segunda-feira, 7 de junho de 2010
A celebração
Ele não parava. Pulava toda hora de grupo em grupo. Sua presença era importantíssima para todos. E não gastara sequer um tostão para reunir tanta gente. Em suas festas comumente não iam tantas pessoas. Sem planos, sem convite nem nada conseguiu promover aquela grande reunião.
Com tantos amigos por perto no fundo ele ficava feliz, mesmo carregando a imensa dor por estar no velório da própria mãe.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Engano?
- Alô, quem é?
- É o chunda.
- Que chunda?
- Aquele que...
Ops, não era essa a história que eu ia contar!
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- Alô.
- Alô, quem é?
- É o Mário.
- Que Mário?
- Aquele que...
Ops, também não era essa a história!
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- Alô.
- Alô. Quem?
- É o Gilberto.
- Oi Gil tudo bem?
- Tudo bem e com você?
- Tudo bem também. Cê me ligou?
- Não sei. Liguei?
- Acho que sim. Teu número apareceu aqui na bina.
- Mas quem tá falando?
- É a Sheila.
- Sheila...
- É.
- Desculpa, mas acho que não liguei.
- Mas esse número tá aqui.
- Pois é, mas não me lembro de ter ligado.
- Então tá. Na verdade acho que você também não é quem eu achava que fosse.
- Ah, então tá bom.
- Então tá.
- Mas...
- O quê?
- Nada não.
- Então tá. Até outra hora.
- Ué, como assim até outra hora? Você vai me ligar de novo?
- Não sei.
- Ah, ligaê pra gente conversar... fazer alguma.
- Beleza, ligo sim, pra gente ir no cinema.
- Suce então, vamos ver Titanic!
- Então tá bom.
- Então fechô Sheila. Muito prazer em conhecê-la.
- Com prazer é mais caro.
- Hoiuhaeiuohaoieuhioaueh*. Então tá bom, beijos.
- Beijos.
Uma semana depois ele recebe uma ligação de um número desconhecido. Não acreditou quando constatou que era a menina da ligação por engano. Ela também não acreditou que teve coragem de ligar. Mesmo com ambos não acreditando em nada foram ao cinema. Ao se olharem tiveram uma grande surpresa ao constatar que o outro não era tão feio quanto o pessimismo de ambos imaginava. Namoraram por dois anos e tiveram um filho juntos, quando o picorrucho completou um ano se separaram.
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* Óbvio que o personagem em questão não deu risada dessa maneira. Ainda não consegui criar uma adaptação da risada real para a escrita.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Poucássimo
- Quanto tempo?
- Pouco.
- Pouco quanto?
- Pouco.
- Um mês? Uma semana? Um dia?
- Não posso saber ao certo, mas sei que é pouco.
- Mas é pouco, pouquinho, pouquíssimo ou poucão?
- Poucássimo.
- Poucássimo?
- Poucássimo!
- Poucássimo quanto?
- Poucássimo.
- Poucássimo ou pouquíssimo?
- Poucássimo.
- Poucássimo ou pouquissíssimo?
- Poucássimo!
- Mais de um mês ou menos?
- De dois meses não passa.
- No máximo ou no mínimo?
- No máximo dois meses.
- E no mínimo?
- Uma semana.
- Mais isso é muito tempo.
- Quanto? Uma semana ou dois meses?
- A diferença.
- Que diferença?
- Entre o máximo e o mínimo.
- Você se considera otimista ou pessimista?
- Qual a diferença? Vou morrer mesmo.
- Faz muita diferença.
- Qual a diferença?
- Entre o máximo e o mínimo?
- Não. Entre se otimista ou pessimista.
- Se for otimista irá pensar em dois meses, se for pessimista uma semana.
- E qual a diferença?
- Um mês e três semanas.
- Não. Qual a diferença no final?
- O tempo.
- Que tempo?
- Que demorou para acontecer.
- Tudo bem. Obrigado pela notícia.
- Por nada.
