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terça-feira, 12 de abril de 2016

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terça-feira, 9 de junho de 2015

Glúteos trabalhados

Minha bunda é como um imã atraído pela cadeira da firma. Nela, meus glúteos se colam às 8h de todas as manhãs. Passo o dia tentando soltá-la e só consigo às 18h.

Os anos de atração fazem com que a cadeira tenha as minhas formas, com as duas bandas bem delineadas. Entre parafusos e pregas, o que mais me prende é o bolso. Quando escolhi minha profissão queria ajudar pessoas, tentar salvar o mundo. Hoje só quero salvar os meus fundos. O idealismo não paga as contas.

O sonho começou nos bancos da faculdade. Por quatro anos estudei comunicação e cultura digital, filosofia e ética, fotojornalismo, fundamentos de administração, história contemporânea do Brasil, história da comunicação, introdução ao jornalismo e legislação, língua portuguesa, planejamento gráfico, redação jornalística, técnicas de apuração, comunicação institucional, história da arte e da cultura, jornalismo digital, jornalismo gráfico, rádiojornalismo, sociologia da comunicação, telejornalismo, teorias da comunicação, cinema documentário, metodologia científica, pesquisa em jornalismo, planejamento em jornalismo, psicologia e comunicação, crítica ao jornalismo, empreendedorismo e inovação em jornalismo, teoria política e finalizei com o temido trabalho de conclusão de curso.

E tudo isso para quê? Para hoje recepcionar visitantes, atender telefonemas, fazer planilhas, desenvolver relatórios, organizar contas, pagamentos, arquivos e documentos.

Passei o período acadêmico com a esperança de que no final haveria um emprego, uma recompensa por todas noites em dia e o desgastante tempo gasto.

Cheguei ao final da corrida e não pude subir ao pódio, não recebi medalha, não rompi a faixa de chegada e ninguém me aplaudiu. E o pior, não pude parar de correr.

Tinha a ideia de que sempre haveria lugar para os melhores, mas não. A corrida é injusta. Há pessoas que pegam um atalho. Percorrem metade do trajeto e chegam onde eu deveria estar.

Encontrá-los faz com que eu me sinta ainda mais frustrada. A pergunta “e aí, tá fazendo o quê?” é opressora. Sou obrigada a dizer que sou uma mera auxiliar administrativa. E que não, não fui eu que desisti da área. Foi ela que desistiu de mim.

Dia desses atendi um ex-colega. Tive que me submeter. Prestar serviço à uma pessoa que não estudou nem um terço do que eu. Esse filho da puta era o mesmo que se orgulhava de ter saído da faculdade sem ter lido nenhum livro, que colava na prova, que fez o trabalho de conclusão nas costas da sua dupla e que entrou na empresa onde está por indicação de um amigo que vivia no bar com ele enquanto eu estava na aula.

Mas, fazer o que? O meu destino é o de quem não nasceu com o cu virado para a lua.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A prisão

A hora não passa. Esse tik tak me deixa louco. Repetitivo, como todos os dias, mas necessário. Sem o relógio não vejo quanto tempo passa realmente, apesar de parecer não passar.

O horário é uma das poucas conexões que tenho com o mundo externo. Lá e aqui o tempo real é o mesmo.

Grades nas janelas e a porta sempre fechada fazem com que muitas vezes não só o meu corpo esteja aqui, mas também meu pensamento. Não consigo pensar lá fora e sou obrigado a me ater aqui.

O carcereiro também deve passar por isso. Ele fica andando pelos corredores olhando aqui pra dentro enquanto nós olhamos lá pra fora. Somente quando estou próximo à janela é que deixo o pensamento sair.

Os demais prisioneiros também ficam como eu, com uma cara de nada. Expressando exatamente aquilo que fazem: nada.

Tanta gente com tanto tempo “disponível” que acabam usando todo esse tempo para esperar o tempo passar.

Demora, mas ele passa... BLÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉH...finalmente tocou o sinal!

É hora do recreio.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O encontro

Ele passava distraído (como sempre) quando uma mão o tocou. Instintivamente olhou para o lado. Paralisou o corpo. Disparou o coração. A memória afetiva lembrou ao corpo de tudo que (não) passaram juntos.

Era ela. Ela que durante anos foi a mulher da sua vida. No imaginário, mas foi. Depois da faculdade nunca mais se viram e lá se iam cinco anos.

Ela também alimentara uma paixão por ele. Conversavam, saiam juntos, faziam trabalhos juntos e até o trabalho de conclusão de curso dividiram. Mas nada de concreto aconteceu. A timidez dela era ainda maior que a dele e creio que foi isso que impediu o romance. Mas agora estavam ali, mais maduros, frente a frente.

Ficou congelado por cerca de três segundos e após sorriso de ambos conseguiu dizer um empolgado oi. Abraçaram-se. “E aí o que está fazendo? Está indo aonde?”. A conversa seguiu o padrão do encontro com qualquer outro ex-colega. Mas não eram meros conhecidos.

A conversa fluiu e foram até um bar nas proximidades de onde se encontraram. Recordaram o passado e atualizaram o presente, exceto aquilo que ambos gostariam de saber: a situação conjugal.

Queriam aproveitar o momento, poderia ser único e decisivo. Após algumas cervejas ele criou coragem e conseguiu perguntar. Mas a resposta fez sua empolgação se esvair. Ela estava namorando. Aquilo demorou a ser processado. Apesar de ele também ter namorada, havia um sentimento possessivo de que ela não poderia ser de mais ninguém além dele, mesmo nunca tendo sido.

