sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Rede Social - Por Alexandre Fernandes

Afonso era do tipo galanteador e boa praça. Nunca quis se enrolar com nenhuma moça. Mas um belo dia se apaixonou por Glorinha. Uma linda moça dos cabelos cor de ouro. Que encantava a todos com sua beleza e com seu jeitinho conciliador.

Glorinha namorava Arthur. Um rapaz meio calado, que só falava quando era consultado. Ele vivia em seu mundinho particular dentro de sua cabeça e nas revistas em quadrinhos que colecionava. Dizia que era o rei de si mesmo.

Por causa deste jeito caladão de Arthur, Glorinha decide se separar de Arthur. Ele não aceitou muito bem. Glorinha saiu em busca de um novo amor. Afonso, malandro que é, se ofereceu para ser este novo amor. Glorinha prontamente aceitou para desespero de Arthur.

No facebook a linha do tempo de Glorinha indicava: Glorinha Castilho está em um relacionamento sério com Afonso Pires. Afonso curtiu. E o vingativo Arthur comentou: Já comi!

Fim

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Sim, sim, sim. Nessa semana o Di-Vagá recebe a nobre visita do nosso amigo Alexandre Fernandes, O Kibe (@alexxfernandes).
O Cara é jornalista e um dos responsáveis pelo site http://www.allejo.com.br.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Bolinho da vó

Edinho adorava ir à casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava encontrar os primos na casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava brincar na casa da vó, como todas as outras crianças. Adorava o bolinho da vó, que só a sua vó fazia.


Apesar de adorar ir à casa da vó não podia fazê-lo frequentemente. 12 horas e aproximadamente 914 Km o distanciavam. Somente uma vez por ano, nas férias, é que podia divertir-se com a família. No restante do ano era obrigado a enfrentar a dura e estressante rotina da escola.


Ao chegar da longa viagem era recepcionado com o bolinho. O bolinho da vó. Tinha o gosto que somente a avó, com toda sua idade produzia, o gosto da sua infância.


As avós são, geralmente, as melhores cozinheiras do mundo. Mesmo a comida da avó dos outros, que também fazem parte do clã das melhores chefs, jamais é tão boa quanto a da própria avó.


A especialidade de dona Armênia era o bolinho. Sua mãe e as tias também tinham a receita, mas não faziam igual. O bolinho tinha como tempero o afeto da avó por ele.


Mesmo sendo da família e conhecendo a todos ele sempre chegava acanhado. Talvez o fato de vê-los apenas uma vez por ano despertasse sua timidez. Certa vez chegou animado, empolgado. Depois de cumprimentar todos perguntou: “Tem bolinho?”. A tia agachou-se e com um olhar sério disse:


“Eder, a vó não pode mais fazer bolinho”.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Você

Sim. Eu sei. Eu lembro.


Sei que pediu para eu te esquecer, nunca mais ligar, nunca mais mandar e-mail, nunca mais lembrar. Mas não consigo.


Tudo me faz lembrar você. Quando trabalho lembro de você. Na aula lembro de você. Tento fazer outra coisa, para me distrair, e lembro de você.


Fumo você. Malho você. Almoço você. Leio você. Assisto você. Bebo você. Acordo você. Durmo você. Ouço você.


E o pior: quando penso em você sinto uma vontade enorme de pensar em você.


Não consigo esquecer você...você...qual é mesmo seu nome?

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Em tempo

“Eu te amo!”.

Disse ela pela primeira vez após terem transado.

Ele era um escroto. Talvez insensível demais, sincero demais, seco demais. Não respondeu nada.

Só queria sexo. Em nome desse sexo não iria mentir. Não diria aquilo só por que ela queria ouvir.

Sentiu-se feliz, mas preocupado. Feliz por ser amado, mas preocupado pelo mesmo motivo. “Era só sexo e agora essa guria tá me amando. Como vou me livrar disso?”.

