Minha bunda é como um imã atraído pela cadeira da firma. Nela, meus glúteos se colam às 8h de todas as manhãs. Passo o dia tentando soltá-la e só consigo às 18h.
Os anos de atração fazem com que a cadeira tenha as minhas formas, com as duas bandas bem delineadas. Entre parafusos e pregas, o que mais me prende é o bolso. Quando escolhi minha profissão queria ajudar pessoas, tentar salvar o mundo. Hoje só quero salvar os meus fundos. O idealismo não paga as contas.
O sonho começou nos bancos da faculdade. Por quatro anos estudei comunicação e cultura digital, filosofia e ética, fotojornalismo, fundamentos de administração, história contemporânea do Brasil, história da comunicação, introdução ao jornalismo e legislação, língua portuguesa, planejamento gráfico, redação jornalística, técnicas de apuração, comunicação institucional, história da arte e da cultura, jornalismo digital, jornalismo gráfico, rádiojornalismo, sociologia da comunicação, telejornalismo, teorias da comunicação, cinema documentário, metodologia científica, pesquisa em jornalismo, planejamento em jornalismo, psicologia e comunicação, crítica ao jornalismo, empreendedorismo e inovação em jornalismo, teoria política e finalizei com o temido trabalho de conclusão de curso.
E tudo isso para quê? Para hoje recepcionar visitantes, atender telefonemas, fazer planilhas, desenvolver relatórios, organizar contas, pagamentos, arquivos e documentos.
Passei o período acadêmico com a esperança de que no final haveria um emprego, uma recompensa por todas noites em dia e o desgastante tempo gasto.
Cheguei ao final da corrida e não pude subir ao pódio, não recebi medalha, não rompi a faixa de chegada e ninguém me aplaudiu. E o pior, não pude parar de correr.
Tinha a ideia de que sempre haveria lugar para os melhores, mas não. A corrida é injusta. Há pessoas que pegam um atalho. Percorrem metade do trajeto e chegam onde eu deveria estar.
Encontrá-los faz com que eu me sinta ainda mais frustrada. A pergunta “e aí, tá fazendo o quê?” é opressora. Sou obrigada a dizer que sou uma mera auxiliar administrativa. E que não, não fui eu que desisti da área. Foi ela que desistiu de mim.
Dia desses atendi um ex-colega. Tive que me submeter. Prestar serviço à uma pessoa que não estudou nem um terço do que eu. Esse filho da puta era o mesmo que se orgulhava de ter saído da faculdade sem ter lido nenhum livro, que colava na prova, que fez o trabalho de conclusão nas costas da sua dupla e que entrou na empresa onde está por indicação de um amigo que vivia no bar com ele enquanto eu estava na aula.
Mas, fazer o que? O meu destino é o de quem não nasceu com o cu virado para a lua.
terça-feira, 9 de junho de 2015
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Vá dia
Hoje o mundo acordou pronto para incomodar.
Responsável por depositar o peso das suas nuvens sobre meu universo, minha mulher rouba minha brisa me dando um “bom dia” recheado de insultos. Não fiz nada (homens nunca fazem nada), mas ela acredita que a culpa pelo chuveiro ter estragado é minha. Jorra na minha cara que não sou homem nem para consertar um chuveiro.
Tento explicar que não sei fazer isso, sou um intelectual que não se dedica aos problemas práticos da vida. A vida, então, se vinga de mim na prática.
O motorista do ônibus, que atrasa muitas outras pessoas, atrasa também a mim, mas sou egoísta o bastante para crer que é tudo comigo.
Na empresa tenho a breve sensação de que tudo irá melhorar com o término das minhas tarefas. Mas elas regurgitam. Meu chefe, que tem a função diária de tornar meu mundo pior, hoje exerceu seu papel com maestria. Não só criticou toda a execução dos meus deveres como também me humilhou. Me ironizou em frente aos colegas. Ajuizado, baixo a cabeça. Preciso do emprego, preciso do dinheiro.
O mundo, mais uma vez, me tornou mundano, rancoroso, odioso e odiante.
No meio da reexecução do serviço recebo ligações. Cobranças bancárias. Logo lembro que preciso pagar a escola do meu filho, a conta de água, a conta de luz e várias outras coisas incontáveis.
