quarta-feira, 13 de maio de 2009

O ritual

Era sagrado, apesar de a religião passar longe dali. O ritual começava todas as sextas às 19h. Depois do trabalho eles estavam a postos no mesmo lugar, nas mesmas posições que há 30 anos. A mesma mesa, as mesmas cadeiras (com exceção da de Carlinhos, que teve que ser trocada devido aos quilinhos que ele ganhou com o tempo. No encontro 437 a cadeira quebrou), mesma posição, mesmos assuntos, as mesmas caras. Alguns cabelos caíram, outros embranqueceram. Alguns engordaram (a maioria), outros emagreceram. Muita coisa mudou, mas a amizade continuava a mesma e tornava-se cada vez mais intensa a cada reunião.
Ninguém podia sentar no lugar deles. O seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”) não deixava que ninguém se assentasse lá no primeiro dia do final de semana. Só faltava interditar o local para que ninguém se aproximasse. E no primeiro suspiro do final de semana lá estavam eles: os oito amigos que freqüentavam o mesmo bar na faculdade e se encontravam toda semana desde então.
Exceto o Brandão, que sempre chegava atrasado, todos estavam lá no mesmo bat-horário, no mesmo bat-local. Chuva, gripe, trabalho, estudo, filhos, família, frio, carro estragado, nada era desculpa para não estarem lá. O Compromisso era inadiável. Certa vez o Falcão deixou de ir ao velório da própria mãe para ir à reunião.
O bar era um local sagrado. O seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”) já tinha pensado em fechar devido à dificuldade financeira, mas os amigos emprestaram dinheiro a ele apenas para não fechar. Houve um período em que só abria na sexta, e não foram raras às vezes em que estavam apenas os nove no recinto (os amigos e o seu Laurindo (“graaande seu Laurindo”)).
Carlinhos senta-se na ponta esquerda, na direita o polenta (sem relação alguma com suas posições ideológicas). Para sair sem incomodar ninguém nas milhares de vezes que ia ao banheiro o Gordo senta no primeiro lugar da esquerda para a direita no lado da mesa que fica de costas para o bar. Ao seu lado ficam Elvis (que tem esse apelido por ser fã do cantor) e Brandão. De costas para a parede ficam Tito, Alfredo e Falcão, que ficava de costa para a parede para poder ver todas as meninas do ambiente, que eram várias quando começaram a freqüentar o local.
Em uma das noites Polenta conheceu a sua primeira esposa com que teve três filhos. Agora eram todos casados e não iam mais lá para olhar as meninas. Estavam todos comprometidos e nem as meninas nem a visão eram as mesmas.
Logo ao sentarem faziam um balanço semanal. Contavam o que aconteceu em casa e no trabalho. Comentavam o futebol, faziam piadas, recomendavam livros e filmes. Discutiam política. E sempre terminavam a jornada da mesma maneira, já motivados pela birita surgia o tom de nostalgia e relembravam os velhos tempos.
Era sempre igual. A mesma coisa. Por 30 anos o mesmo ritual. A mesma cerimônia. A mesma conversa. O mesmo destino. Todas sabiam, mas mesmo assim não tinha nenhuma das oito mulheres que não torcia o nariz quando eles falavam “vou para o bar com os meus amigos”.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Graça, sentimento e cérebro

