quarta-feira, 8 de junho de 2011
Infeliz felicidade
Antônio Maria
Sentia tudo, menos felicidade. Ódio acima de tudo.
Todos os trejeitos dele que antes adorava agora a traziam raiva. Cada piadinha sem graça fazia com que ela se sentisse aliviada por não estar com uma faca na mão.
Não agüentava mais, mesmo sendo o casal perfeito aos olhos e bocas alheios. Se aquilo era perfeição ela não a queria mais, queria apenas a felicidade.
Guardadas as proporções humanas, ele realmente era perfeito. Tudo aquilo que ela e outras buscam ali estava. Era gentil, educado, atencioso, a tratava bem e lhe dava carne na mesa e na cama.
Com relação ao sexo mantinha o mesmo vigor de sempre, mas ela não sentia mais atração.
Não pensava nem cobiçava outro. Simplesmente queria terminar. Mas não tinha nenhuma justificativa para fazer isso. Como uma criança mimada ao ter aquilo que sempre quis passou a não mais querer.
Certo dia pensou em falar e acabar com tudo definitivamente. Planejou o dia inteiro. E não é que o filho da puta me chega em casa sem mais nem menos com um buquê de flores. E daí ia falar como?
A infelicidade disfarçada se arrasta cada vez mais até se inverter. Sem mais nenhuma alternativa ela mata sua fome e sede de desgraça. Torna-se a desgraça ao se matar. Deixou um bilhete:
“Não era você. O problema era eu”.
Com lágrimas escorrendo ele pensa: “Será que se tivesse contado que chifrava ela isso não teria acontecido?”
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Corações partidos
- Quer um doce?
Ela com sua doce timidez apenas balançou a cabeça positivamente.
- Vem cá buscar.
Ela andava devagarzinho, com a velocidade que o tamanho de suas pernas, crescidas ao prazo de apenas quatro anos, permitiam.
A pegou e levou para dentro de casa. Na garagem entregou os doces. Ela tentou sair, mas ele a segurou e colocou no colo, “mas tem que comer aqui”.
Tinha pouca idade, mas na escuridão daquela garagem, naquele momento, passaram-se anos. Não apenas para ela, mas para muitas crianças. Ali perdeu uma parte da infância. Ele, em alguns instantes, perderia a vida.
Uma vizinha viu quando a menina entrou na casa. Não conseguiu avisar a mãe a tempo de evitar, mas avisou. Pegou uma grande faca, que amolara muitas vezes pensando nesta possibilidade. “Se aquele filho da puta chegar perto da minha filha...”.
Chegou à casa do homem. A filha chorava e antes que ele pudesse falar algo cravou a faca no meio do peito. Certeira no órgão que bombeava sangue para o corpo. Morreu antes de poder sentir a frieza da lâmina.
O dia das mães se aproximava e não pode celebrar como planejou, mas não se arrepende. “Se precisasse mataria de novo para que esse pedófilo não faça isso com mais nenhuma criança”.
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Texto tardiamente referente ao dia 18 de Maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Inspirado na matéria "Mãe de vítima mata a facadas estuprador da filha", do site Bem Paraná no dia 06/05.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
2 R$
Quando chegou logo começou a falar como se não percebesse que eu estava no mundo do meu fone ou até percebeu, mas falou mesmo assim, já esperando não ganhar aquilo que esperava.
Tirei calmamente o fone, lhe pedi desculpas e que repetisse. Veio o discurso. Na transição dos mundos fiquei meio atordoado e acabei por não ouvi-lo. Me desculpei novamente e pedi que repetisse. Desta vez falou com mais calma, me explicando e não simplesmente repetindo o que já disse milhares de vezes.
A história era a mesma, leite para os irmãos. Eu devia ter uns dois reais além da grana pro bonde. Mas seria real a história?
Poderia realmente haver muitos irmãos abrigados sem teto em algum local protegendo-se do frio que insistia em encontrá-los na brincadeira sem graça de esconde-esconde. Famintos, aguardando o irmão chegar com um sorriso e um leite.