Passo o tempo pensando quanto tempo falta para se encerrar o meu tempo. Depois disso estou livre para me sentir esgotado e não fazer mais nada.
Encontro uma saída para descarregar todos os septilhões de quilos que o mundo depositou sobre minhas costas. Entrego-me ao alcoolismo, escondendo meus problemas dentro de outro maior.
Sem companhia, tomo o primeiro gole e falo com o mundo.
- Hoje você tava pesado hein!?
- Eu tenho sempre o mesmo peso. Você que tá fora da forma.
Responsável por depositar o peso das suas nuvens sobre meu universo, minha mulher rouba minha brisa me dando um “bom dia” recheado de insultos. Não fiz nada (homens nunca fazem nada), mas ela acredita que a culpa pelo chuveiro ter estragado é minha. Jorra na minha cara que não sou homem nem para consertar um chuveiro.
Tento explicar que não sei fazer isso, sou um intelectual que não se dedica aos problemas práticos da vida. A vida, então, se vinga de mim na prática.
O motorista do ônibus, que atrasa muitas outras pessoas, atrasa também a mim, mas sou egoísta o bastante para crer que é tudo comigo.
Na empresa tenho a breve sensação de que tudo irá melhorar com o término das minhas tarefas. Mas elas regurgitam. Meu chefe, que tem a função diária de tornar meu mundo pior, hoje exerceu seu papel com maestria. Não só criticou toda a execução dos meus deveres como também me humilhou. Me ironizou em frente aos colegas. Ajuizado, baixo a cabeça. Preciso do emprego, preciso do dinheiro.
O mundo, mais uma vez, me tornou mundano, rancoroso, odioso e odiante.
No meio da reexecução do serviço recebo ligações. Cobranças bancárias. Logo lembro que preciso pagar a escola do meu filho, a conta de água, a conta de luz e várias outras coisas incontáveis.
Passo o tempo pensando quanto tempo falta para se encerrar o meu tempo. Depois disso estou livre para me sentir esgotado e não fazer mais nada.
Encontro uma saída para descarregar todos os septilhões de quilos que o mundo depositou sobre minhas costas. Entrego-me ao alcoolismo, escondendo meus problemas dentro de outro maior.
Sem companhia, tomo o primeiro gole e falo com o mundo.
- Hoje você tava pesado hein!?
- Eu tenho sempre o mesmo peso. Você que tá fora da forma.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Palácio Iguaçu
Praça Nossa Senhora de Salette, s/n - Centro Cívico
80530-909 - Curitiba - PR
Não sei se lembra de mim.
Por um momento gostaria muito que lembrasse.
Eu lembro de você perfeitamente Betinho. Você era tão bonitinho. Vinha para a aula arrumado, com gel no cabelo. Ah, e como era educado. Você tinha muita educação, Beto!
No recreio adorava brincar de carrinho e na sala era o aluno mais aplicado. Fazia as tarefas em dia, prestava atenção nas aulas e sentava bem na minha frente. Nunca foi bagunceiro, muito menos desordeiro.
Eu sempre soube que você seria político, Betinho. Me orgulhava de dizer: “o governador foi meu aluno”.
Mas sabe Beto, fiquei muito decepcionada. Parece que não aprendeu nada comigo, só com quem não deveria. O que você fez foi maior do que os atos de Álvaro Dias, Beto. Você superou o seu mestre.
Se pudesse deixaria você de castigo na escola. Mas não posso. Não posso fazer nada enquanto você parece achar que pode fazer tudo.
E sabe o que é o pior, Betinho? Você nem mesmo assumiu o que fez. Logo você, que tomava a frente da turma, que se empoderava, que gostava de estar em evidência, agora se esconde.
Você disse que não viu truculência da polícia, que eles estavam defendendo a sua integridade e apenas continham os arruaceiros. Ora Betinho, ninguém mobiliza helicópteros, cães, tanta gente e tanta arma só para conter alguns arruaceiros.
Mas não foi só você que eu vi na tv. Eu vi professores como eu sendo agredidos. Eu vi balas de borracha. Vi bombas de “efeito moral”. Vi spray de pimenta.
Você me deixou lacrimejante, Beto. Me senti machucada como aqueles 213 que você feriu. Era como se cada uma daquelas balas atingisse o meu corpo e cada dente de cachorro rasgasse a minha pele. Aquele spray sufocante jamais vai me deixar respirar aliviada.
