Tinha dado por encerrada a série de textos que relatava um pouco da nossa viagem em torno da Copa do Mundo. Sobraram algumas ideias, como por exemplo, uma sobre os bolões e a imprevisibilidade do futebol e outra sobre o dinheiro e como os sonhos custam caro. Ainda a bordo eu havia decidido não mais tocar no assunto Copa. Os Alemães nos deram alguns (7) bons motivos para calar.
Mas, ainda faltava algo. Algo não, alguém.
Seria injusto terminar as estórias da história sem ao menos citar o Seo Mário. Então, façamos justiça.
Seo Mário (Que Mário?) foi o motorista ao longo da nossa aventura. O comandante que nos levou por 10 estados dessa terra. Mas nesse período de um mês Seo Mário também foi nosso amigo, nosso companheiro e o patriarca da Família Pitanguá.
Para comandar a embarcação ele tinha um chapéu, uma luneta, uma garrafa de rum e um papagaio no ombro. Um boné cinza escondia sua careca e seus cabelos grisalhos. Para ver além do mar de carros seus óculos ampliavam a visão. A qualquer parada aproveitava a oportunidade para preparar o seu chimarrão. Ao seu lado, lhe fazendo companhia, estava sempre um de nós, papagaiando.
Na rotina do Seo Mário as viagens longas como a nossa não são frequentes. Ainda assim ele topou levar os 9 meninos-homens Brasil afora. Talvez uma consequência direta desse trauma seja o fato de ele querer se aposentar. Era só aquela e mais uma.
Duvido!
Seo Mário tem fome de estrada. A única coisa que gosta mais do que dirigir é dar uma geral no Motorhome. Em um dos nossos trechos ficou praticamente 24 horas na boleia com um descanso de apenas 2 horas.
Mesmo dormindo pouco Seo Mário não tem muitos problemas com o sono. Uma poltrona mais ou menos aconchegante já basta para que ele anuncie, por meio de roncos, que está dormindo.
Ele também estava cansado da viagem. Reclamava quando o pessoal bebia demais. Chamava-nos de alcoólatras e, por vezes, resmungava “esses bêbados aí...”. Mas com a mesma intensidade com que reclamava também usava seu humor para tirar sarro da gente.
Em nossos 33 dias de viagem ele cuidou de nós e nós cuidamos dele. Cozinhávamos e quando parecia que ninguém ia se mover ele mesmo ia para as panelas. Ele nos levou pelo Brasil e em nossas caminhadas nós também o levamos. Fez companhia e nos acompanhou.
Viver na estrada é o seu caminho. Ele quem escolheu. E também escolheu estar perto da família. Ele é um dos responsáveis pela empresa em que atua ao lado do filho, Marco, que também esteve conosco por uma semana. Sua filha, quando o pai voltou para casa deve ter ficado muito feliz ao ver que o pai carregava consigo mais de 10 litros de água de coco. “Minha filha adora água de coco”.
Ainda na viagem vi uma postagem no Facebook depois do fatídico 7 x 1 de uma menina que dizia estar feliz, apesar da derrota, por que o seu avô voltaria mais cedo para casa.
Menina, desculpe-nos por deixar seu vô tanto tempo longe. Mas muito obrigado por deixá-lo tanto tempo perto de nós. Curtimos muito o seu Mário. Agora é sua vez. Aproveite bastante.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Diário de Bordo- The End
Você cara leitora (o Datafolha indica que 85% das visitas no Di-Vagá vêm do público feminino) com certeza já passou pela situação de acabar a luz aí no confronto do seu lar, de onde você lê esse glorioso blog. É uma situação meio estranha. Você está lá, tudo bem, assistindo TV e, de repente, puf.
Sem mais nem menos a energia elétrica se vai. Você precisa fazer alguma coisa, mas demora até que tome uma atitude. Mesmo em casa, nos seus domínios, é difícil se acostumar com a nova situação. Quando se levanta ainda tenta, inutilmente, claro, acender o interruptor. Não se sabe a causa, você só sabe que não há mais claridade.
Foi mais ou menos isso que aconteceu com aquela seleção que queria carregar seis estrelas no peito. A diferença é que quando acabou a luz da seleção ela estava dormindo. E mais, a Seleção Brasileira era um bebê, indefeso, dormindo, enquanto acabou a luz.
O apagão diante da Alemanha foi simplesmente vexatório. A ausência de Neymar e Thiago Silva fez falta, mas ainda assim a dignidade deveria ter entrado em campo. Até mesmo a poderosíssima seleção da Argélia, ARGÉLIA, deu mais trabalho aos Alemães. O sumiço em campo não tem explicação. É um mistério que caberá aos estudiosos descobrir.
Mas há explicação para o fato de a Seleção ter perdido a copa. O que acontece é que a Seleção Brasileira não é um time. A equipe de Felipão é um simples apanhado de jogadores que atuam cada um num canto. Entrosamento? Difícil. Veja a última campeã, Espanha, ou até mesmo a nossa algoz, Alemanha. São grupos no qual mais da metade joga junto, enquanto o Brasil é, no máximo, um time em formação. Ao apostar em uma maioria de caras novas o técnico descartou completamente o passado. Renovação é necessária, mas para poder encarar o futuro também é preciso olhar para trás.
Vejamos a seleção que foi campeã em 2002. De todos os jogadores convocados naquele ano seis deles haviam disputado a Copa anterior e já vinha há muito tempo jogando pela seleção. Havia uma identidade, uma cara, um jeito, um time.
Na seleção atual, além das promessas, há ainda diversas posições não consolidadas. No período anterior havia jogadores incontestáveis em cada setor e um reserva a altura.
Além disso, vamos admitir, a safra atual de jogadores brasileiros não é boa. Nas Copas anteriores além dos convocados havia uma boa gordura de injustiçados que ficavam de fora. Na seleção do nosso último triunfo quatro deles já haviam sido ou viriam a ser agraciados como melhor do mundo. Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Kaká jogavam no mesmo time. Hoje apostamos todas nossas fichas em apenas um jogador de 22 anos.
O time atual é fraco. Nós acreditávamos por que tínhamos que acreditar. Se não fossem os brasileiros, quem seria? Os Argentinos?
Talvez, daqui a alguns anos, na próxima Copa, possamos dizer que temos um time, que joga junto, que se conhece e que tem jogadores que merecem vestir a camisa amarela. A surra que levamos pode servir de aprendizado. A própria Alemanha, na última copa, havia investido em uma nova geração. Assim sendo, esse time derrotado pode e deve servir como base para uma equipe vitoriosa.
Mas ainda assim, perder a Copa em casa deixou um gosto ruim na boca. Alguém colocou uma cebola no meio dos doces da nossa festa. E nós tivemos que engolir. Em nossa própria casa ficamos bêbados antes da hora e fomos dormir, deixando a festa para os convidados. Colocamos nossa melhor roupa, pensamos em todos os detalhes, passamos maquiagem para esconder os defeitos, recebemos todos na porta, cumprimos o protocolo, fizemos todas as honras, para acabar vergonhosamente.
