quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A foto

Era época de eleição. Naquela noite um dos candidatos que disputava o cargo de prefeito iria visitar um bairro do subúrbio. O comício estava marcado para as 20h30, mas a comunidade estava agitada desde as primeiras horas da manhã. O candidato, além de favorito, era um galã. Elegante, gentil, inteligente, sorridente e carismático.
No horário marcado a associação de moradores fervia. Algumas pessoas que não simpatizavam com o candidato ficaram do lado de fora tomando tubão (refrigerante + pinga), enquanto lá dentro homens, mulheres e crianças se acotovelavam na fila por um pão com lingüiça. O cardápio era completo por risoto. A cerveja também era por conta da casa, o que deixou os bares da região às moscas. Até mesmo alguns dos donos dos botecos poderiam ser vistos no local.
A marchinha da campanha era repetida à exaustão alternando com pagode, samba, axé e música sertaneja. A bebida atraiu um bom número de homens para a associação, mas a maioria do público era feminino. Todos queriam vê-lo de perto, mal acreditavam que ele iria visitar a comunidade.
Comeram, beberam, dançaram, receberam camisetas e adesivos e nada dele. Eis que uma hora e meia após o início da festividade ele chega ao lado da primeira-dama que também já atraia a simpatia do público. Cercado de seguranças, assessores e fotógrafos ele arranca suspiros de quem lá estava. Mesmo sendo programada parecia uma surpresa a sua presença.
O barulho alto silenciou-se quando ele começou a falar. Vez ou outra alguém gritava “é isso aí prefeito”. O ritmo foi seguido durante os 30 minutos em que ele discursou. Ao final, aplausos calorosos.
Todos foram em sua direção quando desceu do palanque. Cercado por homens de preto ele ficou disparando sorrisos e beijos a quem tentava lhe tocar esticando o braço. Dona Arlete com a criança no colo se aproximou. Ele apanhou a criança e a beijou fazendo pose para a câmera. Continuou com a pequena Amanda nos braços durante boa parte da celebração.
Naquela noite o candidato promoveu a alegria do público feminino. Com um banner da campanha ao fundo ele tirava foto com quem desejasse. A sessão de retratos foi intensa. Mais de uma centena de mulheres quis registrar o momento. Meninas, moças, mulheres e avós tiravam foto e a recebiam após alguns minutos.
Dona Izolda foi uma delas. Sorridente voltou para casa na companhia do marido, Seu Alencar, e suas filhas. Uma delas, Rafaela, também teve seu registro com o galã. A outra, Rafaelle, não simpatizava muito com o candidato, mas não perdeu a boca livre.
A foto passou alguns dias sob o criado-mudo “largada”. Depois disso foi para a porta do armário dividir espaço com a foto do casamento e com a foto do casal de filhas. Quando viu, Seu Alencar pediu em tom educado para que Izolda retirasse a foto. Ela respondeu sorridente que não o faria.
A porta do armário era aberta toda noite antes do casal dormir quando Izolda ia guardar a roupa e pegar a camisola. Com o tempo a educação foi dando lugar à grosseria na forma com que Seu Alencar pedia para que tirasse a foto.
Em uma das noites Dona Izolda deixou a porta do armário aberta quando foram se deitar. Ciente de que a mulher sabia sua opinião sobre a foto Seu Alencar nada falou interpretando o ato como provocação. Coincidência ou não o faixo de luz que vinha do poste e passava pela cortina batia exatamente na imagem. Era impossível para Seu Alencar tirar aquilo da cabeça mesmo na hora em que foram fazer amor.
Alencar broxou. Levantou-se enraivecido, pegou a foto, amassou e jogou no chão sem nada falar. Izolda também permaneceu calada apenas se vestiu, virou para o lado e dormiu.
No dia posterior a foto estava lá novamente. Nas duas semanas seguintes nada de sexo, nada de beijo e pouco diálogo. Em uma sexta-feira em que chegou mais tarde depois de ter ido ao bar Seu Alencar encontrou Dona Izolda beijando a foto antes de dormir. Silenciou.
Na manhã seguinte depois do café Seu Alencar deu o ultimato: “ou a foto ou eu”. Não esperou a resposta e saiu de casa. Foi para o churrasco do Edmar. Quando chegou de noite abriu a porta do armário e a foto ainda estava lá. Pegou uma coberta e foi dormir no sofá. E assim continuou.
A eleição passou. O candidato se elegeu. E o casal continuava de leito separado e falando apenas o necessário.
Seu Alencar que comprava um jornal favorável ao prefeito resolveu assinar o jornal concorrente. Quando aparecia na TV ele logo mudava de canal. Quando isso acontecia Dona Izolda o olhava com um olhar de reprovação. O olhar era respondido com o mesmo tom. Era uma das raras vezes que se olhavam.
Passados seis meses de governo um escândalo abalou a cidade. O prefeito estava envolvido em uma maracutaia grande. Seu Alencar dava indiretas na mulher. Fazia de tudo para reforçar a imagem de ladrão que o prefeito ganhou. Nos almoços qualquer assunto comentado pelas filhas terminava com uma acusação ao prefeito feita pelo pai.
Em uma noite no intervalo da novela o casal assistia TV com a cabeça sem virar para o lado de maneira alguma. Olhares fixos na tela. Alzira se levantou e foi até o quarto. Pegou a foto e rasgou na frente do marido. Ele apenas observou. Ela lhe deu um beijo e falou: “você tava certo Alencar. Ele é um canalha”.
E voltaram a ser marido e mulher como antes.
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