por Verônica Medeiros*

A vida é mesmo muito engraçada. É interessante perceber como os caminhos do coração tomam rumos inimagináveis e incompreensíveis. Mais curiosa ainda é a relação homem-mulher. Animais racionais que se tornam completamente irracionais quando o assunto é amor/paixão/obsessão.
Qual é a dificuldade de um amor ser seguro e intenso do primeiro beijo até o primeiro ano de namoro? O problema é a carência crônica da mulher e a paciência limitada do homem. Tpm, que TORMENTO pré-menstrual é esse? Que é capaz de mexer com uma mulher a ponto de levá-la do céu ao inferno em segundos, de fazê-la chorar ou se conformar detonando uma barra de chocolate, de ser a melhor saída para aquele momento ‘trágico’ e, logo depois, sentir-se uma gorda-ansiosa-compulsiva por causa daquele mesmo chocolate. Os homens fazem parte do time inteligente da relação. Racionais versus passionais. Entendem que a tpm é uma ‘fase’ chata e que complica a vida de todas as mulheres – das mais seguras até as mais neuróticas -, mas não conseguem suportar as reclamações clichês de “você não me dá atenção”, “você ainda me ama?”, que surgem nessa mesma fase chata da vida da mulher.
Complicado tentar entender as cabeças desses seres tão diferentes, mas tão interligados. Livros que pontuam exatamente o que homens e mulheres pensam não estão com nada. Todas as mulheres são inteligentes o suficiente para discernir o certo do errado, o triste do feliz, o bom do ruim. Todos os homens conseguem distinguir a louca da ciumenta, a obcecada da apaixonada, a certa da errada e, principalmente, que todas as mulheres, no fundo, são iguais. Existem as descaradas, as discretas, as solteiras, as comprometidas, as que já fizeram, as que ainda vão fazer, as que não repetem os mesmos erros, as que aprendem, as que não aprendem. No fundo, toda mulher é, simplesmente, mulher.
Por isso, acreditar que fulana nunca faria isso ou aquilo, porque parece ser uma ‘boa’ menina, é lenda. Mesmo as ‘boas, inocentes e ingênuas’ meninas são capazes de cometer erros e loucuras quando se apaixonam. Todas, absolutamente todas as mulheres sabem como e o que fazer para conquistar ou desvirtuar o caminho de um homem.
A vida é, realmente, muito engraçada. Os relacionamentos, então, uma grande piada.


*Verônica Medeiros é jornalista e amiguinha buni do dono deste blog.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mas... (final alternativo)

Ele não sabe se arrisca ou deixa para a próxima vez.
Mas e se não tiver próxima vez? Melhor arriscar.
Mas e se tomar um tapa na cara? Melhor não arriscar.
Mas e se ela não estiver tão bêbada no próximo encontro e perceber a grande burrada que cometeu? Melhor arriscar.
Mas e se ela estiver afim de algo mais sério e ele jogar fora as chances? Melhor não arriscar.
Mas...ah, que mulher aceita dormir na casa do homem e não vai querer nada? Melhor arriscar.
Mas ela se fez tanto de difícil até agora. Melhor não arriscar.
A dúvida povoa sua cabeça, ou melhor, suas cabeças. Ele não sabe com qual delas pensar. A vontade de arriscar a aproximação é grande, levando-se em consideração o tempo em que estava na seca. Se conseguisse seria maravilhoso. Ele queria e até certo ponto precisava daquilo. Seria a conclusão do ato a que ele se dispôs quando decidiu conversar com ela. Foi a primeira coisa que pensou quando a viu dançando. Aquele quadril balançando na pista, mesmo entre muitos outros foi o daquela moça que o chamou mais a atenção. E agora o seu sonho de consumo (ao menos naquela noite) estava ali, só ele, há poucos palmos de distância. Mas...
Por outro lado, percebeu que ela não era apenas um sonho de consumo noturno. Aquela menina era especial. Ela era realmente interessante, não só fisicamente. Ela era inteligente. Era simpática. Seria até um pecado usá-la daquele jeito. Ela não era daquelas para uma noite e nada mais. Valia a pena um investimento. E uma tentativa falha poderia jogar por água abaixo tudo o que poderia acontecer no futuro. Mas...
Mas ele resolveu seguir a filosofia que vinha seguindo nos últimos meses: a filosofia do foda-se. Influenciado pelo álcool ele decide arriscar. Arriscar não, conseguir. Estava realmente decidido.
Ele se aproxima e a abraça. Ela se aconchega em seus braços, isso serve de grande estímulo. Ele segue em frente seu plano. Dá um beijo atrás da orelha. Ela dá um sorriso safado. O aval foi cedido. Mão por baixo da blusa. Barriguinha. Seios. Faz uma longa prévia até que resolve colocar a mão por dentro das calças. Seguindo o caminho indicado pelos pêlos que partiam do umbigo chegou aos pêlos pubianos. Devarinho. Quando estava quase chegando lá a voz que até então era delicada se torna grossa e exclama:
- Tira a mão daê rapá.

