E num instante o tudo se fez nada.
Sua vida espirrou na minha frente.
Um ônibus com duas articulações, vermelho, 25 metros e muita gente dentro, fez com que todos seus pensamentos saíssem instantaneamente da cabeça.
Mesmo com as dimensões gigantescas do veículo ele insistiu em cabeceá-lo. Pensou ser uma bola? Estava feliz pela vitória do seu time. Vestia a camisa do clube que o representava. Talvez fosse sua única razão para alegria. Na próxima partida não haverá um minuto de silêncio. Ele era só um torcedor.
Estava apressado. Daqui a pouco o celular que está naquele bolso vai tocar para cobrar o atraso. Se alguém tiver a coragem de encostar no corpo irão dizer ao chefe que ele não poderá ir. Depois das condolências o patrão terá que se preocupar em encontrar um novo funcionário, vivo.
Queria poder ter evitado. Estava parado, esperando o sinal e aguardando o ônibus passar. Ele não viu, mesmo com o barulho do ônibus e sua chamativa cor. Só via o trabalho a sua frente. Depois de uma manhã de segunda-feira ele não viu mais nada.
Veio por trás de mim, correndo. Não pude avisar, não pude puxar, só pude tentar fechar os olhos para não ver, mas vi.
Vi sua cabeça se tornar uma massa disforme. Uma parte dela agora está parada no para-brisa, outra parte voou.
Filho da puta. Deixou minha blusa suja de cérebro.
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terça-feira, 19 de agosto de 2014
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Há caso?
Viram-se pela primeira vez pelo acaso. Foi acidental, se é que um acidente pode ser bom. E se é que foi bom terem se visto.
Estavam de costas um para o outro. Não por acaso carregavam um guarda-chuva e um ônibus os carregava.
Ele ia para uma entrevista de emprego. Ela enfrentava o transporte coletivo todos os dias, mas nunca naquele horário. Estava atrasada.
As costas se encostavam mesmo que evitassem o contato gratuito, afinal ambos eram curitibanos. O contato só foi possível graças à lotação estar lotada.
O guarda-chuva já fazia parte do visual de ambos. Em Curitiba nesta época do ano o guarda-chuva é uma extensão do braço. Ele segurava nas mãos, molhando o chão do ônibus. O dela estava na mochila, somente com o cabo de fora. Estava tão frio que até mesmo o guarda-chuva corria o risco de pegar gripe se ficasse exposto à friagem.
A distração dela foi interrompida quando a voz do ônibus que fala anunciou que seu ponto estava chegando. Apressada, desceu do ônibus levando consigo uma lembrança.
A alça do guarda-chuva se enroscou com a mala dele, que desceu onde não devia. Quando perceberam, começaram a rir timidamente. Olhavam um para o outro, depois olhavam pro chão e riam.
Ela se desculpou. Ele, embora tenha descido quatro pontos antes do desejado, aceitou as desculpas.
Depois da graça ficaram sem graça. E mesmo com vontade de conversar rumaram para seus compromissos.
Como previsto ela chegou atrasada. Ele, devido ao imprevisto, também se atrasou e não conseguiu o emprego.
Ela já se imaginou contando para a filha como se conheceram. Ele queria contar para os amigos, mas sabia que iriam chamá-lo de bundão por não ter conseguido dizer nada para a garota.
Esforçaram-se para um novo encontro. Ele pegou o ônibus mais algumas vezes mesmo sem nenhum compromisso. Ela passou a chegar atrasada frequentemente.
O dinheiro dele acabou e não pode mais instigar outro acaso. Ela não podia mais se atrasar por conta do possível caso.
Depois o acaso nunca mais ocasionou.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Linha a linha
O ônibus pára, mas a leitura continua.
Distraído. Estava mais dentro do livro que do ônibus. A história o levava para um mundo distante, o ônibus o transportava apenas até sua casa.
A porta se abre e o alerta de “parada solicitada” se apaga.