Entretanto, poderia apanhar meu dinheiro e queimá-lo dentro de uma lata em um tempo inversamente proporcional ao que demorei a conquistá-lo. E o resultado seria uma viagem meteórica, rápida e intensa, que estaria lhe implorando para que em dez minutos ele embarcasse nela novamente.
Olhei nos olhos e, como não poderia deixar de ser, me imploravam. Mas pelo quê? Tirar do meu bolso leite ou pedra?
Peguei o dinheiro e dei-o tentando transferir não apenas a finança, mas também, por meio do olhar a minha crença de que seria para o alimento. Se fosse para outros fins meu olhar não adiantaria de nada.
E adiantou?
quinta-feira, 21 de abril de 2011
João do foda-se
O primeiro a receber um foda-se de bom dia foi o despertador. “Vai se foder. Vou dormir mais um pouco”. E o despertador logo tomou seu rumo, se fodeu ao encontrar a parede.
Naturalmente atrasado já planejava para onde encaminharia o patrão, mas não foi dessa vez, afinal mesmo atrasado o patrão ainda assim chegou depois dele. Ao chegar já foi pra cima de João todo esbaforido como sempre, cobrando coisas e dando-o cada vez mais, despejando trabalho em sua cabeça. Fosse apenas seu trabalho o chefe se safaria, mas o folgado há tempos se acostumou a dar para João o trabalho que seria seu, o que o deixava mais fodido e sem tempo para fazer o que realmente era da sua competência. Levantou-se e gesticulando disse, abrindo bem a boca, articulando sílaba por sílaba para que ficasse bem claro, um sonoro Vai-se-fo-der.
Com o chefe ainda atônito virou-lhe as costas e partiu rumo à lugar nenhum. Vagou com seu pensamento vago pela cidade e por uma tarde problema algum passou pela sua cabeça.
Foi até o bar tomar uma cerveja. Relaxou mais ainda. Tomava a cerveja devagar, sem preocupações.
O telefone toca, é a namorada. Ela reclama pelo fato de ele estar bebendo, como se não tivesse o direito. Mesmo tendo passado o final de semana juntos ela reclama que deveriam passar mais tempo. João aguarda calmamente ela terminar seu chilique diário e encerra a “conversa” com mais um “vai se foder”.
Ao pagar a cerveja ainda deixou um vai se foder para o amigo do bar acompanhado de um sorriso, que foi dado devido ao preço da cerveja.
Chegando em casa foi dormir relaxado. João continuava fodido, as contas não foram pagas, a vida fodida continuava a mesma. Mas se sentia muito melhor, retirando um peso de suas costas depois de mandar tudo para onde deveria ir.
terça-feira, 5 de abril de 2011
O encontro
Era ela. Ela que durante anos foi a mulher da sua vida. No imaginário, mas foi. Depois da faculdade nunca mais se viram e lá se iam cinco anos.
Ela também alimentara uma paixão por ele. Conversavam, saiam juntos, faziam trabalhos juntos e até o trabalho de conclusão de curso dividiram. Mas nada de concreto aconteceu. A timidez dela era ainda maior que a dele e creio que foi isso que impediu o romance. Mas agora estavam ali, mais maduros, frente a frente.
Ficou congelado por cerca de três segundos e após sorriso de ambos conseguiu dizer um empolgado oi. Abraçaram-se. “E aí o que está fazendo? Está indo aonde?”. A conversa seguiu o padrão do encontro com qualquer outro ex-colega. Mas não eram meros conhecidos.
A conversa fluiu e foram até um bar nas proximidades de onde se encontraram. Recordaram o passado e atualizaram o presente, exceto aquilo que ambos gostariam de saber: a situação conjugal.
Queriam aproveitar o momento, poderia ser único e decisivo. Após algumas cervejas ele criou coragem e conseguiu perguntar. Mas a resposta fez sua empolgação se esvair. Ela estava namorando. Aquilo demorou a ser processado. Apesar de ele também ter namorada, havia um sentimento possessivo de que ela não poderia ser de mais ninguém além dele, mesmo nunca tendo sido.