Para nós a festa acabou. O ópio acabou. Se a taça poderia amenizar um pouco a realidade do país, nem para isso mais ela serve.
Agora é bola pra frente. A vida continua. Até a morte.
Sem mais nem menos a energia elétrica se vai. Você precisa fazer alguma coisa, mas demora até que tome uma atitude. Mesmo em casa, nos seus domínios, é difícil se acostumar com a nova situação. Quando se levanta ainda tenta, inutilmente, claro, acender o interruptor. Não se sabe a causa, você só sabe que não há mais claridade.
Foi mais ou menos isso que aconteceu com aquela seleção que queria carregar seis estrelas no peito. A diferença é que quando acabou a luz da seleção ela estava dormindo. E mais, a Seleção Brasileira era um bebê, indefeso, dormindo, enquanto acabou a luz.
O apagão diante da Alemanha foi simplesmente vexatório. A ausência de Neymar e Thiago Silva fez falta, mas ainda assim a dignidade deveria ter entrado em campo. Até mesmo a poderosíssima seleção da Argélia, ARGÉLIA, deu mais trabalho aos Alemães. O sumiço em campo não tem explicação. É um mistério que caberá aos estudiosos descobrir.
Mas há explicação para o fato de a Seleção ter perdido a copa. O que acontece é que a Seleção Brasileira não é um time. A equipe de Felipão é um simples apanhado de jogadores que atuam cada um num canto. Entrosamento? Difícil. Veja a última campeã, Espanha, ou até mesmo a nossa algoz, Alemanha. São grupos no qual mais da metade joga junto, enquanto o Brasil é, no máximo, um time em formação. Ao apostar em uma maioria de caras novas o técnico descartou completamente o passado. Renovação é necessária, mas para poder encarar o futuro também é preciso olhar para trás.
Vejamos a seleção que foi campeã em 2002. De todos os jogadores convocados naquele ano seis deles haviam disputado a Copa anterior e já vinha há muito tempo jogando pela seleção. Havia uma identidade, uma cara, um jeito, um time.
Na seleção atual, além das promessas, há ainda diversas posições não consolidadas. No período anterior havia jogadores incontestáveis em cada setor e um reserva a altura.
Além disso, vamos admitir, a safra atual de jogadores brasileiros não é boa. Nas Copas anteriores além dos convocados havia uma boa gordura de injustiçados que ficavam de fora. Na seleção do nosso último triunfo quatro deles já haviam sido ou viriam a ser agraciados como melhor do mundo. Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Kaká jogavam no mesmo time. Hoje apostamos todas nossas fichas em apenas um jogador de 22 anos.
O time atual é fraco. Nós acreditávamos por que tínhamos que acreditar. Se não fossem os brasileiros, quem seria? Os Argentinos?
Talvez, daqui a alguns anos, na próxima Copa, possamos dizer que temos um time, que joga junto, que se conhece e que tem jogadores que merecem vestir a camisa amarela. A surra que levamos pode servir de aprendizado. A própria Alemanha, na última copa, havia investido em uma nova geração. Assim sendo, esse time derrotado pode e deve servir como base para uma equipe vitoriosa.
Mas ainda assim, perder a Copa em casa deixou um gosto ruim na boca. Alguém colocou uma cebola no meio dos doces da nossa festa. E nós tivemos que engolir. Em nossa própria casa ficamos bêbados antes da hora e fomos dormir, deixando a festa para os convidados. Colocamos nossa melhor roupa, pensamos em todos os detalhes, passamos maquiagem para esconder os defeitos, recebemos todos na porta, cumprimos o protocolo, fizemos todas as honras, para acabar vergonhosamente.
Para nós a festa acabou. O ópio acabou. Se a taça poderia amenizar um pouco a realidade do país, nem para isso mais ela serve.
Agora é bola pra frente. A vida continua. Até a morte.
terça-feira, 8 de julho de 2014
Diário de Bordo- “Oportinidades”
Há dias em que adiamos os dias.
Há dias em que os dias se vão.
Há dias que se tornam vãos.
---
A caravana da Família Pitanguá já passou, até agora, por Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e agora estamos em Alagoas. Ficamos ao menos um dia nas capitais e também visitamos outros municípios, todos distantes da nossa fria Curitiba.
Eu, particularmente, jamais havia visitado os locais pelos quais passamos em menos de um mês. Conhecer essas localidades, seus habitantes, suas praias e seus atrativos é uma das principais partes do nosso legado particular da Copa do Mundo.
Quando essa estória começou, tudo parecia brincadeira ou mais uma ideia maluca do Michel (o Michel é bom em ter ideias mirabolantes que ninguém jamais teria e que, frequentemente, dão certo). Para tornar possível essa jornada se passaram quatro anos, ou seja, foram 1.460 dias planejando esses 30 dias que irão durar para sempre.
Passado este período voltarão as namoradas, o trabalho, os outros amigos, as famílias, as contas, os estudos, os horários, mas nós não voltaremos os mesmos.
O Teta e o Mimi, os integrantes que, até agora, têm filhos, poderão apontar o mapa e dizer para os seus bacuri que, com oito amigos, foram para todos estes pontos longínquos desse continente em forma de país.
A oportunidade de viver tudo isso é única. Conhecer diversos locais tendo como pano de fundo a Copa do Mundo em nosso país é como um anúncio de loja que diz que “é só amanhã”. A diferença é que, às vezes, é você mesmo que deve criar suas ofertas.
Um atacante com a bola de frente para o gol não pode chutar para fora. Às vezes as chances retornam, mas a oportunidade de viver é única. VIVA!
Há dias em que os dias se vão.
Há dias que se tornam vãos.
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A caravana da Família Pitanguá já passou, até agora, por Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e agora estamos em Alagoas. Ficamos ao menos um dia nas capitais e também visitamos outros municípios, todos distantes da nossa fria Curitiba.
Eu, particularmente, jamais havia visitado os locais pelos quais passamos em menos de um mês. Conhecer essas localidades, seus habitantes, suas praias e seus atrativos é uma das principais partes do nosso legado particular da Copa do Mundo.
Quando essa estória começou, tudo parecia brincadeira ou mais uma ideia maluca do Michel (o Michel é bom em ter ideias mirabolantes que ninguém jamais teria e que, frequentemente, dão certo). Para tornar possível essa jornada se passaram quatro anos, ou seja, foram 1.460 dias planejando esses 30 dias que irão durar para sempre.
Passado este período voltarão as namoradas, o trabalho, os outros amigos, as famílias, as contas, os estudos, os horários, mas nós não voltaremos os mesmos.