O livro parecia novo. Grosso. Bonito. Parágrafos bem espaçados. Não segurava o livro, apenas o apoiava nas mãos. Isso foi providencial.
Com a abertura da porta o vento entra e, com a mesma velocidade, um homem sai. Antes de sair interrompe a viagem do leitor. Apanha o livro e sai correndo.
O agora ex-leitor fica embasbacado até voltar para o mundo real e perceber que seu livro foi levado. Até se levantar e olhar pela janela o ladrão já estava na esquina.
Não sabe como reagir e na dúvida não o faz. Dá apenas um riso nervoso aos que o olham.
Nem a mão de quem o tirou do mundo das letras pôde ver, menos ainda o rosto de quem estava, na realidade, apenas fazendo um empréstimo.
Não queria montar uma biblioteca. Depois de apreciar o livro o abandonava em algum ônibus, geralmente na mesma linha em que tinha feito o furto, na esperança que o subtraído o reouvesse.
O habito começou há cinco meses. No primeiro ficou extremamente nervoso. Correu sete quadras até chegar em casa. Empalidecido cuspia os pulmões e alguns cigarros.
- O que foi?- perguntou a mulher. – Um roubo- Quem te roubou? Aonde? Você está bem? – O nervosismo maior passou para a mulher. Recuperou o fôlego e a explicou que havia sido ele o “furtador”.
A mulher ficou com raiva e meio sem entender. Depois passou a apoiá-lo com o aparecimento frequente de livros em casa.
Quando chegava com um deles era como se chegasse com carne. Alegria total. Se depois percebessem que era auto-ajuda, espiritismo, empreendedorismo ou técnico já o devolvia à linha no dia posterior.
Não tinha distinção. Roubava todos. Afinal, queria ser como eles. Queria ser um leitor como toda aquela gente.
E ninguém iria culpá-lo. Ninguém iria chamar a polícia e nem mesmo o reconheceriam.
Ele vestia-se como a maioria. Calça jeans e camiseta. Dentro da mala a marmita vazia, uma toalha de banho e itens de higiene. Sabia que aquilo não era um bom exemplo para o filho, mas o explicou que não poderia comprar e nem mesmo fazer cadastro em uma biblioteca.
O filho, como a mulher, estranhou no início, mas compreendeu e a cada noite em que o pai chegava o recebia com atenção quando ele com um olhar dócil após o jantar o pedia:
- Filho, lê pra mim.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Olhar terminal
Poucas pessoas no ambiente. Ele aguardava. Enquanto isso corria os olhos pelas pessoas que ali estavam. Algumas ele já conhecia, pois as via todos os dias. Por isso, os olhos passavam rapidamente, só pra conferir se os mesmos eram mesmo os mesmos. Olhava como se estivesse conferindo produtos no mercado, atividade que desenvolveria dali algumas horas.
Os olhos correm. Eis que passa por alguém diferente. O olhar que até então passavam da esquerda para a direita ao ver o corpo estranho (que analisando melhor não era lá tão estranho) pausa e volta para a esquerda.
O fato de ser alguém diferente já era um bom motivo para que ele analisasse, especialmente por que se tratava de uma bela dama. Olhou o rosto. Olhou os pés. E foi subindo admirando o corpo até que a escalada de admiração chegasse ao rosto novamente. Chegando ao destino percebe que ela também o olhava.
Susto.
Susto, nervosismo e vergonha.
Não estava acostumado com pessoas estranhas naquele local, quiçá com mulheres, quiçá ² quando elas o olhavam. Ele, macho que é, tenta continuar olhando nos olhos. Eles mantêm a encarada por 30 segundos. Ele desvia, olha para o lado e quando retorna ela não o olhava mais.
O vínculo inicial estava quebrado. Ele dava algumas olhadas repentinas e ela também. Quando os olhares se cruzam um dos dois desvia.
Em determinado momento ele a olha pelo reflexo do vidro e parece que ela corresponde. Ele continua com o olhar fixo. Continua. Continua. Continuam.
Ele tenta olhar para ela diretamente. Ele olha, mas ela continua com o olhar direcionado para o vidro.
