quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Brochei

Ela é a menina dos meus olhos. Meus desejos se resumem a ela. Não sei se é desejo, ambição ou paixão.

Já conquistei todas que quis, agora quero a ela e nada mais. E ela sabe disso. Já tentei outras vezes, várias, mas nada houve. Sem sucesso. Em algumas tentativas achei estar bem próximo, mas nos pênaltis ela me espalmou para escanteio. Mas não desisto. A quero acima de tudo e só descansarei depois de tê-la.

Chegar nela é difícil. Após vários fracassos tentar novamente é complicado. Além da minha própria expectativa ainda há aqueles que estão em volta torcendo pelo meu fracasso. Afinal, uma moça como ela é desejada por todos.

Consigo finalmente chegar. Eu, que sou simpático, desinibido e querido por muitos, mal consigo falar. Estou nervoso. Extremamente nervoso. Faltam-me assuntos. Ela não me dá muita moral. Praticamente monossilábica. Mesmo com os assuntos parecerem fugir, consigo improvisar algo. Falo sobre coisas nada a ver. Isso é ruim, mas bom, consigo arrancar algumas risadas dela.

Dedico tempo. Bastante. E dedicarei o que for necessário. Não vejo nada ao meu redor. Só ela. Eu e ela. A conversa se desenrola. Vai indo, aos trancos e barrancos, mas segue. O nervosismo continua. Por mais que já estejamos flertando não consigo me sentir totalmente à vontade.

Nesse tempo de jogo já estou pronto para o bote. Qualquer assunto que surja consigo uma brecha para sugerir um algo a mais. Ela sorri. Vejo que é necessária uma investida mais incisiva. Juntamente às sugestões de segunda intenção eu a abraço, beijo o rosto, pego na mão.

Numa dessas ela cedeu. Beijei-a. Não acredito. Meu estômago se revira chegando a produzir alguns barulhos estranhos que parecem arroto. Sigo na pegada. Beijo, conversa e carícia fazem com que, embora ainda presente, uma parcela de nervosismo desapareça.

Não sei como, mas acabamos na cama. Beijamos-nos ardentemente. Abraços e afagos acontecem, mas o nervosismo ressurge com imensa intensidade. Mesmo tendo-a, ela que sempre quis, não consigo me levantar. Meu pau não responde aos impulsos. Nenhum sinal. Fico ainda mais nervoso e menos excitado.

Nem chegamos a tirar a roupa. Ela percebeu e compreendeu a situação, ao menos aparentemente. Não sei se terei outra chance.

Merda! Não boto fé que desperdicei aquela oportunidade. Fracassei mais uma vez na minha tentativa em chegar até lá com ela. Caralho! Maldita expectativa. Maldito nervosismo. Se fosse outra teria ocorrido tudo naturalmente, como sempre. Mas juro que um dia a terei. Terei sim.

Não foi desta vez, mas um dia você será minha, libertadores.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A última cartada


Do desemprego já se iam quatro anos. Da entrada nas drogas dois. Do abandono da família um. Da namorada seis meses. E apenas uma hora da decisão.

Abandonado estava por todos. Pais, garota e amigos. Resolveu abandonar-se também. Abandonar a todos. Abandonar a vida.

Estava terminando a carta de despedida. Sabia que demoraria para alguém encontrar o corpo. Só a tiazinha de quem alugava o minúsculo apê sentiria sua falta. Sua não, da grana. Já estava com três meses de atraso e mais um vencimento se aproximava. Seria encontrado em putrefação. Por meio da carta justificava por que decidiu fazer com que uma bala estourasse seus miolos.

No início da despedida tomou um tom de revolta com todos que lhe viraram as costas. Com o desenvolver foi reconhecendo que todos tinham razão e colocava a culpa unicamente em si. No desfecho faria um pedido de desculpas.

Faria aquilo para buscar mais um refúgio. O último deles. Em sua visão era o que restava já que não tinha mais nenhum tostão e nenhum bem para vender e se esconder em uma lata. Lata esta que fez com que todos o virassem as costas. Primeiro foi a família, já cansada de lhe internar e ele voltar sem mudar nada. Depois os amigos e por último a namorada. Ela que sempre esteve ao seu lado, desde o início do desemprego, quando só pensava em curtir com o dinheiro dos pais, até alguns meses em que ele simplesmente sumiu e levo 
tudo consigo: tênis, roupas, tv...Mas não sabia que com os bens materiais acabou fumando também o coração da garota. Tudo transformado em pedra.