Ela também o questionou. Após a pergunta derradeira o clima não foi mais o mesmo. Ele tinha vontade de saber mais sobre o tal namorado, mas ficaria com tamanho ciúmes que preferiu não perguntar. A curiosidade dela foi mais forte. Quanto tempo, como, quando, quem. Perguntou.
Conversaram mais um pouco e apesar de ambos desejarem ficar mais tempo, muito mais, ele encontrou uma brecha para justificar que fossem embora. Pagaram a conta e despediram-se com um forte abraço. Trocaram telefones, apesar de saberem que jamais ligariam estando namorando, e foi cada um para seu lado.
Ao virarem-se o primeiro pensamento dele foi “merda”. Quatro passos adiante e ela o chama e diz:
- Bruno, eu te amo.
A breve raiva que sentia de si, por ter deixado seu amor escapar, foi amenizado. Assustado e arrepiado, disse:
- Eu também te amo Carlota.
Voltaram. Abraçaram-se novamente e foram embora. Cada qual para seu namoro.
segunda-feira, 28 de março de 2011
O menino Menino
O menino nasceu, mas ninguém sabia como chamar. O tempo era tanto pra trabalhar que nem tiveram como no nome pensar.
Sobrenome já tinha, Silva. Para a mãe era mais um para a filharada. Para o pai era sinônimo de festa animada, para comemorar seu primeiro.
Cachaça pra todo mundo por sua conta, pra comemorar a chegada do menino. A marvada entra e o hômi logo desmonta. Cai no choro.
A mãe não parece muito animada. Pra dar pra parteira não tinham nada. A conta no bar ia só na pendura. A sua vinda acabara um pouco com a amargura.
O menino encerrou a agonia, pois todo mundo sabe que criança que vinga não é todo dia.
A noite já calou, mas não sabem ainda como o menino se chamou. Na dúvida, assim mesmo ficou: Menino da Silva.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Complete
Substitua as palavras sublinhadas por uma das opções de palavras e dê uma nova versão para o velho ditado popular. Dê um novo sentido, crie um novo ditado ou quem sabe uma poesia com essa merda brincadeira.
Que atire a primeira | Pedra | Quem nunca | Errou |
Puta | Amou | ||
Ponta | Abortou | ||
Moeda | Furou | ||
Bala | Olhou | ||
Bíblia | Putou | ||
Garrafa | Deu | ||
Camisinha | Bebeu | ||
Bicicleta | Traiu | ||
Freira | Engravidou | ||
Pica | Rezou | ||
Bomba | Chupou | ||
Calcinha | Masturbou | ||
Bucha | Cheirou | ||
Vassoura | Matou | ||
Bola | Comeu | ||
Mulher | Roubou | ||
Bunda | Leu | ||
Faca | Fumou |
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
E o fenômeno parou...
Fenômeno
sm (gr phainómenon) 1 Qualquer manifestação ou aparição material ou espiritual. 2 Tudo o que pode ser percebido pelos sentidos ou pela consciência. 3 Fato de natureza moral ou social regido por leis especiais. 4 Tudo o que é raro e surpreendente. 5 Maravilha. 6 Pessoa que se distingue por algum dote extraordinário.
De acordo com as definições do dicionário Michaelis para a palavra fenômeno creio que “Tudo o que é raro e surpreendente”, “Maravilha” e “Pessoa que se distingue por algum dote extraordinário” são as que melhor definem Ronaldo, o fenômeno.
E o fenômeno parou... Após 18 anos de carreira profissional mostrando por que é um fenômeno, resolveu pendurar as chuteiras. Mas afinal, por que é um fenômeno? Vou tentar explicar.
Não é “apenas” por que é o maior artilheiro de todas as copas do mundo. Klose ainda pode alcançá-lo caso jogue a próxima copa. Não é “apenas” por que foi eleito o melhor jogador do mundo três vezes. Zidane também foi. Talvez Ronaldo seja um fenômeno por que somente o tempo conseguiu o parar.