Foi para casa pensando o que faria. Precisava fazer alguma coisa, aproveitar. Algo que não tinha feito até então. Tinha pouco tempo. O trajeto foi feito de maneira automática, como fizera a vida inteira. Ao chegar em casa resolveu fazer o que nunca havia feito na vida. Foi até o quarto e do fundo do armário retirou o 38. Engatilhou e deu um tiro na própria cabeça.
A espera seria muito angustiante.
sábado, 3 de abril de 2010
Merda
Tateio. Celular sem bateria. Merda. Vou ter que levantar. Descubro ser 8h. Deito de novo.
Ligo a TV. Tá rolando um Globo Rural. Merda. Além disso é pastor pra tudo quanto é lado. Lado não, canal não tem lado, pelo menos na minha TV é só pra cima ou pra baixo.
Fico ali meio em transe, divagando enquanto ouço e vejo soja pra lá, mandioca pra cá, feijão acolá e agrotóxico lá pá puta que o pariu. Merda.
Melhor dormir de novo. Fecho os olhos e tento me aconchegar, viro em todas as direções e descubro que nem plantando bananeira consigo dormir. Merda.
Acordo “de novo”. Acendo um cigarro. Daqui a pouco tem o programa de esportes. Minha manhã se esvai frente à televisão enquanto lá fora cai uma chuva torrencial. Olho pela janela e fico admirando a chuva enquanto acendo mais um cigarro. Pareço um cachorro desolado. Merda.
É hora do almoço. Abro o forno na esperança vã de haver algum resto de comida, daquelas de verdade mesmo. Não há nada. Merda.
Miojo de novo. Merda. Galinha caipira. Merda. Como em frente à TV. Merda. Programa do Didi. Merda. Os cara de pau. Merda.
Não dá. Preciso sair e fazer alguma coisa, útil de preferência. Já sei. Vou ligar para alguém. Não tenho crédito. Merda. Acendo mais um cigarro.
Não tem internet. Merda. Meus livros estão lá na mãe. Merda.
A chuva não pára de jeito nenhum. Merda. Quando ameniza e acho que agora vai...o mundo volta a desabar. E o pior é que 21/12/2012 ainda tá longe. É só chuva mesmo. Merda.
As cinco têm futebol pelo menos. Quem joga hoje que eu nem sei? Palmeiras e Bragantino. Merda. Durante o intervalo acendo um cigarro. Palmeiras ganha. Merda.
E agora? Silvio Santos. Merda. Faustão. Merda. Gugu. Merda. Celso Portiolli. Merda.
Vou fumar mais um...merda. O cigarro acabou. Reviro os poucos móveis da casa em busca de um cigarro perdido, uma bituca grandinha que seja. Merda. Procuro em todos os bolsos das calças e blusas e o que encontro no máximo são carteiras vazias. Merda.
Não vai ter jeito. Vou ter que sair. Junto os trocados. Calça, meia, tênis, camisa, blusa e guarda chuva. Merda. Odeio guarda chuvas. Chego em casa molhado até o joelho. Merda. Tanto esforço por causa de uma merda de um cigarro. Merda.
Banho quente. A melhor coisa do domingo de merda.
Fome. Jantar. Miojo. Merda. Legumes. Merda. Lavar a louça. Merda.
Acendo um cigarro. Mais um e mais um. Merda. Devia ter comprado um vinho também. Merda. Mas nem teria dinheiro mesmo. Merda.
Olho o celular. Nenhuma ligação. Merda. Nenhuma mensagem. Merda.
Idéia brilhante. Passo alguns minutos me dedicando ao joguinho do telefone. Dou por mim. Que merda é essa? Jogo o celular. Merda.
BBB. Merda. TV de merda. Acendo mais um cigarro. Começo a tossir como tivesse tuberculose. Merda. Já tá de noite e eu não fiz nada. Merda. Tenho que trabalhar amanhã. Merda.
Última esperança: corujão. Às vezes rola uns filmezinhos da hora.
