quinta-feira, 4 de julho de 2013

Política familiar

Alceu chegou mais tarde naquela noite. Com sua ausência, Isabela e a pequena Júlia sentaram-se à mesa de jantar sem o patriarca. Chico, o cachorro, também fez sua refeição (toda família feliz tem um cachorro). O atraso era previsto. Ele avisara que chegaria mais tarde (todo infeliz trabalha mais que o necessário).

Sua chegada não foi tão festiva quanto o habitual. Ninguém foi recepcioná-lo. Isabela o cumprimentou sem se desviar da TV. Chico continuou deitado e apenas deu um olhar levantando a sobrancelha.

- O que aconteceu?

- Nada!

Naquele momento Alceu confirmou o que desconfiava. Alguma coisa aconteceu.

Foi até o quarto e viu na cama alguém se movimentando embaixo da coberta. Ao levantá-la viu o desesperado e reprimido choro de Júlia.

Sentou-se calmamente e deu um beijo na testa da menina, que sem perder tempo agarrou-lhe o pescoço.

Passado o pranto, ele transferiu a ela a pergunta feita à mulher, o que fez com que o choro recomeçasse.

Voltou para a sala.

- O que aconteceu, Isabela?

O cachorro saiu de perto e foi para o seu canto.

- O que aconteceu, Alceu? O que aconteceu? O que aconteceu é que a tua filha não quis jantar por que o pai dela não chegava.

- E ela tá chorando desse jeito por causa disso?

- Não. Ela tá chorando por que eu bati nela.

- Bateu nela, Isabela?

- Bati e bati mesmo.

- Por que fazer isso Isabela? Só por que ela não quis comer?

- Claro que não Alceu. Ela tava me desafiando. Me questionando.

- E você não sabe conversar? Ela é uma criança, Isabela.

- Purisso mesmo. Purisso que ela tem que me respeitar e fazer o que eu mando.

- E você não podia simplesmente explicar que eu vinha mais tarde?

- Eu tentei Alceu. Mas essa guria me questionava cada vez mais. Aí eu...

- ...Aí você bateu nela.

- É Alceu. Bati. E daí?

- E daí que não é assim que se educa uma criança e eu esperava que você soubesse disso. Como uma pessoa calma, educada, inteligente como você foi bater em uma criança?

- Alceu, você não tá vendo? Você não percebeu o que essa menina fez?

- Não.

- Alceu, a atitude dela tem influência político-partidária!

- Ah então tá certo. Tá justificado.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Adeus Guarda-chuva

Hoje perdi meu guarda-chuva.

Como provavelmente você não vai ler isso no dia em que escrevi, então imagine que o seu hoje é o meu hoje (28/05/13). E caso não more no mesmo lugar que eu imagine uma cidade em que chove muito. Vamos chamar esse lugar de Curitiba.

Pois bem, hoje perdi meu guarda-chuva. Mas não vou sentir sua falta. Odeio guarda-chuvas.

Se não está chovendo ele é um peso desnecessário. E se está, tenho que carregar aquele negócio molhado. Não dá pra colocar na mochila. Sou obrigado a colocá-lo no chão e esquecê-lo.

Prefiro usar aqueles guarda-chuvas enormes. Com eles é mais fácil furar os olhos dos desprotegidos, são mais difíceis de perder e se não estiver chovendo podem ser usados como uma bengala.

Há anos o guarda-chuva estava guardado sem guardar nenhuma chuva. Hoje, por motivos curitibanos, tive que levá-lo. Assim como eu, ele teve que sair do seu lugar aconchegante e ir para a cidade fria, molhada e escura.

O ex-meu pequeno e incômodo guarda-chuva não fará falta. Mas espero que ele encontre alguém.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Insuportável

Dormiam juntos, tomavam banho juntos, iam ao shopping juntos, assistiam TV juntos, comiam juntos à mesa...

Oscar fazia companhia para Jurema. Jurema fazia tudo para Oscar. Até festa de aniversário. Dizia que só faltava ele falar.

Na verdade Jurema tinha sorte de o cachorro não falar. Os falantes tinham o costume de abandoná-la.

O marido era um surdo-mudo que conseguiu suportá-la por seis dias não consecutivos.

Carlinhos, o filho mais novo, conseguiu fugir de casa aos três anos. Os outros cinco demoraram a conseguir escapar, pois sempre que estavam saindo ela iniciava uma conversa interminável.

Às vezes os filhos mandavam cartas, mas sem o endereço do remetente, pois temiam que ela fosse fazer uma visitinha.

Distraída por falar ao celular, foi atropelada. Só se livrou do coma por não conseguir ficar tanto tempo sem falar.

O único companheiro de Jurema era Oscar. Jamais se separavam. O Linguiça era carregado para todos os lugares e em alguns deles Jurema já tinha arrumado confusão pela sua presença. Para poder ir a esses locais ela o carregava dentro de uma mala com estrutura adaptada para Oscar, que já tinha viajado de ônibus de Porto Alegre a Curitiba dentro da mala.

