Desculpa pai.
Eu não consegui.
Não consegui ser nada do que você sonhou.
Não consegui ser jogador de futebol. Não consegui gostar de esporte. A camisa do seu time eu não pude vestir. Do seu preconceito não consegui me travestir.
Desculpa, mas a culpa não foi minha.
Não consegui descabaçar a vizinha. Eu sei. Eu sei que ela me dava bola. Mas eu não queria bola. Queria boneca.
Desculpa pai, mas me é caro gostar de carro. Só sei entrar e andar. Se parar, não vejo graça me sujar de graxa.
Desculpas pelo jeito que falo. Por sentar de pernas fechadas. Por não mostrar meu falo.
Desculpa por ser emotivo. Por não conseguir esconder meus sentimentos, por chorar sem motivo, mesmo sem estar bêbado. Desculpa por não beber, não gostar de cerveja. Por não tentar provar a minha masculinidade me dirigindo ao chão de um bar. Por não matar ninguém dirigindo.
Desculpa por não gostar de carne pingando sangue. Por não gostar de carne. Por não gostar de sangue. Por não assistir filmes do Van Damme. Por não ter sido de gangue. Por não brigar na rua. Por não gozar em revista de mulher nua.
Desculpa por não saber trocar uma resistência de chuveiro. Por não ter sido engenheiro. Por não ter sido delegado. Por não ter filhos, não continuar seu legado.
Desculpa por assistir novela. Por gostar mais da mamãe. Por ajudar ela a lavar louça. A escolher a roupa. Por não ajudar você a torná-la uma escrava.
Desculpa por ter modos à mesa. Por demonstrar minha tristeza. Por gostar de artes e cultura.
A vida é dura. Você também precisa ser.
Você vai aguentar.
Você é macho.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2015
terça-feira, 24 de setembro de 2013
O Olho Mágico
Pela grande janela que dava para a rua Dona Leocádia viu as três novas moradoras chegando animadas. O tempo não tinha levado sua atenta visão e audição.
Saiam do táxi cheias de malas. Vinham para ficar.
Dona Leocádia conhecera todos os moradores que passaram pelo prédio. Com a chegada tinha três bons motivos para continuar viva. Eram três vidas para futricar e espalhar.
Estava lá desde que os curitibanos começaram a se empilhar uns em cima dos outros. Mudou-se depois de ter casado com seu Roberto, um militar marido, e ali passaram a lua de mel. Foi uma das primeiras a experimentar a sensação de morar no alto e ver de cima o desenvolvimento da capital e a degradação do ser humano.
Com o tempo passou a não se contentar mais em ter esse olhar superior. Preferia olhar para todos os lados possíveis. Quanto mais o tempo passava mais olhava para dentro do prédio e da vida de seus habitantes.
As pessoas de fora já não tinham mais graça nem graciosidade. O centro passou a ser apenas uma passagem. Quando escurece é a parte da cidade que sobra para aqueles que não têm para onde ir e vira um ponto de vendas para os comerciantes da calada.
Em uma noite de observação quase teve um ataque cardíaco ao ver um rapaz sendo assaltado. Chamou a polícia, que chegou meia-hora depois, quando os bens do garoto já tinham virado fumaça.
Na última vez que viu a polícia por ali eram eles que roubavam um menino. E batiam. Aprovou a atitude dos guardas, até mesmo por que naquele lugar, naquela hora, pessoas boas não ficavam.
Alguns dias depois ouviu no rádio que o corpo de um menino fora encontrado em um matagal na região metropolitana. A reportagem disse que o adolescente fora pego pelos policiais ali na sua rua, na frente do seu prédio. O locutor disse que o jovem estava fumando maconha. Aprovou ainda mais a atitude dos homens da lei. Maconheiro tem que morrer mesmo.
Agora olhava pela janela só por que sabia que as meninas chegariam. Teve a honra de recepcioná-las. O proprietário do apartamento deixou a chave com ela. Ele não ia muito lá. Depois de cinco anos como morador decidiu alugar o imóvel. Não aguentou viver no centro. Muito barulho, muito grito, muito tiro.
