quarta-feira, 2 de julho de 2014

Diário de Bordo- O diamante da chapada

Nossa viagem fez uma escala saindo de Brasília e partindo para Salvador. Já estava planejado parar na Chapada Diamantina para aproveitar a oportunidade, já que passaríamos muito perto dali e tínhamos tempo disponível. O que era para ser uma simples escala se tornou uma das importantes partes da viagem.

Nessa jornada já passamos por locais totalmente diferentes. Conhecemos Brasília, a cidade projetada por Niemeyer, e apenas alguns dias depois estávamos deitados em cima de uma pedra para poder ver o final de uma cachoeira de aproximadamente 400 metros de queda.

Ali em Palmeiras, um dos municípios que cerca a chapada, o que se prometia era a natureza, em contraponto aos estádios cheios de concreto que já conhecemos.

Em nosso primeiro dia ali fomos conhecer o Rio Pratinha e a Gruta Azul, belezas naturais que pertencem a uma propriedade particular e que, portanto, cobra entrada e tudo mais que puder ser cobrado lá dentro. Na gruta azul a luz do sol passa por uma fresta entre 14h e 15h e ao encontrar a água a deixa...azul. Você pode desfrutar de toda essa beleza pelo tempo de duração de uma foto, uma vez que a fila de turistas lhe aguarda para fazer o mesmo. Apreciar a paisagem? Pra quê? Tire uma foto sorrindo e poste no Facebook o quanto antes.

No Rio Pratinha havia a possibilidade de mergulho de superfície, que não fizemos, mas aproveitamos para tomar um banho e se divertir, afinal, tomar banho de rio é sempre bom, mesmo que se pague entrada para isso.

A grande descoberta deste primeiro dia foi a farofa de dendê. O almoço demorado e em pequenas quantidades teria sido muito frustrante não fosse a farofa. Poderíamos ter pedido só ela, inclusive. Feita com azeite de dendê, a farofa, diferentemente das convencionais, não é seca, o que faz com que ela possa ser comida isoladamente ou até com alimentos que geralmente não acompanham farofa, como salada ou até mesmo cerveja, como o Negs fez.

Na manhã seguinte fomos conhecer uma cachoeira que fica dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Conhecê-la custa caro. Você deve pagar 6 Km de caminhada com um desnível de 350 metros que é feito em aproximadamente 2h na ida. Mas não se iluda pensando que a volta será menos exaustiva e que para baixo todo santo ajuda. O que as costas e coxas sofrem na ida o joelho sofre na volta. Mas não desista. Vale a pena. Todo o esforço é pago com a paisagem oferecida pela cachoeira da fumaça, que tem esse nome por que o vento vindo debaixo sopra a água para cima e, por vezes, não chega a encostar o rio lá embaixo.

Uma dica importante: Não se perca. Caso contrário sua caminhada e exaustão serão ainda maiores e você deixará seu guia baiano desesperado e emitindo apenas uma palavra: “raaapaaaaaaaaaaz”.

Mas a cidade de Palmeiras tem ainda outro atrativo da natureza. A natureza humana. Na praça em frente à Câmara Municipal um vigia da prefeitura chamado Dadá fica por ali fazendo a ronda todos os dias das 20 às 24h. Puxe um papo qualquer e verá o quanto a humildade é encantadora.

Dadá é nascido e criado em Palmeiras. Trabalhou na época da exploração de diamantes, chegou até a ter um garimpo, quando a atividade já estava em decadência, mas a maior parte do período passou trabalhando em bares, restaurantes e panificadoras.

Segundo Dadá a cachoeira da fumaça vale a pena ser vista, embora ele não encontre muita graça. “Você sobe tudo aquilo e quando chega lá em cima vê só aquele buracão enorme, que você nem pode chegar muito perto”. A presença de seres extraterrestres no local também não é muito frequente, segundo ele. “Não vêm muito aqui não. Só de vez em quando”.

Desde as coisas mais simples às mais complexas da vida podem chegar ao papo e ele, com sua paciência, sua fala mansa e seu dialeto macio vai tratar dos assuntos de uma forma que torna até a descrição da rotina de um restaurante o tema mais interessante do mundo.

Conversar com Dadá te dá um dos maiores diamantes que a chapada pode lhe oferecer. O ser humano ainda é bonito.
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