segunda-feira, 17 de março de 2014

Sem pai nem mãe

Um dia, quando era criança, chorei embaixo da coberta pelo fato de imaginar que um dia minha mãe morreria. Hoje deixei de ser criança e choro de verdade.

Com “apenas” 27 anos me encontro no mundo sem pai nem mãe, literalmente. Nenhum cordão umbilical. Sem dia dos pais, sem dia das mães e sem nenhum dos dois em dia algum.

De acordo com a lógica Edgar Scandurresca eu não sou nada. Meu filho ainda não nasceu, mas também não sou mais o filho. Com essa idade talvez eu já devesse ser independente, se é que alguém é, mas se por um lado sou velho demais para ser estudante e não financeiramente estável, também sou novo demais para não ter ninguém. Me sinto uma criança desamparada, um homem de 27 anos recém nascido e prematuro.

Quando se é criança há uma sensação de aventura em ficar sozinho em casa, ampliada por causa do Macaulay Culkin, mas hoje a solidão é um medo que se aproxima 
cada vez mais.

Sim, eu sei. Eu sei que é a lei da vida. É natural. Mas não tão cedo. Sei que ainda tenho minha irmã, que mesmo distante nunca estará separada de mim. Sei que ainda tenho familiares. Sei que tenho minha vó, com quem posso contar, apesar de ser eu quem deve tomar conta. Sei que tenho amigos que são verdadeiros irmãos. Sei que tenho uma namorada para tudo o que precisar (inclusive dar uma transadinha).

Eu sei. Mas apesar disso o sentimento de solidão é inevitável. Dentro de mim coabitam dois tipos de caos. Na cabeça o caos como conhecemos, um turbilhão de pensamentos que brigam entre si para ver quem está na vez. No sentimento o caos de Hesíodo, um vazio. Eu imaginava que um espaço vazio fosse apenas o vazio, mas descobri que o vazio tem um tamanho e o meu é imenso.

Durante o velório minha irmã comentou que “agora o Guylherme tem cara de homem”. Prefiro pensar que o comentário seja por conta da minha barba, que masculiniza, vagabundeia e esconde. Mas talvez minhas feições masculinas, que antes ela não reconhecia, tenham nascido quando subitamente se abateu sobre mim a responsabilidade de encarar o mundo sozinho.

Agora sou eu meu único responsável. Em caso de emergência, se eu sofrer algum acidente, por favor, avise a mim mesmo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Calor abundante

Dia desses vi uma cena incrível. E não fui só eu. Meu amigo, carinhosamente apelidado de Feio, também presenciou a cena.

Vimos o sol em Curitiba.

Isto pode parecer comum, mas não é. Vivemos na capital brasileira onde menos fez sol em 2013. Assim sendo, a aparição constante do astro rei já é um fato absurdo.

Esse calor avassalador das últimas semanas pegou os curitibanos de calças curtas e neste quesito sou privilegiado. Posso, ou ao menos acho que posso, trabalhar de bermudas. Quando vejo alguém trajando terno e gravata sinto vontade de lhe dar um solidário abraço. Mas, sou curitibano. Então finjo que não vi.

O uso da querida bermuda em ambientes de trabalho tem chamado atenção aqui neste país tropical abençoado por Deus. Apoio a medida, desde que não se aplique a defuntos recém-morridos. Trabalhar de bermuda tudo bem, mas bater as botas de chinelo seria informalidade demais.

Enquanto os homens ainda lutam por esse direito as mulheres podem livremente caminhar com seus decotes, vestidos, saias e shorts. Diante da proibição do uso de bermuda no prédio do Centro Administrativo do Estado do Rio de Janeiro um funcionário conseguiu brasileiramente driblar a lei. Foi trabalhar de vestido. Simples assim.

Mas, o que eu e o Feio vimos não foi apenas o sol, que nos obriga a usar roupas curtas. Nós vimos a lua. Branca e com suas diversas crateras. 