Com o último vintém comprou a 38. Assim como a bala faria, passou rapidamente pela sua cabeça a ideia de roubar, mas não faria isso. Mesmo tendo feito mal àqueles que mais amava, achava que fazia mal apenas para si.

Pronto. Ponto final na carta. Fumou o último Classic enquanto ouvia música no velho micro sistem que o traficante não havia aceito. Fechou os olhos. Engatilhou. Respirou e ao ouviu um trecho da música que tocava:

“É isso ai você não pode parar/ Esperar o tempo ruim vir te abraçar/ Acreditar que sonhar sempre é preciso/ É o que mantém os irmãos vivos”.

Respirou fundo mais uma vez e em algum lugar lá no fundo a música bateu. O seu sonho, voltar para a família e para a vida normal, o manteve vivo. Rasgou a carta. Desistiu de desistir.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Amigo secreto

Queria abrir rápido o bilhete. Abrir logo. Ver o nome de Maria Alice e acabar com aquela agonia provocada por ele mesmo. Ou não. Ver outro nome e ficar definitivamente com sua decepção. Mas nem pensava nisso, apesar de chance ser real, real e grande. Mas para ele era só Maria Alice. Era como estivessem fazendo amigo secreto só ele e ela.
Olhou para ela. Pensou nela com aquele sorriso, que mesmo sem o segundo pré molar superior era encantador. Ao menos para ele. Ele sabia que seus amigos não tinham a mesma opinião. Sempre que o assunto era “quem é a menina mais bonita da sala?” seus amigos apontavam Rosângela. Ele concordava, também dizia ser Rosângela, mas no seu íntimo, que preferia manter consigo, Maria Alice era a mais bonita da sala. Da sala, de todas as quintas séries e de todo o colégio. E de todo o mundo, afinal para ele o colégio e o mundo eram a mesma coisa.
Abriu devagarzinho, com as duas mãos próximas ao rosto. Viu a primeira letra, que era A. Os ombros, que estavam levantados repentinamente caíram com sua decepção. Depois disso abriu rapidamente. Leu e sorriu. Não estava escrito Maria Alice, como previa, mas apenas Alice. Olhou para ela novamente. Ela cochichava no ouvido das amigas quem havia pego no amigo “secreto”. Elas davam risadinha. Imaginou as amigas dando risinhos quando ela disse que também o havia pego. Mas será que elas estão rindo de maneira positiva ou negativa? Deixou pra lá. Não importavam as amigas. O que importava é que ele havia a pego e ela o pego.
No mesmo dia foi calado até o ponto de ônibus. Mesmo com os amigos fazendo algazarra ele nada dizia. Calado, com o pensamento longe. O pensamento já tinha ido embora, junto com Maria Alice e sua van escolar enquanto ele caminhava até o distante ponto de ônibus.
Ao anoitecer deitou-se na cama com um sorriso no rosto. As mãos atrás da cabeça e os olhos direcionados ao teto desenhando a imagem dele entregando o presente. Ela o abraça. E depois ela revela o seu amigo secreto. E um novo abraço. O ano já estava terminando. Ficariam sem se ver até a volta às aulas e naquele período lembrariam um do outro por meio dos presentes.
Presentes? É verdade. Ainda não havia pensado o que compraria. No outro dia iria até a lojinha de R$ 1,99 para ver o que daria. Iria insistir para que a mãe lhe desse mais dinheiro para poder comprar algo até mais caro que o preço máximo: R$ 4,99. Se fosse daqueles que comprasse lanche no recreio iria guardar dinheiro. Mas como comia todos os dias o lanche dado pela escola, com prato, colher e xícara de plástico azul da fundepar, continuou comendo do mesmo jeito.
No outro dia até deixou o desenho de lado para ir para a lojinha. Passou quase a manhã inteira vendo tudo o que tinha. A cada coisa que olhava imaginava-se presenteando Maria Alice. Acabou saindo de lá saiu sem saber o que daria. Queria dar tudo se pudesse.
No almoço contou para o pai e a mãe que tinha tirado Maria Alice e precisava comprar um presente. Pediu dinheiro, mas nenhum lhe deu. Disseram que até lá resolveriam.
O esperado dia chegou e se resolveram algo não o disseram. Acordou cedo. Era só pegar dinheiro com a mãe e iria até a loja. Perguntou a mãe se havia esquecido. Ela havia esquecido, mas não lhe disse. Disse que já havia comprado um presente. Na verdade era uma bugiganga que nunca usou. Foi até o armário e pegou um porta jóia. Colocou numa caixa, pegou um papel de presente embaixo do colchão e embrulhou.
O presente não era feio, mas ele queria ter comprado. Escolhido pensando em Maria Alice. Mas sabia que ela iria gostar, mesmo não tendo nenhuma jóia para guardar.
Ele já quis ser o primeiro. Queria os abraços e sorrisos de Maria Alice o quanto antes. Quem sabe ganhasse até um beijo. Fez sua descrição e veio o primeiro abraço. O sorriso também. Ela sorriu mesmo ele acreditando que o presente poderia ter sido comprado por ele e por meio do presente demonstraria que gostava dela. Isso não ocorreu, mas o sorriso veio, aquele sorriso vago (dentalmente) e encantado.
E veio a vez dela. Se a professora não mandasse ele nem sentaria, tamanha era a certeza de que ela também o tinha pego.
Estufou o peito e começou a descrição dele. O peito, o ego e seu coração de menino se murcharam quando percebeu que a descrição não era sua, mas de Xico. Aquele que era considerado pelas meninas o mais bonito da sala. E em Xico ela deu um beijo.
Ele ficou chateado e mais murcho ainda. O principal presente seria o beijo, mas se o presente desejado não veio a solução seria aguardar o outro presente. E fico aguardando. Aguardando até o final, quando descobriu que quem o pegou foi Eduardo, que faltou.
Voltou para casa sem beijo e sem presente nem de consolo.

