terça-feira, 14 de junho de 2011

Lembrança e lambança

A pequena calcinha de renda aparecia para quem quisesse ver. A rua era calma e ninguém passava ali àquela hora, no momento em que despreocupadamente fazia as unhas dos pés com as pernas abertas na suposta privacidade do quarto, no segundo andar.

Na casa do outro lado da rua um mocinho a observa por trás da cortina. Foi a primeira vez que viu uma calcinha. Assim, ao vivo, sem ser a da mãe ou da irmã. Estava deixando a infância para trás e chegava a pré-adolescência, apesar de já se considerar um adolescente completo e odiar quando alguém mais velho o chamava de criança.

Ela cuidava das unhas com muita atenção. Deveriam estar belas para exibir para todos e todas na faculdade. Já passara dos 18, portanto era considerada (ao menos legalmente) adulta, morava com os pais e não tinha preocupações financeiras, dedicava-se apenas à vaidade. E um pouco à faculdade.

Ele até se interessava por algumas meninas da escola, mas daquele momento em diante a vizinha, suas grossas coxas e sua pequena calcinha o conquistaram. Sua paixão passou a ser a mulher da janela.

Sentiu que alguém a olhava, seu olhar percorreu a rua e nada. Procurou o olho e encontrou. “Caralho. Não acredito que aquele piá de bosta tá olhando minha calcinha”. Fechou a cortina.
A alegria do menino foi breve, mas a cena ficou na sua memória por muito tempo. Depois disso, ficava cada vez mais tempo olhando para fora. A janela passou a atraí-lo mais do que os carrinhos.

Quase um ano após a pintura da cena em que pintava as unhas ele a viu vestindo apenas uma toalha enquanto ia buscar uma blusa no varal. Já havia beijado e estava próximo de perder a virgindade. A paixão e o tesão platônico voltaram com tudo.

Passado algum tempo ela se mudou, para tristeza dele. Os vizinhos disseram que a família foi morar em outra cidade, pois o pai arrumou trabalho por lá. Ele nunca mais a viu, mas ainda lembra-se dela vez em quando. Nunca a imaginou sendo mais velha. Eternamente ficou na sua memória daquele jeito, com as unhas bem feitas e a calcinha preta. E muitas, mas muitas vezes, imaginava-a sem ela.

Passados 30 anos ela ainda é inspiração e motivo para suas punhetas.
Postar um comentário