Mas... (versão original*)

Ele não sabe se arrisca ou deixa para a próxima vez.
Mas e se não tiver próxima vez? Melhor arriscar.
Mas e se tomar um tapa na cara? Melhor não arriscar.
Mas e se ela não estiver tão bêbada no próximo encontro e perceber a grande burrada que cometeu? Melhor arriscar.
Mas e se ela estiver afim de algo mais sério e ele jogar fora as chances? Melhor não arriscar.
Mas...ah, que mulher aceita dormir na casa do homem e não vai querer nada? Melhor arriscar.
Mas ela se fez tanto de difícil até agora. Melhor não arriscar.
A dúvida povoa sua cabeça, ou melhor, suas cabeças. Ele não sabe com qual delas pensar. A vontade de arriscar a aproximação é grande, levando-se em consideração o tempo em que estava na seca. Se conseguisse seria maravilhoso. Ele queria e até certo ponto precisava daquilo. Seria a conclusão do ato a que se dispôs quando decidiu conversar com ela. Foi a primeira coisa que pensou quando a viu dançando. Aquele quadril balançando na pista, mesmo entre muitos outros foi o daquela moça que o chamou mais a atenção. E agora o seu sonho de consumo (ao menos naquela noite) estava ali, só ele, há poucos palmos de distância. Mas...
Por outro lado, percebeu que ela não era apenas um sonho de consumo noturno. Aquela menina era especial. Ela era realmente interessante, não só fisicamente. Ela era inteligente. Era simpática. Seria até um pecado usá-la daquele jeito. Ela não era daquelas para uma noite e nada mais. Valia a pena um investimento. E uma tentativa falha poderia jogar por água abaixo tudo o que poderia acontecer no futuro. Mas...
Mas..., mas..., mas..., qualquer pensamento terminava com um “mas”. Ele precisava decidir antes que amanhecesse e tivesse que ir trabalhar.
Ele pensa, pensa, pensa, pensa, pensa e...cai no sono.

* Amanhã será publicada outra versão do texto, com final diferente.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Cigarro Curitibano

Comprei um solto (to tentando parar) e fui até a praça pra fumar. Fiquei olhando as pessoas procurando alguém que estivesse fumando. Um senhor mal encarado. Um casal. Um cara sujo, mas bem vestido. Uma menina falando ao telefone. E finalmente um carrinheiro fumante. Peço o isqueiro emprestado. Acendo e seguindo a regra de todos os outros curitibanos dali sento em um banco sozinho.
Fumo devagar, curtindo. Enquanto observo a praça e as pessoas fico pensando na vida, na mina e na peça que acabo de perder por chegar atrasado. A noite não estava fria, tinha uma brisa, mas tava maneira.
O cigarro estava chegando ao fim, na terceirinha, como chamava-mos na cadeia, quando o cara sujo mas bem vestido levanta-se. Antes de seguir seu rumo me olha e volta. Eu já sabia o que ele iria pedir.
- Tem um cigarro aí!?
- Puts cara. Pior que não tenho. Comprei esse aqui só. Foi mal.
Ele abaixa a cabeça como quem dá um breve cumprimento e sai. Achei estranho aquele cara. Ele não era um morador de rua. Estava bem vestido de acordo com os padrões da sociedade, mas estava sujo. E não era sujeira de trabalho, era sujeira da rua. Mas não era um morador de rua (aparentemente). Ele tomava uma garrafa de refrigerante (e aparentemente era mesmo refrigerante). Meu instinto de jornalista (parecido com o do Peter Parker) me diz que preciso averiguar. Resolvo chamá-lo.
- Hey.
Ele olha e levanta rapidamente a cabeça como quem diz “que quê foi?”.
- Chegaí.
Desconfiado ele vem até mim.
- Sentaí, vamo troca uma idéia.
Ainda ressabiado ele senta.
- Cê mora onde?
- Tô dormindo numa marquise ali perto do Passeio Público.
- Mas faz tempo que cê mora ali?
- Duas semanas.
- E antes? Morava onde?
- Lá no Sitio Cercado.
- E por que ta ali agora?
- Perdi o emprego e não tive grana pra pagar o aluguel, que já tava atrasado. Agora tô aí na rua.
- Pode crê.
- ...
- ...
- Crise né!?