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Peço perdão pela última vez no ano aos poucos mas fiéis leitores por ficar tanto tempo sem escrever.
Aproveito o espaço cedido por mim mesmo para divulgar outros trabalhos:

Matérias publicadas na última revista do Crea-PR:
Cidades Conectadas

Um tripé para o futuro

Coberturas para o site Rap Nacional:
Festival Multicultural na Cidade Zero Grau

Rael da Rima e Will Cafuso lançam CD e EP em Curitiba

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ladra de amigos

Era dia de celebração. Celebração da nossa amizade. Churrasco no parque com todo mundo junto pro aniversário do Caíque.
Tinha de tudo. Cerveja pra quem é de cerveja, vinho pra quem é de vinho, vodka pra quem é de vodka e até refrigerante pra quem é de refrigerante (ou seja, o filhinho do Marlon). Faltava apenas uma coisa, ou melhor, faltava apenas alguém, o Rick.
Ué, mas até o Régis ta aqui, como o Rick não tá? Eram daqueles que viviam juntos. Pergunto pra ele e recebo resposta negativa. Ninguém sabia onde estava.
Enfim...vamos curtir com quem tá aqui. A vida segue né, apesar de que se estiver faltando alguém o churras não é o mesmo.
De repente vejo um cara parecido com o Rick vindo ao longe, mas não era ele, por que estava com uma menina. Ele era um cara que jamais iria namorar. Era um pregador fiel da solteirice e sexo apenas por prazer, sem poha nenhuma de sentimentos. O tal cara se aproxima e confirmo, ele é ele. E quem será aquela menina? Ah, deve ser o peguinha desse final de semana.
Chega empolgado, com um largo sorriso. Dá um abraço apertado no primeiro que encontra. Depois de cumprimentá-lo apresenta a garota: olha, essa é minha namorada.
Por alguns milésimos todos param o que estão fazendo e aquela frase remexe nas entranhas de cada um. Passado o choque todos voltam ao que estavam fazendo, tentando agir naturalmente.
Mas aquilo não era nada natural. O Rick sabe, eu sei, todo mundo sabe e o Rick sabe que todo mundo sabe. Quando vem até mim cumprimento-o como amigos que não se vem há tempos. Comprimento a garota também, tentando ser simpático. Ela não demonstra o mesmo.
No decorrer do churrasco todos tentam puxar conversa com a tal da menina. Mas não adianta. Só com o Rick ela troca mais de seis palavras. Isso gera um espanto ainda maior em todos. O Rick ter uma namorada por mais de uma semana era uma raridade, ou melhor, o Rick comer a mesma menina por mais de uma semana era algo impensável até então.
Namorando! Foi isso que ele disse. Namorando! O Ricardo namorando. E o pior de tudo é que era uma guria daquele jeito. Toda metida, sem conversar com ninguém. Nem ele conversava com alguém além dela. Às 5h (da tarde) ele me estende mão. Estranho, mas retribuo. Ele diz “falô”. Aí é que penso, “caraí, neguin mudou mesmo”. Ele que costumava ser o primeiro a chegar e o último a sair. Não arredava o pé até que acabasse a última gota d’álcool ou alguém chamasse a polícia.
Tá. Tudo bem. Compreensível. Um dia a gente muda né, mas ninguém tava preparado pra uma mudança tão repentina. Ainda mais com uma menina daquelas.