Depois disso continuam naquele olhar/desvio de antes. Eis que ela olha diretamente para ele e sem desviar levanta-se e vai em sua direção. Ele não acredita, desvia rapidamente e torna a olhar. Ela vem vindo, se aproxima. Ela dá uma breve pausa. Ele ouve um barulho, mas não dá atenção. Ela continua vindo em sua direção. Ao chegar a um metro de distância a porta se abre e ela desce.
- Maldito terminal do Campina do Siqueira.
Os olhos correm. Eis que passa por alguém diferente. O olhar que até então passavam da esquerda para a direita ao ver o corpo estranho (que analisando melhor não era lá tão estranho) pausa e volta para a esquerda.
O fato de ser alguém diferente já era um bom motivo para que ele analisasse, especialmente por que se tratava de uma bela dama. Olhou o rosto. Olhou os pés. E foi subindo admirando o corpo até que a escalada de admiração chegasse ao rosto novamente. Chegando ao destino percebe que ela também o olhava.
Susto.
Susto, nervosismo e vergonha.
Não estava acostumado com pessoas estranhas naquele local, quiçá com mulheres, quiçá ² quando elas o olhavam. Ele, macho que é, tenta continuar olhando nos olhos. Eles mantêm a encarada por 30 segundos. Ele desvia, olha para o lado e quando retorna ela não o olhava mais.
O vínculo inicial estava quebrado. Ele dava algumas olhadas repentinas e ela também. Quando os olhares se cruzam um dos dois desvia.
Em determinado momento ele a olha pelo reflexo do vidro e parece que ela corresponde. Ele continua com o olhar fixo. Continua. Continua. Continuam.
Ele tenta olhar para ela diretamente. Ele olha, mas ela continua com o olhar direcionado para o vidro.
Depois disso continuam naquele olhar/desvio de antes. Eis que ela olha diretamente para ele e sem desviar levanta-se e vai em sua direção. Ele não acredita, desvia rapidamente e torna a olhar. Ela vem vindo, se aproxima. Ela dá uma breve pausa. Ele ouve um barulho, mas não dá atenção. Ela continua vindo em sua direção. Ao chegar a um metro de distância a porta se abre e ela desce.
- Maldito terminal do Campina do Siqueira.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Haja fígado
Estava no ônibus indo para a faculdade de noite. Exatamente na hora H, a hora em que todo mundo volta do trabalho pra casa, e coincidentemente os estudantes vão para a aula. Mas por que será que resolveram fazer isso com as pessoas? Por que cargas d’água foram inventar de colocar as pessoas no mesmo horário no mesmo ônibus?
Pegar ônibus esse horário cansa mais do que o próprio trabalho. Chegar no trabalho e ver o seu chefe com aquele sorriso totalmente receptivo é um alívio pra quem vem de ônibus. Enquanto para quem vem de carro, ver o patrão pela manhã é um verdadeiro pesadelo.
Todo mundo se esfregando, suado, todo mundo se respirando. Cada um respeitando o pequenino espaço do outro. Apesar de os passageiros serem totalmente diferentes todos os dias, parece que todos já se conhecem, desde os calos dos pés que não podem ser pisados em hipótese nenhuma, até as partes menos importantes do corpo, que podem ser batidas e amassadas sem nenhum problema.A grande maioria já é pós-graduado em pegar ônibus. Assim como os passageiros o motorista também quer chegar rápido em casa. Os movimentos do famoso Latão estão em total sincronia com os movimentos dos passageiros. Latão pra lá, sardinhas pra cá.
Como de costume de todos os curitibanos, ninguém fala. Ninguém fala absolutamente nada. As pessoas estão tão juntinhas que é impossível que alguém esbarre em alguém, o espaço é mínimo. Mas caso isso aconteça, ninguém fala nada. No máximo o esbarrador olha para o esbarrado e finge estar falando alguma coisa, no final da “frase” apenas abaixa a cabeça como sinal de desculpa. E o esbarrado por sua vez abaixa a cabeça também, como se com esse simples gesto um dissesse para o outro:
-Ei amigão, desculpa por ter batido em você, você sabe como é né? Esses ônibus lotados balançando toda hora, isso acaba acontecendo.