- Pior que é.
- ...
- ...
- ...
- Tem um cigarro aê?
- Puts cara. Pior que não tenho. Comprei só um. Foi mal.
E foi-se embora.

terça-feira, 17 de março de 2009

A princesa

“Cara, saca só que princesinha!”, comentou Renato com seu amigo quando estavam no forró da vila. Ele demorou um pouco mais do que deveria, mas foi conversar com a mocinha. Ao iniciar a conversa sua observação inicial foi confirmada, era mesmo uma princesinha. Seu modo de falar educadamente, sua forma de ouvir com atenção, a voz calma e suave completavam a mocinha de vestido de cetim. Naquela noite ela se tornou a sua princesa.
Para conquistá-la Renato não precisou lutar contra dragões, bruxas ou convencer um carrancudo rei, mas teve que demonstrar um pouco do que não estava acostumado: educação. Renato era daqueles que viviam com os piás da rua e as meninas com quem andava, falava e ficava eram tão piás quanto ele.
Agora deveria ter muita cordialidade com a princesa, que continuou a encontrar depois daquele dia. Sempre que conversavam Renato se esforçava ao máximo para não falar palavrões. Os amigos até comentavam que ele não parecia mais o mesmo. Aumentou até a freqüência com que tomava banho e escovava os dentes.
Os encontros foram intensificados e agora eram no mínimo diários. Se viam sempre depois da Malhação na rua de trás do prédio dele ou na quadra de esportes do condomínio dela. Certa vez conversavam lá quando ela derrubou no concreto duro da quadra o celular que acabara de comprar com seu primeiro salário. O aparelho quicou no chão e antes que batesse pela terceira vez Camila gritou: “Ôôôôôôôôôôô B*****!”.
Renato foi embora espantado e reflexivo. Nunca imaginaria que um dia ela fosse falar um palavrão. Não pensaria nem mesmo que ela poderia conhecer algum. Mal conseguiu dormir pensando naquilo. Será que Camila era apenas uma princesinha de araque?
Continuaram a se encontrar normalmente. Ele achou melhor não comentar. Passado o baque do rapaz ela começou a falar mais e mais palavras de baixo calão. Ele foi se acostumando. Pensando bem era melhor assim. Já estava cansado de se fazer de santo pra ela. Tornaram-se o casal mais boca suja do bairro, mas Camila foi eternamente a princesinha do Renato. Eles casaram, tiveram filhos e viveram felizes pra C******.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Da sério O Rei da Gafe: Ráááááá

No nosso último episódio (cacete, quanto tempo): Mensagem errada, na hora errada, pra pessoa errada, enfim, todo errado.
Hoje: “O cara” dá um susto mal sucedido na pessoa inapropriada.

Sim amigos, nosso super-herói estava desaparecido, mas quando a necessidade pede ele surge com sua imensa cara de pau e sua capacidade de ficar com a face corada em questão de segundos. E mais uma vez o ambiente de trabalho é o palco de suas aventuras.
A sexta-feira estava ensolarada e todos foram trabalhar com a faceirice estampada na cara. Risadas, piadas e animação ditavam o ritmo de trabalho eis que surge a frustração. A chefe, que não desfrutava da mesma alegria, como um cachorro vira-lata chega, dá uma grande mijada e vai embora. Vai embora e a alegria...Não volta mais. Nem a vontade de trabalhar.
Ao longo do dia a enrolação toma conta do ambiente. Duas horas de almoço invés de meia hora. As risadas prosseguiam, mas com um tom de frustração. Também, depois daquela comida de rabo o dia não podia prosseguir naturalmente. Mas ele, o grande, surge para salvar o dia, o final de semana, e devolver o sorriso às carinhas tristes.
Há meia hora para o término do expediente o trabalho é intenso. Intenso mesmo. Como enrolaram o dia inteiro a última meia hora ficou sobrecarregada. Ele e outros três amigos ouvem alguém subindo pelas escadas de madeira. Um deles olha pela janela, abre os braços e faz uma cara de dúvida. Fica por isso.
Todos entranham o fato de a pessoa não ter entrado na sala em que estavam. O intruso fica mexendo na biblioteca, o que dificilmente acontecia sem que falassem com quem lá estava. Nosso paladino estufa o peito e decide averiguar quem era. Melhor: resolve assustar o funcionário que chegou lá e não falou nada. Ele abre a porta rapidamente e grita: “Ráááááá”.
O resultado é inesperado. O susto é maior nele do que no suposto assustado, pessoa esta que ele acreditava ser um funcionário, mas era um visitante desconhecido. A pessoa sentada há cinco metros de distância olha pra ele como quem diz: “O que esse idiota tá fazendo?”. Ele também desfruta do mesmo pensamento quando é questionado por um dos colegas:
- Fogo, o que foi isso?
Ele não soube responder. Passada a meia hora restante de trabalho ele vai embora e envergonhado se desculpa com a visita, que foi embora no dia posterior para Manaus-AM e nunca mais voltou. Não sei por que.