Assim como a população da classe alta e a prefeitura, ele abandonou o centro. O vizinho foi se avizinhar lá pros arredores da cidade. Foi morar em um condomínio seguro e luxuoso, que embora tivesse uma favela ao lado, não o atrapalhava. Um alto muro garantia que sua visão se direcionasse apenas para o condomínio.
A alegria das meninas era visível lá de cima, mas fecharam a cara quando Dona Leocádia as cumprimentou. Mesmo na sua presença conversavam somente entre si.
Chegando ao apartamento não a convidaram para entrar e fecharam a porta. Ela ainda ouviu quando trancaram-se.
Aquilo era um ultraje. Como alguém chega ao seu prédio, nos seus domínios, sem que se apresentasse a ela? Sem lhe pedir nenhuma ajuda. Nenhuma informação.
Por trás da porta Dona Leocádia ouvia risadas frequentemente. Quando percebia que iriam sair logo saia também, para promover um ocasional encontro, mas nunca conseguiu uma conversa.
Um rápido “Oi, tudo bem?” era o máximo. E saiam apressadas. Nem a ajudavam a descer as escadas. Ainda bem, pois não iria sair mesmo. Quando percebia que já tinham saído do prédio voltava para o seu apartamento.
Sem as meninas em casa não tinha muita ocupação. Lá dentro sentia o vazio.
Com o passar de um mês ainda não descobrira nada sobre as meninas e decidiu que somente escutar já não bastava. Precisava ver. Mandou colocar um olho mágico.
Aquele desconhecimento a agoniava profundamente. Não sabia nem mesmo o nome delas. O prédio não tinha nem porteiro para poder se informar. Decidiu então buscar com os outros moradores.
Dispensou um dia de observação para fazer visitas. Andou pelo prédio inteiro conversando de maneira amena, despretensiosa. Subiu e desceu escadas, bateu em todas as portas e a única coisa que descobriu era que as garotas diziam ser universitárias.
Elas não saíam muito, mas pareciam ter muitos amigos. Recebiam muita gente, mas nem iam até a porta recepcionar. As visitas eram geralmente masculinas e ficavam lá por uma hora, de acordo com o cronômetro de Dona Leocádia.
Não saber nada era uma tortura e aquelas risadas eram atos de requinte. Não entendia como ficavam o dia inteiro em casa, embora ela fizesse o mesmo.
Saíam somente nos finais de semana. Um carro preto as esperava na noite de sexta-feira e as devolvia para Dona Leocádia na segunda-feira pela manhã.
Com o passar dos meses ela foi ficando doente. Suas costas doíam cada vez mais por ficar tanto tempo em pé tentando ver e ouvir algo. Em algumas ocasiões esquecia-se de tomar os remédios e se segurava ao máximo para comer e ir ao banheiro. Às vezes fazia ali mesmo para não deixar de espiar.
Em uma noite de quarta-feira um homem foi visitá-las. Entrou sozinho e saiu dali 15 minutos.
Na manhã seguinte, quando a polícia e a reportagem perguntaram, Dona Leocádia disse que estava dormindo.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Vício
Sempre solto, vagando sem compromisso. Livre. “Um alcoólatra largado” diziam.
Um cachorro o acompanhava às vezes, mas quando a fome apertava o companheiro fazia suas expedições. Sua fidelidade não resistia à fome.
Como em um musical cantava pela rua sem motivo aparente. Vivia sorrindo e chorando. E falava, como falava. Principalmente sozinho. Por mais que alguns tentassem, ninguém conseguia ouvi-lo por muito tempo.
Vivia em extrema emoção, mas como a maioria das pessoas, quando estava sóbrio era frio, seco e tinha dificuldade em expor seus sentimentos. O consumo frequente do álcool fazia com que sua frieza fosse diluída.
A única coisa que tinha consigo era uma mochila na qual levava sua cachaça (gasolina, às vezes) e mais sabe-se lá o quê. Não carregava mais os seus sentimentos, os pulverizava.
Os escravos de bens materiais e carcereiros de sentimentos o julgavam e o chamavam de louco, doente, alcoólatra.
Tinha um vício sim, mas não era do álcool. Era um viciado em sentimentos.
Um cachorro o acompanhava às vezes, mas quando a fome apertava o companheiro fazia suas expedições. Sua fidelidade não resistia à fome.
