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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Calor abundante

Dia desses vi uma cena incrível. E não fui só eu. Meu amigo, carinhosamente apelidado de Feio, também presenciou a cena.

Vimos o sol em Curitiba.

Isto pode parecer comum, mas não é. Vivemos na capital brasileira onde menos fez sol em 2013. Assim sendo, a aparição constante do astro rei já é um fato absurdo.

Esse calor avassalador das últimas semanas pegou os curitibanos de calças curtas e neste quesito sou privilegiado. Posso, ou ao menos acho que posso, trabalhar de bermudas. Quando vejo alguém trajando terno e gravata sinto vontade de lhe dar um solidário abraço. Mas, sou curitibano. Então finjo que não vi.

O uso da querida bermuda em ambientes de trabalho tem chamado atenção aqui neste país tropical abençoado por Deus. Apoio a medida, desde que não se aplique a defuntos recém-morridos. Trabalhar de bermuda tudo bem, mas bater as botas de chinelo seria informalidade demais.

Enquanto os homens ainda lutam por esse direito as mulheres podem livremente caminhar com seus decotes, vestidos, saias e shorts. Diante da proibição do uso de bermuda no prédio do Centro Administrativo do Estado do Rio de Janeiro um funcionário conseguiu brasileiramente driblar a lei. Foi trabalhar de vestido. Simples assim.

Mas, o que eu e o Feio vimos não foi apenas o sol, que nos obriga a usar roupas curtas. Nós vimos a lua. Branca e com suas diversas crateras. 

O dia em que tivemos essa visão foi o mesmo em que um homem andou nu pela XV, esta rua onde agora as pessoas andam pelas beiradas para tentar pegar um pouco da sombra das marquises e não mais para escapar do temível palhaço-imitador.

Estávamos eu e o Feio sentados em frente à loja onde o Felipe (Vulgo: Torre Negra) trabalha. Esperávamos o Torre sair para tomarmos a merecida gelada de sexta-feira.

Eis que surge a lua.

Passa por nós uma imensa bunda. Desnuda. Branca. Sem sequer uma calcinha para apará-la.

Eu e o Feio nos solidarizamos com a moça que teve a sua saia presa na bolsa e agora exibia suas nádegas para quem quisesse e não quisesse ver.

Tentamos avisar a pobre. Ela estava quase chegando à Praça Tiradentes, onde passaria por pontos de ônibus lotados e atrairia olhares muito menos caridosos que os nossos. O Feio gritou, em vão, tentando salvá-la. 

Logo atrás dela havia um casal que nada disse. Talvez o homem se calou por que sua namorada poderia concluir que ele olhava para a bunda e isso desencadearia um ataque de ciúmes.

Já a senhorita do casal pode ter visto, mas também não disse nada por que o rapaz que se fazia de cego poderia deixar de fingir e ver tudo de uma vez.

Mas, especulações a parte, o fato é que nem o casal, nem ninguém, a alertou.
E a branca bunda desprotegida seguia rumo à Tiradentes.

Antes da tragédia anunciada um sinaleiro a salvou.

Ao parar na esquina ela percebeu o acontecido. Abaixou a saia e partiu.

O feio e eu vibramos e nos abraçamos aliviados.

Sem dúvida o mundo precisa de mais pessoas como eu e o Feio, ou ao menos as meninas de saias levantadas precisam.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O efeito do beijo

