segunda-feira, 21 de julho de 2008

A corrida da resistência

Essa noite não consegui dormir direito. Não conseguia me mexer sem que alguma parte do meu corpo reclamasse. E pra piorar, não sei se era verdade, ou algum tipo de ilusão que a minha memória produziu, mas na hora que acordei ouvi lá fora: “Corre, corre, corre, corre”. A dor do meu corpo já tinha passado pra minha cabeça? Lembranças?
Por incrível que pareça, eu não estava sonhando com um jogo de futebol quando acordei com alguém anunciando “corre”, e o meu corpo não estava doido de tanto jogar bola.
A razão pela qual o corpo doía era de alguns cassetetes da Guarda Municipal que andaram deixando esse meu corpitcho roxo, e a palavra “corre” veio seguida de algumas bordoadas nas pernas.
Bem, melhor começar do começo né?
Sabadão rolou um luau maneiro ali no bosque do Saturno. Saca o Saturno? Pois bem, o Saturno é um conjunto habitacional que fica no bairro do São Braz. É um lugar bem suce. O bosque é um lugar cheio de árvore, como os bosques costumam ser. E eu fui até lá. Ia ter umas bandas de reggae tocando. O lance ia ser total maneiro. Reggae, fogueira, galera curtindo. Mas depois de 15 minutos que eu estava lá chegaram os homens da lei. Com lanternas na cara de todo mundo, gritando e botando a galera pra correr.
Nessa correria todos deixaram seus pertences pra trás, como mochilas, bicicletas, skates e afins.
Eu, o Guylherme Custódio, resolvi ir atrás de alguns pertences desse pessoal.
Quando estou quase entrando no bosque, o funcionário pago com o dinheiro do imposto que eu mesmo pago resolve me negar o direito de entrar em um local aberto:
- Você não pode entrar aqui?

-Por que não?
- Por que não.
- Mas o Bosque não é público?
- É sim. O bosque é público, mas também tem gente querendo dormir.
- Mas então se tem gente querendo dormir o Sr. não pode conversar educadamente?
Ele não me dá uma resposta verbal, mas física. Me dá com a ponta do cassete bem no peito seguido de um chute.
Tudo bem? Claro que não. Mas se soubesse que as coisas iriam piorar eu juraria que estava tudo bem.
Cinco minutos depois chegam mais duas viaturas, uma da Rotam e outra da Polícia Militar.
Aí os rapazotes da Guarda Municipal resolvem vir pra cima de mim, só por que agora estão acompanhados da sua turminha.
O moço de farda azul me pega pelos dread locks e me arrasta pelo cabelo por uns três metros, até a grade onde as outras pessoas que estavam no luau já estão encostados. Ele tira a arma e encosta na minha cabeça. Nesse momento fico morrendo de medo. Já pensou se por acidente aquela arma dispara na minha cabeça? Eu iria morrer somente por gostar de Luau, por ouvir reggae e por querer me divertir em um local público.
Felizmente, esse meu pensamento infeliz não se concretizou.
Mas aconteceram coisas que não foram nada boas.
O Guarda Municipal começou a me bater com o cassete na Panturilha e nas coxas, depois gritou na minha orelha: “Quero ver você se crescer agora seu bosta. Cresce. Creeesce. Seu bosta!”.
Fico quieto, tentando ao máximo apanhar sem demonstrar dor. Depois de muito me bater ele diz: “Agora corre. Corre. Eu quero ver você correr. Não para de correr”. Mesmo depois de ter levado várias bordoadas de cassetete na perna me esforço pra correr. Corro o máximo que posso. Até encontrar um grupo de pessoas, que como eu, não estava matando ninguém, não estava estuprando ninguém, não estava roubando ninguém e só queria se divertir, mas mesmo assim tiveram que fugir dos homens da lei, afinal, se divertir é contra a lei, pelo menos foi o que aprendi nesse sábado.
No momento em que encontro o grupo a polícia nos encontra. E pra variar. Quem é o perseguido da vez?
Eu. Um rapaz de sorte. Eu tenho tanta sorte, mas tanta sorte que eles nem me revistam. Só me batem. Me batem e depois dizem: “Eu já mandei você correr. Corre caralho”.
Chego no bar perto de casa. E adivinhe quem chega depois que eu? Ninguém mais ninguém menos do que os meus funcionários, aqueles pelos quais trabalho todo o mês para que me dêem segurança e ao invés disso me batem.
Felizmente, no bar eles não me encontram.
E aí fica por isso. O resultado parcial do que você e eu, cidadãos, pagamos pode ser visto abaixo.
A propósito: infelizmente não pude anotar o nome do meu empregado, para que eu desconte isso no final do mês. Mas anotei a placa do veículo. Será que adianta? Bem. Aí vai: ASA-4058.



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