quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Cadernos, álbuns, memórias e amores

Preciso de espaço para novas coisas velhas.

Guardo muita coisa.

Outras, carrego.

A mochila, eterna companheira, estará mais vazia neste ano. Depois do longo período levando um caderno universitário, decidi usar algo menor. Um bloco, talvez.

O volume de 2017 vai para o armário com os demais. E são papéis demais.

Pela falta de espaço, decidi me livrar dos dois mais antigos.

Um deles tem Gustavo Kuerten na capa e alguns adesivos. Internamente, pichações e recados:

“Fogo, você é minha vida kra!!! T. amu muito + do que você imagina, gostosão! Ass: Ka. B.jus”
(Ka: você era muito irônica).

“Guy te amo!! Dany”
(Dany: você me excluiu do Facebook).

“Guy: Te amo! Beijocas da Moni”.
“Cutty: Te amo. Beijocas da Moni”.
“Cuty T. amo muito! Beijocas da Moni”.

(Moni: Acho que você me amava mesmo, né? Desculpa por não ter correspondido. Eu era um babaca. Ainda sou. A diferença é que antes eu era um babaca inexperiente. Agora sou um babaca cheio de experiência em ser babaca).

Aparentemente, enquanto Moni me amava, eu amava outras coisas.

Assim como o tempo faz com as pessoas, as anotações escolares foram arrancadas. No caderno há apenas escritos pessoais. Letras de rap jamais gravadas. Objetivos não concretizados. Se eu tivesse continuado...não continuei. Na vida nada continua.

No final, há manuscritos de poemas da minha primeira publicação, um concurso literário voltado aos alunos da universidade. Talvez o propósito de ser mc tenha sido substituído pelo de ser escritor. Nenhum dos dois deu certo.

O outro companheiro esteve comigo por mais tempo e é o que mais precisa ir pro lixo. Até hoje não me serviu para aprender inglês. Ele também não cumpre seus desígnios.

Nele, mais pichações, especialmente de um amigo que assina como “Lee”. Ao contrário de mim, Lee gostava bastante do meu caderno.

Há ainda endereços de fotologs e mais recados:

“Oi! Fogo. Td bom? Bjão Karol”

“Fogo: A Ká t ama muito. C cuida não deixa nenhuma mulher te fazer vc de trouxa tá. Kari”

“Fogo -> bju Belle.
Ah! Quero uma festa...
Te adoro!”

“Fogo te adoro bjus...Priscila”


O último recado talvez represente o amor verdadeiro:

“Fogo vc é um bostinha + eu ti aminhu!! Bjus da Vê. 18/04/05”

Fiquei feliz por ter sido amado apesar dos defeitos. Ainda assim, essas palavras serão descartadas.

Continuarão as roupas e os álbuns.

Um deles é o da minha mãe. Nele, logo no começo, estão fotos do casamento que ela fez sozinha. Meu pai foi omitido. Recortado.

Depois, variados instantes se encontram fora de ordem. Diferentes momentos e penteados se misturam.

Há registros em família, no trabalho, na faculdade. Ela aparece sempre bonita.

Em uma das fotografias, ela sorri com a perna quebrada. Eu lembro do acidente. Minha vó saiu e a deixou trancada no quarto para que não fosse comprar mais bebida. A solução foi pular pela janela do sobrado. Não era um momento feliz. Fotografias são mentirosas.

Na última página, em um recorte de jornal, meu pai reaparece:

Missa do 1º mês de falecimento.
Márcia, Guylherme e Jaqueline, convidam amigos para a missa de Canuto José Custódio Neto a realizar-se na Igreja Matriz de Santa Felicidade na Av. Manoel Ribas, 6252, dia 28 de dezembro, quarta-feira, às 19h.
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