Quantos de nós, não fenômenos, teriam parado ou desistido após a primeira cirurgia grave, quando ele jogava pela Inter? Duas vezes então? Quantos de nós não teríamos desistido ainda no início da carreira tendo que driblar uma infância pobre? Ronaldo enfrentou tudo isso (e muito mais) para se tornar o fenômeno.
Hoje, ao anunciar a despedida, revelou mais uma dificuldade que poucos sabiam. Um hipotireoidismo. O problema, segundo ele, era o que fazia com que tivesse dificuldades em emagrecer. Mais uma das muitas na carreira. Mas não seria esta ainda que o tiraria de campo.
Mesmo após descobrir o distúrbio e passar por mais uma dura cirurgia ele volta aos campos. E desta vez com a camisa do Corinthians. Eu, como corinthiano, sempre irei me orgulhar pelo fato de um dos maiores jogadores da história ter jogado pelo Corinthians. Digo isso não apenas por ser Corinthiano, mas também por ser um Ronaldiano. Ronaldo foi o melhor jogador que vi jogar. Jogar apenas não, levar alegria para quem o viu.
Sua passagem pelo Corinthians foi marcante. Dois títulos, paulista e copa do Brasil, e obviamente lances emocionantes. O primeiro gol contra o Palmeiras e na final contra o Santos são alguns que cito. Infelizmente a libertadores não veio enquanto ele estava jogando. Mas, isso foi apenas uma decepção em meio às muitas glórias. Na medida do possível (e talvez até do impossível) a carreira do fenômeno foi perfeita. A perfeição a serviço do Brasil, dos times pelos quais passou e a serviço do futebol.
Com o hipotireoidismo, e o consequente sobrepeso, vieram muitas críticas. Mesmo assim revelou isso apenas hoje, driblando mais uma vez a crítica e mantendo a alegria em jogar. Apesar das tristezas, como contusões e campeonatos não ganhos, a alegria foi o que permeou a carreira. Além de levá-la aos que o viam ele sempre jogou por estar feliz fazendo o que gostava. Alguns de seus lances, por vezes inexplicáveis, pareciam fáceis para ele, finalizados com um grande sorriso, enquanto alguns perguntavam: “Como foi possível?”.
Impossível explicar. Fenômenos são incríveis, inexplicáveis. Mas passam com o tempo. Passam, mas ficam na memória de quem viu e serão contados para quem não teve este grande privilégio.
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Observações:
- Vale conferir o texto sobre quando ele veio para o Corinthians: Fenomenal
- Não pretendia escrever sobre futebol, pois o último texto foi sobre o mesmo assunto, mas...não tinha como evitar né.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Brochei
Ela é a menina dos meus olhos. Meus desejos se resumem a ela. Não sei se é desejo, ambição ou paixão.
Já conquistei todas que quis, agora quero a ela e nada mais. E ela sabe disso. Já tentei outras vezes, várias, mas nada houve. Sem sucesso. Em algumas tentativas achei estar bem próximo, mas nos pênaltis ela me espalmou para escanteio. Mas não desisto. A quero acima de tudo e só descansarei depois de tê-la.
Chegar nela é difícil. Após vários fracassos tentar novamente é complicado. Além da minha própria expectativa ainda há aqueles que estão em volta torcendo pelo meu fracasso. Afinal, uma moça como ela é desejada por todos.
Consigo finalmente chegar. Eu, que sou simpático, desinibido e querido por muitos, mal consigo falar. Estou nervoso. Extremamente nervoso. Faltam-me assuntos. Ela não me dá muita moral. Praticamente monossilábica. Mesmo com os assuntos parecerem fugir, consigo improvisar algo. Falo sobre coisas nada a ver. Isso é ruim, mas bom, consigo arrancar algumas risadas dela.
Dedico tempo. Bastante. E dedicarei o que for necessário. Não vejo nada ao meu redor. Só ela. Eu e ela. A conversa se desenrola. Vai indo, aos trancos e barrancos, mas segue. O nervosismo continua. Por mais que já estejamos flertando não consigo me sentir totalmente à vontade.