Se livrar de alguém ou algo que se odeia pode até ser fácil, mas se livrar do que ou quem te/se ama...

A resposta veio apenas um ano depois. Não se livrou. E amou. Amou e disse.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Sonho impossível (?)

Tive um sonho. Um sonho bom. Estávamos saindo de casa para ir a uma festa. Namorávamos e tínhamos uma rotina normal. Tão simples. Parecia verdade.

Um sonho tão possível, tão palpável, exceto pelo fato de não poder-mos namorar. Afinal, não posso largar meu namorado por aquela loucura que nós duas cometemos.

Mas ainda assim, queria que continuasse. Queria que estivéssemos no meu sonho, que se realizasse. Como não dá, queria ao menos que o sonho continuasse. E também não deu. Acordei sorrindo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Os Três Pedidos ou Outro Estágio

Era grossa, estúpida e sádica. Não media esforços alheios para a empresa crescer e dizia que os funcionários deveriam “vestir a camisa”.

Alguns diziam ter dó, que toda maldade era vinda da vida amarga. Era solteira, sozinha e solitária. Não gostava de crianças ou cachorros (e nem de gente). Ainda assim trabalhava justamente com pessoas, supostamente fazendo bem a elas, nem que para isso moesse os funcionários como em uma máquina de carne.

Enquanto o baixo clero deveria estar cedo e a todo vapor no trabalho, chegava diariamente de ressaca. Devia beber muito, tinha muita mágoa para afogar.

Sempre deixava claro que ela quem mandava. Andava pela empresa como um vigia. Ao vê-la todos engoliam palavras, sorrisos e as boas vibrações. Uma nuvem negra parecia a acompanhar.

Apesar disso tinha um discurso de unificação e amizade fora da instituição. Era a principal agitadora de festas, comemorações e afins. Socializando, parecia até simpática. Em seu aniversário fez questão que todos fossem. E lá estavam. Mais por obrigação que por consideração.

Enquanto alguns vinham e iam, Ale, o estagiário mais novo ficava. Sentia-se bem por se enturmar tão rápido.

Sobrou apenas a chefe e ele. Pela fama ele carregava certo medo, mas àquela hora, bêbados, a conversa fluía bem. Ainda assim ele buscava manter a formalidade. Ela não.
- Posso te pedir uma coisa?
- Claro chefe.
- Melhor. Duas e dependendo da resposta mais uma. Pode ser?
- Sim.
- Não me chama de chefe. Me chama de Ma.
- Sim. Claro. Desculpa Ma. E o que mais?
- Me dá um beijo.

Ao terminar de falar ela agarrou o franguinho. Com vontade. Meio tímido foi abraçando-a de leve. Apesar de ter gostado, ficou totalmente sem jeito. Ela agradeceu. Com um sorriso ele respondeu: “Qué isso. Eu que agradeço”.

O beijo quebrou a conversa que levavam. Sem rumo, a cabeça dele dava voltas na busca por um assunto, que parecia ser obrigatório. Quanto mais tempo passava mais sentia a necessidade de falar algo.

Não se tratava de um gênio, mas havia mais um pedido. Perguntou qual era. Sorrindo, ela levou os lábios próximos ao seu ouvido e disse que depois faria.

Beijos, cerveja e conversa se passaram e o bar ia fechando. Como quem não quer nada, garçons colocavam as cadeiras sobre as mesas. A empolgação trazida pela situação e pelo álcool fez com que ela o convidasse a ir até sua casa. Próxima, com cervejas e carona (sabe comé vida de estagiário né!?) a casa da chefe pareceu sedutora, tanto quanto a própria.

Sentaram-se no sofá e as cervejas lubrificavam a longa conversa ideológica. Não querendo parar o diálogo, pois isso poderia significar uma nova falta de assunto, segurou a urina mas não resistiu.
Ao lavar a mão olhou-se no espelho e sussurrou: “Aaaaaah muleke. Cê é foda hein!? Acabou de entrar no trampo e já tá pegando a chefe”.