“Informamos que devido à manutenção dos equipamentos a sessão corujão não será exibida. Boa noite”.
MERDA!
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Curiosidades:
Neste texto a palavra "Merda" foi repetida 47 vezes.
O personagem em questão fumou oito cigarros.
Tá, e daí né? Grandes merda.
sexta-feira, 12 de março de 2010
A aliança
Ele estava nervoso. Ela não. O nervosismo era definido pela intenção carregada por ele e desconhecida por ela.
Estranhou, mas não desconfiou. Não era do feitio dele chamá-la para jantar invés de convidá-la para beber. Não se vestiu costumeiramente como um maloquêro. Em sua cabeça já estava tudo bolado (sem referência nenhuma às drogas). Daquela noite não passava.
Chegaram ao restaurante, daqueles que os amigos mais velhos sempre comentavam mas eles nunca tinham ido. Ele demorou em juntar a grana do jantar, esse foi um dos motivos da demora. Um dos pequenos motivos dentre vários (e maiores).
Tinha até reservado mesa, motivo para que ela se admirasse ainda mais. Puxou a cadeira para ela sentar-se. Velas na mesa. Pedem o jantar.
Durante a conversa ficaram meio sem assunto. Ele só pensava em uma coisa, que não poderia falar naquele momento.
Ao término do jantar em si ele propõe um Champagne. Ela discorda. Queria uma bera bem gelada. Depois da cevada ele faz sinal para o garçom. Ele traz duas taças e uma delas contém uma aliança no fundo.
Ela não vê e nada fala. Ele também não, ao chegar no final ela perceberia. Ela bebe devagar. A agonia aumenta. Ele soa frio já na metade da taça. Parecia que uma eternidade já passara ali. E restava ainda a outra metade da taça e uma outra eternidade.
Repentinamente ela vira a taça num só gole, se engasga com a aliança e morre.
Objetivo alcançado: matar a noiva aparentemente por acidente (e antes de casar).
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Tal qual 2009, neste ano peço desculpas aos poucos mas fiéis leitores. Eu tentei, juro que tentei, mas não dá. Como o Brasil meu blog só funciona depois do carnaval mesmo.
Falando em Carnaval... sempre imaginei que o CRÉU era o limite. Mas vem um novo carnaval e me surpreendo novamente com a bola da vez. O rebolation!
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Infelizmente terei que voltar a moderar comentários. Venho recebendo uns spams meio vírus (ou seria o contrário?).
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
O efeito do beijo
Quando a bebida veio ele fez uma mistura desproporcional. Forte. Assim ele queria que fosse a noite. Só ele e a forte bebida. Queria beber para esquecer. Esquecer do trabalho, da chateação da família, da namorada, da preocupação das contas ou de como seria ter que esperar o madrugueiro para ir pra casa.
Termina a primeira dose e o celular toca. Um amigo. Um grande amigo. Não atende. Se atendesse o parceiro iria falar todo animado: “E aí Celso beleza cara? Vamos fazer alguma hoje?”. Mas só de imaginar a empolgação já sentia um pouco de raiva.
Pede mais uma. Um rapaz ao lado tenta puxar conversa. Por incrível que pareça nem sobre futebol ele queria falar. Para encurtar o diálogo/monólogo ele fala de maneira monossilábica. Quando o coxa-branca ao lado dá uma brecha ele vira o rosto e começa a acompanhar Jim Morrison. Tocava Riders on the Storm. Ele canta alto, mais alto que Jim. O torcedor futuro segunda divisão tenta falar, mas a cantoria encerra a conversa de vez.
O álcool vai fazendo efeito. A velocidade com que toma é diretamente proporcional do quão rápido fica bêbado. A raiva e o desejo de esquecimento vão dando lugar a uma eminente carência. Sente vontade de conversar com alguém. Mas não com o amigo que queria ir para a balada ou com um comentarista de futebol que não sabe nem sequer torcer.