Passadas algumas semanas ele levou-a ao bar. Agora ela falou um pouco mais, mas do jeito dela. Intrometida. Arrogante. Falava com ares de dona da verdade. Tentava impor sua opinião. Quando estávamos quase pedindo a conta ela diz “calmaê, tem mais uma rodada que eu vou pagar”. O Rick tentou convencê-la do contrário, argumentando que todo mundo ali estava rachando e o dinheiro contado da rapaziada não dava pra mais nada. Incisiva e pausadamente ela diz “Ricardo, eu vou pagar”.
Não sei por que, mas todos começaram a gostar dela. Assim decorreu um ano. Ela pagando cerveja, tirando o Rick do nosso convívio, chamando para as festas na sua casa com piscina, na sua casa na praia, na casa de chácara, na casa do car...linhos ela ia também, na casa de todos estava presente.
Conseguiu ser aceita. Acabamos nos conformando com o fato de o Rick ter virado uma pessoa totalmente diferente. Dado algum tempo terminaram. A cada vez que terminavam nós comemorávamos, mas eles sempre voltavam. Mas dessa vez era de verdade. Tínhamos uma certeza: o Rick continuaria sendo nosso amigo como sempre foi. Mas ela não. Ela não tinha nada a ver com a rapaziada. Outras ideias, outro padrão, tudo outro. Fútil, arrogante... Seria até difícil encontrá-la.
Para minha surpresa após o rompimento logo eu a encontrei. Não sei ao certo o que ela estava fazendo ali. Não era do feitio das pessoas como ela freqüentar locais como aquele. Eu estava com uma galera diferente da que ela conhecia e ela com algumas amigas, que por muito tempo acreditei não existirem. Era difícil alguém ser amigo dela.
Começamos a conversar mesmo eu tentando fingir que não a vi. A pauta do diálogo era impossível não ser o Rick. Creio que era a única coisa que tínhamos em comum. Dedicamos-nos muito tempo a filosofar sobre ele(s). Enquanto isso ela pagava cerveja. O papo até que tava legal, com ela pagando cerveja ali eu podia conversar a noite inteira. Paramos de falar sobre o Rick. Ficamos uns instantes sem assunto quando ela disse “Ah, vamos deixar o Ricardo pra lá. Vem prá cá o que o que é que tem? O que importa agora é que eu tô solteira. E você Beto, tá namorando?”. Percebi algo diferente naquele papo. Disse que também estava solteiro. Ela sem mais nem menos, acho que devido ao álcool, falou “sabe Beto, sempre tive uma pira em você. Não ta a fim de ir lá pra casa?”.
Refleti e resolvi recusar o convite e tratei de me arrancar dali o quanto antes. Meu pinto não é muito exigente, entra em qualquer buraco e não tem critérios muito bem definidos. Mas acima de tudo meu pinto tem seus princípios.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O(s) cachorro(s)

Ele fica sempre ali quietinho. Não late pra nada, não late pra ninguém. Às vezes parece nem estar ali, só olhando para o além. Sempre foi dócil e vive sem reclamar, sem rosnar. Sem protestar, sem nada.
Quando o chefe chega ele pula de alegria. Fica acordado durante o dia e pela noite repousa. Acorda sempre bem cedo. Quando chega um estranho ele tem medo. Até mesmo dos conhecidos.
Esse não morde e também não ladra. Pra brincar lhe jogam uma lata ou garrafa. Quando está faminto, ração. Vez em quando um pão. Ele é tão dócil e ninguém sabe a razão disso. Vai pro serviço e não se informa. Conhece a política, mas não a transforma. Nem mesmo no próximo dia 03 vai buscar a reforma.