Como em um musical cantava pela rua sem motivo aparente. Vivia sorrindo e chorando. E falava, como falava. Principalmente sozinho. Por mais que alguns tentassem, ninguém conseguia ouvi-lo por muito tempo.
Vivia em extrema emoção, mas como a maioria das pessoas, quando estava sóbrio era frio, seco e tinha dificuldade em expor seus sentimentos. O consumo frequente do álcool fazia com que sua frieza fosse diluída.
A única coisa que tinha consigo era uma mochila na qual levava sua cachaça (gasolina, às vezes) e mais sabe-se lá o quê. Não carregava mais os seus sentimentos, os pulverizava.
Os escravos de bens materiais e carcereiros de sentimentos o julgavam e o chamavam de louco, doente, alcoólatra.
Tinha um vício sim, mas não era do álcool. Era um viciado em sentimentos.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Sonho impossível (?)
Tive um sonho. Um sonho bom. Estávamos saindo de casa para ir a uma festa. Namorávamos e tínhamos uma rotina normal. Tão simples. Parecia verdade.
Um sonho tão possível, tão palpável, exceto pelo fato de não poder-mos namorar. Afinal, não posso largar meu namorado por aquela loucura que nós duas cometemos.
Mas ainda assim, queria que continuasse. Queria que estivéssemos no meu sonho, que se realizasse. Como não dá, queria ao menos que o sonho continuasse. E também não deu. Acordei sorrindo.
Um sonho tão possível, tão palpável, exceto pelo fato de não poder-mos namorar. Afinal, não posso largar meu namorado por aquela loucura que nós duas cometemos.
Mas ainda assim, queria que continuasse. Queria que estivéssemos no meu sonho, que se realizasse. Como não dá, queria ao menos que o sonho continuasse. E também não deu. Acordei sorrindo.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Zumbis
Não sei como, mas aconteceu. Não sei como foi a contaminação, mas todos agora parecem viver em vão. Todos na cidade viraram zumbis. As ruas estão lotadas durante o dia. Os zumbis vagam com o olhar vago. Tem medo de olhar uns aos outros com medo de acabar morrendo.
Alguns andam vagarosamente, mas a maioria anda rápido, com medo da própria raça. Os olhares se direcionam apenas ao chão. Por não se olharem eventualmente se esbarram, mas jamais direcionam o olhar para quem esbarrou. Falar é praticamente contra a lei.
Reúnem-se em cavernas, mais conhecidas como casas, onde se alimentam e acasalam. Há relatos de que alguns se tornam humanos ao entrarem na tal casa, mas são raros casos. Grande parte se liga a um equipamento chamado TV por meio do qual absorvem diariamente a ordem vigente.
Na noite o medo dos semelhantes se expande. São poucos que não se acolhem na caverna neste período. Os que estão pelas ruas são mais frágeis ou mais fortes. A caça é constante, mas enquanto alguns a fazem de dia outros a fazem somente à noite, período em que acontece a caça em sua forma mais perversa. Os caçadores precisam se alimentar, mas não de sangue como os zumbis comuns, mas sim de um estranho objeto chamado dinheiro.
Guylherme Custódio, 22/06/10 direto da zumbilândia ou simplesmente Curitiba.
Alguns andam vagarosamente, mas a maioria anda rápido, com medo da própria raça. Os olhares se direcionam apenas ao chão. Por não se olharem eventualmente se esbarram, mas jamais direcionam o olhar para quem esbarrou. Falar é praticamente contra a lei.
Reúnem-se em cavernas, mais conhecidas como casas, onde se alimentam e acasalam. Há relatos de que alguns se tornam humanos ao entrarem na tal casa, mas são raros casos. Grande parte se liga a um equipamento chamado TV por meio do qual absorvem diariamente a ordem vigente.
Na noite o medo dos semelhantes se expande. São poucos que não se acolhem na caverna neste período. Os que estão pelas ruas são mais frágeis ou mais fortes. A caça é constante, mas enquanto alguns a fazem de dia outros a fazem somente à noite, período em que acontece a caça em sua forma mais perversa. Os caçadores precisam se alimentar, mas não de sangue como os zumbis comuns, mas sim de um estranho objeto chamado dinheiro.