O dia em que tivemos essa visão foi o mesmo em que um homem andou nu pela XV, esta rua onde agora as pessoas andam pelas beiradas para tentar pegar um pouco da sombra das marquises e não mais para escapar do temível palhaço-imitador.

Estávamos eu e o Feio sentados em frente à loja onde o Felipe (Vulgo: Torre Negra) trabalha. Esperávamos o Torre sair para tomarmos a merecida gelada de sexta-feira.

Eis que surge a lua.

Passa por nós uma imensa bunda. Desnuda. Branca. Sem sequer uma calcinha para apará-la.

Eu e o Feio nos solidarizamos com a moça que teve a sua saia presa na bolsa e agora exibia suas nádegas para quem quisesse e não quisesse ver.

Tentamos avisar a pobre. Ela estava quase chegando à Praça Tiradentes, onde passaria por pontos de ônibus lotados e atrairia olhares muito menos caridosos que os nossos. O Feio gritou, em vão, tentando salvá-la. 

Logo atrás dela havia um casal que nada disse. Talvez o homem se calou por que sua namorada poderia concluir que ele olhava para a bunda e isso desencadearia um ataque de ciúmes.

Já a senhorita do casal pode ter visto, mas também não disse nada por que o rapaz que se fazia de cego poderia deixar de fingir e ver tudo de uma vez.

Mas, especulações a parte, o fato é que nem o casal, nem ninguém, a alertou.
E a branca bunda desprotegida seguia rumo à Tiradentes.

Antes da tragédia anunciada um sinaleiro a salvou.

Ao parar na esquina ela percebeu o acontecido. Abaixou a saia e partiu.

O feio e eu vibramos e nos abraçamos aliviados.

Sem dúvida o mundo precisa de mais pessoas como eu e o Feio, ou ao menos as meninas de saias levantadas precisam.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mário e Júlia - Por Alexandre Fernandes

A relação já não estava com aquela chama ardente presente em namoro novo. Cada um tinha seus motivos para o desaquecimento da vida a dois do casal. Júlia agia como a chefe da relação. De uma hora para outra, na visão dela, Mário só tinha amigos bêbados e vagabundos. E as amigas dele eram todas vagabundas que queriam dar.

Mário também não fazia muito para a relação melhorar. Ele colocava a culpa da relação estar indo mal na má fase do Flamengo, na perseguição do chefe pentelho ou qualquer coisa que o afastasse do famigerado "discutir a relação". Seu jeito sereno e tranquilo, em excesso, contribuiu bastante para a crise do casal.

Ele queria fugir de uma discussão e resolveu dar um passo rumo ao retorno de uma relação tranquila e saudável. Disse que iria fazer um jantar especial para sua amada. Ela gostou da ideia e se mostrou surpresa, pois Mário é daqueles que para não sujar louça pede comida pelo delivery.

Dedicado, Mário caprichou na escolha do vinho para acompanhar a massa que preparou para o jantar de acerto de contas do casal, que ainda não tinha se separado. Caprichou também na faxina do seu cafofo. Antes que sua pequena chegasse para o encontro, ensaiou um pedido de desculpas pela sua apatia no namoro/noivado/casamento/tico-tico-no-fubá.

Quando Júlia chegou, Mário interrompeu seu ensaio. Antes de abrir a porta deu uma última ajeitada na cozinha e trocou a camisa que sujou com uma gota de molho. Ela entrou e se impressionou com a organização da casa. Conversaram bastante, pareciam se entender. E tudo se encaminhava para um retorno tranquilo do romance.
Porém, ahhh porém, no momento do jantar as coisas não foram do jeito que ambos imaginavam. Não exatamente pelo cardápio do chef Mário, mas por um capricho de Júlia. Quando ele serviu o jantar para sua amada, ela se impressionou com o aroma e o visual. Mário parecia empolgado por estar fazendo algo que evitaria uma discussão de relação.

Logo após a refeição, entre uma taça e outra de vinho, Mário todo romântico pergunta se a moça tinha gostado do cardápio. Ela responde: “Sim, estava ótimo. Mesmo sendo feito com massa pronta, aí fica fácil”. Mário ficou um tempo olhando para o nada. Apenas pensava no esforço e empenho para fazer um jantar bacana para ela.