E o esbarrado retruca:
-O que é isso? Não foi nada, nós que pegamos ônibus todos os dias já sabemos que isso é comum. Você pega sempre esse ônibus?
E a partir daí os dois começam a desfiar um longo papo até o ponto final. Mas isso é irreal e praticamente impossível. Ninguém fala nada. Até parece uma regra geral que todos seguem à risca. Quando o ponto chegou e alguém quer descer, o sangue sobe a cabeça e alguém tenta quebrar a regra, mas não quebra. Para pedir passagem apenas um “sença” já basta.
Mas de repente, sem mais nem menos alguém quebra o silêncio, através de um ritmo bem definido e pausas marcadas alguém grita lá da frente:
“Boa tarde senhores passageiros/ Desculpem atrapalhar a viagem de vocês/ Eu estou aqui nesse ônibus/ Pedindo a sua humilde contribuição./ Eu fiz uma operação/ que não deu certo./ Por isso eu estou com o fígado pra fora/ como vocês podem ver/ o meu fígado está em uma sacola plástica/ e preciso coloca-lo para dentro.”
Lá de trás eu penso: “Meu Deus do céu, que pessoa inescrupulosa! Eu só quero ir para a aula e as pessoas vêm aqui me mostrar o fígado. Que coisa nojenta! Aonde nós vamos parar desse jeito?”
Enquanto isso o sujeito vem lá da frente gritando e pegando os trocados que alguns passageiros conseguem pegar nos bolsos. As frases de agradecimento variam, três obrigados e um Deus que ajude:
-Brigado, brigado, brigado.
-Deus que ajude.
-Brigado, brigado, brigado.
-Deus que ajude.
-Brigado, brigado, brigado.
-Deus que ajude.
Eu lá atrás pensando: “Isso deve ser horrível. Se eu olhar para isso eu vou vomitar. Eu não tenho fígado para isso. Ou se tenho, mas pelo menos o meu está dentro do corpo”.
E ele vem se aproximando cada vez mais. E eu, felizmente sentado, prefiro virar o rosto para não ver. Colo a cara no vidro, o meu bafo começa a embaçar a janela. Mas eu não vou ver isso. EU NÃO VOU VER.
Quando ele chega bem do meu lado ele fala:
“Jovem, você não vai me ajudar?”
Eu penso em continuar olhando para a janela, mas seria muita arrogância de minha parte fingir que não ouvi. Olho primeiro para o rosto dele:
-Pai? O que o senhor está fazendo aqui?
-Filho? Você não devia estar na faculdade à uma hora dessas?
-Não mude de assunto. Desde quando o senhor tem o fígado para fora?
-Desde quando eu passei no açougue. Eu queria comer esse fígado, mas eu fiz uma operação no dente e não consigo mastigar.
-Mas se eu não me engano o senhor não disse nada a respeito do dente quando pediu dinheiro.
-Eu sei que não.E quer saber? Nem faz diferença. Ninguém perguntou nada mesmo. Todo mundo me deu o dinheiro sem perguntar mais nada. Afinal, Curitibano nunca fala.
Pegar ônibus esse horário cansa mais do que o próprio trabalho. Chegar no trabalho e ver o seu chefe com aquele sorriso totalmente receptivo é um alívio pra quem vem de ônibus. Enquanto para quem vem de carro, ver o patrão pela manhã é um verdadeiro pesadelo.
Todo mundo se esfregando, suado, todo mundo se respirando. Cada um respeitando o pequenino espaço do outro. Apesar de os passageiros serem totalmente diferentes todos os dias, parece que todos já se conhecem, desde os calos dos pés que não podem ser pisados em hipótese nenhuma, até as partes menos importantes do corpo, que podem ser batidas e amassadas sem nenhum problema.A grande maioria já é pós-graduado em pegar ônibus. Assim como os passageiros o motorista também quer chegar rápido em casa. Os movimentos do famoso Latão estão em total sincronia com os movimentos dos passageiros. Latão pra lá, sardinhas pra cá.