O Teta e o Mimi, os integrantes que, até agora, têm filhos, poderão apontar o mapa e dizer para os seus bacuri que, com oito amigos, foram para todos estes pontos longínquos desse continente em forma de país.
A oportunidade de viver tudo isso é única. Conhecer diversos locais tendo como pano de fundo a Copa do Mundo em nosso país é como um anúncio de loja que diz que “é só amanhã”. A diferença é que, às vezes, é você mesmo que deve criar suas ofertas.
Um atacante com a bola de frente para o gol não pode chutar para fora. Às vezes as chances retornam, mas a oportunidade de viver é única. VIVA!
sábado, 5 de julho de 2014
Diário de Bordo- Não há guerra sem baixas
Ninguém sai ileso de uma guerra. Por mais que existam “vencedores”, todos os envolvidos acabam perdendo. Um soldado. Um marido. Um amigo. Alguém querido e insubstituível. Ontem, em nossa guerra esportiva, perdemos nosso mais importante soldado.
No mundo corporativo se diz com frequência que ninguém é insubstituível. É verdade. Neymar será substituído, mas só Neymar é Neymar. Talvez o substituto possa compensar a ausência do nosso menino à altura. É difícil, mas não impossível. Exemplo? Se Edmundo começasse jogando em 98 o resultado muito provavelmente seria diferente. Talvez não ganhássemos, mas seria diferente.
A seleção brasileira não é totalmente dependente de Neymar. Quem defende os pênaltis e outros perigosos tiros é Júlio César. Quem faz a contenção e comanda a tropa é David Luiz e Thiago Silva. Quem corre por fora, levando a munição pelos flancos é Marcelo. Quem mantém o time fechado e evita os ataques inimigos é Luiz Gustavo. Quem realiza a dupla função de atacar e defender é Fernandinho. Quem faz o meio de campo é Oscar, que já venceu uma batalha praticamente sozinho. A seleção brasileira não é só Neymar.
Claro, ele é decisivo. Desequilibra. É o nosso principal jogador, nosso homem gol. Mas ele é parte de um time e agora, mais do que nunca, teremos que jogar como um time. A partida contra os alemães começará com 11 jogadores em campo para ambos os lados. O que irá definir o vencedor é aquilo que será feito dentro de campo, mas os fatores externos também influenciam e até mesmo a ausência de Neymar poderá incentivar os jogadores que irão para a partida. Como disse o Negs, todos deverão entrar vestindo a camisa 10 por baixo. De acordo com o Gordo, 100% de cada jogador não vai bastar. Cada um deve jogar mais 20% por Neymar.
Uma falta tirou o nosso soldado de combate, agora veremos o tamanho da falta que Neymar vai fazer ao nosso escrete.
----------
Nossa viagem também terá uma grande baixa. Nessa noite o Negs nos deixa, volta para Curitiba e depois nos encontra de volta no Rio. Te vejo na final Neguin.
---
Pequenos aforismos da copa:
- Amanhã vou acordar 6h e vou pra praia. Vou chamar todo mundo pra ir.
- Que horas cê vai voltar?
- Ah, acho que umas 11h.
- Então quando cê voltar cê me acordar!
Piada oficial de toda a viagem:
- A gente podia dar uma corridinha na praia depois, né!?
No mundo corporativo se diz com frequência que ninguém é insubstituível. É verdade. Neymar será substituído, mas só Neymar é Neymar. Talvez o substituto possa compensar a ausência do nosso menino à altura. É difícil, mas não impossível. Exemplo? Se Edmundo começasse jogando em 98 o resultado muito provavelmente seria diferente. Talvez não ganhássemos, mas seria diferente.
A seleção brasileira não é totalmente dependente de Neymar. Quem defende os pênaltis e outros perigosos tiros é Júlio César. Quem faz a contenção e comanda a tropa é David Luiz e Thiago Silva. Quem corre por fora, levando a munição pelos flancos é Marcelo. Quem mantém o time fechado e evita os ataques inimigos é Luiz Gustavo. Quem realiza a dupla função de atacar e defender é Fernandinho. Quem faz o meio de campo é Oscar, que já venceu uma batalha praticamente sozinho. A seleção brasileira não é só Neymar.
Claro, ele é decisivo. Desequilibra. É o nosso principal jogador, nosso homem gol. Mas ele é parte de um time e agora, mais do que nunca, teremos que jogar como um time. A partida contra os alemães começará com 11 jogadores em campo para ambos os lados. O que irá definir o vencedor é aquilo que será feito dentro de campo, mas os fatores externos também influenciam e até mesmo a ausência de Neymar poderá incentivar os jogadores que irão para a partida. Como disse o Negs, todos deverão entrar vestindo a camisa 10 por baixo. De acordo com o Gordo, 100% de cada jogador não vai bastar. Cada um deve jogar mais 20% por Neymar.
Uma falta tirou o nosso soldado de combate, agora veremos o tamanho da falta que Neymar vai fazer ao nosso escrete.
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Nossa viagem também terá uma grande baixa. Nessa noite o Negs nos deixa, volta para Curitiba e depois nos encontra de volta no Rio. Te vejo na final Neguin.
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Pequenos aforismos da copa:
- Amanhã vou acordar 6h e vou pra praia. Vou chamar todo mundo pra ir.
- Que horas cê vai voltar?
- Ah, acho que umas 11h.
- Então quando cê voltar cê me acordar!
Piada oficial de toda a viagem:
- A gente podia dar uma corridinha na praia depois, né!?
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Diário de Bordo- O diamante da chapada
Nossa viagem fez uma escala saindo de Brasília e partindo para Salvador. Já estava planejado parar na Chapada Diamantina para aproveitar a oportunidade, já que passaríamos muito perto dali e tínhamos tempo disponível. O que era para ser uma simples escala se tornou uma das importantes partes da viagem.
Nessa jornada já passamos por locais totalmente diferentes. Conhecemos Brasília, a cidade projetada por Niemeyer, e apenas alguns dias depois estávamos deitados em cima de uma pedra para poder ver o final de uma cachoeira de aproximadamente 400 metros de queda.
Ali em Palmeiras, um dos municípios que cerca a chapada, o que se prometia era a natureza, em contraponto aos estádios cheios de concreto que já conhecemos.
Em nosso primeiro dia ali fomos conhecer o Rio Pratinha e a Gruta Azul, belezas naturais que pertencem a uma propriedade particular e que, portanto, cobra entrada e tudo mais que puder ser cobrado lá dentro. Na gruta azul a luz do sol passa por uma fresta entre 14h e 15h e ao encontrar a água a deixa...azul. Você pode desfrutar de toda essa beleza pelo tempo de duração de uma foto, uma vez que a fila de turistas lhe aguarda para fazer o mesmo. Apreciar a paisagem? Pra quê? Tire uma foto sorrindo e poste no Facebook o quanto antes.