Olhou para Júlia e disse que tinha que fazer uma coisa. Ela sem entender perguntou o que ele tinha que fazer, mas não teve resposta. Ele pegou as chaves do carro e saiu. Ela ficou ali parada por algum tempo, esperou por meia hora e foi embora. Quando chegou na portaria do prédio, viu Mário jogando baralho e tomando cerveja com o porteiro.

Nunca mais se falaram.

Fim

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Nosso amigo Alexandre Fernandes (o Kibe) veio para o Di-Vagá fazer uma visita colaborativa nesta semana.

Gozador que é, Alexandre é um dos responsáveis pelo site de humor e futebol Allejoalém de jornalista e sócio-fundador do Dois Copos.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O esperado acontece

Fosse casado poderia acordar assustado com uma mulher gritando e o xingando para que acordasse logo por estar atrasado.

Ou então acordaria recebendo um inesperado sexo oral matinal.

Existia também a possibilidade de ao voltar do sonho olhar para o lado e ver que passou a vida com alguém que não amava.

Mas não.


Era solteiro e acordou com o despertador o despertando.

Se tomasse café passaria mal, ou bem, dependendo do que dizia a mais nova pesquisa da semana sobre o café.

Corria o risco de derramar o líquido e além de trocar a roupa e se atrasar, queimar a perna.

Havia ainda a chance de a bebida o deixar mais animado para o trabalho.

Mas não.


Tomou um achocolatado e saiu.

Se fosse de carro era possível que fosse assaltado no semáforo e, reagindo, tomar um tiro na fuça.

Não era impossível que fosse um dos participantes do maior engavetamento da história da cidade, que envolveu 748 veículos (com ele seriam 749).

Passar por uma manifestação também estava dentro das possibilidades, já que naquela manhã havia um protesto real com pessoas que carregavam faixas com dizeres do mundo virtual que defendiam os direitos dos animais de estimação de também ter um animal de estimação, já que eram bichos de estimação de pessoas que não tinham estima.

Mas não.

Não tinha carro e foi de ônibus.

No ônibus arriscou-se a encontrar alguém que conhecia, mas não queria conhecer e ser obrigado a conversar com essa pessoa mesmo sem ter o que conversar.

O ônibus em que estava também poderia ser sequestrado por um sobrevivente de uma chacina de moradores de rua que o manteria no ônibus por quase cinco horas.

Teve a chance também de esbarrar com uma moça, derrubar sua sacola e quando abaixar-se ela também se abaixar e os dois pegarem a sacola e levantarem se olhando e essa mulher ser a Julia Roberts e ele se apaixonar e casar com a Julia Roberts, que lhe acordaria com um inesperado sexo oral matinal.

Mas não.

Nada de inesperado aconteceu e ele chegou ao trabalho normalmente.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ceda à Sede

Aquele jeito formal me enlouquecia. Delicadeza sem excesso. Educação sem ar superior. Inteligência para conversar sobre multiplicidades. Simpatia em cada palavra e sorriso sempre presente.

Infelizmente, apresenta a mesma sagacidade que me conquista para se esquivar de minhas investidas. Mas hoje vai. Hoje tem que ceder. Hoje é o dia da noite inesquecível.

O pior é que insiste em falar no compromisso. Já estão juntos há anos. Já está mais do que na hora de cair na rotina e o amor decair. Está no momento de ter vontade e curiosidade por outros corpos. O meu, por exemplo.

Todo assunto faz com que comente sobre o namoro. Mas por certo ponto de vista isso é bom, pela semelhança ou pela oposição, há uma comparação. Pode pensar em mim como uma alternativa ou reafirmação.

Para que tudo dê certo tenho um plano infalível e uma arma perfeita: bebida. Muita bebida para esquecer quem está em casa e lembrar só do que vê pela frente. Somente eu.

Não é possível que muito álcool não deixe tudo suce. Suscetível.