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Com a devida autorização de mim mesmo, aproveito para divulgar meu trabalho como jornalista. Neste mês foi publicada uma matéria que escrevi para a revista do Crea-Pr. Para acessar clique Aqui.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Lágrimas

Cem anos. Cem anos de lágrimas, aperto no coração, agonia e ao final, alegria. Cem anos de raça, luta, suor, e lágrimas, sempre lágrimas.
Cem anos de uma história recheada de histórias. História cheia de lágrimas. Lágrimas cheias de tristeza e lágrimas cheias de alegria.
Lágrimas de tristeza derramadas ao longo de cada um dos 23 anos. Lágrimas de alegria derramadas ao acabar com o jejum em 7 segundos.
Lágrimas de alegria ao ver a massa invadir o Maracanã. Lágrimas de tristeza ao ver o título se esvair.
Lágrimas de alegria por um pênalti perdido na libertadores. Lágrimas de alegria por uma decisão por pênaltis no mundial.
Lágrimas de alegria por anos sem vencer o time do rei. Lágrimas de alegria por uma obra de arte pintada por Marcelinho, um majestoso gol feito no próprio filho do rei, e aplaudido em pé por vossa majestade.
Lágrimas de tristeza por um título perdido para meninos pedaladores. Lágrimas de alegria por 7 gols contra apenas um do adversário, com show do nosso argentino raçudo.
Lágrimas de tristeza ao disputar a série B. Lágrimas de alegria por subir com muita raça no ano seguinte.
Lágrimas pelos nossos craques, nossos doutores, nossos talismãs, nossos pés de anjo, nossos democráticos, nossos goleiros roqueiros e pegadores de pênalti, zagueiros precisos e de poucas faltas, laterais rápidos e fortes, volantes descontraídos e cabeludos, atacantes endiabrados, raçudos e fenomenais.
Jogadores que sempre nos proporcionaram lágrimas, algumas tristes, claro, todos os times passam por isso. Mas acima de tudo o time mais brasileiro nos proporcionou cem anos de lágrimas alegres acompanhadas de sorrisos. E com muito orgulho bato no peito e digo o que sou: Corinthiano, maloqueiro e sofredor. Graças a Deus!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mais um

Argumento sem contra argumento. Assim era o “diálogo” do casal brevemente antes do boa noite. Depois disso ela virava para o lado carregando consigo um pouco de raiva e muita decepção. No outro dia tudo voltava ao normal. Voltavam a ser o casal harmonioso que sempre foram.
Harmonia e alegria inclusive já haviam sido argumentos utilizados por ela para ter um filho. Mas nada adiantava, poderiam ser horas, minutos ou segundos que ela dedicava diariamente para tentar convencê-lo ou fazer com que ele ao menos compreendesse a razão de que deveriam ter uma criança. Ele respondia apenas “não, Marina”.
A principal razão dela para tal idéia é a de que deveriam dar uma continuação àquele relacionamento e principalmente um fruto resultante daquele amor.
Ela já pensara até que ele não a amava, mas a hipótese foi descartada. Seria impossível que Thomas não a amasse depois de tudo que viveram juntos. Conheceram-se ainda na faculdade, antes de ele desistir do curso. Após tempos de encontros de suposta amizade começaram a namorar. O namoro já se deu desde o primeiro beijo, ambos sabiam e sentiam que não seria apenas um. Mas 10 anos após o primeiro beijo e casados há cinco ele não queria realizar o sonho dela.
Era incansável sua determinação em tentar convencê-lo. Mais de um ano de tentativa e apenas não em cima de não. Ela já havia pensado até em ter um filho sem o consentimento do marido. Parar de tomar a pílula e pronto. Mas não. Não faria nada que o marido não quisesse, ainda mais sendo algo de tamanha importância.
Embora ela não desistisse ele se encheu de dizer todos os dias a mesma coisa e resolveu apresentar sua verdadeira razão:
- Marina, meu amor. Não posso colocar uma criança em mundo como esse. Mais uma criança. Mais uma criança que talvez tenha seus direitos violados. Mais uma criança neste mundo injusto. Mais uma criança que irá ver outras crianças e adultos passando fome. Mais uma criança sujeita a discriminar ou ser discriminada. Mais uma criança que talvez não tenha oportunidades de vida. Mais uma espectadora para ver pessoas sem teto ou sem terra. Mais um neste mundo bom habitado por gente ruim. Mais uma nesse mundo degradado. É impensável um fruto do nosso amor, tão puro em um mundo tão cheio de ódio.
Marina chorou, Thomas também. Dormiram abraçados como há tempos não ocorria. No outro dia tudo bem de novo. Sem problemas. Ao chegar em casa após o trabalho Thomas teve uma grande surpresa. Um agitado cachorro distraia sua mulher. Ele questionou o que era aquilo e ela calmamente respondeu:
- Você tinha razão amor. Não há sentido colocar mais um humano nesse mundo cão.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A vida é dura, e eu também tenho que ser