Parecia apenas a entrada, mas não. O bar era aquilo ali mesmo. Um corredor com um balcão. “Perfeito” pensou. Sentou no banco e pediu um whisky e guaraná (não tinha tanto R$ pra energético) para o garçom, para o atendente na verdade, geralmente garçons vão até a mesa e lá nem mesa tinha.
Quando a bebida veio ele fez uma mistura desproporcional. Forte. Assim ele queria que fosse a noite. Só ele e a forte bebida. Queria beber para esquecer. Esquecer do trabalho, da chateação da família, da namorada, da preocupação das contas ou de como seria ter que esperar o madrugueiro para ir pra casa.
Termina a primeira dose e o celular toca. Um amigo. Um grande amigo. Não atende. Se atendesse o parceiro iria falar todo animado: “E aí Celso beleza cara? Vamos fazer alguma hoje?”. Mas só de imaginar a empolgação já sentia um pouco de raiva.
Pede mais uma. Um rapaz ao lado tenta puxar conversa. Por incrível que pareça nem sobre futebol ele queria falar. Para encurtar o diálogo/monólogo ele fala de maneira monossilábica. Quando o coxa-branca ao lado dá uma brecha ele vira o rosto e começa a acompanhar Jim Morrison. Tocava Riders on the Storm. Ele canta alto, mais alto que Jim. O torcedor futuro segunda divisão tenta falar, mas a cantoria encerra a conversa de vez.
O álcool vai fazendo efeito. A velocidade com que toma é diretamente proporcional do quão rápido fica bêbado. A raiva e o desejo de esquecimento vão dando lugar a uma eminente carência. Sente vontade de conversar com alguém. Mas não com o amigo que queria ir para a balada ou com um comentarista de futebol que não sabe nem sequer torcer.
Quando pede a quarta dose surge um alguém conhecido. “Mais inconveniente. Uma inconveniente desta vez”. Sem mais nem menos surge naquele bar esfumaçado uma amiga da sua namorada. Teria que falar com quem e sobre o que menos queria.
- E aí Celsinho. Tudo bom?
- Tudo e aí?
- Tudo certinho também. E a Amanda?
Ele demora a responder. Hesita.
- Bem...
- Já entendi.
Celso e Janaína nunca tinham conversado muito. Na sua visão era apenas a amiga de sua namorada. Ex-namorada.
Nunca imaginou que ela era tão legal. Sempre a achou bonita, mas muito fútil. Mas no decorrer da conversa (e do whisky) percebeu que poderia ser sua amiga também. E talvez até mais que isso. A esta altura a conversa já ia para outro rumo. Parecia(m) querer algo.
Foi ao banheiro. Olhou-se no espelho e conversou com ele. Celso e seu reflexo chegaram à conclusão que não poderiam ficar com Janaína. Era amiga da sua namorada, que ele ainda gostava.
Ele volta e a conversa continua. Enquanto ela falava sobre sabe-se lá o que ele pensava que talvez fosse melhor ter comprado logo uma garrafa inteira de whisky. Retorna ao diálogo, que seguia legal.
Sentiu-se à vontade para falar sobre o relacionamento. Revelou a causa do término e como se sentia, mas não disse que queria voltar com ela e nem que ainda gostava da ex. Falou em tom de revolta. Janaína então revelou que também havia brigado com a amiga algumas horas antes de chegar ao bar.
Sua cabeça pensa logo em ficar com a recente amiga. Lembra da conversa com o espelho, mas pensa “não estou mais com ela e elas brigaram. Então... suce”.
Pensando no futuro próximo ele pergunta:
- E aí? E aquele cara que você tava ficando?
Ela responde que não está mais com o rapaz em questão. Os dois sorriem. Por cerca de 15 segundos um sorri para o outro olhando-se hora para os olhos hora para os lábios. Um sorriso malandro e um olhar de desejo.
Aproximam-se e o beijo acontece.
Sente um gosto de vingança. Inevitável não pensar na ex. Inevitável não pensar na momentânea. Fica excitado como a muito não ficava com um beijo. Ela beija firme. Com desejo. A língua vai fundo. Ele começa a ficar tonto. Tenta encerrar o beijo por ali, mas ela o abraça com mais força. A tontura aumenta. Ela enfia a língua na garganta.
E ele vomita nela inteira.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

"Isso nunca aconteceu comigo antes"

- Isso nunca aconteceu comigo antes.
Disse ele morrendo de vergonha. Ela tenta ser compreensiva:
- Calma, vamos tentar de novo.
Ele tenta e nada. Passa daqui, aperta dali e não funciona. Ele estava cansado e a esta altura queria ir logo embora.
- Mas e agora que eu já usei os serviços?
- Calma. A gente dá um jeito. Vamos tentar de novo.
Mais uma falha. Ela tenta aconselhar:
- Acontece com todo mundo. Aqui tem acontecido direto.
- É culpa da minha mulher, que fica gastando dinheiro à toa e não sobra pra pagar as contas. Isso vem tirando meu sono.
Responde ele impaciente enquanto ela o olha com certo ar irônico. Ele continua falando:
- Calma. Eu vou te pagar de alguma forma.
Ficam alguns instantes em silêncio olhando um para o outro.
- Paga no crédito então já que no débito não tá passando.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mas... (final alternativo)