Depois de muita cana jogo uma indireta e se não funcionar vou direto. Digo que quero transar. Que sempre quis. Que quero agora. Que pago tudo. Que chupo tudo.

Vou assim mesmo, com o pé nas costas. E se ainda assim recusar, agarro de forma inescapável. Depois já era. É um pulo para a cama.

É impossível a formalidade resistir à embriaguez do beijo.

Mas está demorando. Como bebe. Como custa chegar ao momento do ataque. Eu, que bebo bastante, já começo a falar enrolado. Olho de maneira insinuante, mas parece que a embriaguez impede que perceba. Parece distração, mas quero ver pensar em outra coisa na cama. Quero ver pensar naquela maldição de cônjuge.

Enquanto isso, bebe vai. Pede mais uma. Vamos conversando. Vamos fumando. Não ligo para o seu bafo de cigarro. Isso não é nada frente à sua perfeição. Perfeição que eu vou despir, vou pegar, vou esfregar, vou lamber e depois colocar esse seu caralho para pulsar dentro da minha aconchegante buceta.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Há caso?

Viram-se pela primeira vez pelo acaso. Foi acidental, se é que um acidente pode ser bom. E se é que foi bom terem se visto.

Estavam de costas um para o outro. Não por acaso carregavam um guarda-chuva e um ônibus os carregava.

Ele ia para uma entrevista de emprego. Ela enfrentava o transporte coletivo todos os dias, mas nunca naquele horário. Estava atrasada.

As costas se encostavam mesmo que evitassem o contato gratuito, afinal ambos eram curitibanos. O contato só foi possível graças à lotação estar lotada.

O guarda-chuva já fazia parte do visual de ambos. Em Curitiba nesta época do ano o guarda-chuva é uma extensão do braço. Ele segurava nas mãos, molhando o chão do ônibus. O dela estava na mochila, somente com o cabo de fora. Estava tão frio que até mesmo o guarda-chuva corria o risco de pegar gripe se ficasse exposto à friagem.

A distração dela foi interrompida quando a voz do ônibus que fala anunciou que seu ponto estava chegando. Apressada, desceu do ônibus levando consigo uma lembrança.

A alça do guarda-chuva se enroscou com a mala dele, que desceu onde não devia. Quando perceberam, começaram a rir timidamente. Olhavam um para o outro, depois olhavam pro chão e riam.

Ela se desculpou. Ele, embora tenha descido quatro pontos antes do desejado, aceitou as desculpas.

Depois da graça ficaram sem graça. E mesmo com vontade de conversar rumaram para seus compromissos.

Como previsto ela chegou atrasada. Ele, devido ao imprevisto, também se atrasou e não conseguiu o emprego.

Ela já se imaginou contando para a filha como se conheceram. Ele queria contar para os amigos, mas sabia que iriam chamá-lo de bundão por não ter conseguido dizer nada para a garota.
Esforçaram-se para um novo encontro. Ele pegou o ônibus mais algumas vezes mesmo sem nenhum compromisso. Ela passou a chegar atrasada frequentemente.

O dinheiro dele acabou e não pode mais instigar outro acaso. Ela não podia mais se atrasar por conta do possível caso.

Depois o acaso nunca mais ocasionou.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O ex-poeta

O poeta já não mais poetisa.

Sua esperança morreu e não foi a última, sobrou seu corpo, como testemunha.

Agora virou trabalhador. Anda de carro, bate cartão, não conversa, não olha pela janela, não divaga, não ri e não chora.

Seu olhar poético embaçou. Seu coração empedreceu. Robotizou-se. Desensibilizou-se.

Ele agora só vai. Segue um caminho reto, sem desvios, sem emoções, sem desafios. Não sabe aonde quer chegar. Segue um rumo que o guia na certeza do nada.

Em sua jornada de zumbi o ex-poeta às vezes avista a alma penada da sua esperança, que some assim como seus sonhos.

Antes usada para celebrar, a bebida perdeu seu sentido. Não há nem lamentação e a ressaca já não faz sua parte. Não tem mais mágoas para afogar. Ex-poetas não tem mágoas.