No Rio Pratinha havia a possibilidade de mergulho de superfície, que não fizemos, mas aproveitamos para tomar um banho e se divertir, afinal, tomar banho de rio é sempre bom, mesmo que se pague entrada para isso.
A grande descoberta deste primeiro dia foi a farofa de dendê. O almoço demorado e em pequenas quantidades teria sido muito frustrante não fosse a farofa. Poderíamos ter pedido só ela, inclusive. Feita com azeite de dendê, a farofa, diferentemente das convencionais, não é seca, o que faz com que ela possa ser comida isoladamente ou até com alimentos que geralmente não acompanham farofa, como salada ou até mesmo cerveja, como o Negs fez.
Na manhã seguinte fomos conhecer uma cachoeira que fica dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Conhecê-la custa caro. Você deve pagar 6 Km de caminhada com um desnível de 350 metros que é feito em aproximadamente 2h na ida. Mas não se iluda pensando que a volta será menos exaustiva e que para baixo todo santo ajuda. O que as costas e coxas sofrem na ida o joelho sofre na volta. Mas não desista. Vale a pena. Todo o esforço é pago com a paisagem oferecida pela cachoeira da fumaça, que tem esse nome por que o vento vindo debaixo sopra a água para cima e, por vezes, não chega a encostar o rio lá embaixo.
Uma dica importante: Não se perca. Caso contrário sua caminhada e exaustão serão ainda maiores e você deixará seu guia baiano desesperado e emitindo apenas uma palavra: “raaapaaaaaaaaaaz”.
Mas a cidade de Palmeiras tem ainda outro atrativo da natureza. A natureza humana. Na praça em frente à Câmara Municipal um vigia da prefeitura chamado Dadá fica por ali fazendo a ronda todos os dias das 20 às 24h. Puxe um papo qualquer e verá o quanto a humildade é encantadora.
Dadá é nascido e criado em Palmeiras. Trabalhou na época da exploração de diamantes, chegou até a ter um garimpo, quando a atividade já estava em decadência, mas a maior parte do período passou trabalhando em bares, restaurantes e panificadoras.
Segundo Dadá a cachoeira da fumaça vale a pena ser vista, embora ele não encontre muita graça. “Você sobe tudo aquilo e quando chega lá em cima vê só aquele buracão enorme, que você nem pode chegar muito perto”. A presença de seres extraterrestres no local também não é muito frequente, segundo ele. “Não vêm muito aqui não. Só de vez em quando”.
Desde as coisas mais simples às mais complexas da vida podem chegar ao papo e ele, com sua paciência, sua fala mansa e seu dialeto macio vai tratar dos assuntos de uma forma que torna até a descrição da rotina de um restaurante o tema mais interessante do mundo.
Conversar com Dadá te dá um dos maiores diamantes que a chapada pode lhe oferecer. O ser humano ainda é bonito.
Nessa jornada já passamos por locais totalmente diferentes. Conhecemos Brasília, a cidade projetada por Niemeyer, e apenas alguns dias depois estávamos deitados em cima de uma pedra para poder ver o final de uma cachoeira de aproximadamente 400 metros de queda.
Ali em Palmeiras, um dos municípios que cerca a chapada, o que se prometia era a natureza, em contraponto aos estádios cheios de concreto que já conhecemos.
Em nosso primeiro dia ali fomos conhecer o Rio Pratinha e a Gruta Azul, belezas naturais que pertencem a uma propriedade particular e que, portanto, cobra entrada e tudo mais que puder ser cobrado lá dentro. Na gruta azul a luz do sol passa por uma fresta entre 14h e 15h e ao encontrar a água a deixa...azul. Você pode desfrutar de toda essa beleza pelo tempo de duração de uma foto, uma vez que a fila de turistas lhe aguarda para fazer o mesmo. Apreciar a paisagem? Pra quê? Tire uma foto sorrindo e poste no Facebook o quanto antes.
No Rio Pratinha havia a possibilidade de mergulho de superfície, que não fizemos, mas aproveitamos para tomar um banho e se divertir, afinal, tomar banho de rio é sempre bom, mesmo que se pague entrada para isso.
A grande descoberta deste primeiro dia foi a farofa de dendê. O almoço demorado e em pequenas quantidades teria sido muito frustrante não fosse a farofa. Poderíamos ter pedido só ela, inclusive. Feita com azeite de dendê, a farofa, diferentemente das convencionais, não é seca, o que faz com que ela possa ser comida isoladamente ou até com alimentos que geralmente não acompanham farofa, como salada ou até mesmo cerveja, como o Negs fez.
Na manhã seguinte fomos conhecer uma cachoeira que fica dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Conhecê-la custa caro. Você deve pagar 6 Km de caminhada com um desnível de 350 metros que é feito em aproximadamente 2h na ida. Mas não se iluda pensando que a volta será menos exaustiva e que para baixo todo santo ajuda. O que as costas e coxas sofrem na ida o joelho sofre na volta. Mas não desista. Vale a pena. Todo o esforço é pago com a paisagem oferecida pela cachoeira da fumaça, que tem esse nome por que o vento vindo debaixo sopra a água para cima e, por vezes, não chega a encostar o rio lá embaixo.
Uma dica importante: Não se perca. Caso contrário sua caminhada e exaustão serão ainda maiores e você deixará seu guia baiano desesperado e emitindo apenas uma palavra: “raaapaaaaaaaaaaz”.
Mas a cidade de Palmeiras tem ainda outro atrativo da natureza. A natureza humana. Na praça em frente à Câmara Municipal um vigia da prefeitura chamado Dadá fica por ali fazendo a ronda todos os dias das 20 às 24h. Puxe um papo qualquer e verá o quanto a humildade é encantadora.
Dadá é nascido e criado em Palmeiras. Trabalhou na época da exploração de diamantes, chegou até a ter um garimpo, quando a atividade já estava em decadência, mas a maior parte do período passou trabalhando em bares, restaurantes e panificadoras.
Segundo Dadá a cachoeira da fumaça vale a pena ser vista, embora ele não encontre muita graça. “Você sobe tudo aquilo e quando chega lá em cima vê só aquele buracão enorme, que você nem pode chegar muito perto”. A presença de seres extraterrestres no local também não é muito frequente, segundo ele. “Não vêm muito aqui não. Só de vez em quando”.
Desde as coisas mais simples às mais complexas da vida podem chegar ao papo e ele, com sua paciência, sua fala mansa e seu dialeto macio vai tratar dos assuntos de uma forma que torna até a descrição da rotina de um restaurante o tema mais interessante do mundo.
Conversar com Dadá te dá um dos maiores diamantes que a chapada pode lhe oferecer. O ser humano ainda é bonito.
sábado, 28 de junho de 2014
Diário de bordo- O pior do melhor
Na última quinta-feira assistimos ao jogo Portugal X Gana no estádio Nacional em Brasília, o Mané Garrincha. A partida, que poderia classificar qualquer um dos dois times para as oitavas de final, acabou sendo um jogo morno, mas dramático para um dos jogadores.