Guylherme Custódio, 22/06/10 direto da zumbilândia ou simplesmente Curitiba.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Angústia
Quando Eulália passou pela Avenida Batel no sábado a noite, o fardo que carregava ficou ainda mais pesado. Já não agüentava mais carregar aquela terrível angústia.
Eulália era um daqueles tipos de mulher dona de casa, a mulher família. A sua vida era inteiramente dedicada ao bem estar de sua família: o seu marido Eusébrio e seus quatro gêmeos, Edna, Edvaldo, Edevair, e Edílson.
Mãe de fibra. Fazia tudo pelas suas crias, até mesmo xingar a mãe do colega de escola que tirava sarro do nome de um dos seus filhos, mesmo que a mãe do coleguinha fosse a sua vizinha com quem mais conversava (leia-se fofocava).
Eulália fazia todas as vontades de um dos seus pequeninos Ezinhos, como chamava os picorruchos.
Aos sábados Eulália ia à igreja acompanhar a aula de violão dos seus filhos. Orgulhava-se de ser a mãe do primeiro quarteto caipira do Brasil.
Aos domingos voltava à igreja na primeira missa do dia. Às 7 horas acordava e colocava o seu melhor vestido. Maquiagem nunca usava, mas se arrumava ao máximo para assistir o sermão do Padre Oderval.
Ao voltar da missa, preparava o famoso frango assado da dona Eulália, que a filha Edna reclamava quando grudada um pedaço de papel alumínio, pois sentia arrepio ao morder.
A alegria de Eulália era ver os filhos bem vestidos, bem penteados, cherosinhos e sorrindo. Eram a sua razão de viver.
Mas apesar da sua felicidade, ela estava triste ultimamente. Já não sorria mais ao assistir zorra total. Não fofocava mais com Robéria, sua vizinha surda.
Eram várias as razão para a sua chateação. O marido Eusébrio chegava alcolizado em casa, já não assistia mais a novela das 8 junto a ela, não fazia mais massagem em seus pés, não a levava mais ao motel “My truck” e não a chamava mais pra comer buchada de bode no bar do Euller.
Os filhos pareciam gostar mais do pai, e só queriam saber de ir ao jogo de futebol do combate barrerinha. Mesmo arrumando os seus bacuris para ir ao jogo, eles voltavam todos descabelados, com os sapatos enlameados e com a camisa toda suja de molho de cachorro quente. Trocaram a chateação de futebol e música pelo antes divertido bingo.
Depois desse período Eulália se abraçou ainda mais a Jesus. Mas parecia que nem deus a dava atenção: ficava sempre de braços abertos, mas nunca a abraçava.
Nem mesmo Joana Conselheira, a tão disposta mocinha do rádio a ajudou. Não respondeu nenhuma das suas 371 cartas. Tentava afogar as suas mágoas com tubaina e paçoca, mas nem isso amenizava a sua dor.
A dor cresceu ao ver jovens felizes na Avenida Batel, todos aqueles rapazes e moças com a boca cheia de dentes, ricos e drogados. Sentiu que aqueles poderiam ser um dos seus filhos, que estava indo buscar na Cia da Vila – Rústico e Acústico. Pensou que os seus filhos estariam se divertindo sem ela, enquanto assistia novela. Não agüentou. Tirou os seus seios de 30 centímetros, já abalados pela lei da gravidade, e os colocou para fora gritando: “AAAAAAAAH EU QUERO IR NO MERCADO!”.
Eulália era um daqueles tipos de mulher dona de casa, a mulher família. A sua vida era inteiramente dedicada ao bem estar de sua família: o seu marido Eusébrio e seus quatro gêmeos, Edna, Edvaldo, Edevair, e Edílson.
Mãe de fibra. Fazia tudo pelas suas crias, até mesmo xingar a mãe do colega de escola que tirava sarro do nome de um dos seus filhos, mesmo que a mãe do coleguinha fosse a sua vizinha com quem mais conversava (leia-se fofocava).
Eulália fazia todas as vontades de um dos seus pequeninos Ezinhos, como chamava os picorruchos.
Aos sábados Eulália ia à igreja acompanhar a aula de violão dos seus filhos. Orgulhava-se de ser a mãe do primeiro quarteto caipira do Brasil.
