terça-feira, 22 de abril de 2008

Dúvida conhecida

- Não conheço você de algum lugar?
Ela sabia que era uma pergunta idiota. É uma daquelas cantadas que entra no ranking das piores cantadas já inventadas. Mas não era uma cantada.
Era só uma pergunta. Uma simples e inocente pergunta.
Ela podia ser mal interpretada, também sabia disso. Mas não era só uma pergunta, nem só uma cantada, era um impulso.
Depois de 15 minutos olhando para ele, que estava ao seu lado no ponto de ônibus, parecia que ele o chamava a perguntar. Pensou incessantemente de onde o conhecia. Momentos pensava que o conhecia da infância. Momentos pensava que o conhecia há pouco. Mas sabia que conhecia. Vida passada talvez.
Cada característica que olhava parecia remeter a alguém que conhecia, alguém que gostava, alguém que talvez amasse.
Aquele olhar ela conhecia. A boca ela conhecia. As mãos ela conhecia. O jeito de balançar a cabeça ouvindo walkman ela conhecia. O cabelo ela conhecia. A cicatriz no canto da testa ela conhecia. Conhecia tudo. Mas não sabia de onde. Sabia que o conhecia em partes, mas não por completo.
Pensou perguntar antes, mas ficou com vergonha. Tinha certeza de que não podia perder a chance de perguntar.
O seu ônibus chegou. Tinha que ser agora.
Ela foi até ele com passos rápidos. A concentração de quem ouvia legião urbana (e ela sabia que era legião, só pela leitura labial), fez com que ele se assustasse e se irritasse quando ela o tocou. Mesmo assim, mostrou-se solicito, com olhar apreensivo e atencioso. O olhar deu a certeza a ela de que o conhecia, e mais segurança quando ela fez a pergunta, que ele honestamente respondeu:
- Não!
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