Quando pede a quarta dose surge um alguém conhecido. “Mais inconveniente. Uma inconveniente desta vez”. Sem mais nem menos surge naquele bar esfumaçado uma amiga da sua namorada. Teria que falar com quem e sobre o que menos queria.
- E aí Celsinho. Tudo bom?
- Tudo e aí?
- Tudo certinho também. E a Amanda?
Ele demora a responder. Hesita.
- Bem...
- Já entendi.
Celso e Janaína nunca tinham conversado muito. Na sua visão era apenas a amiga de sua namorada. Ex-namorada.
Nunca imaginou que ela era tão legal. Sempre a achou bonita, mas muito fútil. Mas no decorrer da conversa (e do whisky) percebeu que poderia ser sua amiga também. E talvez até mais que isso. A esta altura a conversa já ia para outro rumo. Parecia(m) querer algo.
Foi ao banheiro. Olhou-se no espelho e conversou com ele. Celso e seu reflexo chegaram à conclusão que não poderiam ficar com Janaína. Era amiga da sua namorada, que ele ainda gostava.
Ele volta e a conversa continua. Enquanto ela falava sobre sabe-se lá o que ele pensava que talvez fosse melhor ter comprado logo uma garrafa inteira de whisky. Retorna ao diálogo, que seguia legal.
Sentiu-se à vontade para falar sobre o relacionamento. Revelou a causa do término e como se sentia, mas não disse que queria voltar com ela e nem que ainda gostava da ex. Falou em tom de revolta. Janaína então revelou que também havia brigado com a amiga algumas horas antes de chegar ao bar.
Sua cabeça pensa logo em ficar com a recente amiga. Lembra da conversa com o espelho, mas pensa “não estou mais com ela e elas brigaram. Então... suce”.
Pensando no futuro próximo ele pergunta:
- E aí? E aquele cara que você tava ficando?
Ela responde que não está mais com o rapaz em questão. Os dois sorriem. Por cerca de 15 segundos um sorri para o outro olhando-se hora para os olhos hora para os lábios. Um sorriso malandro e um olhar de desejo.
Aproximam-se e o beijo acontece.
Sente um gosto de vingança. Inevitável não pensar na ex. Inevitável não pensar na momentânea. Fica excitado como a muito não ficava com um beijo. Ela beija firme. Com desejo. A língua vai fundo. Ele começa a ficar tonto. Tenta encerrar o beijo por ali, mas ela o abraça com mais força. A tontura aumenta. Ela enfia a língua na garganta.
E ele vomita nela inteira.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Ela, ela e a operadora
E isto é tudo culpa dela: a garota que está em outra cidade há mais de um mês. Mas não é uma garota qualquer. Garotas há milhares. Mas ela é... Ela.
Ele sabe que é bem do tipinho dela demorar para responder a mensagem. O que já o deixa naturalmente tenso, mas fazer o quê? Esperar, só isso.
Mesmo em uma festa cheia de gente legal ele não consegue esquecer. Jogando truco, conversando, bebendo, não adianta, a cabeça está a quilômetros de distância. Talvez seja melhor deixar o telefone em cima da mesa, assim, se chegar mensagem, ele verá e não precisa ficar olhando toda hora.
Não. Tática falha. Os reflexos fazem a tela brilhar e seus olhos também quando se direcionam ao fone. A esperança se esvai logo. É apenas reflexo.
Há uma linha tênue entre a esperança e a desilusão. Será que ela não quer mais nada? Será que realmente quis um dia? Será que arrumou outro por lá? Será que a distância no tempo e no espaço fez com que ela o esquecesse? As interrogações crescem em sua cabeça a cada minuto de demora.
Eis que todas as dúvidas caem à sua volta quando finalmente chega a mensagem. Ele abre e lê: 'Seus créditos estão prestes a acabar. Faça uma nova recarga no posto mais próximo'.