Não sabia para quem torcer. De um lado estava o país do nosso colonizador, do outro um time africano. Explorador X Explorado. Por uma posição implícita a mim era natural que eu torcesse por Gana, mas por outro lado eu torcia por um jogador em especial, e muito especial, que estava do lado Português da força.
Cristiano Ronaldo é um rapaz meio excêntrico, vaidoso, metrossexual, e que aparenta arrogância, mas suas atitudes demonstram seu grande coração e humildade. Além disso, ele é, também, o melhor jogador do mundo de acordo com a Fifa, e o Brasil sabe mais do que ninguém que o que a Fifa diz é lei, o que, entre outras coisas, faz com que o Corinthians tenha oficialmente dois títulos mundiais. Mas com Fifa ou sem Fifa, Cristiano Ronaldo é sim o melhor jogador do mundo e eu queria muito vê-lo jogar, torcia para que ele desse um espetáculo, esperava ser testemunha ocular daquilo que o faz melhor do mundo.
Entretanto, isso não aconteceu. Portugal ganhou, mas sem o brilho esperado. No final das contas fiquei sem uma coisa nem outra, sem ver os africanos vencerem e sem ver o gajo mostrar o que sabe.
Cristiano Ronaldo não jogou como eu esperava por que o futebol é um jogo coletivo e sua atuação dependia do time, que não é lá dos melhores. Ao seu lado não estavam craques como os do Real Madrid, com quem costuma jogar. E isso fez toda a diferença. A seleção Portuguesa dependia mais dele do que o oposto.
Meio pauleado, vindo de contusão, Cristiano ainda tentou jogar. Mas não pôde fazer as belas jogadas que geralmente faz. Quando recebia a bola tentava uma jogada individual, mas ao se ver cercado por três ou quatro ganeses era obrigado a tocar a bola e fazê-la rodar para receber de volta. E ela não voltava. Seus companheiros perdiam a posse ou tocavam errado e quando tentavam devolvê-la não o faziam como receberam, redondinha.
Por um tempo fiquei acompanhando somente ele durante o jogo e era dramático vê-lo não receber a bola como esperava e, portanto, sem poder mostrar o seu melhor. Só abaixava a cabeça. Se eu, como espectador, estava com raiva, imagine o CR7.
Fez um gol, mas nem nesse momento máximo, comemorou. Voltou andando para o meio de campo sem dizer “eu to aqui”, sem dizer nada. Fez isso por que sabia que sua equipe permanecia eliminada e mesmo um time que conta com o melhor do mundo tem seus dias ruins.
É Cristiano, o mundo é injusto. Até mesmo com os melhores.
Não sabia para quem torcer. De um lado estava o país do nosso colonizador, do outro um time africano. Explorador X Explorado. Por uma posição implícita a mim era natural que eu torcesse por Gana, mas por outro lado eu torcia por um jogador em especial, e muito especial, que estava do lado Português da força.
Cristiano Ronaldo é um rapaz meio excêntrico, vaidoso, metrossexual, e que aparenta arrogância, mas suas atitudes demonstram seu grande coração e humildade. Além disso, ele é, também, o melhor jogador do mundo de acordo com a Fifa, e o Brasil sabe mais do que ninguém que o que a Fifa diz é lei, o que, entre outras coisas, faz com que o Corinthians tenha oficialmente dois títulos mundiais. Mas com Fifa ou sem Fifa, Cristiano Ronaldo é sim o melhor jogador do mundo e eu queria muito vê-lo jogar, torcia para que ele desse um espetáculo, esperava ser testemunha ocular daquilo que o faz melhor do mundo.
Entretanto, isso não aconteceu. Portugal ganhou, mas sem o brilho esperado. No final das contas fiquei sem uma coisa nem outra, sem ver os africanos vencerem e sem ver o gajo mostrar o que sabe.
Cristiano Ronaldo não jogou como eu esperava por que o futebol é um jogo coletivo e sua atuação dependia do time, que não é lá dos melhores. Ao seu lado não estavam craques como os do Real Madrid, com quem costuma jogar. E isso fez toda a diferença. A seleção Portuguesa dependia mais dele do que o oposto.
Meio pauleado, vindo de contusão, Cristiano ainda tentou jogar. Mas não pôde fazer as belas jogadas que geralmente faz. Quando recebia a bola tentava uma jogada individual, mas ao se ver cercado por três ou quatro ganeses era obrigado a tocar a bola e fazê-la rodar para receber de volta. E ela não voltava. Seus companheiros perdiam a posse ou tocavam errado e quando tentavam devolvê-la não o faziam como receberam, redondinha.
Por um tempo fiquei acompanhando somente ele durante o jogo e era dramático vê-lo não receber a bola como esperava e, portanto, sem poder mostrar o seu melhor. Só abaixava a cabeça. Se eu, como espectador, estava com raiva, imagine o CR7.
Fez um gol, mas nem nesse momento máximo, comemorou. Voltou andando para o meio de campo sem dizer “eu to aqui”, sem dizer nada. Fez isso por que sabia que sua equipe permanecia eliminada e mesmo um time que conta com o melhor do mundo tem seus dias ruins.
É Cristiano, o mundo é injusto. Até mesmo com os melhores.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Diário de Bordo- O futebol é um esporte bobo
Isso que diz o título é verdade. O futebol é, resumidamente, um esporte que se joga na grama com 11 pessoas de cada lado com uniformes distintos e ganha a equipe que mais vezes colocar a bola no retângulo que o adversário deve proteger.
Mas, vamos reduzir alguns outros esportes às formas bobas de encará-los.
Boxe: dois seres vestindo calção e luvas golpeiam com as mãos um ao outro com o objetivo de derrubá-lo.
Esgrima: duas pessoas com uma “espada” em mãos tentam encostar a arma no outro humano sem que seja encostado.
Golfe: Usando um taco os terráqueos tentam colocar uma bola dentro de um buraco com o menor número de toques possíveis.
A lista poderia prosseguir, mas vamos ficar por aqui. A questão é que qualquer esporte, até os mais refinados (leia-se, aqueles que envolvem mais dinheiro), podem ser vistos como esportes “bobos”.
Mas, antes de mais nada, o esporte deve ser visto como um esporte. É uma diversão. É catarse. É emoção. É identificação. É tudo. É nada.
O futebol, como todos os outros é um esporte e não deve ser encarado como algo “sério”. As pessoas que levam o esporte a sério demais são aquelas que acabam indo ao estádio e tornando a diversão em algo realmente sério ao usar aquilo como pretexto para xingar, discriminar, bater ou até mesmo matar alguém.
