quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Mistura repentina

Seu Alfredo morava em um bairro próximo ao centro da cidade havia 86 anos. Nasceu naquele lugar em uma época em que a cidade ainda era pouco agitada. Na época em que eram raros os carros passarem pela Desembargador Westphalen.
Ele negava-se a se misturar com toda esta “evolução”. Asfalto, carros, gasolina, gente eram coisas que não o atraiam. De forma alguma colocava o nariz para fora de casa e se misturar a toda essa fezes humana. Ficava somente olhando pela janela. Via dia-a-dia o mundo crescer e se auto-destruir. Observava tudo através da janela. Em sua casa ainda sobrevivia agonizante um mundo antigo, o mundo que escolheu para viver quando casou-se com dona Zuleica, que moraria com ele até os seus últimos dias.
Atrás de sua janela era imune a toda modernidade. A sua casa, um local escuro e aconchegante, o mundo não conseguiu mudar. Os sofás eram todos manchados, mas a capa bege por cima escondia suas marcas, os lustres eram grandes e robustos, e o telefone, que raramente tocava, ainda era de disco. O único contato que o mundo tinha com Alfredo era por meio do jornal, que como seu pai, Alfredo comprava todos os dias. Não lia, só dava uma olhada. Não lia nada, mal conseguia enxergar. A única obra que ocupava a sua estante era a coleção da Barça, que o seu gato, que um dia fora branco, passava por cima quando a televisão era ligada.
Desde o café da manhã até o chá da tarde Alfredo ficava na janela. Depois disso, tomava banho, rezava e ia dormir, enquanto dona Zuleica assistia a novela das 8.
Ao lado da casa de seu Alfredo havia uma Ong, cheia de jovens querendo mudar o mundo. Frequentemente alguns dos jovens tentavam cumprimentar Alfredo, mas ele continuava olhando fixo para o ponto onde estava olhando: o horizonte. Jamais deixaria que um daqueles jovens drogados interagisse com ele. Uma das jovens que trabalhava na ong era neta de um amigo seu. Mesmo assim não havia proximidade alguma, mesmo sendo Samantha neta do seu grande amigo Vieira. Seu Alberto e seu Vieira aterrorizavam a região antigamente. Quebravam tudo e mexiam com todos que estivessem pelo caminho quando voltavam do bar do Paulo, que ficava no largo da Ordem. Ao chegarem, cada um entrava em sua casa, a do seu Alfredo no meio da quadra, e a de seu Vieira na esquina com a Engenheiro Rebouças, onde hoje é uma balada que toca música dos anos 80. Após cinco minutos deitados, o mundo rodava. E os dois, simultaneamente, saíam para a janela vomitar todo o produto consumido no bar do Paulo.
Em uma quinta-feira pela manhã um dos jovens da ONG resolveu fazer uma brincadeira com seu Alfredo. Saiu pela porta junto à parede, praticamente se esfregando. Quando chegou abaixo da janela, colocou a perna em um pequeno buraco na parede e subiu, e gritou: “Ráááááááááááá”.
Seu Alfredo não agüentou. Enfarte no miocárdio. Não morreu devido ao susto, mas pela proximidade repentina que o mundo moderno chegou até ele.
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