O único lugar em que o cachorro não ia era ao médico, que tinha um olfato apurado e percebia Oscar mesmo dentro do canil portátil.

O doutor era conhecido por ser o médico com a letra mais bonita do Brasil. Até ganhou o troféu “Caligrafia Médica”. Depois que conheceu Jurema, aprendeu a escrever de forma rápida e incompreensível só para dispensá-la mais rápido.

Certo dia Jurema foi ao médico e deixou Oscar sozinho em casa.

Quando voltou ele estava pendurado no chuveiro com um cadarço amarrado ao pescoço.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Mudança radical

Respirou fundo, segurou e soltou aquela velha vida.

Não viveria mais daquele jeito. Aquele tempo poderia ser mais bem aproveitado. Não só aquele, mas toda inútil perca de tempo.

Deveria arriscar mais. Divertir-se mais. Sorrir mais. Respirar mais. Olhar mais para frente e menos para o celular.

Não seria mais tão sistemático. Não iria mais se programar tanto para fazer simples tarefas. Não iria mais viver pré-ocupado. Iria simplesmente viver.

Aquela velha vida acabou. Mudaria a partir daquele momento.

Fechou os olhos e tirou o pen drive sem ejetar.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Má ré

Olhando para o céu, penso o quanto minha vida mudou depois que me livrei dela.

Tudo parecia piorar quando ela estava por perto. Ela era um aspirador obscuro, que eficientemente roubava todas minhas energias positivas.

Fui burro ao tentar levar aquilo a sério. Jamais poderia dar certo um relacionamento com uma pessoa que conheci após ter batido no meu carro.

Para momentos como aquele acumulei um arsenal de palavrões, que agora enriqueço cada vez mais. Teria o disparado, mas quando fui abrir a porta do carro ela já estava na janela chorando e pedindo desculpas. Não consegui dizer nada e ainda assumi a culpa.

- Bati o carro, amor. Vou chegar tarde – O pretexto parecia perfeito. Não era uma mentira, mas não foi o único motivo para ter chego 3h da madrugada. Fui ao motel com a mulher que bateu no meu carro.

Em uma única noite bati (e paguei) o carro, meu casamento acabou e fui ao motel (e paguei também) onde brochei pela primeira vez.

Depois que me separei ela e seu azar me faziam companhia frequente.

Minha saúde de ferro enferrujou. Passei a beber cada vez mais e a usar drogas depois que ela trouxe cocaína “só pra gente se divertir um pouco”. Até o meu time, o invencível Barcelona, passou a perder.

Quando percebi o revés tentei evitá-la, mas era inevitável. Mudei do meu quartinho de solteiro, mudei meu telefone e mudei de emprego. Melhor, perdi meu emprego.

Quando eu esboçava um sorriso ela surgia do chão para roubá-lo. Mercado, bar, médico, cinema, teatro...Ela parecia aquele e-mail com um slide idiota em que você se concentra e de repente aparece um demônio gritando em sua caixa de som.

Acreditei que me mudando para um cidade de 2.000 quilômetros de distância eu estaria livre, mas lá estava ela. Foi aí que concluí que não haveria outro jeito. Tive que matá-la.

Depois disso, minha vida finalmente melhorou. Muito. Penso isso mesmo que esteja olhando para o céu pela janela da minha cela enquanto outro detento me açoita.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Flashes

Flash nº 16

Já eram 4h e eu ainda estava lá. Mesmo tendo que estar no trabalho às 8h. Aquele inferninho no centro da cidade era o único lugar aberto àquela hora. Estávamos completamente bêbados, mas não inanimados.

Jamais imaginei que entraria naquilo, mesmo quando passava por ali de dia.

Os meus dois amigos eram frequentadores do local, cumprimentavam o garçom e o porteiro pelo nome e conheciam outros presentes.

Flash nº 15

Homens e mulheres bêbados dançavam no salão. Deveria ter umas 40 pessoas ali. Bolas e tacos abandonados na mesa de sinuca. Casais aparentemente recém-formados ficavam em cantos mal iluminados. Mesas serviam de camas improvisadas para os alcoolicamente sonolentos.

Ficar encostado no balcão me pareceu o ponto mais seguro. Tomava uma cerveja enquanto olhava para os meus amigos, que dançavam sorridentes com duas meninas. Feias. Lazarentas de feias.

Dançavam e me olhavam. Exibir aquelas moças de poucos dentes parecia divertido.

Flash nº 9

Vinha sorrindo em minha direção. Pensei em sair, ir até o banheiro. Mas continuei ali. A aproximadamente um metro a reconheci.

Flash nº 13

O dia já clareava quando entramos em um daqueles motéis do centro. O cara da recepção a confundiu com uma puta, mesmo nunca tendo a visto ali (?). Não nos incomodamos com o pulgueiro. Pagamos R$ 25.