Como pode ser visto na Copa do Mundo de futebol, este esporte é uma paixão mundial. Mas no Brasil ele representa o mais verdadeiro amor. Em nosso país a invenção inglesa encontrou solo fértil para prosperar. Solo de asfalto. Solo de terra. Solo de areia. Solo da sala de casa. Solo que se casa com a sola de qualquer pé. Sola que calça chuteiras, que calça tênis velhos, sola descalçada pelo chinelo usado para ser trave. Solo de onde nasceram muitos craques, que por aqui ficaram ou que foram para a Europa servir de pé de obra para times endinheirados.
Eles são menos brasileiros do que nós? Não. Você não iria? Deixaria de realizar o seu sonho profissional? Não gostaria de morar no velho continente e ganhar muito para fazer o que gosta? Eles também “sofreram” por não ter em nosso país estruturas que suportem o tamanho do seu talento. São nascidos aqui, criados aqui e são eles quem nos representam quando pisam nos gramados tratados da Europa. “Ame-o ou Deixe-o”? Aaaaaaaaaaaah...
Eu sou tão brasileiro quanto o Pelé. Que é tão brasileiro quanto o atendente da lanchonete. Que é tão brasileiro quanto Ronaldo. Que é tão brasileiro quanto o cobrador de ônibus. Que é tão brasileiro quanto o Diego Costa. Não, o Diego Costa não (embora não ache errada sua decisão), mas enfim...continuando...o cobrador é tão brasileiro quanto o David Luiz. Que é tão brasileiro quanto o policial. Que é tão brasileiro quanto o Thiago Silva. Que é tão brasileiro quanto o presidiário. Que é tão brasileiro quanto o Neymar, esse brasileiro que faz lances espetaculares com a simplicidade de quem brinca com uma bola qualquer em um campo qualquer em qualquer canto desse país.
Na última segunda-feira pudemos vê-lo jogar. A menos de 20 metros estava essa peça rara que é como nós, nascido nessa terra de todos. Um menino gigante que joga esse esporte bobo, mas que representa esse divertido amor.
Mas, vamos reduzir alguns outros esportes às formas bobas de encará-los.
Boxe: dois seres vestindo calção e luvas golpeiam com as mãos um ao outro com o objetivo de derrubá-lo.
Esgrima: duas pessoas com uma “espada” em mãos tentam encostar a arma no outro humano sem que seja encostado.
Golfe: Usando um taco os terráqueos tentam colocar uma bola dentro de um buraco com o menor número de toques possíveis.
A lista poderia prosseguir, mas vamos ficar por aqui. A questão é que qualquer esporte, até os mais refinados (leia-se, aqueles que envolvem mais dinheiro), podem ser vistos como esportes “bobos”.
Mas, antes de mais nada, o esporte deve ser visto como um esporte. É uma diversão. É catarse. É emoção. É identificação. É tudo. É nada.
O futebol, como todos os outros é um esporte e não deve ser encarado como algo “sério”. As pessoas que levam o esporte a sério demais são aquelas que acabam indo ao estádio e tornando a diversão em algo realmente sério ao usar aquilo como pretexto para xingar, discriminar, bater ou até mesmo matar alguém.
Como pode ser visto na Copa do Mundo de futebol, este esporte é uma paixão mundial. Mas no Brasil ele representa o mais verdadeiro amor. Em nosso país a invenção inglesa encontrou solo fértil para prosperar. Solo de asfalto. Solo de terra. Solo de areia. Solo da sala de casa. Solo que se casa com a sola de qualquer pé. Sola que calça chuteiras, que calça tênis velhos, sola descalçada pelo chinelo usado para ser trave. Solo de onde nasceram muitos craques, que por aqui ficaram ou que foram para a Europa servir de pé de obra para times endinheirados.
Eles são menos brasileiros do que nós? Não. Você não iria? Deixaria de realizar o seu sonho profissional? Não gostaria de morar no velho continente e ganhar muito para fazer o que gosta? Eles também “sofreram” por não ter em nosso país estruturas que suportem o tamanho do seu talento. São nascidos aqui, criados aqui e são eles quem nos representam quando pisam nos gramados tratados da Europa. “Ame-o ou Deixe-o”? Aaaaaaaaaaaah...
Eu sou tão brasileiro quanto o Pelé. Que é tão brasileiro quanto o atendente da lanchonete. Que é tão brasileiro quanto Ronaldo. Que é tão brasileiro quanto o cobrador de ônibus. Que é tão brasileiro quanto o Diego Costa. Não, o Diego Costa não (embora não ache errada sua decisão), mas enfim...continuando...o cobrador é tão brasileiro quanto o David Luiz. Que é tão brasileiro quanto o policial. Que é tão brasileiro quanto o Thiago Silva. Que é tão brasileiro quanto o presidiário. Que é tão brasileiro quanto o Neymar, esse brasileiro que faz lances espetaculares com a simplicidade de quem brinca com uma bola qualquer em um campo qualquer em qualquer canto desse país.
Na última segunda-feira pudemos vê-lo jogar. A menos de 20 metros estava essa peça rara que é como nós, nascido nessa terra de todos. Um menino gigante que joga esse esporte bobo, mas que representa esse divertido amor.
terça-feira, 24 de junho de 2014
Diário de Bordo- Os argentinos Parte II
Nos dias em que recebemos no Brasil a visita dos argentinos vimos mais deles até mesmo do que quando visitamos o país vizinho. Na ocasião eu, o Gordo, o Michel e o Guille fomos até lá mais uma vez movidos pelo futebol. Em 2009 assistimos um Brasil x Argentina na cidade de Rosário. Era a nossa primeira viagem internacional e o primeiro jogo do Brasil que veríamos. Já estávamos ansiosos por todos os fatos que envolvem esse clássico Sul-Americano, mas um imprevisto tornou o jogo ainda mais marcante do que poderíamos prever.
Apesar de o jogo ser em Rosário nós estávamos hospedados em Buenos Aires e para ir até o jogo tínhamos uma van. Quando chegamos na cidade que receberia a partida percebemos que o jogo não seria somente no estádio, mas começava nas ruas, com a torcida argentina vibrando em cada esquina com seus cantos fervorosos, enquanto nós, dentro da van, nos escondíamos com a camisa do Brasil (exceto eu, que vestia Corinthians).
Tentando disfarçar nossa brasilidade colocamos blusas por cima das camisetas. O motorista nos deixou um pouco longe da nossa entrada. Conseguimos o ingresso do Gordo em um local próximo ao nosso e tentamos encontrar nosso portão, mas curiosamente não vimos nenhum brasileiro no trajeto.
Quando fomos entrar no estádio do Rosário Central a “revista” foi um pouco fora do comum. Ela não existiu.
O Michel, que estava na minha frente, levantou os braços, como geralmente fazemos nos estádios brasileiros, e o segurança apenas balançou a cabeça e o mandou passar sem nem encostá-lo. Na minha vez eu fiz o mesmo e ele, com um sorriso, apenas exclamou: “¡brasileño né!”.