Sabe Beto, eu queria que você lembrasse de mim. Talvez você conseguisse sentir compaixão, sendo alguém que você conhece, não só um número desses que você vê toda hora.
Mas se, por acaso, você lembrar de mim não conte para ninguém.
Jamais diga que eu fui sua professora.
Eu tenho vergonha de você Carlos Alberto Richa.
80530-909 - Curitiba - PR
Oi Betinho, tudo bom?
Não sei se lembra de mim.
Por um momento gostaria muito que lembrasse.
Eu lembro de você perfeitamente Betinho. Você era tão bonitinho. Vinha para a aula arrumado, com gel no cabelo. Ah, e como era educado. Você tinha muita educação, Beto!
No recreio adorava brincar de carrinho e na sala era o aluno mais aplicado. Fazia as tarefas em dia, prestava atenção nas aulas e sentava bem na minha frente. Nunca foi bagunceiro, muito menos desordeiro.
Eu sempre soube que você seria político, Betinho. Me orgulhava de dizer: “o governador foi meu aluno”.
Mas sabe Beto, fiquei muito decepcionada. Parece que não aprendeu nada comigo, só com quem não deveria. O que você fez foi maior do que os atos de Álvaro Dias, Beto. Você superou o seu mestre.
Se pudesse deixaria você de castigo na escola. Mas não posso. Não posso fazer nada enquanto você parece achar que pode fazer tudo.
E sabe o que é o pior, Betinho? Você nem mesmo assumiu o que fez. Logo você, que tomava a frente da turma, que se empoderava, que gostava de estar em evidência, agora se esconde.
Você disse que não viu truculência da polícia, que eles estavam defendendo a sua integridade e apenas continham os arruaceiros. Ora Betinho, ninguém mobiliza helicópteros, cães, tanta gente e tanta arma só para conter alguns arruaceiros.
Mas não foi só você que eu vi na tv. Eu vi professores como eu sendo agredidos. Eu vi balas de borracha. Vi bombas de “efeito moral”. Vi spray de pimenta.
Você me deixou lacrimejante, Beto. Me senti machucada como aqueles 213 que você feriu. Era como se cada uma daquelas balas atingisse o meu corpo e cada dente de cachorro rasgasse a minha pele. Aquele spray sufocante jamais vai me deixar respirar aliviada.
Sabe Beto, eu queria que você lembrasse de mim. Talvez você conseguisse sentir compaixão, sendo alguém que você conhece, não só um número desses que você vê toda hora.
Mas se, por acaso, você lembrar de mim não conte para ninguém.
Jamais diga que eu fui sua professora.
Eu tenho vergonha de você Carlos Alberto Richa.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Eterna companhia
Quando criança não sabia o quanto era importante para mim. Minha mãe não me ensinou, mas a vida sim. Tive que apanhar muito e aprender sozinho que não posso viver sozinho.
Nosso relacionamento foi como um rolo que você vai enrolando, enrolando, enrolando e termina em casamento.
Conhecemos juntos as cores. O amarelo, o verde e até o vermelho. Mas nossa relação é, na maioria das vezes, transparente.
Não amo, mas dependo. É uma doença. Não consigo me livrar. Faz parte de mim. Me desespero só de pensar no fim.
Na dúvida, estou sempre prevenido.
Tenho companhia no ônibus, no carro, na firma e, acima de tudo, no quarto. Com a cama fria ou quente, sempre está lá à minha espera.
Alguns estranham, pensam que utilizo para fins escusos.
Estará sempre comigo (?)!
Divórcio? Não consigo.
Parece exagero, mas acredite, não há como viver em Curitiba, tendo renite, e não carregar papel higiênico.
Nosso relacionamento foi como um rolo que você vai enrolando, enrolando, enrolando e termina em casamento.
Conhecemos juntos as cores. O amarelo, o verde e até o vermelho. Mas nossa relação é, na maioria das vezes, transparente.
Não amo, mas dependo. É uma doença. Não consigo me livrar. Faz parte de mim. Me desespero só de pensar no fim.
Na dúvida, estou sempre prevenido.
Tenho companhia no ônibus, no carro, na firma e, acima de tudo, no quarto. Com a cama fria ou quente, sempre está lá à minha espera.
Alguns estranham, pensam que utilizo para fins escusos.
