegria do público feminino. Com um banner da campanha ao fundo ele tirava foto com quem desejasse. A sessão de retratos foi intensa. Mais de uma centena de mulheres quis registrar o momento. Meninas, moças, mulheres e avós tiravam foto e a recebiam após alguns minutos.
Dona Izolda foi uma delas. Sorridente voltou para casa na companhia do marido, Seu Alencar, e suas filhas. Uma delas, Rafaela, também teve seu registro com o galã. A outra, Rafaelle, não simpatizava muito com o candidato, mas não perdeu a boca livre.
A foto passou alguns dias sob o criado-mudo “largada”. Depois disso foi para a porta do armário dividir espaço com a foto do casamento e com a foto do casal de filhas. Quando viu, Seu Alencar pediu em tom educado para que Izolda retirasse a foto. Ela respondeu sorridente que não o faria.
A porta do armário era aberta toda noite antes do casal dormir quando Izolda ia guardar a roupa e pegar a camisola. Com o tempo a educação foi dando lugar à grosseria na forma com que Seu Alencar pedia para que tirasse a foto.
Em uma das noites Dona Izolda deixou a porta do armário aberta quando foram se deitar. Ciente de que a mulher sabia sua opinião sobre a foto Seu Alencar nada falou interpretando o ato como provocação. Coincidência ou não o faixo de luz que vinha do poste e passava pela cortina batia exatamente na imagem. Era impossível para Seu Alencar tirar aquilo da cabeça mesmo na hora em que foram fazer amor.
Alencar broxou. Levantou-se enraivecido, pegou a foto, amassou e jogou no chão sem nada falar. Izolda também permaneceu calada apenas se vestiu, virou para o lado e dormiu.
No dia posterior a foto estava lá novamente. Nas duas semanas seguintes nada de sexo, nada de beijo e pouco diálogo. Em uma sexta-feira em que chegou mais tarde depois de ter ido ao bar Seu Alencar encontrou Dona Izolda beijando a foto antes de dormir. Silenciou.
Na manhã seguinte depois do café Seu Alencar deu o ultimato: “ou a foto ou eu”. Não esperou a resposta e saiu de casa. Foi para o churrasco do Edmar. Quando chegou de noite abriu a porta do armário e a foto ainda estava lá. Pegou uma coberta e foi dormir no sofá. E assim continuou.
A eleição passou. O candidato se elegeu. E o casal continuava de leito separado e falando apenas o necessário.
Seu Alencar que comprava um jornal favorável ao prefeito resolveu assinar o jornal concorrente. Quando aparecia na TV ele logo mudava de canal. Quando isso acontecia Dona Izolda o olhava com um olhar de reprovação. O olhar era respondido com o mesmo tom. Era uma das raras vezes que se olhavam.
Passados seis meses de governo um escândalo abalou a cidade. O prefeito estava envolvido em uma maracutaia grande. Seu Alencar dava indiretas na mulher. Fazia de tudo para reforçar a imagem de ladrão que o prefeito ganhou. Nos almoços qualquer assunto comentado pelas filhas terminava com uma acusação ao prefeito feita pelo pai.
Em uma noite no intervalo da novela o casal assistia TV com a cabeça sem virar para o lado de maneira alguma. Olhares fixos na tela. Alzira se levantou e foi até o quarto. Pegou a foto e rasgou na frente do marido. Ele apenas observou. Ela lhe deu um beijo e falou: “você tava certo Alencar. Ele é um canalha”.
E voltaram a ser marido e mulher como antes.