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Aos poucos, mas fiéis leitores:
Desculpem-me amiguinhs bunis. Assim como essa Brasila o meu CÉLEBRO (Sic) só funciona depois do carnaval. Mas assim como o Ronaldo o Di-vag está de volta!!!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Cenoura cuzida. E Andressa também.

Andressa e Cenoura se tornaram a atração principal da festa do aniversário de Maicon, amigo do casal. Devido ao alto teor alcoólico que ambos já carregavam na corrente sangüínea o volume da discussão era igualmente alto. A cada três palavras que cada um dizia quatro eram palavrões. Quando a primeira palavra de baixo calão foi pronunciada a avó de Maicon se engasgou com o pedaço de picanha que mastigava. Maicon tentou intervir várias vezes, mas cada nova investida era respondida com o mesmo xingamento pelos dois. Dada a situação Maicon achou melhor levar a avó octogenária para dormir, ainda com a carne na boca. Assim como a véia os convidados foram se retirando pouco a pouco já cansados de ouvir a discussão onde cada frase se encerrava com um chamando o outro pelo nome completo. Além disso, um gole no copo de whisky lubrificava a breve pausa entre a réplica, a tréplica, a tetréplica e etcetera. Depois de todos os convidados o casal (pelo menos até então) só se retirou depois de terminar a garrafa de Jhonny Walker Black Label.
No dia posterior Andressa acordou primeiro, com a cara amarrada, uma grande dor de cabeça e a vontade eminente de jogar água fervente em cenoura ainda enquanto dormia. Adicionada a sede, cenoura sentiu a mesma vontade quando despertou meia hora depois. Dadas as tendências homicidas de cenoura ele teria o feito se Andressa estivesse no quarto. Quando se levantou o mundo girou e ele foi correndo ao banheiro vomitar. Na cozinha os dois se encontraram e se lançaram um olhar maligno. Disputaram o mesmo copo d’água que cenoura acabou cedendo. Depois que os dois tomaram a água que possibilitou que pudessem falar Cenoura perguntou ainda raivoso:
- Por que a gente brigou ontem, caralho?
- Não lembro.
- Nem eu.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Bifurcação