Estará sempre comigo (?)!
Divórcio? Não consigo.
Parece exagero, mas acredite, não há como viver em Curitiba, tendo renite, e não carregar papel higiênico.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Autobiografia da timidez
Guylherme Custódio e eu nascemos juntos. No dia 16 de janeiro de 87 na janela do apartamento 26 da maternidade Nossa Senhora de Fátima às 3h45 da madrugada não se ouviu uma criança chorar. Eu não deixei ele chamar atenção de ninguém.
Depois ele foi crescendo, crescendo,crescendo,crescendo,crescendo,crescendo e crescendo.
Em uma dessas vezes em que ele crescia (em algum sentido ele nunca para de fazer isso) o malandro aprendeu a me esconder.
Ele sabe que existo e quando conta ninguém acredita. Mas ele não me renega.
Como sabe que vivo nele e que sou um perigo eminente, adotou uma postura toda espalhafatosa para me ocultar. Acabo não aparecendo atrás daquele tamanho, daquele cabelo e daquele desengonço.
Mesmo sendo um curitibano típico, ele me disfarça.
É educado com outros, sorri, cumprimenta porteiro, caixa de mercado, cobrador, faxineira e todo mundo que merece ser cumprimentado.
Só com vizinho eu ganho a disputa. Ele pega o ônibus todo dia com as mesmas pessoas e não dá nem um oi. Diz ele que faz isso por que gosta de usar o seu direito curitibano de não falar com ninguém, mas no fundo eu sei que é mais uma vitória minha.
A tática dele para me vencer é não se levar a sério. Mas um dia eu ganhei de goleada.
O seu Canuto, pai dele, era meu aliado. Se encarregava de contar a minha história e deixá-lo mais envergonhado. Como seu Canuto se foi há 10 anos, então me encarrego de contar agora:
Quando ele era pequeno eu era maior que ele. Um dia o Guylherme foi comemorar o aniversário dele lá no Mato Grosso do Sul, com os parentes paternos.
A festa foi bonita. Fiz uma coisa que faço até hoje, ao menos uma vez por ano: deixar ele sem jeito quando cantam parabéns pra você.
Mas isso não foi nada em vista do que fiz aquele dia. Ele mesmo confessou.
Voltando para Curitiba, seu Canuto perguntou o que ele tinha achado do aniversário. Tímido por falar com o próprio pai, ele reconheceu a minha glória:
- E aí? Gostou da festa?
- Eu não comi nenhum pedaço de bolo.
- Ué, e por que não?
- Você não me ofereceu...
Seu Canuto deu risada. Eu, sem nenhuma timidez, rio até hoje.
Depois ele foi crescendo, crescendo,crescendo,crescendo,crescendo,crescendo e crescendo.
Em uma dessas vezes em que ele crescia (em algum sentido ele nunca para de fazer isso) o malandro aprendeu a me esconder.
Ele sabe que existo e quando conta ninguém acredita. Mas ele não me renega.
Como sabe que vivo nele e que sou um perigo eminente, adotou uma postura toda espalhafatosa para me ocultar. Acabo não aparecendo atrás daquele tamanho, daquele cabelo e daquele desengonço.
Mesmo sendo um curitibano típico, ele me disfarça.
É educado com outros, sorri, cumprimenta porteiro, caixa de mercado, cobrador, faxineira e todo mundo que merece ser cumprimentado.
Só com vizinho eu ganho a disputa. Ele pega o ônibus todo dia com as mesmas pessoas e não dá nem um oi. Diz ele que faz isso por que gosta de usar o seu direito curitibano de não falar com ninguém, mas no fundo eu sei que é mais uma vitória minha.
A tática dele para me vencer é não se levar a sério. Mas um dia eu ganhei de goleada.
O seu Canuto, pai dele, era meu aliado. Se encarregava de contar a minha história e deixá-lo mais envergonhado. Como seu Canuto se foi há 10 anos, então me encarrego de contar agora:
Quando ele era pequeno eu era maior que ele. Um dia o Guylherme foi comemorar o aniversário dele lá no Mato Grosso do Sul, com os parentes paternos.
A festa foi bonita. Fiz uma coisa que faço até hoje, ao menos uma vez por ano: deixar ele sem jeito quando cantam parabéns pra você.
