quinta-feira, 13 de março de 2008

A sala da diretora

Wellington vivia na sala da diretora, desde a primeira série foi o aluno mais temporão da sala. O seu estigma fazia com que muitas vezes fosse culpado mesmo sem ter relação alguma com o problema da vez.
Em seu grupo de amigos era admirado, afinal, para ele qualquer frase que iniciasse com os dizeres “eu duvido que você...” era imediatamente executada. E quanto mais estripulias eram realizadas o seu limite ia aumentando.
Wellington era odiado pelos nerds. Ele nunca estudava para as provas, só tirava notas ruins e eternamente fazia prova de recuperação. Mesmo assim, os nerds mordiam-se de raiva quando viam Wellington na mesma turma que eles no ano seguinte. Além disso, a cada piadinha dele na sala de aula em que todos os alunos riam, os nerds se contorciam por dentro. Às vezes, até os professores riam das piadas dele, o que enraivecia ainda mais os nerds.
Os professores tinham opiniões diferentes sobre ele. A maioria o odiava, tanto ou mais do que os nerds, e eram os principais responsáveis pelas suas visitas à diretoria. Alguns professores até gostavam dele. Outros apenas o aturavam. Ainda tinha aqueles que tinham dó, e quando Wellington fazia bagunça, eles apenas o chamavam pra conversar ao final da aula. Diziam: “Wellington, você é um bom menino. Você é inteligente. Mas por que faz tanta bagunça?”. Ele apenas olhava com cara de coitadinho, então os professores o mandavam embora, com uma breve alisada nos seus cabelos.
A diretora já tinha hora marcada para receber Wellington, mas algumas vezes ele a surpreendia e não era mandado a sua sala pelo professor. Na última vez, a diretora Anselma disse que na próxima vez seria expulso. Ela já tinha dito isso várias vezes antes, mas dessa vez falou que “realmente não tinha mais jeito”. O ano ainda estava na metade e ele já estava condenado. Apesar de todos jurarem que ele não agüentaria ele prometeu para a diretora, para os seus pais, e principalmente para si que iria até o final do ano sem aprontar nada.
Ao saber da condenação precoce de Wellington, os nerds resolveram tramar ele. Os nerds sabiam que Wellington era amigo dos meninos mais velhos que ficavam fumando no fundo da escola. Os meninos eram aqueles que mesmo no ensino fundamental já tinham bigode, pareciam com os pais dos alunos comuns e já tinham estudado com os irmãos mais velhos dos alunos atuais. Algumas vezes Wellington ia para trás da escola junto com eles.
Eis que na quinta-feira, antes do feriado o menino-problema estava com a sua patota quando os meninos mais velhos passaram e o chamaram para acompanhá-los. Os nerds acompanharam de longe a movimentação dos meninos e dos homens. O gosto pela aventura, que era freqüente em Wellington o levou até o fundo da escola. Nem mesmo sua turma quis acompanhar Wellington , pois mesmo com tantas estripulias no currículo consideravam fumar algo pesado demais. Os fumantes precoces iam o mais rápido possível para o fundo da escola, pois quanto mais rápido chegassem mais poderiam fumar. A velocidade acelerava mais ainda o coração de Wellington. Ele pensou em voltar, mas era tarde demais, se voltasse seria zoado eternamente pela turma dos bigodudos, e perderia toda a fama que construíra ao longo da sua vida escolar. Ao chegar tiraram a carteira de cigarros, que custou cinqüenta centavos, sacaram os fósforos, e mesmo com um menino vigiando se não vinha ninguém, a inspetora Adalgisa apareceu e os pegou em flagrante.
Ao caminho da sala da diretora Wellington pensava de forma positiva e negativa simultaneamente. Por um lado pensava “Me fudi! Eu vou ser expulso, vou ter que ir pra outra escola, onde não conheço ninguém”, por outro lado pensava “Mas ela já disse aquilo milhares de vezes, desta vez não pode ser diferente”. A espera na sala foi se tornando tensa, ele suava, enquanto os meninos do bigode davam risada. Para se enturmar ele dava risadinhas de canto de boca. Quando Anselma chegou fez o mesmo procedimento de sempre com os meninos, chegou, conversou, ligou pra mãe e mandou embora. Quando Wellington estava saindo ela falou “Hey, você não rapazinho!”.
O coração disparou. Ele tentou falar algo, mas o nervosismo não deixou que falasse.
- Eu não te falei que da próxima você seria expulso?
- Ma....
- E você não falou que ia tomar jeito?
- Ma.....
- Você está expulso Wellington!
- Mas professora, eu não estava fumando. Só estava junto com eles.
- Eu sei Wellington, eu sei. Aliás, estou cansada de saber. Agora você conta isso pra diretora do seu novo colégio.
Wellington foi expulso e foi estudar em um colégio de freiras, onde finalmente terminou o primeiro grau.
Postar um comentário