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Texto originalmente publicado no jornal Folha de Londrina em 25/03/09.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
A foto
No horário marcado a associação de moradores fervia. Algumas pessoas que não simpatizavam com o candidato ficaram do lado de fora tomando tubão (refrigerante + pinga), enquanto lá dentro homens, mulheres e crianças se acotovelavam na fila por um pão com lingüiça. O cardápio era completo por risoto. A cerveja também era por conta da casa, o que deixou os bares da região às moscas. Até mesmo alguns dos donos dos botecos poderiam ser vistos no local.
A marchinha da campanha era repetida à exaustão alternando com pagode, samba, axé e música sertaneja. A bebida atraiu um bom número de homens para a associação, mas a maioria do público era feminino. Todos queriam vê-lo de perto, mal acreditavam que ele iria visitar a comunidade.
Comeram, beberam, dançaram, receberam camisetas e adesivos e nada dele. Eis que uma hora e meia após o início da festividade ele chega ao lado da primeira-dama que também já atraia a simpatia do público. Cercado de seguranças, assessores e fotógrafos ele arranca suspiros de quem lá estava. Mesmo sendo programada parecia uma surpresa a sua presença.
O barulho alto silenciou-se quando ele começou a falar. Vez ou outra alguém gritava “é isso aí prefeito”. O ritmo foi seguido durante os 30 minutos em que ele discursou. Ao final, aplausos calorosos.
Todos foram em sua direção quando desceu do palanque. Cercado por homens de preto ele ficou disparando sorrisos e beijos a quem tentava lhe tocar esticando o braço. Dona Arlete com a criança no colo se aproximou. Ele apanhou a criança e a beijou fazendo pose para a câmera. Continuou com a pequena Amanda nos braços durante boa parte da celebração.
Naquela noite o candidato promoveu a alegria do público feminino. Com um banner da campanha ao fundo ele tirava foto com quem desejasse. A sessão de retratos foi intensa. Mais de uma centena de mulheres quis registrar o momento. Meninas, moças, mulheres e avós tiravam foto e a recebiam após alguns minutos.
Dona Izolda foi uma delas. Sorridente voltou para casa na companhia do marido, Seu Alencar, e suas filhas. Uma delas, Rafaela, também teve seu registro com o galã. A outra, Rafaelle, não simpatizava muito com o candidato, mas não perdeu a boca livre.
A foto passou alguns dias sob o criado-mudo “largada”. Depois disso foi para a porta do armário dividir espaço com a foto do casamento e com a foto do casal de filhas. Quando viu, Seu Alencar pediu em tom educado para que Izolda retirasse a foto. Ela respondeu sorridente que não o faria.
A porta do armário era aberta toda noite antes do casal dormir quando Izolda ia guardar a roupa e pegar a camisola. Com o tempo a educação foi dando lugar à grosseria na forma com que Seu Alencar pedia para que tirasse a foto.
Em uma das noites Dona Izolda deixou a porta do armário aberta quando foram se deitar. Ciente de que a mulher sabia sua opinião sobre a foto Seu Alencar nada falou interpretando o ato como provocação. Coincidência ou não o faixo de luz que vinha do poste e passava pela cortina batia exatamente na imagem. Era impossível para Seu Alencar tirar aquilo da cabeça mesmo na hora em que foram fazer amor.
Alencar broxou. Levantou-se enraivecido, pegou a foto, amassou e jogou no chão sem nada falar. Izolda também permaneceu calada apenas se vestiu, virou para o lado e dormiu.
No dia posterior a foto estava lá novamente. Nas duas semanas seguintes nada de sexo, nada de beijo e pouco diálogo. Em uma sexta-feira em que chegou mais tarde depois de ter ido ao bar Seu Alencar encontrou Dona Izolda beijando a foto antes de dormir. Silenciou.
Na manhã seguinte depois do café Seu Alencar deu o ultimato: “ou a foto ou eu”. Não esperou a resposta e saiu de casa. Foi para o churrasco do Edmar. Quando chegou de noite abriu a porta do armário e a foto ainda estava lá. Pegou uma coberta e foi dormir no sofá. E assim continuou.