Mas isso não foi nada em vista do que fiz aquele dia. Ele mesmo confessou.
Voltando para Curitiba, seu Canuto perguntou o que ele tinha achado do aniversário. Tímido por falar com o próprio pai, ele reconheceu a minha glória:
- E aí? Gostou da festa?
- Eu não comi nenhum pedaço de bolo.
- Ué, e por que não?
- Você não me ofereceu...
Seu Canuto deu risada. Eu, sem nenhuma timidez, rio até hoje.
sexta-feira, 20 de março de 2015
Tubarão
Foi uma das poucas vezes que pisou na rua sem medo. Estar no protesto era romper uma barreira. Eram raras as ocasiões que aparecia em público. Mas desta vez estava entre os seus iguais, ao lado de todo aquele coletivo que lutava por direitos individuais.
Era um legítimo manifestante. Tinha faixas, cartazes, entoou gritos e até pegou no megafone. O fervor com que cantava era o de um líder sindical, mas o único sindicato que defendia era o do próprio umbigo.
Jamais trabalhou, mas definia-se como empresário. Aos poucos aprendia a mandar na empresa do pai.
Dudu estava acompanhado do segurança, que desta vez não trajava terno e não o chamava de Seu Eduardo.
Apesar de estar exercendo o seu trabalho, Afonso queria estar no protesto. Mesmo com toda a distância, Afonso e Dudu tinham o mesmo pensamento. O empregado pensava com a cabeça do patrão.
Mesma cabeça, línguas diferentes. A fala de Afonso virava piada quando Dudu estava com os amigos. Assim como sua raça, seu cabelo, seus hábitos, seu jeito de ser, sua vida.
Aceitar o outro era difícil.
Dudu tinha raiva, ódio, incômodo, negação, medo. Só gostava de uma coisa que era de Afonso.
Esteve a vida inteira afastado de pessoas assim, mas não podia evitar que quem lhe protegesse fosse alguém como ele.
Neste dia patrão e empregado estavam juntos, com a mesma camiseta da seleção brasileira e cantando o mesmo canto.
Quando retornaram, retornaram as diferenças. Depois de cantarem os gritos de ordem, a ordem voltou a ser gritada por Eduardo e cumprida por Afonso.
Dudu estava cansado, como se sentia após as partidas de tênis. Mas, antes de deitar na Jacuzzi foi até o quarto da empregada.
Era um legítimo manifestante. Tinha faixas, cartazes, entoou gritos e até pegou no megafone. O fervor com que cantava era o de um líder sindical, mas o único sindicato que defendia era o do próprio umbigo.
Jamais trabalhou, mas definia-se como empresário. Aos poucos aprendia a mandar na empresa do pai.
Dudu estava acompanhado do segurança, que desta vez não trajava terno e não o chamava de Seu Eduardo.
Apesar de estar exercendo o seu trabalho, Afonso queria estar no protesto. Mesmo com toda a distância, Afonso e Dudu tinham o mesmo pensamento. O empregado pensava com a cabeça do patrão.
Mesma cabeça, línguas diferentes. A fala de Afonso virava piada quando Dudu estava com os amigos. Assim como sua raça, seu cabelo, seus hábitos, seu jeito de ser, sua vida.
Aceitar o outro era difícil.
Dudu tinha raiva, ódio, incômodo, negação, medo. Só gostava de uma coisa que era de Afonso.
Esteve a vida inteira afastado de pessoas assim, mas não podia evitar que quem lhe protegesse fosse alguém como ele.
Neste dia patrão e empregado estavam juntos, com a mesma camiseta da seleção brasileira e cantando o mesmo canto.
Quando retornaram, retornaram as diferenças. Depois de cantarem os gritos de ordem, a ordem voltou a ser gritada por Eduardo e cumprida por Afonso.
Dudu estava cansado, como se sentia após as partidas de tênis. Mas, antes de deitar na Jacuzzi foi até o quarto da empregada.
segunda-feira, 2 de março de 2015
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Vazio
Encho o peito de fumaça para ver se o vazio passa.
Passam-se segundos e jogo tudo para o alto. Não adiantou.
Com os olhos acompanho a fumaça até que ela se dissipe.
Quando ela não mais existe, tento de novo. Puxo fundo. Sinto a garganta arder.
Tento prender algo dentro de mim, mas não consigo.
