quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Santa Ceia

Era um simples e inocente jantar com a minha senhora ou ao menos era pra ser. Não era um jantar romântico, era só pra comer mesmo (a comida). Eu acabava de sair faminto da labuta em um domingo de carnaval. Decidimos um lugar qualquer no caminho apenas para não acabar em pizza.

Comíamos, bebíamos e conversávamos de forma distraída. Eu degustava aquele pequeno pastel com bastante gordura, que mais tarde irá interromper minha vida, quando fui interrompido pela minha menina. “Eles estão orando?”.

Sim. Estavam orando. Uma família de cerca de 10 pessoas. Achei aquilo bonito. Sou ateu, mas fiquei realmente admirado. É realmente louvável agradecer pela comida que se tem, levando-se em consideração que muitos não a têm.

Lembrei do amigo e professor Victor Folquening, falecido recentemente. Certa vez, lecionando, disse: “Deus existe sim. Claro que Deus existe. Mas Deus é um cara que não trabalha no atacado, só no varejo! Por que, por exemplo, se tem uma tragédia imensa em que milhares de pessoas morrem e um só se salva, essa pessoa dá uma entrevista dizendo que Deus o salvou. Mas por que Deus não salvou todas aquelas outras pessoas?”. Essa é uma das muitas frases que mostram um pouco como era o Victor.

Fiquei pensando na religião, em especial a católica que conheço um pouco melhor. Acho que foi criada com uma ideia boa. Uma grande ideia. Mas, como quase tudo no mundo, o homem (esse grande filho da puta) estragou tudo.

De certa forma aquela família estava mantendo a boa ideia da religião (seja lá qual for a deles), levando ao público aquela escolha particular eles me deixaram refletindo. Refletindo sobre a religião e a comida.

Dia desses estava vendo uma entrevista com o Poeta Sérgio Vaz no programa Provocações. Antônio Abujamra perguntou ao poeta se as pessoas da periferia eram a favor da liberação do consumo de drogas, ao que poeta responde: “Primeiro eu queria que liberasse o arroz com feijão...depois as drogas mais pesadas: o bife, a salada. Eu queria ver a molecada muito louca de arroz com feijão”.

Ia saindo do restaurante quando a família começou a cantar parabéns. Não prestei a atenção, afinal, pensei que não havia nada demais. Quando ia saindo os ouvi cantando: “É benção, é benção, É benção, é benção, é benção. Eu oro, eu oro, Eu oro, eu oro, eu oro...”.

Cagaram com a poha toda!

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