Chegando ao nosso lugar, percebemos o que havia de errado. Nossos ingressos eram para a torcida argentina.
O lugar onde deveríamos estar era exatamente o oposto de onde estávamos. Fomos conversar com o segurança para ver se poderíamos passar para o outro lado. Quando ele viu a camisa do Michel, arregalou os olhos e disse que deveríamos ir para lá imediatamente.
O estádio era dividido por setores e passamos por todas as barreiras, menos a última. Acreditamos até hoje que nessa última fase, onde eram os camarotes, havia alguém muito importante, Cristina Kirchner, por exemplo.
Cabisbaixos, voltamos aos nossos lugares. Se tínhamos que ficar ali então que fosse.
No intervalo eu e o Michel decidimos comer algo, mas não sabíamos o que, nem como pedir. A estratégia foi ouvir os outros e imitá-los. O Michel ficou na fila e quando chegou sua vez pediu “una hamburguesa”, que o atendente disse que não tinha mais. Com as mãos pediu que esperasse e viu que agora os argentinos solicitavam “un Choripán”. Nesse meio tempo eu, atrás dele, estava agoniado, por que a sua camisa amarela caía por debaixo da bermuda. Voltamos, intactos, aos nossos lugares.
No segundo tempo a torcida argentina se inflamou para empurrar o time. Todos se ergueram nas arquibancadas, menos nós. Uma mão me puxou para que eu também levantasse. Atendi o pedido da mão misteriosa. Quando o Brasil marcou um gol o dono da mão se mostrou e me perguntou: “¿Estás contento, tico?”. Com cara de quem não entende, emiti um “Hã?”. A pergunta se repetiu e bolei um plano infalível. Respondi com um “What?”. Meu plano falhou, mas pelo menos ele deu risada.
Na saída passamos por uma barreira policial que continha os argentinos, em que o Guille quase foi barrado.
Depois de todo o aperto veio o alívio. Estamos vivos até hoje e podemos fazer esta outra grande viagem e assistir muitos outros jogos.
Ah, o resultado do jogo foi 3 x 1 para o Brasil. Pena que não pudemos comemorar.
Apesar de o jogo ser em Rosário nós estávamos hospedados em Buenos Aires e para ir até o jogo tínhamos uma van. Quando chegamos na cidade que receberia a partida percebemos que o jogo não seria somente no estádio, mas começava nas ruas, com a torcida argentina vibrando em cada esquina com seus cantos fervorosos, enquanto nós, dentro da van, nos escondíamos com a camisa do Brasil (exceto eu, que vestia Corinthians).
Tentando disfarçar nossa brasilidade colocamos blusas por cima das camisetas. O motorista nos deixou um pouco longe da nossa entrada. Conseguimos o ingresso do Gordo em um local próximo ao nosso e tentamos encontrar nosso portão, mas curiosamente não vimos nenhum brasileiro no trajeto.
Quando fomos entrar no estádio do Rosário Central a “revista” foi um pouco fora do comum. Ela não existiu.
O Michel, que estava na minha frente, levantou os braços, como geralmente fazemos nos estádios brasileiros, e o segurança apenas balançou a cabeça e o mandou passar sem nem encostá-lo. Na minha vez eu fiz o mesmo e ele, com um sorriso, apenas exclamou: “¡brasileño né!”.
Chegando ao nosso lugar, percebemos o que havia de errado. Nossos ingressos eram para a torcida argentina.
O lugar onde deveríamos estar era exatamente o oposto de onde estávamos. Fomos conversar com o segurança para ver se poderíamos passar para o outro lado. Quando ele viu a camisa do Michel, arregalou os olhos e disse que deveríamos ir para lá imediatamente.
O estádio era dividido por setores e passamos por todas as barreiras, menos a última. Acreditamos até hoje que nessa última fase, onde eram os camarotes, havia alguém muito importante, Cristina Kirchner, por exemplo.
Cabisbaixos, voltamos aos nossos lugares. Se tínhamos que ficar ali então que fosse.
No intervalo eu e o Michel decidimos comer algo, mas não sabíamos o que, nem como pedir. A estratégia foi ouvir os outros e imitá-los. O Michel ficou na fila e quando chegou sua vez pediu “una hamburguesa”, que o atendente disse que não tinha mais. Com as mãos pediu que esperasse e viu que agora os argentinos solicitavam “un Choripán”. Nesse meio tempo eu, atrás dele, estava agoniado, por que a sua camisa amarela caía por debaixo da bermuda. Voltamos, intactos, aos nossos lugares.
No segundo tempo a torcida argentina se inflamou para empurrar o time. Todos se ergueram nas arquibancadas, menos nós. Uma mão me puxou para que eu também levantasse. Atendi o pedido da mão misteriosa. Quando o Brasil marcou um gol o dono da mão se mostrou e me perguntou: “¿Estás contento, tico?”. Com cara de quem não entende, emiti um “Hã?”. A pergunta se repetiu e bolei um plano infalível. Respondi com um “What?”. Meu plano falhou, mas pelo menos ele deu risada.
Na saída passamos por uma barreira policial que continha os argentinos, em que o Guille quase foi barrado.
Depois de todo o aperto veio o alívio. Estamos vivos até hoje e podemos fazer esta outra grande viagem e assistir muitos outros jogos.
Ah, o resultado do jogo foi 3 x 1 para o Brasil. Pena que não pudemos comemorar.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Diário de Bordo- Os argentinos Parte I
Embora as seleções de Brasil e Argentina não se enfrentem de acordo com a tabela da copa esse embate já aconteceu duas vezes nas ruas brasileiras.
Tanto no Rio de Janeiro quanto em Belo Horizonte a nossa viagem coincidiu com os rumos da fanática torcida argentina. O resultado desse cruzamento foi o de que agora temos muitos novos hermanos e se alguém achava que nós éramos loucos por fazer essa viagem, acredite, nós somos normais perto deles.
Em BH, por exemplo, encontramos um grupo que veio da Argentina tendo somente o carro como moradia. Depois de passar por Rio de Janeiro e Belo Horizonte eles pegaram o veículo após o jogo contra o Irã e foram rumo a Porto Alegre, um trajeto, de acordo com o oráculo, de aproximadamente 1.717 km e quase 23h de viagem. Somente na primeira fase eles irão viajar um total de 64 horas e 4.844 Km.
Eu e o Gordo tentamos convencê-los a deixar uma encomenda em Curitiba, mas eles não gostaram muito da ideia de carregar o Michel, ainda bem, por que a comida feita por ele está salvando a pátria. Ninguém é totalmente imperfeito.
Se existe uma aparente rivalidade entre essas duas nações apaixonadas por futebol nós provamos que a Copa do Mundo serve muito mais para unir nacionalidades do que para separar.