Aos domingos voltava à igreja na primeira missa do dia. Às 7 horas acordava e colocava o seu melhor vestido. Maquiagem nunca usava, mas se arrumava ao máximo para assistir o sermão do Padre Oderval.
Ao voltar da missa, preparava o famoso frango assado da dona Eulália, que a filha Edna reclamava quando grudada um pedaço de papel alumínio, pois sentia arrepio ao morder.
A alegria de Eulália era ver os filhos bem vestidos, bem penteados, cherosinhos e sorrindo. Eram a sua razão de viver.
Mas apesar da sua felicidade, ela estava triste ultimamente. Já não sorria mais ao assistir zorra total. Não fofocava mais com Robéria, sua vizinha surda.
Eram várias as razão para a sua chateação. O marido Eusébrio chegava alcolizado em casa, já não assistia mais a novela das 8 junto a ela, não fazia mais massagem em seus pés, não a levava mais ao motel “My truck” e não a chamava mais pra comer buchada de bode no bar do Euller.
Os filhos pareciam gostar mais do pai, e só queriam saber de ir ao jogo de futebol do combate barrerinha. Mesmo arrumando os seus bacuris para ir ao jogo, eles voltavam todos descabelados, com os sapatos enlameados e com a camisa toda suja de molho de cachorro quente. Trocaram a chateação de futebol e música pelo antes divertido bingo.
Depois desse período Eulália se abraçou ainda mais a Jesus. Mas parecia que nem deus a dava atenção: ficava sempre de braços abertos, mas nunca a abraçava.
Nem mesmo Joana Conselheira, a tão disposta mocinha do rádio a ajudou. Não respondeu nenhuma das suas 371 cartas. Tentava afogar as suas mágoas com tubaina e paçoca, mas nem isso amenizava a sua dor.
A dor cresceu ao ver jovens felizes na Avenida Batel, todos aqueles rapazes e moças com a boca cheia de dentes, ricos e drogados. Sentiu que aqueles poderiam ser um dos seus filhos, que estava indo buscar na Cia da Vila – Rústico e Acústico. Pensou que os seus filhos estariam se divertindo sem ela, enquanto assistia novela. Não agüentou. Tirou os seus seios de 30 centímetros, já abalados pela lei da gravidade, e os colocou para fora gritando: “AAAAAAAAH EU QUERO IR NO MERCADO!”.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Mistura repentina
Seu Alfredo morava em um bairro próximo ao centro da cidade havia 86 anos. Nasceu naquele lugar em uma época em que a cidade ainda era pouco agitada. Na época em que eram raros os carros passarem pela Desembargador Westphalen.
Ele negava-se a se misturar com toda esta “evolução”. Asfalto, carros, gasolina, gente eram coisas que não o atraiam. De forma alguma colocava o nariz para fora de casa e se misturar a toda essa fezes humana. Ficava somente olhando pela janela. Via dia-a-dia o mundo crescer e se auto-destruir. Observava tudo através da janela. Em sua casa ainda sobrevivia agonizante um mundo antigo, o mundo que escolheu para viver quando casou-se com dona Zuleica, que moraria com ele até os seus últimos dias.
Atrás de sua janela era imune a toda modernidade. A sua casa, um local escuro e aconchegante, o mundo não conseguiu mudar. Os sofás eram todos manchados, mas a capa bege por cima escondia suas marcas, os lustres eram grandes e robustos, e o telefone, que raramente tocava, ainda era de disco. O único contato que o mundo tinha com Alfredo era por meio do jornal, que como seu pai, Alfredo comprava todos os dias. Não lia, só dava uma olhada. Não lia nada, mal conseguia enxergar. A única obra que ocupava a sua estante era a coleção da Barça, que o seu gato, que um dia fora branco, passava por cima quando a televisão era ligada.
Desde o café da manhã até o chá da tarde Alfredo ficava na janela. Depois disso, tomava banho, rezava e ia dormir, enquanto dona Zuleica assistia a novela das 8.