Ele não sabe se arrisca ou deixa para a próxima vez.
Mas e se não tiver próxima vez? Melhor arriscar.
Mas e se tomar um tapa na cara? Melhor não arriscar.
Mas e se ela não estiver tão bêbada no próximo encontro e perceber a grande burrada que cometeu? Melhor arriscar.
Mas e se ela estiver afim de algo mais sério e ele jogar fora as chances? Melhor não arriscar.
Mas...ah, que mulher aceita dormir na casa do homem e não vai querer nada? Melhor arriscar.
Mas ela se fez tanto de difícil até agora. Melhor não arriscar.
A dúvida povoa sua cabeça, ou melhor, suas cabeças. Ele não sabe com qual delas pensar. A vontade de arriscar a aproximação é grande, levando-se em consideração o tempo em que estava na seca. Se conseguisse seria maravilhoso. Ele queria e até certo ponto precisava daquilo. Seria a conclusão do ato a que ele se dispôs quando decidiu conversar com ela. Foi a primeira coisa que pensou quando a viu dançando. Aquele quadril balançando na pista, mesmo entre muitos outros foi o daquela moça que o chamou mais a atenção. E agora o seu sonho de consumo (ao menos naquela noite) estava ali, só ele, há poucos palmos de distância. Mas...
Por outro lado, percebeu que ela não era apenas um sonho de consumo noturno. Aquela menina era especial. Ela era realmente interessante, não só fisicamente. Ela era inteligente. Era simpática. Seria até um pecado usá-la daquele jeito. Ela não era daquelas para uma noite e nada mais. Valia a pena um investimento. E uma tentativa falha poderia jogar por água abaixo tudo o que poderia acontecer no futuro. Mas...
Mas ele resolveu seguir a filosofia que vinha seguindo nos últimos meses: a filosofia do foda-se. Influenciado pelo álcool ele decide arriscar. Arriscar não, conseguir. Estava realmente decidido.
Ele se aproxima e a abraça. Ela se aconchega em seus braços, isso serve de grande estímulo. Ele segue em frente seu plano. Dá um beijo atrás da orelha. Ela dá um sorriso safado. O aval foi cedido. Mão por baixo da blusa. Barriguinha. Seios. Faz uma longa prévia até que resolve colocar a mão por dentro das calças. Seguindo o caminho indicado pelos pêlos que partiam do umbigo chegou aos pêlos pubianos. Devarinho. Quando estava quase chegando lá a voz que até então era delicada se torna grossa e exclama:
- Tira a mão daê rapá.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Da sério O Rei da Gafe: Ráááááá

No nosso último episódio (cacete, quanto tempo): Mensagem errada, na hora errada, pra pessoa errada, enfim, todo errado.
Hoje: “O cara” dá um susto mal sucedido na pessoa inapropriada.

Sim amigos, nosso super-herói estava desaparecido, mas quando a necessidade pede ele surge com sua imensa cara de pau e sua capacidade de ficar com a face corada em questão de segundos. E mais uma vez o ambiente de trabalho é o palco de suas aventuras.
A sexta-feira estava ensolarada e todos foram trabalhar com a faceirice estampada na cara. Risadas, piadas e animação ditavam o ritmo de trabalho eis que surge a frustração. A chefe, que não desfrutava da mesma alegria, como um cachorro vira-lata chega, dá uma grande mijada e vai embora. Vai embora e a alegria...Não volta mais. Nem a vontade de trabalhar.
Ao longo do dia a enrolação toma conta do ambiente. Duas horas de almoço invés de meia hora. As risadas prosseguiam, mas com um tom de frustração. Também, depois daquela comida de rabo o dia não podia prosseguir naturalmente. Mas ele, o grande, surge para salvar o dia, o final de semana, e devolver o sorriso às carinhas tristes.
Há meia hora para o término do expediente o trabalho é intenso. Intenso mesmo. Como enrolaram o dia inteiro a última meia hora ficou sobrecarregada. Ele e outros três amigos ouvem alguém subindo pelas escadas de madeira. Um deles olha pela janela, abre os braços e faz uma cara de dúvida. Fica por isso.
Todos entranham o fato de a pessoa não ter entrado na sala em que estavam. O intruso fica mexendo na biblioteca, o que dificilmente acontecia sem que falassem com quem lá estava. Nosso paladino estufa o peito e decide averiguar quem era. Melhor: resolve assustar o funcionário que chegou lá e não falou nada. Ele abre a porta rapidamente e grita: “Ráááááá”.
O resultado é inesperado. O susto é maior nele do que no suposto assustado, pessoa esta que ele acreditava ser um funcionário, mas era um visitante desconhecido. A pessoa sentada há cinco metros de distância olha pra ele como quem diz: “O que esse idiota tá fazendo?”. Ele também desfruta do mesmo pensamento quando é questionado por um dos colegas:
- Fogo, o que foi isso?
Ele não soube responder. Passada a meia hora restante de trabalho ele vai embora e envergonhado se desculpa com a visita, que foi embora no dia posterior para Manaus-AM e nunca mais voltou. Não sei por que.