Flash nº 10

Tinha o cabelo volumoso e era corpulenta. Deveria estar com uns 50 anos. Eu, 20. Tinha um vestido preto um pouco acima do joelho, que revelava suas formas. O seu olhar permanecia misterioso e penetrante.

Flash nº 14

Olhava para aquela imensa bunda e até me abaixei para tentar ver sua calcinha enquanto subia as escadas. Mesmo sabendo que dentro de alguns instantes poderia ver tudo o que queria. Pura molecagem.

Flash nº 1

Acordei com o gosto salgado daquela tenra buceta.

Olhei para aquele corpo ao meu lado e lembrei que um dia aquele fora um belo corpo. O observava muito durante a infância. Olhava com detalhes durante o dia para me masturbar de noite. Jamais transaria com uma mulher daquela, se não fosse ela a mãe de um amigo de infância. Pude sentir o gosto que não tive quando criança.

terça-feira, 5 de março de 2013

É namoro ou amizade?

Eram adolescentes que achavam ser adultos e tinham um coração de criança. Amavam-se do amor mais puro.

Em pleno fervor da adolescência, sedentos pela carne, ainda assim preferiam o amor.

Sem segundas intenções beijavam e abraçavam-se com freqüência. Conversavam pessoalmente, por e-mail, chat, SMS e todas as plataformas disponíveis. O assunto era inesgotável.

Na escola sentavam lado a lado. Por conversarem demais os professores eram obrigados a pedir que ficassem quietos. Para garantir que a aula ocorresse bem, alguns professores colocavam um em cada extremo da sala antes mesmo da aula começar.

Quanto mais juntos ficavam, mais juntos queriam estar. Até a distância os aproximava.

Embora ela quisesse namorar, ele tinha a consciência de que iria estragar aquele amor. A amava tanto que não queria machucá-la. Desde jovem já sabia que os homens sempre machucam as mulheres.

Coube a outro homem machucá-la.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Um amor para recordar

Nunca vou esquecer aquela noite.

Estávamos com uma vontade excessiva. Não sei se pelo que tomamos, pelo tempo que não transávamos ou pela animação natural que se tem em fazer sexo.

Nunca vou esquecer o jeito que ela subia e descia. Além do tato, invocava o prazer pela visão. Me dava ainda mais tesão observar aquele corpo e o desejo era completo quando ela me olhava nos olhos.

Enquanto seus seios siliconados pareciam não se mover, seu piercing não parava. De sua cintura fina seu corpo alargava-se para o quadril até chegar a suas grossas coxas, que se contraiam quando ela subia até quase tirar a cabeça. Soltando o peso do corpo ela ia rapidamente do topo à base do meu pênis.

A empolgação extrema durou até o momento em que ela subiu demais, desencaixou, sentou em cima e quebrou o meu pau.

Que noite inesquecível.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Gato perdido

Perdi meu gato na última semana de dezembro. Estou desesperado!

Ele atende pelo nome de “Gato”. Na tarde em que ele se perdeu mandei que fosse comprar cigarro para nós (um Malboro Light para mim e um Vermelho para ele). Gato é totalmente preto e no dia em que sumiu trajava apenas botas.

Apesar de saber se cuidar muito bem estou muito preocupado com o Gato, afinal, de suas sete vidas ele contabilizava apenas uma no dia de seu sumiço. Além do mais, ele levou meu cartão de crédito.

É comum encontrá-lo pelos bares da região do hemisfério Sul acompanhado de meia-dúzia de gatos pingados que costumam falar alto quando estão miando de bêbados.

Gostaria muito de colocar uma foto dele aqui, mas ele sempre foi tímido e nunca deixou que o fotografassem.

No carnaval dizem tê-lo visto pagando uma cerveja para um gringo no Rio de Janeiro.

Se alguém o ver, por favor, me bipa.

COMPARTILHEM!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Perfeição limitada

Nunca brigavam, parecia ser o casal perfeito. E era.

Jamais foram vistos discutindo ou brigando. Expressões de alegria e demonstrações de carinho eram percebidos de longe.

A lógica era simples, quando não queriam se ver não se viam. Se um dos dois queria ficar sozinho ou com os amigos era só avisar e estava tudo resolvido. Sem crise.

Não existia obrigação alguma. Às vezes ficavam até um mês sem se ver e nem por isso a paixão diminuía, pelo contrário.

Estavam um ano juntos nesse ritmo. Frequentavam a casa e conheciam a família um do outro. Se falavam todos os dias e jamais houve uma traição. Apesar da aparência não namoravam. Nunca houve um pedido, simplesmente foi rolando.

Ele, com sua obsessão pelo formalismo, a pediu em namoro. A aceitação era inevitável.

Inevitável também foi o sentimento de posse que emergiu em ambos. A alegria se foi.

Tudo que é bom um dia acaba.