Ela também o questionou. Após a pergunta derradeira o clima não foi mais o mesmo. Ele tinha vontade de saber mais sobre o tal namorado, mas ficaria com tamanho ciúmes que preferiu não perguntar. A curiosidade dela foi mais forte. Quanto tempo, como, quando, quem. Perguntou.

Conversaram mais um pouco e apesar de ambos desejarem ficar mais tempo, muito mais, ele encontrou uma brecha para justificar que fossem embora. Pagaram a conta e despediram-se com um forte abraço. Trocaram telefones, apesar de saberem que jamais ligariam estando namorando, e foi cada um para seu lado.

Ao virarem-se o primeiro pensamento dele foi “merda”. Quatro passos adiante e ela o chama e diz:
- Bruno, eu te amo.
A breve raiva que sentia de si, por ter deixado seu amor escapar, foi amenizado. Assustado e arrepiado, disse:
- Eu também te amo Carlota.

Voltaram. Abraçaram-se novamente e foram embora. Cada qual para seu namoro.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Temível Carga Carregada

Desde que entrei na universidade tive antipatia pelos alunos do quarto ano. Nunca conversava com eles. Quando assisti as bancas de final de ano eu torcia para eles se fuderem, e algumas vezes a minha torcida dava certo.
Nos anos posteriores já conhecia algumas pessoas do último ano, o que tornou mais emocionante a minha torcida. Só torcia a favor, e torcer a favor é sempre mais sofrível do que torcer contra. Eu os conhecia, por que, obviamente, não estavam no quarto ano quando os conheci. Ainda tinham alguns sorrisos no rosto e um brilho no olhar.
Eu via durante o ano os meus amigos se tornarem zumbis. Aos poucos iam ficando com os olhos cada vez mais fundos, sempre boquiabertos, e com a cabeça pensando em somente uma coisa: TCC.
No período de zumbi os meus amigos só tocavam em dois assuntos. Entre si, só falam no bendito TCC. Com os demais eles falam algo que é um defeito para qualquer pessoa. Entre si, é possível ouvir conversas do tipo: “Entrevistei uma fonte importante pro meu trabalho”, “Preciso arrumar as normas da ABNT”, “Hoje eu tenho orientação”, e todos os papos do gênero.
Com as demais pessoas eles têm o péssimo hábito de levar a sério a pergunta “Oi, tudo bem?”. A cada pessoa que faz esta pergunta, mesmo que não seja próxima, recebe uma resposta sempre sincera, até demais. É provável ouvir respostas como: “To cansado”, “Meu, to fudido”, “Cara, to ficando louco”, e outras coisas vindas de pessoas que não sabem que a pergunta é feita somente por educação.
Os zumbis crônicos são aqueles que andam pelos corredores somente com um livro na mão. E se alguém encostar no livro isso irá desencadear uma encarada com um olhar mortal. Eles brigariam perfeitamente, mas não tem tempo pra perder com seres tão insignificantes como nós, simples mortais.
O mais entristecedor é que eles nunca voltam ao normal. Depois que o antídoto faz efeito todos continuam sérios. Sempre mais responsáveis do que eram antes. O que me deixa preocupado é saber que chegou a minha vez. Chegou a minha hora de desenvolver o TCC: Terrível Carga Carregada.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Tudo igual

Não adianta, desde a primeira séria, melhor, desde o pré, volta às aulas é sempre igual. Agora, no final do ensino superior pude perceber: é tudo igual. Sempre a mesma coisa. Quase todo mundo muda de visual, a maioria, principalmente as garotas, estão bronzeadas. Mesmo sendo bronzeadas com o sol de Guaratuba, ou Matinhos, onde também pegaram bicho de pé, micose, e etc, o bronze carrega um glamour. Que dali um mês irá desaparecer, e vai voltar a ser tudo igual.
Os fanfarrões continuam fanfarrões, as gostosas continuam gostosas, os bobos continuam bobos, e os vagabundos continuam vagabundos.
A suposta alegria em ver os professores é memorável. O abraço entre professor e aluno é uma cena linda de se ver. Mas se pudessem, um viveria sem o outro por 50 anos sem sentir falta.
Todos falam igual tagarela. Há suas exceções, os quietinhos não falam, afinal, os quietinhos e comportadinhos continuarão do mesmo jeito. Mas, a grande maioria fala pra caralho.
Só há um grupo que sem exceção não fala porra nenhuma. O grupo mais divertido. O grupo que também é sempre igual. Mudam as pessoas, mudam os rostos, mas o grupo, e seu comportamento, continuam o mesmo. Os calouros.
Por mais que esteja todo mundo sorrindo e falando, os calouros estão com cara de paisagem. E esta paisagem é daquelas bem vagas, e com poucas expressões. Há um ar de medo naquela paisagem. Como podem fazer mal, os veteranos, aqueles seres tão sorridentes e simpáticos. Os veteranos são assim só com os próprios veteranos. Com os calouros há um sorriso sádico, um sorriso de quem diz “vou te fuder no trote”. Depois do temível e divertido trote, temível para os calouros e divertido pros veteranos, a cara de paisagem medonha desaparece. Aí sim, aparecem os fanfarrões, biscates, nerds, malas e afins, e deixam de serem seres homogêneos e sem personalidade. E no próximo ano, os calouros serão do mesmo jeito de novo. Todos são assim. Mas eu tenho certeza de que eu não era.