Despertei sem muita disposição hoje. Esse frio preguiçoso só me dá vontade de ficar na cama. Jamais imaginei que desenvolvendo um trabalho que gosto ficar na cama sozinho iria me atrair tanto. Ela me seduz. E eu aqui, abraçado com as cobertas já não luto muito para me desvencilhar. Não quero sair daqui nem pra tomar café. Quero ficar só com os olhos pra fora do edredom e eventualmente externar a mão para trocar de canal.

O pior é que já está chegando às 7h (19h na verdade) e preciso levantar. Preciso tomar banho, preciso comer, preciso me arrumar, preciso separar meu uniforme (ainda bem que não é muito) e o pior de tudo: hoje preciso depilar a bunda.

É necessário estar disposto e animado, ou pelo menos fingir. Queria ligar pro patrão e simplesmente dizer “não tô a fim”.

Mas preciso ir. Vou levantar. As clientes me aguardam, especialmente por que hoje é sábado. E eu que pensava ser mole, mas pelo contrário tenho que dar duro, e muito. Vida de gogo boy não é fácil. Vou levantar. O dever me chana.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Auto-escola

Lá pelos idos dos meus 18 anos resolvi tirar a carteira de motorista. Era meio chato ir para as aulas teóricas, mas por outro lado era muito divertido. Quando era para fazer os testes eu dava sonoras risadas na sala de aula e todos me olhavam com cara de “do que esse idiota está rindo?”.
Como estou prestes a renovar a carteira lembrei-me daquela época e direi a você nobre leitor por que diabos eu gargalhava na classe.
É simples. Nas questões havia alternativas simplesmente bizarras, que não sei por que diabos estavam lá, levando-se em consideração que as pessoas que fazem o teste teórico já passaram pelo psicotécnico. Eu lia as alternativas e ficava imaginando alguém realizando aquelas ações e reproduzo abaixo algumas delas. Se quiser reprovar e demorar mais um bocado fazendo auto-escola marque no seu teste as alternativas em maiúsculo:


Direção defensiva:

Praticar boas relações no trânsito é também:
a) CONVERSAR BASTANTE COM OS PASSAGEIROS.
b) CUMPRIMENTAR TODOS QUE ESTÃO NA VIA.
c) Respeitar o sinal vermelho.
d) Ceder sempre a sua vez aos outros.
e) Ser tolerante com os outros, colocando a segurança em primeiro lugar.

À noite ao ser ofuscado por faróis altos, o condutor deve:
a) FECHAR OS OLHOS.
b) Para no acostamento até o outro veículo passar.
c) DESVIAR PARA A ESQUERDA E SE ORIENTAR PELAS FAIXAS DO SOLO.
d) OLHAR PARA O OUTRO VEÍCULO E TAMBÉM LIGAR O FAROL ALTO.
e) Evitar olhar diretamente para a luz, orientando-se pela margem direita da via.

O procedimento correto na condução de um veículo, que demonstra respeito aos demais usuários da via, é:
a) Sinalizar com antecedência todas as manobras.
b) Estacionar sobre a calçada deixando espaço para os pedestres.
c) Dar preferência aos demais condutores em todos os cruzamentos.
d) Acionar o pisca-alerta sempre que parar em fila dupla.
e) BUZINAR SEMPRE QUE O PEDESTRE TENTAR ATRAVESSAR A VIA.

