terça-feira, 19 de agosto de 2014

O homem espalhado

E num instante o tudo se fez nada.

Sua vida espirrou na minha frente.

Um ônibus com duas articulações, vermelho, 25 metros e muita gente dentro, fez com que todos seus pensamentos saíssem instantaneamente da cabeça.

Mesmo com as dimensões gigantescas do veículo ele insistiu em cabeceá-lo. Pensou ser uma bola? Estava feliz pela vitória do seu time. Vestia a camisa do clube que o representava. Talvez fosse sua única razão para alegria. Na próxima partida não haverá um minuto de silêncio. Ele era só um torcedor.

Estava apressado. Daqui a pouco o celular que está naquele bolso vai tocar para cobrar o atraso. Se alguém tiver a coragem de encostar no corpo irão dizer ao chefe que ele não poderá ir. Depois das condolências o patrão terá que se preocupar em encontrar um novo funcionário, vivo.

Queria poder ter evitado. Estava parado, esperando o sinal e aguardando o ônibus passar. Ele não viu, mesmo com o barulho do ônibus e sua chamativa cor. Só via o trabalho a sua frente. Depois de uma manhã de segunda-feira ele não viu mais nada.

Veio por trás de mim, correndo. Não pude avisar, não pude puxar, só pude tentar fechar os olhos para não ver, mas vi.

Vi sua cabeça se tornar uma massa disforme. Uma parte dela agora está parada no para-brisa, outra parte voou.

Filho da puta. Deixou minha blusa suja de cérebro.
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