Como de costume de todos os curitibanos, ninguém fala. Ninguém fala absolutamente nada. As pessoas estão tão juntinhas que é impossível que alguém esbarre em alguém, o espaço é mínimo. Mas caso isso aconteça, ninguém fala nada. No máximo o esbarrador olha para o esbarrado e finge estar falando alguma coisa, no final da “frase” apenas abaixa a cabeça como sinal de desculpa. E o esbarrado por sua vez abaixa a cabeça também, como se com esse simples gesto um dissesse para o outro:
-Ei amigão, desculpa por ter batido em você, você sabe como é né? Esses ônibus lotados balançando toda hora, isso acaba acontecendo.
E o esbarrado retruca:
-O que é isso? Não foi nada, nós que pegamos ônibus todos os dias já sabemos que isso é comum. Você pega sempre esse ônibus?
E a partir daí os dois começam a desfiar um longo papo até o ponto final. Mas isso é irreal e praticamente impossível. Ninguém fala nada. Até parece uma regra geral que todos seguem à risca. Quando o ponto chegou e alguém quer descer, o sangue sobe a cabeça e alguém tenta quebrar a regra, mas não quebra. Para pedir passagem apenas um “sença” já basta.
Mas de repente, sem mais nem menos alguém quebra o silêncio, através de um ritmo bem definido e pausas marcadas alguém grita lá da frente:
“Boa tarde senhores passageiros/ Desculpem atrapalhar a viagem de vocês/ Eu estou aqui nesse ônibus/ Pedindo a sua humilde contribuição./ Eu fiz uma operação/ que não deu certo./ Por isso eu estou com o fígado pra fora/ como vocês podem ver/ o meu fígado está em uma sacola plástica/ e preciso coloca-lo para dentro.”
Lá de trás eu penso: “Meu Deus do céu, que pessoa inescrupulosa! Eu só quero ir para a aula e as pessoas vêm aqui me mostrar o fígado. Que coisa nojenta! Aonde nós vamos parar desse jeito?”
Enquanto isso o sujeito vem lá da frente gritando e pegando os trocados que alguns passageiros conseguem pegar nos bolsos. As frases de agradecimento variam, três obrigados e um Deus que ajude:
-Brigado, brigado, brigado.
-Deus que ajude.
-Brigado, brigado, brigado.
-Deus que ajude.
-Brigado, brigado, brigado.
-Deus que ajude.
Eu lá atrás pensando: “Isso deve ser horrível. Se eu olhar para isso eu vou vomitar. Eu não tenho fígado para isso. Ou se tenho, mas pelo menos o meu está dentro do corpo”.
E ele vem se aproximando cada vez mais. E eu, felizmente sentado, prefiro virar o rosto para não ver. Colo a cara no vidro, o meu bafo começa a embaçar a janela. Mas eu não vou ver isso. EU NÃO VOU VER.
Quando ele chega bem do meu lado ele fala:
“Jovem, você não vai me ajudar?”
Eu penso em continuar olhando para a janela, mas seria muita arrogância de minha parte fingir que não ouvi. Olho primeiro para o rosto dele:
-Pai? O que o senhor está fazendo aqui?
-Filho? Você não devia estar na faculdade à uma hora dessas?
-Não mude de assunto. Desde quando o senhor tem o fígado para fora?
-Desde quando eu passei no açougue. Eu queria comer esse fígado, mas eu fiz uma operação no dente e não consigo mastigar.
-Mas se eu não me engano o senhor não disse nada a respeito do dente quando pediu dinheiro.
-Eu sei que não.E quer saber? Nem faz diferença. Ninguém perguntou nada mesmo. Todo mundo me deu o dinheiro sem perguntar mais nada. Afinal, Curitibano nunca fala.
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