sexta-feira, 8 de maio de 2015

Palácio Iguaçu

Praça Nossa Senhora de Salette, s/n - Centro Cívico
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Oi Betinho, tudo bom?

Não sei se lembra de mim.
Por um momento gostaria muito que lembrasse.

Eu lembro de você perfeitamente Betinho. Você era tão bonitinho. Vinha para a aula arrumado, com gel no cabelo. Ah, e como era educado. Você tinha muita educação, Beto!

No recreio adorava brincar de carrinho e na sala era o aluno mais aplicado. Fazia as tarefas em dia, prestava atenção nas aulas e sentava bem na minha frente. Nunca foi bagunceiro, muito menos desordeiro.

Eu sempre soube que você seria político, Betinho. Me orgulhava de dizer: “o governador foi meu aluno”.

Mas sabe Beto, fiquei muito decepcionada. Parece que não aprendeu nada comigo, só com quem não deveria. O que você fez foi maior do que os atos de Álvaro Dias, Beto. Você superou o seu mestre.

Se pudesse deixaria você de castigo na escola. Mas não posso. Não posso fazer nada enquanto você parece achar que pode fazer tudo.

E sabe o que é o pior, Betinho? Você nem mesmo assumiu o que fez. Logo você, que tomava a frente da turma, que se empoderava, que gostava de estar em evidência, agora se esconde.

Você disse que não viu truculência da polícia, que eles estavam defendendo a sua integridade e apenas continham os arruaceiros. Ora Betinho, ninguém mobiliza helicópteros, cães, tanta gente e tanta arma só para conter alguns arruaceiros.

Mas não foi só você que eu vi na tv. Eu vi professores como eu sendo agredidos. Eu vi balas de borracha. Vi bombas de “efeito moral”. Vi spray de pimenta.

Você me deixou lacrimejante, Beto. Me senti machucada como aqueles 213 que você feriu. Era como se cada uma daquelas balas atingisse o meu corpo e cada dente de cachorro rasgasse a minha pele. Aquele spray sufocante jamais vai me deixar respirar aliviada.

Sabe Beto, eu queria que você lembrasse de mim. Talvez você conseguisse sentir compaixão, sendo alguém que você conhece, não só um número desses que você vê toda hora.

Mas se, por acaso, você lembrar de mim não conte para ninguém.

Jamais diga que eu fui sua professora.

Eu tenho vergonha de você Carlos Alberto Richa.




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