Em nosso encontro frequente com os mullets aperfeiçoamos nosso portunhol e no jogo do último sábado o Negs e o Mimi até pintaram a cara com as cores da alviceleste.
A troca de camisetas também foi um fato frequente. A camisa da Pitanguá irá circular bastante lá pelos lados de Buenos Aires enquanto em Curitiba o azul claro também vai estar presente.
No primeiro jogo do Brasil o Mimi se divertiu tanto com eles que acabou nem vendo o jogo. Enquanto ele os sacaneava pelo até então baixo número de gols de Messi em Copas (Edmilson tinha mais que ele), os argentinos nos ironizavam com o suposto pênalti na partida contra a Croácia e cada faltinha besta no meio campo era motivo para que disparassem um “Penal Brasil”.
Na região da Savassi, em Belo Horizonte, nós praticamente comandamos a torcida Argentina e ao final da música que diz que “Maradona es más grande que Pelé” finalizávamos com um sonoro “só que no”. Também enganávamos eles entoando o canto de “Messi, Messi, Messico, Messico...”.
Embora tenhamos afastado a rivalidade e a transformado em amizade, a nossa conversa sempre ia parar em campo, mas sempre em tom de brincadeira, já que não dá pra levar muito a sério uma seleção que tem apenas duas estrelas, uma a menos que o Pelé.
Se a nossa viagem e a Copa do Mundo são uma grande diversão, encontrar os argentinos é mais um bom motivo para fazermos a festa.
Esperamos vê-los na final, hermanos.
Tanto no Rio de Janeiro quanto em Belo Horizonte a nossa viagem coincidiu com os rumos da fanática torcida argentina. O resultado desse cruzamento foi o de que agora temos muitos novos hermanos e se alguém achava que nós éramos loucos por fazer essa viagem, acredite, nós somos normais perto deles.
Em BH, por exemplo, encontramos um grupo que veio da Argentina tendo somente o carro como moradia. Depois de passar por Rio de Janeiro e Belo Horizonte eles pegaram o veículo após o jogo contra o Irã e foram rumo a Porto Alegre, um trajeto, de acordo com o oráculo, de aproximadamente 1.717 km e quase 23h de viagem. Somente na primeira fase eles irão viajar um total de 64 horas e 4.844 Km.
Eu e o Gordo tentamos convencê-los a deixar uma encomenda em Curitiba, mas eles não gostaram muito da ideia de carregar o Michel, ainda bem, por que a comida feita por ele está salvando a pátria. Ninguém é totalmente imperfeito.
Se existe uma aparente rivalidade entre essas duas nações apaixonadas por futebol nós provamos que a Copa do Mundo serve muito mais para unir nacionalidades do que para separar.
Em nosso encontro frequente com os mullets aperfeiçoamos nosso portunhol e no jogo do último sábado o Negs e o Mimi até pintaram a cara com as cores da alviceleste.
A troca de camisetas também foi um fato frequente. A camisa da Pitanguá irá circular bastante lá pelos lados de Buenos Aires enquanto em Curitiba o azul claro também vai estar presente.
No primeiro jogo do Brasil o Mimi se divertiu tanto com eles que acabou nem vendo o jogo. Enquanto ele os sacaneava pelo até então baixo número de gols de Messi em Copas (Edmilson tinha mais que ele), os argentinos nos ironizavam com o suposto pênalti na partida contra a Croácia e cada faltinha besta no meio campo era motivo para que disparassem um “Penal Brasil”.
Na região da Savassi, em Belo Horizonte, nós praticamente comandamos a torcida Argentina e ao final da música que diz que “Maradona es más grande que Pelé” finalizávamos com um sonoro “só que no”. Também enganávamos eles entoando o canto de “Messi, Messi, Messico, Messico...”.
Embora tenhamos afastado a rivalidade e a transformado em amizade, a nossa conversa sempre ia parar em campo, mas sempre em tom de brincadeira, já que não dá pra levar muito a sério uma seleção que tem apenas duas estrelas, uma a menos que o Pelé.
Se a nossa viagem e a Copa do Mundo são uma grande diversão, encontrar os argentinos é mais um bom motivo para fazermos a festa.
Esperamos vê-los na final, hermanos.
sábado, 21 de junho de 2014
Diário de Bordo- Com vivência
Conviver diariamente com 9 pessoas por um período de 34 dias é difícil. Por mais que sejamos amigos de longa data (desde “pequenininho”, diria o Michel), ainda assim olhar para as mesmas caras dos mesmos caras é algo caro.
Sempre nos demos bem, por isso mesmo nossa amizade é tão duradoura, mas sempre tivemos a opção de não nos ver e todos têm sua própria família.
De certa forma todos nos conhecemos. Sabemos um do outro as manias, os costumes, os sonhos, os jeitos, os vícios e virtudes.
Somos todos diferentes, por que cada pessoa é um universo, mas também somos todos iguais e gostamos das mesmas coisas: gostamos uns dos outros.
Pela correria de cada um a frequência com que nos vemos, por vezes, não é muito frequente. O trabalho, os estudos e todas as outras obrigações acabam fazendo com que pessoas que se amam às vezes estejam afastadas e pessoas que, talvez não se gostem estejam em contato direto todos os dias.
Em nossa viagem não cumprimos os papéis sociais que cumprimos geralmente. Não precisamos ir trabalhar, não voltamos para casa ao final do dia. Nesse período somos somente amigos, irmãos, pais e filhos uns dos outros.
Aqui, com a obrigação da convivência temos tempo para viver as coisas pequenas. Um sorriso, um obrigado, uma conversa, uma(s) bebida(s), um cigarro...Aprendemos um com o outro como jogar poker, cortar tomate e, principalmente, como é ser amigo.
Sempre nos demos bem, por isso mesmo nossa amizade é tão duradoura, mas sempre tivemos a opção de não nos ver e todos têm sua própria família.
De certa forma todos nos conhecemos. Sabemos um do outro as manias, os costumes, os sonhos, os jeitos, os vícios e virtudes.
Somos todos diferentes, por que cada pessoa é um universo, mas também somos todos iguais e gostamos das mesmas coisas: gostamos uns dos outros.
Pela correria de cada um a frequência com que nos vemos, por vezes, não é muito frequente. O trabalho, os estudos e todas as outras obrigações acabam fazendo com que pessoas que se amam às vezes estejam afastadas e pessoas que, talvez não se gostem estejam em contato direto todos os dias.
Em nossa viagem não cumprimos os papéis sociais que cumprimos geralmente. Não precisamos ir trabalhar, não voltamos para casa ao final do dia. Nesse período somos somente amigos, irmãos, pais e filhos uns dos outros.
Aqui, com a obrigação da convivência temos tempo para viver as coisas pequenas. Um sorriso, um obrigado, uma conversa, uma(s) bebida(s), um cigarro...Aprendemos um com o outro como jogar poker, cortar tomate e, principalmente, como é ser amigo.
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