O ex-poeta não tem motivos para viver, para morrer ou para escr

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Olho Mágico

Pela grande janela que dava para a rua Dona Leocádia viu as três novas moradoras chegando animadas. O tempo não tinha levado sua atenta visão e audição.

Saiam do táxi cheias de malas. Vinham para ficar.

Dona Leocádia conhecera todos os moradores que passaram pelo prédio. Com a chegada tinha três bons motivos para continuar viva. Eram três vidas para futricar e espalhar.

Estava lá desde que os curitibanos começaram a se empilhar uns em cima dos outros. Mudou-se depois de ter casado com seu Roberto, um militar marido, e ali passaram a lua de mel. Foi uma das primeiras a experimentar a sensação de morar no alto e ver de cima o desenvolvimento da capital e a degradação do ser humano. 

Com o tempo passou a não se contentar mais em ter esse olhar superior. Preferia olhar para todos os lados possíveis. Quanto mais o tempo passava mais olhava para dentro do prédio e da vida de seus habitantes.

As pessoas de fora já não tinham mais graça nem graciosidade. O centro passou a ser apenas uma passagem. Quando escurece é a parte da cidade que sobra para aqueles que não têm para onde ir e vira um ponto de vendas para os comerciantes da calada. 

Em uma noite de observação quase teve um ataque cardíaco ao ver um rapaz sendo assaltado. Chamou a polícia, que chegou meia-hora depois, quando os bens do garoto já tinham virado fumaça.

Na última vez que viu a polícia por ali eram eles que roubavam um menino. E batiam. Aprovou a atitude dos guardas, até mesmo por que naquele lugar, naquela hora, pessoas boas não ficavam.

Alguns dias depois ouviu no rádio que o corpo de um menino fora encontrado em um matagal na região metropolitana. A reportagem disse que o adolescente fora pego pelos policiais ali na sua rua, na frente do seu prédio. O locutor disse que o jovem estava fumando maconha. Aprovou ainda mais a atitude dos homens da lei. Maconheiro tem que morrer mesmo.

Agora olhava pela janela só por que sabia que as meninas chegariam. Teve a honra de recepcioná-las. O proprietário do apartamento deixou a chave com ela. Ele não ia muito lá. Depois de cinco anos como morador decidiu alugar o imóvel. Não aguentou viver no centro. Muito barulho, muito grito, muito tiro.

Assim como a população da classe alta e a prefeitura, ele abandonou o centro. O vizinho foi se avizinhar lá pros arredores da cidade. Foi morar em um condomínio seguro e luxuoso, que embora tivesse uma favela ao lado, não o atrapalhava. Um alto muro garantia que sua visão se direcionasse apenas para o condomínio.

A alegria das meninas era visível lá de cima, mas fecharam a cara quando Dona Leocádia as cumprimentou. Mesmo na sua presença conversavam somente entre si.

Chegando ao apartamento não a convidaram para entrar e fecharam a porta. Ela ainda ouviu quando trancaram-se.

Aquilo era um ultraje. Como alguém chega ao seu prédio, nos seus domínios, sem que se apresentasse a ela? Sem lhe pedir nenhuma ajuda. Nenhuma informação.

Por trás da porta Dona Leocádia ouvia risadas frequentemente. Quando percebia que iriam sair logo saia também, para promover um ocasional encontro, mas nunca conseguiu uma conversa.

Um rápido “Oi, tudo bem?” era o máximo. E saiam apressadas. Nem a ajudavam a descer as escadas. Ainda bem, pois não iria sair mesmo. Quando percebia que já tinham saído do prédio voltava para o seu apartamento.

Sem as meninas em casa não tinha muita ocupação. Lá dentro sentia o vazio.

Com o passar de um mês ainda não descobrira nada sobre as meninas e decidiu que somente escutar já não bastava. Precisava ver. Mandou colocar um olho mágico.

Aquele desconhecimento a agoniava profundamente. Não sabia nem mesmo o nome delas. O prédio não tinha nem porteiro para poder se informar. Decidiu então buscar com os outros moradores.