A eleição passou. O candidato se elegeu. E o casal continuava de leito separado e falando apenas o necessário.
Seu Alencar que comprava um jornal favorável ao prefeito resolveu assinar o jornal concorrente. Quando aparecia na TV ele logo mudava de canal. Quando isso acontecia Dona Izolda o olhava com um olhar de reprovação. O olhar era respondido com o mesmo tom. Era uma das raras vezes que se olhavam.
Passados seis meses de governo um escândalo abalou a cidade. O prefeito estava envolvido em uma maracutaia grande. Seu Alencar dava indiretas na mulher. Fazia de tudo para reforçar a imagem de ladrão que o prefeito ganhou. Nos almoços qualquer assunto comentado pelas filhas terminava com uma acusação ao prefeito feita pelo pai.
Em uma noite no intervalo da novela o casal assistia TV com a cabeça sem virar para o lado de maneira alguma. Olhares fixos na tela. Alzira se levantou e foi até o quarto. Pegou a foto e rasgou na frente do marido. Ele apenas observou. Ela lhe deu um beijo e falou: “você tava certo Alencar. Ele é um canalha”.
E voltaram a ser marido e mulher como antes.
domingo, 20 de setembro de 2009
No ar
A apresentadora inicia: “Hoje em nosso programa um caso de traição em família. A mulher desconfia que seu marido a traiu com a irmã. Aqui em nosso estúdio o marido Wesley, a mulher Rosalina e sua irmã Leocádia”.
A apresentadora pede para que cada um conte sua versão. E anuncia: “no próximo bloco Wesley vai encara a máquina da verdade”.
Intervalo.
A máquina desenvolvida nos confins da Estônia mede o tom da voz do sujeito, se detectar um tom inseguro é considerada mentira. A true-machine é controlada por um psicólogo de renome internacional.
Wesley passa pela máquina. Sua sinceridade é de impressionar até mesmo a experiente apresentadora. Suas opiniões sobre a fidelidade são contundentes. “Olha Rosalina, só pelo que esse homem disse até agora e que a máquina constatou ser verdade, por mim já é suficiente para que você largue ele”.
A platéia, que em sua totalidade é feminina, aplaude. Ela aproveita: “isso inclusive está presente no meu livro mais recente...”.
E agora vamos para a pergunta final: “Wesley, você traiu sua mulher com a sua cunhada?”. Ele respira fundo, e quando vai responder...”antes disso o Carlos tem um aviso para nós”. O anunciante faz sua parte e o programa retorna.
Então agora vamos à pergunta decisiva: “Wesley, você teve um caso com sua cunhada Leocádia?”. Ele responde com convicção de maneira negativa. “E agora vamos ao veredicto da máquina. Ele disse que não traiu Rosalina com sua irmã, e para a máquina... mentiu”.
Rosalina leva as mãos ao rosto. Wesley faz cara de desentendido, como se fosse um absurdo o resultado. Leocádia faz cara de indiferente.
“Olha Rosalina eu já tinha dito antes pra você largar dele. Agora então se você continuar com ele significa que você gosta de ser enganada. E aí Rosalina, você vai continuar com esta mentira que é o seu casamento?”. Leocádia mal consegue falar de tanto chorar. Resmungando diz que jamais vai olhar na cara do marido.
A psicóloga presente avalia o caso de acordo com sua especialidade e faz uma explanação sobre a insegurança feminina.
A apresentadora anuncia a próxima atração da programação e fim.
Os auxiliares vêm tirar os microfones. A apresentadora vai conversar com a psicóloga.
A equipe de produção encaminha cada um dos envolvidos no caso para um lado. Cada van leva para casa um dos personagens da história daquele dia.
Rosalina chega em casa primeiro e fica pensando no ocorrido. Wesley chega um pouco depois.
Ele entra e os dois trocam olhares. Ela começa o diálogo:
- Então Wesley, cê num tem nada pra me falar?