Ela também fuma. Ela também não pensa em nada. Ela também não fala. Ela também limita seus movimentos. Ela também é uma lacuna.
Tudo o que nos resta é ar, que tentamos, em vão, sujar.
Somos dois recipientes vazios e sem tampa.
Tudo o que éramos está simbolizado por um pedaço de látex amarrado e jogado num canto.
Não há desilusão. Não há tensão. Não há tesão. Não há alegria. Não há anseio. Não há vontade. Não há verdade. Não há mentira. Não há pira. Não há ira. Não há rancor. Não há dor. Não há cor. Não amor. Não há. Ná. n
Passam-se segundos e jogo tudo para o alto. Não adiantou.
Com os olhos acompanho a fumaça até que ela se dissipe.
Quando ela não mais existe, tento de novo. Puxo fundo. Sinto a garganta arder.
Tento prender algo dentro de mim, mas não consigo.
Ela também fuma. Ela também não pensa em nada. Ela também não fala. Ela também limita seus movimentos. Ela também é uma lacuna.
Tudo o que nos resta é ar, que tentamos, em vão, sujar.
Somos dois recipientes vazios e sem tampa.
Tudo o que éramos está simbolizado por um pedaço de látex amarrado e jogado num canto.
Não há desilusão. Não há tensão. Não há tesão. Não há alegria. Não há anseio. Não há vontade. Não há verdade. Não há mentira. Não há pira. Não há ira. Não há rancor. Não há dor. Não há cor. Não amor. Não há. Ná. n
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
A perdida
A sociedade sempre a julgou como perdida. E naquele dia ela saiu determinada. Nada iria a parar, nada. Iria penetrar e não mais voltar.
O pai foi quem ordenou que ela saísse da sua casa quente e fria para morar em alguém. Bastou o dedo para que ele ordenasse e ela partisse.
Já tinha disposição. Nasceu para isso. Sua vida foi feita para sair e entrar.
Estava vestida para matar. Seu vestido metalizado a faria chocar.
A safada nem esperou até a noite. Saiu sob o sol, na vista de todos.
Saiu rápida, cortando o vento e soltando fumaça pelas ventas.
Fez barulho, muito. Estrondosa.
Apesar do esforço, muita gente nem a viu. Não reparou. O lugar onde ela foi muitas vezes não é visto.
Embora perdida, saiu decidida.
Em sua perdição encontrou alguém. Achou o corpo que tanto procurava. Encontrou uma vida. A bala perdida levou à morte uma criança de 7 anos.
O pai foi quem ordenou que ela saísse da sua casa quente e fria para morar em alguém. Bastou o dedo para que ele ordenasse e ela partisse.
Já tinha disposição. Nasceu para isso. Sua vida foi feita para sair e entrar.
Estava vestida para matar. Seu vestido metalizado a faria chocar.
A safada nem esperou até a noite. Saiu sob o sol, na vista de todos.
Saiu rápida, cortando o vento e soltando fumaça pelas ventas.
Fez barulho, muito. Estrondosa.
Apesar do esforço, muita gente nem a viu. Não reparou. O lugar onde ela foi muitas vezes não é visto.
Embora perdida, saiu decidida.
Em sua perdição encontrou alguém. Achou o corpo que tanto procurava. Encontrou uma vida. A bala perdida levou à morte uma criança de 7 anos.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
A Televisão
Acabo de fazer a melhor aquisição da minha vida.
Comprei uma televisão.
Para vocês eu sei que pode parecer que foi muito dinheiro, mas não foi. A utilidade dela faz valer cada um dos seus 89.999 reais. Ao longo dos próximos 10 meses vou desembolsar R$ 8.999,90.
A minha nova televisão, que vem para substituir aquela que tinha Vídeo Cassete integrado, tem 85 polegadas. Posso assistir em uma tela de cinema as notícias de que manifestantes pedem a intervenção militar no Brasil. É uma maravilha ouvir por meio de um sistema de áudio de 120W e alto-falantes Sub-Woofer que pessoas se manifestam pelo direito de ser torturadas e mortas caso queiram se manifestar novamente.
Com a resolução Ultra HD 4k posso ver com completa nitidez que de uma certa maneira esse tipo de intervenção já existe. O pedreiro Amarildo não pode.