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Aos poucos, mas fiéis leitores:
Desculpem-me amiguinhs bunis. Assim como essa Brasila o meu CÉLEBRO (Sic) só funciona depois do carnaval. Mas assim como o Ronaldo o Di-vag está de volta!!!

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Cagada Bichô! 3

A viagem de Márcio era uma boa oportunidade para a sua formação profissional, ou então, para aproveitar a ocasião e interagir com garoutas de outros cantos do Brasil. Ele ocupava um cargo importante na organização que representava e foi viajar para um evento em que estariam reunidos representantes de todas as organizações que trabalhavam em conjunto com a sua.
O congresso realmente foi bom, interessante, além de ter a oportunidade de compartilhar a experiência de muitas organizações que trabalhavam no mesmo foco.
Márcio conheceu pessoas legais, interessantes, bonitas e também conheceu Carla. Carla era uma menina simpática com quem passou a maior parte do tempo. Conversaram, se divertiram, ouviam música, foram à praia, tomaram caldo de cana e comeram, muito. Muito.
Pela noite Carla convidou Márcio para ir a uma festa. Ele chegou ao hotel em que estava, tomou um banho rapidão, colocou a sua cueca branca e saiu apressado, afinal, a festa, e Carla, o aguardavam.
Na festa Márcio conversou ainda mais com Carla e tomaram algumas biritas. Idéia vai, idéia vem, birita entra, verdade sai, e os dois começam a interagir de forma mais próxima. De conversa próxima, passaram ao contato direto entre as línguas. O lance rolava na boa, até que Márcio sentiu uma vontade sinistra de ir ao banheiro.
A vontade era de fazer aquele negócio mais demorado, mas ficou envergonhado em demorar muito e Carla perceber o que ele tinha ido fazer no WC. Mesmo sendo a opção slow, ele se esforçou para fazer o famoso barro veloz. O esforço nem foi tanto, a liquidez do seu objeto sólido colaborou para que fosse rápido. Na hora de limpar-se, constatou que não havia papel. Dada a sua pressa, não procurou muito e deixou as coisas como estavam mesmo.
Voltou rápido e nervoso para a companhia da garota, que o aguardava com um largo sorriso. Os beijos e amassos e ... rolavam à vera na festa. Rolaram tanto e tão bem que a história continuou no hotel.
Pela manhã Carla acordou e saiu cedo. Quatro horas depois, Márcio levantou exultante. Juntou a sua roupa e colocou na mala, mas sentiu falta de algo: a sua cueca. Mas, não se preocupou muito com isso, já estava atrasado para o Congresso e não iria perder tempo procurando uma cueca.
Saiu do hotel com um sorriso de orelha a orelha, olhava o mundo como se todos soubessem o quão boa foi a noite anterior. Ao chegar no local do Congresso encontrou Carla, que não demonstrava a mesma alegria. Olhando seriamente nos seus olhos, entregou-lhe uma sacola, dentro de outra sacola, dentro de outra sacola. As sacolas envolviam a sua cueca, branca e suja. Mais suja do que branca.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Cagada bichô! 1

Márcio estava em um daqueles feriados totalmente sem grana, afinal, ele era só mais um jovenzinho de uns 15 anos que trabalhava na VASP - Vagabundos Anônimos Sustentados pelos Pais (não ouvia isso desde que estava no ensino médio, 1° ano presumo, mas esses dias ouvi isso de uma garota que supostamente está no ensino médio, e achei por bem reproduzir).
Mas, seu colega/vizinho/amigo Alexandre o chamou para ir à praia:
- Ô Marcião, vamo pra praia piá?
- Ah meu, to sem grana.
- Mas vamo aê. Você fica lá em casa, meu pai tá lá, tem comida e tudo. Você só gasta o que for tomar por fora.
- Vamo aê intão.
Faceiro, Márcio foi a Matinhos Beach. No dia em que chegaram o ânimo dos amigos era total. Saíram à noite e foram tomas umas biritas.
Na avenida, o calçadão estava cheio de barracas de capeta, e lá os dois rapazotes fizeram a festa, provando todos os capetas possíveis e virando no capeta.
Contando os passos, Márcio e Alexandre foram pra casa e deitaram imediatamente. Márcio levantou e resolveu ir ao banheiro.
Era um banheiro enorme, branco, reluzente, com os azulejos sem nenhuma sujeirinha, no meio da parede havia uma faixa dourada. Ele vai até a patente, a patente mais limpa que viu na vida. Abaixou a calça e sentou-se. Fez força para evacuar, fez força, força, muita força.
- Máááááááááááááááááááááááááááááááááárcio, você tá cagado!
Gritou Anderson, o tio de Alexandre que tinha acabado de chegar de viagem e pegou Márcio tendo um sonho in-SÓLIDO.
Envergonhado, no dia seguinte Márcio acordou às 8h e só voltou às 21h.
Desse dia em diante Márcio é convidado para todas as festas da família de Alexandre, e se há algum membro que ainda não conheça a história Márcio é obrigado a contá-la.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Crianãça