Na volta não a encontrou na sala. Ela surgiu do corredor trajando apenas uma calcinha branca. Apesar da podridão interna tinha um belo corpo, que se revelava enquanto vinha em sua direção. Olhava-a sem reação. Sentou-se de frente em seu colo e quebrou com beijos a hipnose por ela mesma causada.

Pegou sua mão e o levou para o quarto. Tirou sua roupa. Ela controlava a situação como fosse a primeira vez de um virgem com alguém experiente (e talvez fosse). Com a voz baixa veio o terceiro pedido: “Me bate”.

O favor veio inicialmente com tapas tímidos até ela gritar: “Mais forte!”. Pegou sua mão e fez com que puxasse seu cabelo.

Puxou, bateu, xingou e agora ele quem ditava as ordens, assim como era o desejo dela: inverter os papéis, ser tratada com submissão, como cachorro(a).

No dia seguinte mal conseguia sentar. Estava realizada, mas jamais iria sorrir ou demonstrar isso no trabalho. Um mês depois Ale foi demitido. Nunca mais se viram. Um novo estagiário vem aí.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ligações

...desligou. Como se desligando fosse adiantar. Desligou por que percebeu que poderia ser verdade. Com a ilusão de que desligando a verdade se tornasse mentira. Desligou como quem bebe para esquecer-se dos problemas, que retornam acompanhados de ressaca.

Apoiou os cotovelos sobre a mesa e se pôs a raciocinar. Seria mesmo possível? Anos de confiança e amizade se foram em 30 segundos. Era possível!

Ligou os pontos de uma maneira tão simples quanto um jogo de crianças feito por um adulto. Mas até então não tinha visto os pontos.

A mulher estava sempre arrumada e também cansada. Não dava mais detalhes e nem desandava a falar como foi seu dia. Não o procurava mais e quando procurada fazia-se foragida.

Marques visitava cada vez mais a sua casa. Ficava cada vez menos no escritório. Tinha um tratamento dentário que nunca terminava. Quando ia à sua casa conversava mais com a mulher do que com o próprio Pita.


Depois que desligou o telefone desconectou-se do mundo. Ligou o automático. Calmamente saiu do trabalho. Os pontos já estavam ligados, mas precisava ir até o final para conferir a resposta.

Não teve pressa. Pegou o carro e foi. Lento, o trânsito não o preocupava. Seguia hipnotizado. Possuía uma arma, mas jamais pensou utilizá-la. Era uma herança. Iria entregá-la na campanha do desarmamento, mas acabou ficando. Poderia ser útil qualquer dia nos dias atuais. Colocou-a do lado da porta com naturalidade, como se depositasse ali um molho de chaves.


Não colocou o som no carro. Acendeu um cigarro e nem fumou. Só percebeu quando estava no final. Mesmo com o raciocínio já concluído, ficava religando os pontos. Religando, religando, religando.

BÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ...

Uma longa e alta buzina o desperta. Olha para o autor do despertar e percebe que o estava fechando.

“Mas é um corno mesmo!” grita o fechado.

Ele atira e o tira do mundo. Desliga-o.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Santa Ceia

Era um simples e inocente jantar com a minha senhora ou ao menos era pra ser. Não era um jantar romântico, era só pra comer mesmo (a comida). Eu acabava de sair faminto da labuta em um domingo de carnaval. Decidimos um lugar qualquer no caminho apenas para não acabar em pizza.

Comíamos, bebíamos e conversávamos de forma distraída. Eu degustava aquele pequeno pastel com bastante gordura, que mais tarde irá interromper minha vida, quando fui interrompido pela minha menina. “Eles estão orando?”.

Sim. Estavam orando. Uma família de cerca de 10 pessoas. Achei aquilo bonito. Sou ateu, mas fiquei realmente admirado. É realmente louvável agradecer pela comida que se tem, levando-se em consideração que muitos não a têm.