Se canso de assistir tv posso me conectar à internet. Com seu Wi-Fi integrado posso acessar as redes sociais e ver postagens pedindo a separação do país e críticas aos programas sociais do governo. O pessoal que faz isso não tem uma tv igual a minha. Se tivesse, talvez criticasse com a mesma força o poder judiciário, que aprovou uma gorjeta de 4,4 mil mensais para cada magistrado em nome de um auxílio-moradia.
Falta muita informação quando não se tem uma tv como a minha. Mas, felizmente, com esse aumento os juízes poderão ter mais dinheiro, ir a Miami comprar ternos e talvez ter um aparelho como o meu. Por que, cá entre nós, essa é uma coisa que todo mundo tem que ter. Comida não.
Para relaxar um pouco desses assuntos chatos eu assisto o meu esporte favorito. O eletrônico é perfeito para mim (pra quem não seria né!?). Ele conta com o Modo Futebol, que torna suas configurações perfeitas para assistir jogos em que torcedores xingam jogadores de macaco.
Na minha tv milhares de imagens se sobrepõe. É receita em cima de notícia, notícia em cima de dinheiro, dinheiro em cima de celebridades, celebridades em cima de humor, humor em cima de preconceito. É tanta imagem que às vezes não consigo conectar as coisas, como política e falta de água. Mas o que realmente importa é que minha tv tem 4 conexões HDMI e 3 USB.
O jornal local fica uma maravilha na minha tela, que converte a imagem em UHD independentemente do sinal. Ali, ou aqui, vejo os haitianos sofrendo preconceito e xenofobia na nossa bela capital, construída por imigrantes assim como a minha tevê, desenvolvida por uma empresa coreana.
O retrocesso da humanidade fica lindo na minha TV. Compre uma você também!
Comprei uma televisão.
Para vocês eu sei que pode parecer que foi muito dinheiro, mas não foi. A utilidade dela faz valer cada um dos seus 89.999 reais. Ao longo dos próximos 10 meses vou desembolsar R$ 8.999,90.
A minha nova televisão, que vem para substituir aquela que tinha Vídeo Cassete integrado, tem 85 polegadas. Posso assistir em uma tela de cinema as notícias de que manifestantes pedem a intervenção militar no Brasil. É uma maravilha ouvir por meio de um sistema de áudio de 120W e alto-falantes Sub-Woofer que pessoas se manifestam pelo direito de ser torturadas e mortas caso queiram se manifestar novamente.
Com a resolução Ultra HD 4k posso ver com completa nitidez que de uma certa maneira esse tipo de intervenção já existe. O pedreiro Amarildo não pode.
Se canso de assistir tv posso me conectar à internet. Com seu Wi-Fi integrado posso acessar as redes sociais e ver postagens pedindo a separação do país e críticas aos programas sociais do governo. O pessoal que faz isso não tem uma tv igual a minha. Se tivesse, talvez criticasse com a mesma força o poder judiciário, que aprovou uma gorjeta de 4,4 mil mensais para cada magistrado em nome de um auxílio-moradia.
Falta muita informação quando não se tem uma tv como a minha. Mas, felizmente, com esse aumento os juízes poderão ter mais dinheiro, ir a Miami comprar ternos e talvez ter um aparelho como o meu. Por que, cá entre nós, essa é uma coisa que todo mundo tem que ter. Comida não.
Para relaxar um pouco desses assuntos chatos eu assisto o meu esporte favorito. O eletrônico é perfeito para mim (pra quem não seria né!?). Ele conta com o Modo Futebol, que torna suas configurações perfeitas para assistir jogos em que torcedores xingam jogadores de macaco.
Na minha tv milhares de imagens se sobrepõe. É receita em cima de notícia, notícia em cima de dinheiro, dinheiro em cima de celebridades, celebridades em cima de humor, humor em cima de preconceito. É tanta imagem que às vezes não consigo conectar as coisas, como política e falta de água. Mas o que realmente importa é que minha tv tem 4 conexões HDMI e 3 USB.
O jornal local fica uma maravilha na minha tela, que converte a imagem em UHD independentemente do sinal. Ali, ou aqui, vejo os haitianos sofrendo preconceito e xenofobia na nossa bela capital, construída por imigrantes assim como a minha tevê, desenvolvida por uma empresa coreana.
O retrocesso da humanidade fica lindo na minha TV. Compre uma você também!
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