terça-feira, 13 de setembro de 2011

Linha a linha

O ônibus pára, mas a leitura continua.

Distraído. Estava mais dentro do livro que do ônibus. A história o levava para um mundo distante, o ônibus o transportava apenas até sua casa.

A porta se abre e o alerta de “parada solicitada” se apaga.

O livro parecia novo. Grosso. Bonito. Parágrafos bem espaçados enquanto no ônibus lotado os vidros se embaçavam.

Não segurava o livro, apenas o apoiava nas mãos. Isso foi providencial.

Com a abertura da porta o vento entra e, com a mesma velocidade, um homem sai. Antes de sair interrompe a viagem do leitor. Apanha o livro e sai correndo.

O agora ex-leitor fica embasbacado até voltar para o mundo real e perceber que seu livro foi levado. Até se levantar e olhar pela janela o ladrão já estava na esquina.

Não sabe como reagir e na dúvida não o faz. Dá apenas um riso nervoso aos que o olham.

Nem a mão de quem o tirou do mundo das letras pôde ver, menos ainda o rosto de quem estava, na realidade, apenas fazendo um empréstimo.

Não queria montar uma biblioteca. Depois de apreciar o livro o abandonava em algum ônibus, geralmente na mesma linha em que tinha feito o furto, na esperança que o subtraído o reouvesse.

O habito começou há cinco meses. No primeiro ficou extremamente nervoso. Correu sete quadras até chegar em casa. Empalidecido cuspia os pulmões a alguns cigarros.

- O que foi?- perguntou a mulher. – Um roubo- Quem te roubou? Aonde? Você está bem? – O nervosismo maior passou para a mulher. Recuperou o fôlego e a explicou que havia sido ele o “furtador”.

A mulher ficou com raiva e meio sem entender. Depois passou a apoiá-lo com o aparecimento frequente de livros em casa.

Quando chegava com um deles era como se chegasse com carne. Alegria total. Se depois percebessem que era auto-ajuda, espiritismo, empreendedorismo ou técnico já o devolvia à linha no dia posterior.

Não tinha distinção. Roubava todos. Afinal, queria ser como eles. Queria ser um leitor como toda aquela gente.

E ninguém iria culpá-lo. Ninguém iria chamar a polícia e nem mesmo o reconheceriam.

Ele vestia-se como a maioria. Calça jeans e camiseta. Dentro da mala a marmita vazia, uma toalha de banho e itens de higiene. Sabia que aquilo não era um bom exemplo para o filho, mas o explicou que não poderia comprar e nem mesmo fazer cadastro em uma biblioteca.

O filho, como a mulher, estranhou no início, mas compreendeu e a cada noite em que o pai chegava o recebia com atenção quando ele com um olhar dócil após o jantar o pedia:

- Filho, lê pra mim.