Lembrei do amigo e professor Victor Folquening, falecido recentemente. Certa vez, lecionando, disse: “Deus existe sim. Claro que Deus existe. Mas Deus é um cara que não trabalha no atacado, só no varejo! Por que, por exemplo, se tem uma tragédia imensa em que milhares de pessoas morrem e um só se salva, essa pessoa dá uma entrevista dizendo que Deus o salvou. Mas por que Deus não salvou todas aquelas outras pessoas?”. Essa é uma das muitas frases que mostram um pouco como era o Victor.

Fiquei pensando na religião, em especial a católica que conheço um pouco melhor. Acho que foi criada com uma ideia boa. Uma grande ideia. Mas, como quase tudo no mundo, o homem (esse grande filho da puta) estragou tudo.

De certa forma aquela família estava mantendo a boa ideia da religião (seja lá qual for a deles), levando ao público aquela escolha particular eles me deixaram refletindo. Refletindo sobre a religião e a comida.

Dia desses estava vendo uma entrevista com o Poeta Sérgio Vaz no programa Provocações. Antônio Abujamra perguntou ao poeta se as pessoas da periferia eram a favor da liberação do consumo de drogas, ao que poeta responde: “Primeiro eu queria que liberasse o arroz com feijão...depois as drogas mais pesadas: o bife, a salada. Eu queria ver a molecada muito louca de arroz com feijão”.

Ia saindo do restaurante quando a família começou a cantar parabéns. Não prestei a atenção, afinal, pensei que não havia nada demais. Quando ia saindo os ouvi cantando: “É benção, é benção, É benção, é benção, é benção. Eu oro, eu oro, Eu oro, eu oro, eu oro...”.

Cagaram com a poha toda!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Olhos

Ele a dominava. Ela simplesmente consentia, entregando-se com toda sua generosidade. Permitia que ele fizesse tudo que quisesse, mesmo que, na realidade nem a tocasse. O ato sexual ocorria apenas através do olhar.

Ele a devorava por meio da visão. Aquela imagem que chegava até sua retina e era transmitida pelo nervo óptico fazia com que, ao chegar ao cérebro, ele imaginasse situações em que ambos estariam de olhos fechados.

Ela percebeu. Era de certa forma recorrente aquela situação. Fingia não ver e às vezes até fazia poses para que o imaginário masculino fosse cada vez mais longe. Deixava com que olhassem, vissem, observassem, degustassem.

Ele queria ali mesmo beijá-la ferozmente. Arrancar sua roupa e domá-la com muita sede ao órgão. Com tanta vontade quanto um casal que depois de muito tempo volta a colocar seus corpos em encontro. Mas nada sai do imaginário, onde ficaria por muito tempo.

Aparentemente distraída até então, e após dominar aqueles olhos famintos, ela olha para ele com expressão de desprezo e vai embora.

Ele derrama uma lágrima. O gozo de quem come com os olhos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A prisão

A hora não passa. Esse tik tak me deixa louco. Repetitivo, como todos os dias, mas necessário. Sem o relógio não vejo quanto tempo passa realmente, apesar de parecer não passar.

O horário é uma das poucas conexões que tenho com o mundo externo. Lá e aqui o tempo real é o mesmo.

Grades nas janelas e a porta sempre fechada fazem com que muitas vezes não só o meu corpo esteja aqui, mas também meu pensamento. Não consigo pensar lá fora e sou obrigado a me ater aqui.

O carcereiro também deve passar por isso. Ele fica andando pelos corredores olhando aqui pra dentro enquanto nós olhamos lá pra fora. Somente quando estou próximo à janela é que deixo o pensamento sair.

Os demais prisioneiros também ficam como eu, com uma cara de nada. Expressando exatamente aquilo que fazem: nada.

Tanta gente com tanto tempo “disponível” que acabam usando todo esse tempo para esperar o tempo passar.

Demora, mas ele passa... BLÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉH...finalmente tocou o sinal!

É hora do recreio.