Que criança linda!
Comentou com a colega de trabalho quando foram ao mercado. Ele, um cara de bom coração, que sem muito esforço se rende a uma criança. Afinal quem não se rende? Quem é que consegue segurar um sorriso, mesmo que de canto de boca, ao ver uma criança? Ou então quando vê aquela gargalhada gostosa?
Como é bom olhar as crianças.
Ah crianças!
Aquelas perninhas e braços rechonchudinhos. Aquela cabecinha com pouquíssimos e ralos cabelos. Quem não se encanta ao ver uma criança bocejar. Aquela bocona aberta e a mãozinha que sem coordenação começa pela testa e escorre até a boca, que quando chega lá o bocejo já terminou. Aquele narizinho pequenininho que não cabe nem o dedo minguinho, a não ser os das próprias crianças.
E o olhar então. Aquele olhar doce, com olhinhos de amêndoas, de quem olha e te diz “oi tiu”. A criança que estava no mercado teria o olhar assim. Teria. Se não fosse confundida com uma anã.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Será o Geraldão?

Andando pela Kennedy paro no sinaleiro com a Alferes Poli. Sou o primeiro a parar ao lado esquerdo, mas logo para outro no lado direito. Olho e grito baixo: “é o Geraldão!”. Ah, aquele foi um dos melhores professores que já tive, tanto na questão profissional quanto pessoal. O cara é muito gente boa. Parceirasso.
Não sei por que, mas não falo nada. Olho pra ele e ele pra mim. Fico na dúvida se é mesmo o Geraldão, bate uma insegurança. Não falo nada esperando que ele me aborde. Dúvida.
Enquanto minha namorada me olha resolvo olhar pra ela também. O cara se curva para me olhar. Penso: “Meu, é o cara!”, mas não falo nada.
Ele está com os lábios curvados para dentro da boca, mordendo-os, o que dificulta na identificação.
Está de bigode. O Geraldo às vezes usava bigode, mas geralmente estava de “cara limpa”.
Continuo olhando, ele também. Ninguém fala nada. De repente:
- Não sou eu né?
- Não.
Gargalhamos. Os dois. Abriu o sinal e fomos embora, sorridentes, mesmo que as pessoas de trás já tivessem buzinado.
Não era o Geraldo, mas valeu a risada. Depois disso, minha namorada comenta: “ele não deve ser curitibano né?”, respondo “provavelmente não”. É, o Geraldo também não era.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Dúvida conhecida

- Não conheço você de algum lugar?
Ela sabia que era uma pergunta idiota. É uma daquelas cantadas que entra no ranking das piores cantadas já inventadas. Mas não era uma cantada.
Era só uma pergunta. Uma simples e inocente pergunta.
Ela podia ser mal interpretada, também sabia disso. Mas não era só uma pergunta, nem só uma cantada, era um impulso.
Depois de 15 minutos olhando para ele, que estava ao seu lado no ponto de ônibus, parecia que ele o chamava a perguntar. Pensou incessantemente de onde o conhecia. Momentos pensava que o conhecia da infância. Momentos pensava que o conhecia há pouco. Mas sabia que conhecia. Vida passada talvez.
Cada característica que olhava parecia remeter a alguém que conhecia, alguém que gostava, alguém que talvez amasse.
Aquele olhar ela conhecia. A boca ela conhecia. As mãos ela conhecia. O jeito de balançar a cabeça ouvindo walkman ela conhecia. O cabelo ela conhecia. A cicatriz no canto da testa ela conhecia. Conhecia tudo. Mas não sabia de onde. Sabia que o conhecia em partes, mas não por completo.
Pensou perguntar antes, mas ficou com vergonha. Tinha certeza de que não podia perder a chance de perguntar.
O seu ônibus chegou. Tinha que ser agora.
Ela foi até ele com passos rápidos. A concentração de quem ouvia legião urbana (e ela sabia que era legião, só pela leitura labial), fez com que ele se assustasse e se irritasse quando ela o tocou. Mesmo assim, mostrou-se solicito, com olhar apreensivo e atencioso. O olhar deu a certeza a ela de que o conhecia, e mais segurança quando ela fez a pergunta, que ele honestamente respondeu:
- Não!