Nesse tempo de jogo já estou pronto para o bote. Qualquer assunto que surja consigo uma brecha para sugerir um algo a mais. Ela sorri. Vejo que é necessária uma investida mais incisiva. Juntamente às sugestões de segunda intenção eu a abraço, beijo o rosto, pego na mão.
Numa dessas ela cedeu. Beijei-a. Não acredito. Meu estômago se revira chegando a produzir alguns barulhos estranhos que parecem arroto. Sigo na pegada. Beijo, conversa e carícia fazem com que, embora ainda presente, uma parcela de nervosismo desapareça.
Não sei como, mas acabamos na cama. Beijamos-nos ardentemente. Abraços e afagos acontecem, mas o nervosismo ressurge com imensa intensidade. Mesmo tendo-a, ela que sempre quis, não consigo me levantar. Meu pau não responde aos impulsos. Nenhum sinal. Fico ainda mais nervoso e menos excitado.
Nem chegamos a tirar a roupa. Ela percebeu e compreendeu a situação, ao menos aparentemente. Não sei se terei outra chance.
Merda! Não boto fé que desperdicei aquela oportunidade. Fracassei mais uma vez na minha tentativa em chegar até lá com ela. Caralho! Maldita expectativa. Maldito nervosismo. Se fosse outra teria ocorrido tudo naturalmente, como sempre. Mas juro que um dia a terei. Terei sim.
Não foi desta vez, mas um dia você será minha, libertadores.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
A última cartada
Do desemprego já se iam quatro anos. Da entrada nas drogas dois. Do abandono da família um. Da namorada seis meses. E apenas uma hora da decisão.
Abandonado estava por todos. Pais, garota e amigos. Resolveu abandonar-se também. Abandonar a todos. Abandonar a vida.
Estava terminando a carta de despedida. Sabia que demoraria para alguém encontrar o corpo. Só a tiazinha de quem alugava o minúsculo apê sentiria sua falta. Sua não, da grana. Já estava com três meses de atraso e mais um vencimento se aproximava. Seria encontrado em putrefação. Por meio da carta justificava por que decidiu fazer com que uma bala estourasse seus miolos.
No início da despedida tomou um tom de revolta com todos que lhe viraram as costas. Com o desenvolver foi reconhecendo que todos tinham razão e colocava a culpa unicamente em si. No desfecho faria um pedido de desculpas.
Faria aquilo para buscar mais um refúgio. O último deles. Em sua visão era o que restava já que não tinha mais nenhum tostão e nenhum bem para vender e se esconder em uma lata. Lata esta que fez com que todos o virassem as costas. Primeiro foi a família, já cansada de lhe internar e ele voltar sem mudar nada. Depois os amigos e por último a namorada. Ela que sempre esteve ao seu lado, desde o início do desemprego, quando só pensava em curtir com o dinheiro dos pais, até alguns meses em que ele simplesmente sumiu e levo tudo consigo: tênis, roupas, tv...Mas não sabia que com os bens materiais acabou fumando também o coração da garota. Tudo transformado em pedra.
Com o último vintém comprou a 38. Assim como a bala faria, passou rapidamente pela sua cabeça a ideia de roubar, mas não faria isso. Mesmo tendo feito mal àqueles que mais amava, achava que fazia mal apenas para si.
Pronto. Ponto final na carta. Fumou o último Classic enquanto ouvia música no velho micro sistem que o traficante não havia aceito. Fechou os olhos. Engatilhou. Respirou e ao ouviu um trecho da música que tocava:
“É isso ai você não pode parar/ Esperar o tempo ruim vir te abraçar/ Acreditar que sonhar sempre é preciso/ É o que mantém os irmãos vivos”.
Respirou fundo mais uma vez e em algum lugar lá no fundo a música bateu. O seu sonho, voltar para a família e para a vida normal, o manteve vivo. Rasgou a carta. Desistiu de desistir.