Ao receber um insulto no trânsito, o condutor deve:
a) Chamar um guarda, solicitando que multe o agressor.
b) LIGAR O RÁDIO BEM ALTO PARA MOSTRAR QUE NÃO SE IMPORTOU.
c) Manter a calma e não revidar, como maneira de evitar um conflito.
d) Anotar a placa do veículo para reclamações posteriores.
e) REVIDAR DEMONSTRANDO SUA IRRITAÇÃO.

O condutor deve adotar uma postura adequada, sendo:
a) AGRESSIVO E RÁPIDO.
b) DECIDIDO E AGRESSIVO.
c) CUIDADOSO E LIGEIRO.
d) Cuidadoso e atento.
e) CUIDADOSO E OUSADO.

O condutor, ao ser ultrapassado, deverá:
a) Reduzir bastante a velocidade.
b) PARAR O VEÍCULO E PERMITIR A ULTRAPASSAGEM.
c) AUMENTAR A VELOCIDADE.
d) BUZINAR PARA AVISAR QUE ESTÁ PERMITINDO A ULTRAPASSAGEM.
e) Facilitar a ultrapassagem.

A velocidade compatível com a segurança permite ao condutor:
a) FORÇAR A SAÍDA DO VEÍCULO QUE ESTIVER À SUA FRENTE PARA UM DOS LADOS DA VIA.
b) FREAR RAPIDAMENTE, SEM SE PREOCUPAR COM OS DEMAIS VEÍCULOS.
c) Perceber antecipadamente os riscos e agir prontamente para evitá-los ou controlá-los.
d) REALIZAR ULTRAPASSAGENS PELA DIREITA.
e) MANTER UMA CONVERSA ANIMADA COM OS PASSAGEIROS.

O limpador de pára-brisa não está vencendo a chuva forte. Nessa situação você:
a) CONTINUA O TRAJETO SEM SE PREOCUPAR.
b) ABRE AS JANELAS E PROSSEGUE O TRAJETO.
c) ACELERA MAIS PARA DISSIPAR OS PINGOS DE CHUVA.
d) LIGA OS FARÓIS ALTOS.
e) Para o veículo em local seguro e aguarda.

Primeiros socorros

O melhor local no corpo para se verificar a pulsação é:
a) NO PÉ.
b) No pescoço.
c) NA ARTÉRIA PULMONAR.
d) ATRÁS DO JOELHO.
e) EM ALGUMA VEIA SALIENTE.

A vítima que deverá receber primeiro os procedimentos de primeiros socorros, é a que estiver:
a) Gritando, com muita dor.
b) Sangrando muito.
c) Respirando com muita dificuldade.
d) XINGANDO, COM MUITAS AMEAÇAS.
e) Com muitas fraturas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os gêmeos

Douglas e Paulo tinham 25 anos, eram filhos da mesma mãe, do mesmo pai e moravam em Curitiba. As semelhanças entre eles eram praticamente estas. Além disso, quem não os conhecesse desde a infância jamais diria que eram gêmeos.
Viviam em universos distintos. Paulo não trabalhava, não estudava. Douglas não bebia, não fumava. Paulo só bebia, só fumava (entenda-se fumar tudo fumável, com exceção ao crack) e vivia rodeado de amigos. Douglas só trabalha, só estudava e nunca dava risada. Ao longo dos 25 anos a vida de ambos foi assim.
A rotina de Douglas era do trabalho para a aula e da aula para casa. A rotina de Paulo era de bar em bar. Quando questionado sobre suas pretensões para o futuro Paulo respondia que iria pedir mais uma cerveja. Douglas pensava apenas no futuro, construindo-o a cada dia. Emprego, dinheiro, família, carreira, etc...
Os pais questionavam por que Paulo não era como o irmão, e ele respondia com um largo sorriso “Não posso trabalhar agora. Tô ocupado curtindo a vida”. Essa era sua filosofia, curtir a vida a cada dia, a cada minuto, a cada instante.
Paulo hoje tem 75 anos e continua seguindo sua filosofia, pode ser encontrado pelos bares da vida, dos mais fuleiros aos mais sofisticados, desfrutando de uma certa herança.
Douglas faleceu uma semana antes de completar 26 anos em um acidente de carro. Partiu sem conhecer o gosto amargo da cerveja e o doce da vida.