Ao lado da casa de seu Alfredo havia uma Ong, cheia de jovens querendo mudar o mundo. Frequentemente alguns dos jovens tentavam cumprimentar Alfredo, mas ele continuava olhando fixo para o ponto onde estava olhando: o horizonte. Jamais deixaria que um daqueles jovens drogados interagisse com ele. Uma das jovens que trabalhava na ong era neta de um amigo seu. Mesmo assim não havia proximidade alguma, mesmo sendo Samantha neta do seu grande amigo Vieira. Seu Alberto e seu Vieira aterrorizavam a região antigamente. Quebravam tudo e mexiam com todos que estivessem pelo caminho quando voltavam do bar do Paulo, que ficava no largo da Ordem. Ao chegarem, cada um entrava em sua casa, a do seu Alfredo no meio da quadra, e a de seu Vieira na esquina com a Engenheiro Rebouças, onde hoje é uma balada que toca música dos anos 80. Após cinco minutos deitados, o mundo rodava. E os dois, simultaneamente, saíam para a janela vomitar todo o produto consumido no bar do Paulo.
Em uma quinta-feira pela manhã um dos jovens da ONG resolveu fazer uma brincadeira com seu Alfredo. Saiu pela porta junto à parede, praticamente se esfregando. Quando chegou abaixo da janela, colocou a perna em um pequeno buraco na parede e subiu, e gritou: “Ráááááááááááá”.
Seu Alfredo não agüentou. Enfarte no miocárdio. Não morreu devido ao susto, mas pela proximidade repentina que o mundo moderno chegou até ele.
Ele negava-se a se misturar com toda esta “evolução”. Asfalto, carros, gasolina, gente eram coisas que não o atraiam. De forma alguma colocava o nariz para fora de casa e se misturar a toda essa fezes humana. Ficava somente olhando pela janela. Via dia-a-dia o mundo crescer e se auto-destruir. Observava tudo através da janela. Em sua casa ainda sobrevivia agonizante um mundo antigo, o mundo que escolheu para viver quando casou-se com dona Zuleica, que moraria com ele até os seus últimos dias.
Atrás de sua janela era imune a toda modernidade. A sua casa, um local escuro e aconchegante, o mundo não conseguiu mudar. Os sofás eram todos manchados, mas a capa bege por cima escondia suas marcas, os lustres eram grandes e robustos, e o telefone, que raramente tocava, ainda era de disco. O único contato que o mundo tinha com Alfredo era por meio do jornal, que como seu pai, Alfredo comprava todos os dias. Não lia, só dava uma olhada. Não lia nada, mal conseguia enxergar. A única obra que ocupava a sua estante era a coleção da Barça, que o seu gato, que um dia fora branco, passava por cima quando a televisão era ligada.
Desde o café da manhã até o chá da tarde Alfredo ficava na janela. Depois disso, tomava banho, rezava e ia dormir, enquanto dona Zuleica assistia a novela das 8.
Ao lado da casa de seu Alfredo havia uma Ong, cheia de jovens querendo mudar o mundo. Frequentemente alguns dos jovens tentavam cumprimentar Alfredo, mas ele continuava olhando fixo para o ponto onde estava olhando: o horizonte. Jamais deixaria que um daqueles jovens drogados interagisse com ele. Uma das jovens que trabalhava na ong era neta de um amigo seu. Mesmo assim não havia proximidade alguma, mesmo sendo Samantha neta do seu grande amigo Vieira. Seu Alberto e seu Vieira aterrorizavam a região antigamente. Quebravam tudo e mexiam com todos que estivessem pelo caminho quando voltavam do bar do Paulo, que ficava no largo da Ordem. Ao chegarem, cada um entrava em sua casa, a do seu Alfredo no meio da quadra, e a de seu Vieira na esquina com a Engenheiro Rebouças, onde hoje é uma balada que toca música dos anos 80. Após cinco minutos deitados, o mundo rodava. E os dois, simultaneamente, saíam para a janela vomitar todo o produto consumido no bar do Paulo.
Em uma quinta-feira pela manhã um dos jovens da ONG resolveu fazer uma brincadeira com seu Alfredo. Saiu pela porta junto à parede, praticamente se esfregando. Quando chegou abaixo da janela, colocou a perna em um pequeno buraco na parede e subiu, e gritou: “Ráááááááááááá”.
Seu Alfredo não agüentou. Enfarte no miocárdio. Não morreu devido ao susto, mas pela proximidade repentina que o mundo moderno chegou até ele.
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