Gabriel tinha acabado de chegar ao ponto de ônibus. Ia do estágio para a faculdade. O ponto não estava tão cheio. Como ficou até mais tarde no estágio já tinha passado o horário de pico. Ele estava lá, com a cabeça vazia, divagando sobre tudo o que via e esperando o ônibus para que pudesse se ocupar com algo: ler um dos quatro livros que estavam na mala. Entre os quatro, três estavam lá por que ele deveria ler por conta da faculdade e o outro por prazer. E adivinhem qual Gabriel iria ler? O filho único do prazer. Iria. Não fosse Leonardo chegar.
Fazia muito tempo que não se viam. Eram colegas de escola. Geralmente quando Gabriel encontra alguém com quem sabe que não vai ter muito o que conversar ele finge que não vê, mas nesse caso era impossível. Leonardo estava logo ali atrás no ponto do coletivo. Começaram com aquela velha conversa de quem não se vê há tempos: “E aí? Como vai? O que anda fazendo?”. E justamente por essa conversa que Gabriel começou a refletir sobre o “destino”.
Logo no início do diálogo Gabriel já percebeu a forma leve com que Leonardo falava. Ele parecia estar dopado. Mas não estava. Reconheceria se estivesse. Aquilo, ele acreditou ser fruto do passado. O resultado do tempo em que não se conversaram.
A forma com que falava não foi a única referência de Gabriel para saber que Leonardo havia desviado do caminho. Enquanto ele estava prestes a terminar a faculdade de Publicidade e Propaganda e fazia um estágio promissor em uma grande agência, Leonardo havia parado a escola e atualmente estava fazendo um supletivo, mesmo que sua condição financeira fosse muito maior na época em que andavam juntos. Ainda no meio da conversa Leonardo revelou que estava tomando antidepressivos.
O pensamento de Gabriel se dividia entre continuar a conversar com o velho amigo e refletir sobre as causas, razões e conseqüências do caminho tão díspare. “Mas por quê?” pensava ele. Gabriel e Leonardo estudaram juntos no mesmo colégio. Faziam juntos as cagadas que piás daquela idade faziam. Dentre essas atividades a que mais se destacava na época era o oficio de pixar muros. Inclusive foi Leonardo quem deu o apelido que até hoje chamam Gabriel. Mas é claro que aquilo não se passava de coisa de moleque. Mas parece que enquanto para Gabriel a molecagem passou, para Leonardo evoluiu.
Com ar nostálgico, mas sem comentar, Gabriel lembrou de quando fumavam nos fundos da casa de Leonardo. Mesmo com a mãe dele em casa os dois iam ao fundo da residência, onde havia também uma piscina, e fumavam aquele cigarro no qual pagavam 1 real na carteira inteira. Gabriel ainda fuma alguns cigarros eventualmente, enquanto Leonardo fumou o último Malboro vermelho ao chegar no ponto. Seus dentes estavam claramente amarelados.
No ponto em que Gabriel vai descer os dois se cumprimentam. Gabriel olha para as mãos do velho companheiro e nota que seus dedos estão com as pontas totalmente amarelas. Só pensa uma coisa: “maconha”. Depois que desce continua pensando: “Por quê?”. E continua pensando até hoje.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Cara-Crachá

Usar crachá no trabalho é uma coisa deveras importante, principalmente se tiver seu nome. Sabe comé....às vezes tem só um número, aí você continua sendo “O famoso 0503088” invés de ser “O Gustavo”. E o que o nome significa? Significa que você tem uma identidade dentro da empresa e dá a impressão de que você não é um explorado mas sim uma pessoa importante. Imagine só o CEO (Chief Executive Officer – em português bem claro: o Pica Grossa) quando passa por você dá uma olhadela esperta no crachá e diz como se fosse seu amigo de infância: “Bom dia Gustavo” (ou “Gustavão” dependendo do humor dele). Você estufa o peito e vai trabalhar feliz da vida, chega em casa e diz: “Amor. O Seu Correia é meu amigo. Ele é um cara muito legal” (que nem no filme “Caixa Dois”). Viram só o quão importante é o crachá?
Acho inclusive que as pessoas deveriam andar com crachá pela rua. Aí invés de resmungarem no ônibus um “cença?” diriam “com licença Bárbara?”. Pra mim, por exemplo, seria uma mão na roda (que expressão engraçada né? Qual será sua origem?) por que esqueço freqüentemente o nome das pessoas (até o meu de vez em quando). Aí eu não teria mais o problema de cumprimentar as pessoas com um abraço apertado, virar as costas e ficar tentando lembrar o nome. O problema é que às vezes as pessoas insistem em mudar de cara, aí não adianta muita coisa.

Também seria legal por que ninguém iria te chamar por apelidos idiotas, do tipo “Cabeção”. Outras pessoas que gostam muito do apelido (tipo eu) poderiam colocá-lo invés do nome.
Onde trabalhava até sexta-feira eu não tinha um crachá com nome e foto. Como fiquei pouco tempo por lá não se deram ao trabalho de fazer um crachá pra mim. Assim trabalhei três meses com um crachá que tinha o nome de “Provisório”. E aí como as pessoas me chamavam? Provisório! Nome maneiro né? Isso sim é identidade. A minha identidade era tão forte, mas tão forte que eu tinha até um apelido. É TINHA SIM. “Provi”.

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Obs: Como me formei não poderia continuar trabalhando como estagiário. Sexta-feira deixei de ser o “Provisório” pra ser definitivamente um desempregado. Tem um emprego pra mim?