- Desculpa Rosa. Desculpa.
Ele se ajoelha e junta as mãos.
- Levanta daí hôme. Fez e agora fica aí chorando.
Ele levanta e a dá um apertado abraço. Ela continua com os braços para baixo. Passados cinco minutos ele fala:
- Desculpa Rosa. Eu amo você. Vamos voltar como era antes.
Ela também o abraça forte. Dá-lhe um longo beijo e diz:
- Eu também te amo meu marido.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
O homem cachorro
Levantou, pegou a garrafa de caçacha (vazia), seu cobertor e o resto das coisas.
- Bom dia Dona Lurdes. Desculpa não levantar a hora que a senhora abriu.
- Tudo bem Edgar. Sem problemas.
- Tem um pãozinho sobrando aí Dona Lurdes?
- Hoje não tem.
- Tá bom. Brigado.
Queria continuar a dormir, mas como não tinha mais lugar para se deitar teve que vagar. Já dormiu em frente a quase todas as casas da região.
No bolso 2 R$. Insuficiente para uma refeição, mas na medida para uma garrafa de plástico de pinga. Era cedo para isso.
Era hora de comer, depois de muito vagar ficou em frente ao restaurante. Observava toda aquela gente comer. Ele e um cachorro ao seu lado. Depois do último cliente deixar o local ele se aproxima. Fica esperando na entrada. Quando o dono vem fechar o portão ele pergunta:
- Ô patrão, sobrou um pratinho de comidaê?
- Sobrar até que sobrou, mas não posso te dar se não suja pra mim.
- Beleza.
Saiu de lá e ficou conversando com o cachorro ao seu lado. Imaginou que seria muito melhor passar mal com a comida a passar fome. Na próxima vez faria um trato com o dono do restaurante, caso passasse mal não contaria a ninguém. Mas enquanto isso a fome continuava.
Se comece algo que não fosse uma refeição, como um salgado, ficaria com mais fome ainda. A solução seria amenizar com um cigarro.
Mas não adiantava pedir para qualquer um. Geralmente as pessoas fingiam que não o viam. Ele vai até a rua onde os piás do bairro andavam de skate. Pede cigarro a um deles, que reluta mais lhe cede um.
Caminha um pouco e senta para fumar. Enquanto fuma pensa na ex-casa. Bate uma saudade da sua mãe. Morava com ela e os três irmãos. Já era alcoólatra. Quando a mãe faleceu seus irmãos o expulsaram.
O cigarro acaba. Guarda a bituca. Volta a vagar. Fica um tempo em frente à igreja. Dá muitas risadas da gritaria vinda de lá.
Quando chega às 7 horas fica em frente à panificadora. Nesse horário todos saem do trabalho e passam ali para comprar pão. Vai que dá sorte e lhe dão alguma coisa para comer. Não foi dessa vez.
Tá na hora. Vai até a distribuidora e compra cachaça. Bebe devagar. Bate forte na barriga vazia. Senta-se com o cachorro.
Com o calar da noite mais cachorros surgem, se aproximam e ali ficam. Quando acaba a cachaça ele apóia a cabeça no joelho e dorme.
Ele cai ali junto aos cães.
Acordou no outro dia sem ninguém o tocar de onde estava. Quando começou a caminhar ninguém o olhava com ar de descriminação. Parou em frente ao mercado e lambeu as patas. Percebeu então que tinha virado um cachorro.
Foi até a mercearia onde dormiu na noite passada. Dona Lurdes estava abrindo. Viu o cachorro ali. Abaixou-se e ficou um bom tempo fazendo carinho. Ele abanou o rabo. “Espera só um pouco que tenho uma coisa pra você”.
Ela entrou na mercearia e voltou com algo na mão. Edgar enfim ganhou um prato de comida.
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Desculpem-me os poucos, mas fiéis leitores pela demora ao atualizar. Estive passando férias na Argentina. Essa vida de desempregado às vezes pede férias.