Dispensou um dia de observação para fazer visitas. Andou pelo prédio inteiro conversando de maneira amena, despretensiosa. Subiu e desceu escadas, bateu em todas as portas e a única coisa que descobriu era que as garotas diziam ser universitárias.

Elas não saíam muito, mas pareciam ter muitos amigos. Recebiam muita gente, mas nem iam até a porta recepcionar. As visitas eram geralmente masculinas e ficavam lá por uma hora, de acordo com o cronômetro de Dona Leocádia.

Não saber nada era uma tortura e aquelas risadas eram atos de requinte. Não entendia como ficavam o dia inteiro em casa, embora ela fizesse o mesmo.

Saíam somente nos finais de semana. Um carro preto as esperava na noite de sexta-feira e as devolvia para Dona Leocádia na segunda-feira pela manhã. 

Com o passar dos meses ela foi ficando doente. Suas costas doíam cada vez mais por ficar tanto tempo em pé tentando ver e ouvir algo. Em algumas ocasiões esquecia-se de tomar os remédios e se segurava ao máximo para comer e ir ao banheiro. Às vezes fazia ali mesmo para não deixar de espiar.

Em uma noite de quarta-feira um homem foi visitá-las. Entrou sozinho e saiu dali 15 minutos.

Na manhã seguinte, quando a polícia e a reportagem perguntaram, Dona Leocádia disse que estava dormindo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Eu te entendo, Esquerdinha

Parece bizarro, mas não é.

O país que vai receber a copa tem estádios bonitões sem fosso e sem grade, o que até então seria impensável no país do futebol. Isso por que a paixão, a revolta e muitos outros fatores faziam com que torcedores invadissem o gramado sem maiores dificuldades. Mas agora não. Agora que vamos receber a copa somos um país altamente civilizado.

Muito distante desses pintosos estádios ainda existe a essência do futebol. Lá onde nasce o esporte, lá onde o sonho ou a brincadeira move pessoas a jogar uma verdadeira pelada, ainda há uma parte do futebol que não foi elitizada. Na série D do campeonato brasileiro o amor pelo clube ainda existe.

Um desses apaixonados se chama Romildo Fonseca da Silva, conhecido como Esquerdinha. Esquerdinha não é um jogador do seu clube, o Aparecidense, mas sim um massagista. Desesperado ao ver que seu time seria desclassificado aos 44 minutos do segundo tempo o massagista largou a sua função e foi além. Entrou em campo e salvou o time da desclassificação.

Incomum. Bem incomum. Mas compreensível.

Esquerdinha fez aquilo que um torcedor apaixonado faria. Esquerdinha virou zagueiro de uma hora para outra. Sem ser escalado, sem participar dos treinamentos e sem receber o mesmo salário de um jogador.

Ora, que torcedor nunca teve vontade de entrar em campo vestindo a camisa do seu clube?

Dia desses um amigo teve essa honra. Com direito a preleção, hino, nome no placar eletrônico, gol e comemoração ele vestiu as cores do seu clube como faz um jogador. Pode sentir por um dia como é a sensação de defender aquela pátria. Ajudei-o como pude para realizar aquele sonho, mesmo que não seja um simpatizante do time dele, mas o compreendo.

Quem já foi ao estádio gritar, berrar, torcer e em alguns casos até xingar em apoio ao time já teve a vontade de estar lá dentro para tentar resolver tudo.

Que torcedor nunca declarou que até ele jogaria melhor que o Ibson e o Maldonado juntos aquele jogador que tem pouca habilidade e ainda assim parece não jogar com raça?

Só quem ama seu clube sabe quais são esses sentimentos. O amor que o move para o estádio, o amor que faz com que torcedores tatuem o símbolo do clube, o amor que o faz gastar dinheiro para comprar uma camisa e carregar aquilo como um manto.

Esse foi o mesmo amor que moveu Esquerdinha. O torcedor Esquerdinha. O apaixonado Esquerdinha. O herói Esquerdinha.

Eu te entendo esquerdinha. Eu te entendo.